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Canção inédita “Por Quem”
30/06/2008 5:59 pm

Caetano canta a nova canção “Por Quem”

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Recados de Caetano, agora em Luxemburgo
29/06/2008 12:05 pm

Caetano manda outros comentarios e uma foto do meio de sua turnê solo na Europa:

“Postei conversa fiada sobre Moscou e, como não mandei foto da catedral de São Basílio, o comentário sobre esta apareceu perto da foto de uma das catedrais de dentro do Kremlin, com elegantes cúpulas douradas. Esta aqui é que é a foto da São Basílio, com suas cúpulas transbrega:

Há uma blasfêmia aí: “brega” originalmente quer dizer “puteiro” e, se a palavra ainda tivesse essa conotação, seria escândalo usá-la para caracterizar uma catedral ortodoxa. Aliás, que choque a palavra “ortodoxa” ser usada para descrever uma peça de arquitetura como essa. Mas transbrega pode ser bom mote para um transamba.

Para Sandroni:

Só quero te lembrar que minha fala no show é entretenimento, comédia (um jovem espectador disse a um jornalista que Obra em Progresso era legal porque, além de cantar, eu fazia “stand up comedy”). Como um comediante, além de divertir posso querer provocar discussão em outros níveis, mas ali é um número, espetáculo. Não se pode perder isso de vista. Foi preciso fazer isso para chegar a dizer que eu estava sendo “miolo duro”, quer dizer, expressão séria intelectual apresentada como tal. Mas valeu a pena. A parte final do seu argumento vai fundo no assunto. Me fez também pensar mais sobre a canção de Noel.”

PS DE CAETANO, 18/07/2008:

“Voar da Russia ao Luxemburgo é sair de um dos maiores para um dos menores países do mundo. É também sair das ruínas monumentais do comunismo - com avenidas de oito pistas engarrafadas, prédios que se parecem com o antigo Ministério da Guerra no Rio, onde Gil e eu ficamos inicialmente presos durante o período militar, e onde hoje fica o Comando Militar do Leste, tão próximo ao Morro da Providência, de onde onze soldados levaram três rapazes e os entregaram à tortura e ao assassinato no Morro da Mineira, sendo que os prédios de Moscou não me contam nenhuma história clara, metrô superlotado, olhos de um azul estranhamente intenso - para a urbanidade equilibrada e minuciosamente higienizada, quase esterilizada, das bolhas de perfeição do ocidente moderno - com moças de cabelo curto louro e olhos azul-cinza claro, quase sem cor, andando de bicicleta pelo asfalto impecável, prédios em proporção com o tamanho das elevações, carros caros e sóbrios, estátuas pequenas e com certa estilização modernista (a da grã-duquesa Charlotte fica entre personagem de conto-de-fada, mendiga e modelo; o monumento aos comediantes na Praça do Teatro parece cena européia vista por desenhista de Walt Disney), enfim, para um mundo que é como que o núcleo do que é real hoje mas que transpira irrealidade. Moscou, em comparação, é, ao menos aos olhos de um brasileiro, muito mais real. Luxemburgo, um grão-ducado parlamentarista, tem muitos bancos. Mais sigilosos, me diz o motorista português, do que os suíços. Paraíso? Bem, o vale que corta a cidade é deslumbrantemente profundo e é misterioso sem ser ameaçador. Luxemburgo é tudo o que desejamos em matéria de civilidade, é o que amamos no legado de Jaime Lerner em Curitiba, é o céu dos pedestres. Muitos portugueses e um bom número de brasileiros (os portugueses são 16% da população do país). O show foi num teatro esplêndido - feito pelo mesmo arquiteto que está fazendo a Cidade da Música no Rio (coisa de que os luxemburguenses me falaram com muito orgulho) - com uma acústica perfeita. Os protugueses e brasileiros na platéia cantaram “Terra”, “Desde que o samba é samba” e “O Leãozinho”, o que ajudou os luxemburguenses (sempre quero escrever “luxemburgueses”, mesclando uma ponta de crítica ao relativo tédio local e de elogio da classe vitoriosa na Revolução Francesa), mas o silêncio profundo e o som bonito é que fizeram do show em Luxemburgo um dos mais bonitos que já fiz. A sala me induzia à concentração. Até o violão saiu bem tocado. Quer dizer, dentro das minhas imensas limitações consegui só fazer interveções adequadas, sentidas, sinceras - e todo ornamentozinho que me ocorria era equilibrado e mesmo bonito. Fiquei emocionado. Escrevi para um amigo dizendo que tinha sentido alívio por sair de Moscou e alegria ao chegar ao Luxemburgo, à sociedade ocidental moderna, liberal, mas que no segundo dia já sentia saudades de Moscou, já que o ar de fim-de-linha de Luxemburgo me exasperava. Mas o teatro (meu show!) e o vale ficaram fora de toda crítica, de todo esboço de crítica.

Um garoto que vi todas as noites na platéia do Obra em Progresso me contou que Arenas, o escritor cubano, disse serem o comunismo e o capitalismo equivalentes, uma vez que ambos nos dão com o pé na bunda, mas que no comunismo você leva o pé na bunda e é obrigado a aplaudir, no capitalismo você pode gritar - e Arenas, que tinha “fugido” de Cuba para os Estados Unidos, concluiu: “eu vim aqui para gritar”. Não lembro de ter ouvido isso no filme de Julian Schnabel adaptado do livro dele. Mas a história é boa. O Brasil não tem um capitalismo plenamente desenvolvido. Isso é insatisfatório. Mas, já que também não se pode mais dizer que não temos uma economia capitalista consistente, vemos uma oportunidade de experimentar algo novo com a combinação capitalismo/democracia/liberalismo. Algo novo incluiria algum socialismo? Talvez algo além disso.”

