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Caetano nos manda notícias e fotos de Moscou:
“A Catedral de São Basílio é cafona? Sou tropicalista. Fico fascinado pelo abismo de gosto que se abre à minha frente quando vejo essas torres que parecem feitas de pedaços de brinquedos de criança americana, essas cúpulas em cebolas confeitadas: nem no Parque Tamina, em Salvador, nem na Disneylândia se vê nada tão parecido com o extremo do mau gosto. No entanto é nitidamente tudo endereçado a outro tipo de sensibilidade.

Estou em Moscou, onde vim fazer um show fechado (na verdade num apartamento não particular: um arremedo de morada yuppie pertencente à revista Esquire - me dizem que Patti Smith cantou exatamente ali, faz menos de um mês), pensando em escrever uma música para ou sobre o Lobão. É que só penso no desenvolvimento do repertório de transambas para a Obra em Progresso.
Mas seguramente o metrô de Moscou é cafona. Florões com foice-martelo-e-estrela, arcadas de mármore, retratos de Lênin sob frontões de mosaico colorido.

Em muito pequena medida pode-se dizer que também isso se endereça a outra sensibilidade: a tradiconal russa (que explode hilária em São Basílio mas que é deslumbrante na Anunciação ou no Arcanjo, sobretudo na Assunção) e a revolucionária comunista.

Mas esta é muito próxima de nós e de vez em quando parece que entrou um trem no foyer da Ópera de Manaus ou numa igreja remodelada no século 19. Mas uma russa magra e bonita, das que agora tem tantas aqui, certamente por causa do sucesso das modelos russas, senta-se no banco pelo qual passa nosso guia quirguiz (ele tem cara de chinês comum mas ouvir que é da Quirguízia sempre me faz pensar em Thomas Mann e o menino do lápis). Faço excursão com meu limitado violão mas só penso na Obra em Progresso aí. Pedro, Ricardo e Marcelo. Que músicas conseguirei fazer com essas imagens e idéias na cabeça?
Ania me pergunta o que diz a letra de “Cucurrucucú Paloma”. Ela é uma mulher bem russa, mas não das magras bonitas, apenas ligada ao grupo que me contratou. Chorou quando viu “Hable con Ella”. Já pensou o que é tentar traduzir a letra de “Cucurrucucú Paloma” para o inglês, sendo que essa russa entende mal o inglês? Ela está surpresa por eu ter ido à praça Maiakóvski e ao museu Maiakóvski. O contratante também ficara surpreso quando, na chegada, vindo do aeroporto, reconheci Maiakóvski na estátua (na verdade um tanto grande e heróica demais para um poeta).