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Caetano responde a Carlos Sandroni: ainda o Feitiço
28/06/2008 2:55 pm

Caetano mandou esta resposta de Moscou:

“Adorei ver que o Sandroni pensou mais sobre o assunto. Foi para isso que levantei a questão em Santo Amaro. Claro que “Feitiço” não se propõe como superação de “Feitiço da Vila” assim como “Dom de iludir” não pode ser tomada como superação de “Pra que mentir”. Em nenhum nível. De cara, “Feitiço da Vila” não deixa de ser uma obra-prima por conter trecho ostensivamente contra a cultura afro-brasileira. Nunca imaginei Noel Rosa como sendo racista. E nem resquícios vejo nele de homofobia. Quando caracterizei Wilson como preto, macumbeiro e veado, fiz caricatura dos preconceitos da classe média - e tinha na cabeça as histórias sobre Ismael Silva e o samba gay de Noel (que planejo cantar na seqüência do “Obra em Progresso”), de que tomei conhecimento no livro de Didier e Máximo. O livro deles é muito bom e rico mas às vezes me parece um pouco idealizador da figura de Noel. O livro e o estilo de Sandroni me convencem sempre mais.

É um prazer ler esse texto que ele nos mandou agora. Mas o erro dele foi tomar essa grande cena de sub-intelectual de miolo mole que fiz numa das noites do projeto “Obra em Progresso” como sendo expressão de miolo duro. Como ele mesmo notou, nem sequer apurei o status dos versos que ali apareceram como sendo os finais. Sei que não estão na gravação de Aracy dos anos 50. Suponho tê-los ouvido num disco tardio de Sílvio Caldas. Lembrava do cadeado e do ladrão mas nada do chorar pra mamar em ritmo de samba. Esses dois versos que precedem o do cadeado me foram apresentados por Jorge Mautner e eu os somei aos dois “últimos” para ter uma estrofe inteira e dar graça ao comentário que, sem ter planejado previamente, decidi incluir a respeito da parte problemática da letra.

O feitiço sem farofa, sem vela e sem vintém, que nos faz bem é que é a parte dura, com a indicação de que o outro, que seguramente nos faz mal, não é decente. Não há nada de comparável a isso na “Lenda do Abaeté” de Caymmi. Nesta, o medo do sobrenatural é apresentado como prova de que a lagoa é sagrada. Diz-se que um pai até castiga o filho se ele se aproximar dela porque se tem orgulho da carga sacra que ela contém. É, como tudo em Caymmi, algo próximo da mera propaganda turísitca da Cidade do Salvador.

Nunca li o livro de Yvonne Maggie. Apenas assinei com ela o documento contra a instituição de cotas raciais que enviamos ao Supremo Tribunal. Mas sei que “feitiço” não é uma palavra em geral tomada como positiva. Por causa de ter assinado com Yvonne aquela carta, recebi cartas magoadas - às vezes iradas. No mesmo show em que comentei “Feitiço da Vila” respondi, com carinho, a uma delas. Abri o show cantando o mantra do “mulato nato” de “Sugar Cane Fields Forever”, do Araçá Azul, e argumentei docemente contra a recusa do termo “mulato” por parte do cineasta Joel Zito, que foi um dos que me escrveram. O comentário ao samba de Noel veio, em parte, como complemento dessa discussão. Era, num show, fazer um largo número sugestivo em que justapunha Noel e Joel.

E a exposição dessa imensa pulga que está atrás da minha orelha desde pelo menos 1965 (quando escrevi artigo contra o livro de Tinhorão, que era adorado por parte da esquerda da época) foi, como a própria assinatura do manifesto contra as cotas, um modo de complexificar a discussão. E sua parte mais agressiva não vai contra Noel mas contra a tradição crítica iniciada por Tinhorão e que, se foi às vezes hostilizada e mesmo ridicularizada, nunca foi suficientemente enfrentada em alguns dos pontos mais graves - e a avaliação de Noel como classe-média com a autorização para fazer samba que é negada a Carlos Lyra é um desses.

O problema não é se Noel era racista mas se Tom Jobim é um usurpador. Pois Noel, autor desse verdadeiro manifesto da entrada da classe média no samba (o bacharel, o feitiço decente, que nos faz bem) é sempre apresentado como “o amigo de Cartola”. Sem dúvida “Palpite infeliz” (samba talvez ainda mais belo do que “Feitiço da Vila”) traz a palavra final: “Estácio, Salgueiro e Mangueira… sempre souberam muito bem que a Vila não quer abafar ninguém, só quer mostrar que faz samba também”. Mas os versos que contêm tal argumentação são prova de que não passou em tão brancas nuvens a agressão contida em “Feitiço da Vila”. Sobretudo na cabeça do próprio Noel.

Zabé come Zumbi, Zumbi come Zabé. Essa é minha fórmula definitiva. Amo a Princesa Isabel. Joaquim Nabuco conta, em “Minha Formação”, que André Rebouças lhe escreveu dizendo: “a República foi proclamada CONTRA o 13 de Maio”. Conheço a informação de que Isabel planejava indenizar os ex-escravos. Ressaltei que Noel frisou a origem do nome do bairro porque ouço ecos da frase: “a culpa é da Princesa Isabel”, um refrão racista à brasileira, isto é, bem relaxado e com toque de humor, usado com freqüência na minha infância quando alguém queria se queixar de algum prejuízo que lhe tinha sido causado por alguém que fosse negro. A Princesa Isabel, no meu ambiente de festejos anuais do 13 de Maio, foi sempre, no meu coração, a figura mais amável da história brasileira.”

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Carlos Sandroni responde a Caetano sobre o Feitiço de Noel
28/06/2008 2:54 pm

Vídeo infeliz

Carlos Sandroni - Junho de 2008.

Minha admiração por Caetano Veloso é enorme. Ela começou quando eu tinha uns nove anos de idade e acompanhava na televisão o programa “Esta noite se improvisa”, comandado por Blota Júnior, do qual ele era participante habitual. Continuou depois, quando fui assistir, com treze ou quatorze anos, o show “Transa”, que marcou a sua volta do exílio. E de lá pra cá só fez aumentar ao longo dos anos, LPs, filme, CDs e livros. Por causa disso, preferiria estar sempre de acordo com Caetano - na verdade, isso é freqüente. Ou quem sabe, ficar, em relação ao que diz, naquele estado meio bestificado (ou talvez hiperinteligente) de quem canta uma boa canção, quando carece totalmente de sentido saber se há ou não “acordo” com o conteúdo da letra.

Apesar disso, precisei me manifestar em desacordo com Caetano Veloso em setembro de 2007, por ocasião do Seminário sobre samba de roda organizado pelo MinC e pelo Iphan em Santo Amaro, no Teatro Dona Canô. O tema era a canção “Feitiço da Vila” de Noel Rosa, já então por ele acusada de racismo, e em especial sua parte central, que canta:

“A Vila tem
Um feitiço sem farofa,
Sem vela e sem vintém
Que nos faz bem
Tendo nome de princesa,
Transformou o samba
Num feitiço decente, que prende a gente”

Acontece que esta canção foi analisada por mim no livro Feitiço decente - transformações do samba carioca, 1917-33 (Rio de Janeiro: UFRJ/Jorge Zahar, 2001, p.169-85); ocasião em que não só não achei nela o menor traço de racismo, como ao contrário, pretendi considerá-la um marco no processo de aceitação, pela sociedade envolvente, das manifestações musicais dos negros e mestiços pobres do Rio de Janeiro - em outras palavras, à sua maneira uma canção anti-racista! Daí a escolha do título do meu livro: “um feitiço decente, que prende a gente”, é a própria definição do samba proposta por Noel Rosa na sua letra.

Em 2007 eu já conhecia a canção “Feitiço”, incluída por Caetano em seu CD Eu não peço desculpa (com Jorge Mautner):

“Nosso samba
Tem feitiço,
Tem farofa,
Tem vela e tem vintém,
E tem também
Guitarra de rock’n'roll, batuque de candomblé
Zabé come Zumbi
Zumbi come Zabé
(…)
Tem funk, o feitiço indecente
Que solta a gente
Aquele abraço…”

É uma excelente canção e uma “resposta” a Noel Rosa, no nível em que “Dom de iludir” é uma resposta a “Pra que mentir”, e em que, falando de maneira mais geral, a geração musical de Caetano, e ele muito em especial, tem estado num diálogo permanente com toda a canção brasileira que a precedeu. Tal diálogo é amiúde “crítico”, e é em parte graças a ele que a música brasileira é cada vez mais tradicional e cada vez mais renovada. Neste contexto, a referência a “Aquele abraço” vem muito a propósito, pois a canção de Gilberto Gil foi vista por alguns como uma reconciliação pós-tropicalista com a MPB mais tradicional, tendo talvez por isso recebido, em 1969, o prêmio Golfinho de Ouro, outorgado pelo Conselho de Música Popular Brasileira do Museu da Imagem e do Som. Este Conselho, composto pela nata da época dos pesquisadores de MPB (sem contar Augusto de Campos, é claro), incluía alguns bastante avessos ao tropicalismo, e todo este contexto levou Gil a recusar o prêmio. Ele fez isso através de um artigo enviado de Londres ao Pasquim, a que deu o título: “Recuso+Aceito=Receito” . Estávamos em 1969, e hoje Gil é Ministro da Cultura; mas a relação de Caetano com “Feitiço da Vila”, tal como vem sendo exposta em intervenções públicas, parece retomar aquele velho desentendimento (na minha opinião, ultrapassado), para repaginá-lo como “Aceito+Recuso=Acuso”.

Em todo caso, o hábito de “responder” às canções, de tomar canções ou peças musicais anteriores como pretexto para a criação de novas, vem, no Brasil, pelo menos desde o século XIX (como mostrei também no livro citado), mas tem um resultado cumulativo e não dialético. Ou seja, “Feitiço” ou “Dom de iludir” serão canções bem sucedidas, não na medida em que pretendam substituir ou superar “Feitiço da Vila” ou “Pra que mentir”, mas na medida em que consigam reunir-se a elas - afinal, esta reunião só faz acrescentar ao proveito que tiramos delas todas. Assim também a canção “Saudosismo”, de Caetano, não se pode compreender plenamente sem “Chega de saudade” e mais outras tantas canções de bossa-nova que ela cita e critica; e eu próprio compus uma canção, “Desanimado” (gravada por Clara Sandroni em seu CD de 2007), que é à sua maneira um comentário a “Desafinado” e a “Saudosismo”.