Conto a Ania que Maiakóvski é muito conhecido por brasileiros que lêem. Falo dos poetas concretos e suas traduções. Conto que musiquei um poema dele a pedido de um grupo de teatro que montou “O Percevejo” e que a canção virou um hit na voz de Gal Costa. Ela não pode crer no que ouve. Diz para os outros russos da equipe: “O percevejo”!!!! Eles montaram “O percevejo” no Brasil! E balança a cabeça pensando em como é possível que um poema de Maiakóvski tenha virado canção de sucesso popular no Brasil. Digo a ela que um amigo cineasta me escreveu pedindo para eu ir ao túmulo de Maiakóvski e perguntar onde está o tal brasileiro feliz de que ele fala. Ania, Sasha e Tim (o quirguiz) não sabiam da tirada do poeta russo sobre a singularidade da felicidade humana no Brasil.
O museu Maiakóvski é estranho. Um trem-fantasma futurista construído pelos soviéticos - não sem alguma graça parente do que produziam as vanguardas russas até a revolução azedar - com um detalhe realista: o quarto dele, com a escrivaninha (e o retrato de Lênin na parede em frente a quem sentasse diante dela). O Tim quirguiz conta que uns dizem que Lília Brik (ou outra namorada) veio ter com o poeta à noite, brigaram e ele se matou com um tiro na cabeça; outros dizem que na verdade a visita foi da KGB. Achei estranho ouvir “KGB”: soou anacrônico.”
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Junho 27th, 2008 at 8:39 pm
minino! vc é engraçado! boa viagem!!
a de dentro e a de fora.
Junho 27th, 2008 at 9:14 pm
Gostoso ler seu vôo em solo russo, encontros, belezas ou cafonices (’endereçadas a outra sensibilidade’), conversas, Cucurrucucú Paloma, mistranslation, Maiakóvski, o contato com o novo - para os dois lados. A Rússia de raspão e o raro. Obrigada por dividir, ainda no ar.
Junho 27th, 2008 at 11:17 pm
Tenho acompanhado as músicas inéditas pelo site, pois para mim é impossível estar no Rio numa quarta-feira à noite. Acompanhar o processo de criação de Caetano está sendo uma experiência incrível para mim. Lembro-me de um ensaio aberto de “Noites do Norte” que fui no Canecão, quando Caetano ainda escolhia a guitarra que seria usada na estréia oficial e quando ainda memorizava a letra completa de “Magrelinha”. Para um fã, foi uma noite inesquecível.
Estou agora curiosíssimo para ouvir uma eventual composição de Caetano sobre sua visita à Rússia. Para mim, é fascinante aguadar a composição de uma música de Caetano já sabendo de antemão todo o contexto que a inspirou. Espero realmente que essa música seja composta!
Junho 28th, 2008 at 5:19 am
Bem que Caetano poderia cantar e gravar “O AMOR”… que ele cita no texto.
Junho 28th, 2008 at 10:24 am
Lembrei da Gertrud Stein naquele livro escrito em 1938, Picasso, em que ela fala da fase russa no artista e que tudo é anormal, fantástico, camponesa na escultura. Ela diz que a arte da Rússia é fantástica e pornográfica. Você viu isso aí? Putz, não achei a canção em Maiakóvski, “O amor” para ouvir nesta manhã de inverno em Porto Alegre.
Junho 28th, 2008 at 10:50 am
Engraçado isso de ser fã de alguém. Tenho a possibilidade de escrever, ser lida e fico totalmente travada. Só queria lhe dizer que esse blog “Obra em Progresso” é bárbaro e ficou melhor ainda com esse post.
De alguma forma, um presente para fãs que não podem estar no Rio!
Junho 29th, 2008 at 1:54 am
gosto das parábolas que em russo ficam mais divertidas. “gosto da pessoa na pessoa” outras palavras.
Junho 29th, 2008 at 2:02 am
“tu é que, sem vinho me embriagastes”
Junho 29th, 2008 at 2:06 am
são muitas emocões. palavras ocirentais. vasto mundo se eu me chamasse raimundo…
Junho 29th, 2008 at 11:00 am
Caetano gravando O AMOR. “Talvez, quem sabe, um dia…”
Junho 30th, 2008 at 1:07 pm
Caetano,
Lance a voz da Gal cantando O Amor sob o cèu russo! Deve ser bonito de se ouvir .
Obrigada
Junho 30th, 2008 at 3:16 pm
curioso como o embate de culturas e de percepções podem mudar o sentido do que vemos e do que sentimos…ao mesmo tempo podem parecer um atentado ao senso de terriorialidade e historicidade , enfim podem parecer afronta aos valores e historia de um povo….
sei que caetano não quiz menosprezar a arquitetura russa á partir de uma visão tropicalista e sempre meio debochada mais é inegavel que a globalização neste aspecto assimila o tropicalismo ja que disney, parque tamina ,catedral e metro russo parecem ser a mesma coisa, ou seja, aproximam e pasteurizam valores e historias diversas…
caetano e russia caramba… nunca pensei que poderia via web saber das impressões de caetano na russia…
acho que caetano deve aproximar tropicalismo comtemporaneo via união de samba, maiakovski,o quirguiz,mais cururucu paloma e pedro almodovar…
se caetano conseguir fazer um “transsamba” á partir de sua experiencia russa deveria ser para mim algo certamente plural, anacronico, comtemporaneo, colorido,samba de raiz,pandeiro,rico e melodioso e emotivo ..alguma coisa entre brahms e roberto ribeiro….
Junho 30th, 2008 at 5:19 pm
adorei a foto de cae.
Uma foto ao som de ‘Peter Gast’
Julho 3rd, 2008 at 6:39 pm
O Lobão Caetano? Adoro ele… mas por que uma música pra ele? Como sempre só surpreendendo, lembrei agora numa entrevista no VMB com os dois ano retrasado… muito bom.
Julho 25th, 2008 at 6:14 pm
Caetano, conceber um título em italiano, eis a questão? Pensando aqui, “a questi lumi di luna, non perdere il lume della ragione” , acenda uma luz, de onde virá não sei, um brilho, como um sopro rápido, um conselho de quem, não sei, da palavra talvez, uma sugestão, taí. LUME, e só.
Beijo na Geovana
Fernando ( ninguém )
Setembro 3rd, 2008 at 7:54 am
Licença pra compartilhar….já que aqui,
no momento, estamos Maiakóvski,Roberto Carlos,
poetas…faço uma colagem de frases,fragmentos
relembranças…
O mar se vai,o mar de sono se esvai
Como se diz:o caso está enterrado
a canoa do amor se quebrou no cotidiano
………………..
A todas vocês,
que eu amei e que eu amo
ícones guardados num coração- caverna,
como quem num banquete ergue a taça e
celebra,repleto de versos levanto meu crânio.
……..Esta noite ficará na história.
hoje executarei meus versos na flauta de
minhas próprias vértebras.
………………………….
A tarde ardia com cem sóis
O verão rolava em julho
o calor se enrolava
no ar e nos lençois
……………..
Brilhar com brilho eterno
gente é pra brilhar,
que tudo mais vá pro inferno,
este é o meu slogan
e o do sol.
Traduções, Augusto de Campos, Haroldo de Campos
Boris Shnaiderman.
Setembro 3rd, 2008 at 1:29 pm
Complementando,relembranças…reencontradas
no livro, MAIAKÓVSKI POEMAS
Boris Schnaiderman,Augusto e Haroldo de
Campos.
Setembro 22nd, 2008 at 5:36 pm
Eu conheci recentemente o metrô de Moscou e fiquei surpresa com a beleza das estações. Adorei e não achei cafona. Como diz o Marcelo Negromonte paradoxalmente, em todas as estações está presente a ideologia da revolução comunista, seja na quase onipresença da figura do ditador, seja nos afrescos e estátuas que remetem ao trabalhador, sempre em ação no seu ofício ou claramente feliz. É o luxo para todos à maneira do realismo soviético, que deve ser visto com os olhos direcionados à época em que tais estações foram construídas.