Outra coisa, no entanto, é desenvolver uma argumentação em prosa de seminário, interpretando uma canção não como um cantor interpreta, mas como um intelectual interpreta; e sobretudo quando se é um intelectual de miolo mole, coisa muito melhor que ser de miolo duro (caso mais comum). Era isso que Caetano Veloso estava fazendo naquele sábado à tarde em Santo Amaro, e eu estava ali na platéia, discordando dele. Precisei, morto de vergonha, pedir a palavra e dizer que discordava. Quisera naquele momento que se abrisse a terra de massapê do Recôncavo, e me engolisse, mas enquanto tal graça não me era dada, lá estava eu, e discordava. Não tive outro remédio senão dizê-lo publicamente.

Caetano Veloso respondeu que eu estava sendo benevolente para com Noel Rosa e reforçou seus argumentos, em termos que me escapam à memória, talvez por força da comoção (quem me conhece sabe que isso não é ironia). No final do seminário, aproximei-me dele e disse-lhe que nunca tinha visto as coisas deste jeito e que iria pensar seriamente no assunto, estando pronto a rever minha posição.

De fato pensei no assunto de lá pra cá. Mas qual não foi minha surpresa - estando posto em sossego no meio de um pós-doutorado, nos píncaros das últimas teorias etnomusicológicas francesas - ao receber pelo correio um recorte de jornal, contendo artigo de Ali Kamel, onde aprendo que Caetano voltou à carga contra “Feitiço da Vila”, em show realizado no Rio de Janeiro no mês de junho. Segundo Kamel, “Caetano (…) demonstrou que a canção quis livrar o samba da sua negritude, transformando-o num feitiço do bem, feito por bacharéis brancos, longe, portanto, da macumba dos negros do morro, que faz, por oposição, o mal, coisa de bamba” (Kamel, “Caetano e Obama”, O Globo, 10/6/08, p.7). Este resumo piorava bastante o que eu havia escutado em Santo Amaro. Mas a surpresa não diminuiu após uma visita ao blogue do compositor, www.obraemprogresso.com.br, quando, clicando no link “Noel Rosa”, assisti ao vídeo “Feitiço da Vila é uma canção racista?”.

As discussões sobre racismo estão acesas no Brasil, em grande parte por causa da Lei de Cotas. Isso me parece muito bom, mas está também gerando um efeito colateral que, este, me parece nocivo. É a total banalização da acusação de racismo! Com excessiva freqüência encontramos adeptos da Lei acusando de racismo os que se opõe a ela, e a situação oposta não é menos freqüente. Como no caso de “pequeno-burguês” algumas décadas atrás, caminha-se perigosamente para um momento em que a melhor maneira de não ser considerado racista, seria encontrar alguém a quem re-encaminhar a acusação! (Não acho que seja o caso de Caetano Veloso, que não precisaria disso). Neste quadro, a acusação de racismo corre o risco de ficar cada vez mais fraca. Racismo é crime, mas se uns e outros são racistas, e até Noel Rosa é racista (sem falar dos outros sambistas que falaram mal do feitiço), pode se difundir o sentimento de que o tal racismo não deve ser coisa tão grave assim. (Dizendo isto arrisco-me, é claro, a ser chamado de racista). É certo que, como apenas 120 anos nos separam do regime escravista, ainda existe na sociedade brasileira um racismo estrutural, do qual, em alguma medida, creio que todos podemos ser “acusados”. Mas neste ponto acusações e mea culpa são ineficazes: precisamos, isso sim, de ações afirmativas, entre as quais a Lei de Cotas em sua forma atual representa uma opção. (Aqui talvez eu tenha me livrado de algumas acusações de racismo, expondo-me no mesmo gesto a elas, pelo outro flanco).

Mas vamos ao conteúdo do vídeo, e gostaria de começar pelo seu trecho final, onde inexatidões e injustiças se somam. Talvez o problema mais surpreendente deste final, e sintomático, seja o da letra. Caetano misturou duas estrofes diferentes, que aliás nunca foram gravadas em vida de Noel Rosa, e que foram perpetuadas no Rio de Janeiro, salvo engano, por tradição oral (não sei se Araci de Almeida as teria incluído em suas regravações feitas nos anos 50). Elas teriam sido improvisadas por Noel num programa de rádio, e considerá-las como parte integrante da canção ignora o fato de que o “modéstia à parte, eu sou da Vila”, evidentemente, é o encerramento da música. Em todo caso, se o leitor procurar pela letra de “Feitiço da Vila” na internete não vai encontrar estas duas estrofes facilmente, nem elas foram incluídas nas suas mais conhecidas gravações, incluindo recente regravação por Martinho da Vila. Eis sua versão correta, que pode ser conferidas em Noel Rosa, uma biografia (Brasília: UnB, 1992), de João Máximo e Carlos Didier - pra mim o melhor livro jamais escrito sobre samba, incluindo o meu:

Quem nasce pra sambar,
chora pra mamar em ritmo de samba
Eu fui sair de casa olhando a lua
E até hoje ainda estou na rua

A zona mais tranquila
É a nossa Vila, o berço dos folgados
Lá não tem cadeado no portão
Porque na Vila não tem ladrão

No vídeo, Caetano canta os dois primeiros versos da primeira estrofe com os dois últimos versos da segunda estrofe. Corta assim a alusão ao “berço dos folgados”, o que, parece-me, tem implicações para a interpretação do todo. Digo que este é o problema mais surpreendente, porque Caetano deu muitas provas em sua carreira, desde “Esta noite se improvisa”, de conhecer de sobra a importância de atribuir aos letristas as letras que a eles se pode atribuir com segurança.

O segundo problema é dar a entender que Noel Rosa era homófobo. Ora, podemos acusar Noel Rosa de misógino, mas não de homófobo (como podemos acusá-lo de racista por anti-semitismo, mas não por preconceito de cor.) Não só não conheço um traço de homofobia em suas letras e em sua biografia, como ele foi, até onde sei, o primeiro na música brasileira a descrever com acentuada simpatia um sambista homossexual, em “Mulato Bamba”.

O terceiro problema: insinuar que Noel estava, com seu verso sobre o cadeado no portão, chamando Wilson Batista ou quem quer que fosse, de ladrão. Aqui a gente toca em uma das minhas discordâncias centrais com a interpretação de “Feitiço da Vila” por Caetano Veloso. Ela diz respeito à idéia de que a Vila de Noel Rosa, sendo um bairro de classe média, estaria contraposto aos morros e aos subúrbios mais pobres. Como se a Vila fosse uma espécie de Barra da Tijuca do seu tempo - e mais ainda, como se assim a visse e quisesse Noel… Não tenho estatísticas, mas até onde posso julgar pelo livro de Máximo e Didier, pelos desfiles da escola de samba Unidos da Vila Isabel e pelas, infelizmente, poucas vezes em que fui lá, a Vila era, e é, um bairro tão misturado quanto possa ser um bairro brasileiro de uma grande cidade.

Não nego, é claro, que a Vila tivesse mais características de classe média que os morros cariocas. Não é a sociologia que está em causa aqui - e muito menos uma sociologia de miolo duro, como a que é proposta no vídeo (”tal compositor, movimento ou obra musical representa a classe média, tal outro, as favelas”…). O ponto que quero enfatizar é que a defesa da Vila por Noel não visa acentuar suas diferenças em relação à Mangueira, da qual Noel era freqüentador, nem ao Estácio ou à Penha, aos quais ele também dedicou canções extraordinárias. Ao contrário, visa inseri-la no mesmo contexto de disputas “bairristas” que, justamente, era tão típico do samba daqueles anos. “Andando pela batucada/Onde eu vi gente levada/Foi lá em Vila Isabel”, escreveu ele em “Eu vou pra Vila”. A alusão ao “berço dos folgados”, na estrofe escangalhada no vídeo em questão, também não me deixa mentir. “Folgado” é um outro nome para “malandro”, como afirma Noel no samba “Rapaz Folgado”, aliás também parte da polêmica com Wilson Batista. Ou seja, a afirmação de que na Vila “não tem ladrão” não implica que lá não haja samba, bamba, batucada e gente levada. Ao contrário, quer dizer justamente que “bamba” e “ladrão” não são sinônimos.

Mas a evidência máxima de que a defesa da Vila por Noel não tem a conotação “mauricinha” que Caetano lhe quer imputar, está em “Palpite infeliz”, que arrematou a polêmica com Wilson Batista:

Salve Estácio, Salgueiro
Mangueira, Oswaldo Cruz e Matriz
Que sempre souberam muito bem
Que a Vila não quer abafar ninguém
Só quer mostrar que faz samba também

Em resumo, a louvação da Vila, em Noel, não visa demarcá-la dos morros, mas ao contrário, uni-la a eles mais intimamente, através da participação no jogo comum da disputa bairrista em torno do samba. Ao que tudo indica, mesmo do ponto de vista sociológico tal projeto não era uma simples idiossincrasia, sendo a Vila Isabel dos anos 1930 um bairro muito mais misturado socialmente do que vieram a ser os bairros ditos “emergentes” cariocas a partir do final do século XX. Que bacharel elitista (como seria o personagem de Noel, segundo a caracterização de Caetano) poderia dizer do seu bairro, “lá não tem cadeado no portão”?

O segundo ponto geral de discordância diz respeito ao suposto racismo da canção. Ele estaria por exemplo na alusão ao “nome de princesa”, e não de qualquer princesa, mas da Princesa Isabel. Quanto a princesas em geral, seria então necessário classificar como racistas todos os integrantes de escolas de samba e maracatus que se vestem à maneira de princesas, príncipes, reis e rainhas europeus, a cada carnaval. Mas e esta particular princesa, a Isabel, a que assinou uma lei, como sabemos, demasiado tardia e incapaz de garantir real igualdade de oportunidades entre negros e brancos? Ora, não faz sentido cobrar da Princesa Isabel o que ela não conseguiu fazer, sobretudo se nós, 120 anos depois, ainda não conseguimos tampouco fazer. Mesmo antes de conhecermos a carta ao Visconde de Santa Vitória, onde ela defende a indenização aos ex-escravos, o historiador Eduardo Silva havia demonstrando que ela abrigava escravos fugidos e incentivava fugas, no que caracterizou como um verdadeiro quilombo abolicionista em Petrópolis (As camélias do Leblon e a Abolição da escravatura: Uma investigação de história cultural, São Paulo: Companhia das Letras, 2003). Na mesma canção “Feitiço”, não se disse: “Zumbi come Zabé, Zabé come Zumbi”? De fato, um se nutre do outro, e vê-los como incompatíveis é um erro de alguns bem intencionados lutadores anti-racistas. Os pretos de Santo Amaro, sábios que são, assim como os de outros lugares do Brasil, não precisaram esperar pelos historiadores, pois eles

[No] dia 13 de maio (…) celebravam
(Talvez hoje inda o façam)
O fim da escravidão (…)
Foguetes no ar
Pra saudar Isabel
Ô Isabé
Pra saudar Isabé
(Caetano Veloso, “13 de Maio”)

Pois a Vila Isabel e Noel Rosa também não esperaram pelos historiadores para saudar a Princesa Isabel e seu quilombo! Será que é tão chocante falar do “quilombo de Zabé” quanto chamar “Feitiço da Vila” de racista? Não sei, mas pelo menos a primeira expressão me parece, até agora, melhor fundamentada. Continuemos discutindo a segunda.

Sim, a farofa, a vela e o vintém: aí, reconheço, é onde Caetano tem um argumento interessante. Mas acho que é possível discuti-lo seriamente, em duas versões, uma que chamarei “fraca”, e outra “forte”. A versão “fraca” foi adiantada pelo historiador Bryan McCann (autor do excelente Hello, hello Brazil: popular music in the making of modern Brazil, Duke University Press, 2005.) Ei-la (a tradução é minha):

“Dadas as referências negativas às religiões afro-brasileiras e a alusão favorável à aristocracia, certamente seria possível interpretar ‘Feitiço da Vila’ como uma apologia do samba branco, de classe média, às custas do samba dos pobres e dos negros. Mas se levarmos em conta o resto da obra de Noel, e os detalhes da sua carreira, tal interpretação revela-se pouco convincente. Dos sambistas brancos de sua geração, ele foi o que colaborou de maneira mais assídua com compositores da favela (e um dos poucos que não explorou financeiramente tal colaboração). E sua música permaneceu mais perto do ’som do Estácio’ que a da maioria de seus pares”. (No artigo “Noel Rosa’s nationalistic logic”, Luso-Brazilian Review, Vol. 38, No. 1, 2001, p.1-16.)

Nesta linha de argumentação, a vida e a música de Noel Rosa desautorizam a idéia de que ele tenha sido racista. Certo, ele não era, como Sinhô ou João da Baiana, um sambista ativamente envolvido com o candomblé. Mas conviveu intensamente com o meio cultural afro-carioca (do qual a religião é parte integrante), e dele foi, na melhor expressão da palavra, um parceiro.

Poderíamos ir mais longe e lembrar do enorme sucesso de “Feitiço da Vila” junto ao público e aos prórios sambistas, muitos dos quais praticantes ou simpatizantes de umbanda, macumba e candomblé. Grandes obras geram múltiplas interpretações, mas se nem Noel Rosa se pretendeu ali racista, nem o público a quem a questão toca mais diretemente o viu como tal, que ganharíamos hoje ao adotar semelhante releitura? Ou será que o autor e o público eram racistas e não sabiam? Acreditariam eles na democracia racial, já enceguecidos pela recém-publicada ideologia freyreana, e Caetano com sua interpretação viria adicionar mais uma pedrinha à desconstrução deste mito, revelando-nos a todos como os racistas que não sabíamos que éramos? É um ponto de vista, é só posso congratular Ali Kamel por ter se mostrado sensível a ele. Pessoalmente, acredito que o povo do samba e do candomblé sempre soube muito bem que há preconceito de cor no Brasil, assim como sempre soube distinguir, com alguma margem de erro, quem tem preconceito - como a “madame” do samba de Janet de Almeida evocado também naquela tarde em Santo Amaro - de quem não tem. É de uns anos para cá que a confusão no que se refere a isso parece estar aumentando.

Porque então chamar de “fraca” esta versão do argumento em defesa de Noel, apresentada por Bryan McCann (com apoio, não custa repetir, na biografia escrita por Máximo e Didier)? É porque Caetano não disse com todas as letras que Noel Rosa era racista: disse que “Feitiço da Vila” era. Alguém negaria que, neste Brasil ainda tão perto do escravismo, mesmo os maiores lutadores anti-racistas possam ter seus maus momentos? Talvez ninguém negasse, mas há certamente quem se deleite com isso. Não estou entre estes últimos.

Então, os versos de “Feitiço da Vila” - o “samba sem farofa, sem vela e sem vintém”, o “feitiço decente” - teriam sido maus momentos do bravo Noel Rosa? “Referências negativas à religião afro-brasileira”, mas incidentais no contexto de sua obra? Aí, talvez estivéssemos sendo “benevolentes”, como disse Caetano em Santo Amaro. (Uma benevolência, de resto, muito bem fundamentada.) Mas minha intenção com este arrazoado não é salvar um ícone da cultura brasileira, do samba ou de quem quer que seja (embora eu ache que nossa iconoclastia ganharia com ajustes de mira). Nem é esta a intenção de McCann, que em seu artigo aponta, com muito mais evidência, para misoginia, anti-semitismo e xenofobia nas letras de Noel.

Gostaria, por isso, de ir mais longe e apresentar uma versão “forte” do argumento contrário a ver racismo em “Feitiço da Vila”. Ela diz respeito ao estatuto do feitiço na cultura brasileira. O nome do samba estampa o feitiço como um valor positivo (mesmo se depois irá especificá-lo como “decente”). Só por fazê-lo, a canção já está à frente de muitos sambas, anteriores e posteriores, para os quais o feitiço é negativo. Donga, por exemplo, carioca filho de baiana, e pioneiro do samba, no seu “Pelo telefone”, tido como a primeira peça do gênero a fazer amplo sucesso popular, ameaça bater em quem “faz feitiço”:

Tomara que tu apanhes
Pra não tornar fazer isso
Tomar amores dos outros
Depois fazer teu feitiço
(”Pelo telefone”, 1917)

E o próprio pescador de Dorival Caymmi, o mesmo pescador que ainda nos anos 1950 cantava em língua africana na puxada de rede do xaréu (conforme o magnífico disco gravado pela antropóloga Simone Dreyfus-Gamelon), o emblemático pescador das canções praieiras - pode acabar acusado de racista também:

O pescador deixa que seu filhinho
Tome jangada, faça o que quiser
Mas dá pancada se o filhinho brinca
Perto da lagoa do Abaeté
(”A lenda do Abaeté”, 1948)

No Abaeté, conta-nos Caymmi, ouve-se “a zoada do batucajé” - e, como a canção deixa claro na letra e na música, não é por outra razão que o filho leva pancada se chegar perto de lá. Aliás, é por isso também que a “lavadeira” (branca? negra? alguém se importa?) “vai se benzendo” no caminho.

Mas atenção, Donga e o pescador de Caymmi não reprimem o feitiço por considerá-lo falso, e sim, justamente, por acreditar nele. Como aprendi com Yvonne Maggie no livro Medo do feitiço - relações entre magia e poder no Brasil (Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1992), os que não acreditam em feitiço, não reprimem feiticeiros, mas acusadores de feiticeiros.

Assim, não é só o “Feitiço da Vila” e as canções citadas que querem distância da farofa, da vela e do vintém. “Feitiço” e “feiticeiro”, no Brasil como alhures, são categorias de acusação - de novo, é Maggie quem ensina (alguns vão achar que a estou citando demais; mas não divido o mundo em quem é favor de cotas e quem é contra!). Diremos que nossos inimigos são feiticeiros, mas não diremos que nós mesmos somos feiticeiros, nem que isso, aliás, é uma coisa muito boa. E se assim agimos, não é por racismo, mas por causa do modo de funcionamento do sistema da feitiçaria, não só no Brasil pós-escravocrata, mas na África também, como mostrou Evans-Pritchard em seu livro clássico (Bruxaria, oráculos e magia entre os Azande, Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004) .

Noel Rosa também disse: “samba tem feitiço, todo mundo sabe disso” (em “Na Bahia”). A letra de “Feitiço da Vila” é testemunha desta intimidade com o mundo do feitiço, aliás compartilhada por seus ouvintes, que sempre a entenderam muito bem. Todos sabemos que esta farofa não se deve comer, que esta vela não é de aniversário, que este vintém não se deve botar no bolso. E o emprego dos verbos “fazer” e “prender” aqui é perfeitamente vernacular. Falar mal do feitiço é a maior prova de que estamos metidos nele até a raiz dos cabelos. O merecido, e duramente conquistado, crescimento em prestígio do candomblé do tempo de Noel Rosa para cá, não se fez com base na idéia de que candomblé é sinônimo de feitiço, bem ao contrário.

Isto nos leva a um último ponto. O problema não seria então, falar do feitiço, dizendo que um é decente, e implicando a existência de outro, indecente. Seria antes a própria associação entre feitiço e farofa, vela, vintém. Como estes objetos podem integrar os rituais do candomblé, chamá-los de “feitiço” já seria, por si só, manifestação de preconceito contra esta religião.

Ora, o problema posto por esta última objeção é, na verdade, o mesmo problema abordado pela canção de Noel Rosa: como demarcar algo que seria “decente” (ou que nome se queira dar para denotar algo que é sentido como “do bem”), como a religião e o samba, de algo que seria “indecente” (ou “do mal”) - o feitiço? Este é um problema que, em nossa sociedade, se coloca mesmo para uma religião cuja distinção entre “bem” e “mal” seja muito diferente da judaico-cristã. No caso do samba, a distinção é facilitada pelo fato de que os objetos do ritual ficam transfigurados (sem deixar de estar, em algum nível, “presentes”) em objetos musicais: a cuíca, o surdo e o tamborim (Feitiço decente, p. 179-82). No caso da religião, a distinção é dificultada pelo fato de que uma vela tanto pode representar uma oferenda a um orixá, quanto uma ação mágica dirigida contra terceiros. Em outras palavras, bem gerais agora, o problema da demarcação entre “religião” e “magia” não é tão simples como desejariam certa antropologia (aludida por Stefania Capone, A busca da África no candomblé, Rio de Janeiro: Contracapa/Pallas, 2004) e certa teologia (não só do candomblé!). Talvez fosse demais pedir a um samba, mesmo a um samba tão especial, que o resolvesse. (Muitos sambas juntos talvez um dia o resolvam).

Mas se “Feitiço da Vila” não resolve este problema, parece-me claro que o impulsiona para a frente. Assim, duvido que houvesse, nos Brasil dos anos 1930, melhor modo de trazer o feitiço à tona, de botá-lo na boca do povo, que através desta espécie de koan zen. Pois o “feitiço decente” de Noel Rosa é um paradoxo, uma coisa impossível, um curto-circuito lógico (como o que Caetano tão bem soube ver em “É proibido proibir”). Justamente aí é que está a genialidade dele (e a de Caetano Veloso também, embora não neste vídeo infeliz): a de criar objetos impossíveis, quimeras, utopias, coisas feitas, capazes de transformar nossas vidas. Ou, nas palavras de Caetano: de “soltar a gente”.

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Ainda em Moscou
28/06/2008 2:24 pm

Mais notícias e foto enviadas por Caetano:

“Da minha janela vejo um monumento gigantesco a alguém numa caravela. Está encravado no Rio Moscvá. Pergunto quem é. Me dizem que é Pedro, o Grande. Pergunto: mas Pedro, o Grande foi navegador? Não. Isso foi uma encomenda feita por um governo latino-americano a um escultor russo para homenagear os 500 anos da descoberta de Cristóvão Colombo. Como a escultura não foi aprovada, o prefeito de Moscou, que é amigo do escultor, a comprou, a ergeu no rio e declarou oficialmente que se tratava de Pedro, o Grande. Este mundo é um pandeiro.”

Monumento do rio Moscvá - fotografia de Caetano Veloso

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Transamba em Moscou
27/06/2008 8:27 pm

Caetano nos manda notícias e fotos de Moscou:

“A Catedral de São Basílio é cafona? Sou tropicalista. Fico fascinado pelo abismo de gosto que se abre à minha frente quando vejo essas torres que parecem feitas de pedaços de brinquedos de criança americana, essas cúpulas em cebolas confeitadas: nem no Parque Tamina, em Salvador, nem na Disneylândia se vê nada tão parecido com o extremo do mau gosto. No entanto é nitidamente tudo endereçado a outro tipo de sensibilidade.

Estou em Moscou, onde vim fazer um show fechado (na verdade num apartamento não particular: um arremedo de morada yuppie pertencente à revista Esquire - me dizem que Patti Smith cantou exatamente ali, faz menos de um mês), pensando em escrever uma música para ou sobre o Lobão. É que só penso no desenvolvimento do repertório de transambas para a Obra em Progresso.

Mas seguramente o metrô de Moscou é cafona. Florões com foice-martelo-e-estrela, arcadas de mármore, retratos de Lênin sob frontões de mosaico colorido.

Em muito pequena medida pode-se dizer que também isso se endereça a outra sensibilidade: a tradiconal russa (que explode hilária em São Basílio mas que é deslumbrante na Anunciação ou no Arcanjo, sobretudo na Assunção) e a revolucionária comunista.

Mas esta é muito próxima de nós e de vez em quando parece que entrou um trem no foyer da Ópera de Manaus ou numa igreja remodelada no século 19. Mas uma russa magra e bonita, das que agora tem tantas aqui, certamente por causa do sucesso das modelos russas, senta-se no banco pelo qual passa nosso guia quirguiz (ele tem cara de chinês comum mas ouvir que é da Quirguízia sempre me faz pensar em Thomas Mann e o menino do lápis). Faço excursão com meu limitado violão mas só penso na Obra em Progresso aí. Pedro, Ricardo e Marcelo. Que músicas conseguirei fazer com essas imagens e idéias na cabeça?

Ania me pergunta o que diz a letra de “Cucurrucucú Paloma”. Ela é uma mulher bem russa, mas não das magras bonitas, apenas ligada ao grupo que me contratou. Chorou quando viu “Hable con Ella”. Já pensou o que é tentar traduzir a letra de “Cucurrucucú Paloma” para o inglês, sendo que essa russa entende mal o inglês? Ela está surpresa por eu ter ido à praça Maiakóvski e ao museu Maiakóvski. O contratante também ficara surpreso quando, na chegada, vindo do aeroporto, reconheci Maiakóvski na estátua (na verdade um tanto grande e heróica demais para um poeta).

Conto a Ania que Maiakóvski é muito conhecido por brasileiros que lêem. Falo dos poetas concretos e suas traduções. Conto que musiquei um poema dele a pedido de um grupo de teatro que montou “O Percevejo” e que a canção virou um hit na voz de Gal Costa. Ela não pode crer no que ouve. Diz para os outros russos da equipe: “O percevejo”!!!! Eles montaram “O percevejo” no Brasil! E balança a cabeça pensando em como é possível que um poema de Maiakóvski tenha virado canção de sucesso popular no Brasil. Digo a ela que um amigo cineasta me escreveu pedindo para eu ir ao túmulo de Maiakóvski e perguntar onde está o tal brasileiro feliz de que ele fala. Ania, Sasha e Tim (o quirguiz) não sabiam da tirada do poeta russo sobre a singularidade da felicidade humana no Brasil.

O museu Maiakóvski é estranho. Um trem-fantasma futurista construído pelos soviéticos - não sem alguma graça parente do que produziam as vanguardas russas até a revolução azedar - com um detalhe realista: o quarto dele, com a escrivaninha (e o retrato de Lênin na parede em frente a quem sentasse diante dela). O Tim quirguiz conta que uns dizem que Lília Brik (ou outra namorada) veio ter com o poeta à noite, brigaram e ele se matou com um tiro na cabeça; outros dizem que na verdade a visita foi da KGB. Achei estranho ouvir “KGB”: soou anacrônico.”

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Caetano comenta “Tarado ni Você”
27/06/2008 4:01 pm

Caetano faz comentários sobre o processo de composição da música “Tarado ni Você”

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“Tarado ni Você”
27/06/2008 12:32 am

Caetano toca a música inédita “Tarado ni Você” no show do dia 04 de junho.

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Listas de músicas dos shows até agora
26/06/2008 2:17 am

Para quem ainda não percebeu, na faixa cinza acima (onde se lê HOME, SHOW e CONVIDADOS), ao clicar em “SHOW” entramos numa página com os setlists de todos os shows de Obra em Progresso realizados até agora. Algumas músicas são links para seus vídeos já publicados aqui no blog.

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Caetano canta com seu filho Moreno Veloso
25/06/2008 1:36 pm

Caetano canta “Sertão” que é uma parceria dele com seu filho Moreno Veloso.

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