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Pedro Sá comenta “Sem Cais”
31/07/2008 11:12 am

Pedro Sá, guitarrista da Banda Cê, comenta a música “Sem Cais”, sua parceria com Caetano Veloso. 
 

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Caetano canta “How beautiful could a being be?”
30/07/2008 12:28 pm

Caetano canta “How beautiful could a being be?” com seu filho Moreno, e acompanhado por Davi Moraes e os percussionistas Eduardo Josino e Josino Eduardo, além da Banda Cê.

 

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Preparando o retorno ao Brasil e ao canteiro da Obra
27/07/2008 5:45 pm

Caetano, em comunicado provavelmente final desta turnê européia, sintetiza parte do que aconteceu por lá, por aqui (neste blog) e do primeiro show do Vivo Rio até aqui (nesta Obra, limpando o terreno para sua continuidade):

“Transamba é transcriação do samba em chave nova. Bossa nova, esquema novo, novos baianos. Marcos Moran e o Samba Som 7 já tinham o mais transamba dos sambas do Chico, o mais do Paulinho, Antonio Carlos e Jocafi, “O Lado Direito da Rua Direita” e Novos Baianos. Além de guitarra no samba (Novos Baianos já eram isso). Haroldo de Campos chamou de “transblanco” a tradução (”transcriação“) que fez do “Blanco” de Octavio Paz. Pedro Sá vive lendo Octavio Paz. Está apaixonado. Terá lido esse “Transblanco”? Vamos tocar aí no Rio na segunda quinzena de agosto.

Como tudo o que faço em música, a inspiração prática, técnica, tangível, material do meu “transamba” veio de Gilberto Gil. A batida que fiz tocando “Minha flor, meu bebê” - e que está em “Perdeu” e é a base por trás do tratamento das outras canções, inclusive a de Bosco/Blanc - vem de um jeito que Gil inventou para estilizar o samba no violão, nos anos 70. Não sei se há gravações profissionais dele tocando assim (Gil muito freqüentemente fazia coisas em casa que sumiam nos arranjos de estúdio). Mas seguramente foi imitando (limitadamente) o que ouvia Gil fazer que construí a versão de “Madrugada e amor”, acho que do disco “Qualquer Coisa”, e mesmo minha versão de “Eleanor Rigby”, que eu acho linda, com Perinho Albuquerque fazendo guitarra solo sobre meu violão gilbertogilesco e eu cantando um pouco como Amália Rodrigues (mas em que os ingleses e os americanos não viram graça, que eu saiba, assim como não vêem em nada do “A Foreign Sound”).

A catedral de São Basílio é linda como um sorvete; os lutadores da porta do hotel de Caserta são grande cena homoerótica masculina; Noel não é racista nem misógino (essa racialização e sexualização dos argumentos políticos é algo que desejei desde antes do tropicalismo mas hoje tenho de reconhecer quanto pode - como uma vez me disse João Gilberto - atrapalhar o processo: eu disse aquilo sobre o “Feitiço da Vila” porque quero lutar contra esses engessamentos, como quem diz: então vamos fazer exigências politicamente corretas incômodas pra ver se agüentamos); Os “Três travestis” ressuscitaram graças ao caso Ronaldo (que não merecia ter a vida invadida por ameaças que usam o “jornalismo-fofoca-de-celebridades” como arma): o bom disso é a canção - e a oportunidade de sugerir: Jô, meu querido Jô Soares, faz uma entrevista com a Keila Simpson, a principal informante do trabalho feito sobre o travestismo no Brasil pelo antropólogo americano Don Kulick; ela, Keyla, é uma pessoa incrivelmente articulada e tem muito a contar sobre a realidade da vida dos travestis brasileiros (vive em Salvador mas já viveu em Milão e sabe de tudo: está ligada a organizações de humanização da condição das travestis)! - e o livro “Travesti” acaba de sair traduzido em português; amigos americanos liberais (isso lá quer dizer “de esquerda”, ao contrário do Brasil) me dizem que votaram em Obama e gostam dele mas já sabem que ele vai decepcioná-los: bem, eu não me decepcionei com Lula porque não esperava coisa muito diferente do que há - e não votei em Obama; a fantástica frase “prefiro Obama a Hillary porque gosto muito mais de preto do que de mulher” foi outra provocação com a racialização e sexualização da política, mas também, e principalmente, uma homenagem à memória de Pierre Verger:

Tendo Verger ido a minha casa na Bahia com umas moças que fizeram um documentário sobre ele, e vendo que o VHS não reproduzia as cores, me segredou: “assim é melhor, tudo em preto e branco; pra ficar perfeito só falta parar a imagem”. Perguntei porque ele não gostava da imagem em movimento. Ele disse que nunca gostara de cinema porque “em movimento você não consegue uma composição realmente bonita”. Assistimos ao documentário em preto e branco. Depois que acabou, voltei à conversa com ele: - “você me explicou por que não gosta da imagem em movimeno; mas e as cores, qual o problema com as cores?” Ele respondeu: “ah, cores não, cores são uma vulgaridade”. Achei a resposta insatisfatória, embora compreensível: era um lugar comum que ele repetia com a alegria de quem nem precisa elaborar. Adotei esse tom menos responsável e disse: “você gosta mesmo é de preto-e-branco”. Ele, com maior alegria (e maior originalidade do que na resposta elaborada), contestou: “gosto muito mais de preto do que de preto-e-branco”.

Os shows solo aqui foram muito bons. Eu não esperava. Os melhores foram o de Luxemburgo (a acústica do teatro!), o de Viena, o de Roma e o de Oeiras (nos jardins do palácio do Marquês de Pombal). Houve duetos memoráveis com Stefano Bollani em Perugia e Cagliari. Mas nessas outras cidades foi tudo ainda mais bonito. Bollani é um jovem gênio do piano de jazz que gravou um disco chamado “Carioca” com músicos brasileiros (inclusive meus amados Marçalzinho e Jorge Élder), onde ele mostra uma clareza incrível na compreensão do espírito do choro. Mas nesses dias não cantei “Minha voz, minha vida” como em Viena ou Oeiras. Sobretudo não cantei “Odeio” e “Homem” em versões eficientes para violão solo que me surgiram aqui (nada mudou, mas é diferente). O pior show foi em Moscou: não tinha público propriamente, era um show fechado para empreendedores imobiliários russos. Muito charuto. Tenho horror a charuto. Eram jovens com terninhos new wave fumando charuto. O lugar tinha decoração yuppie também. Mas encontrei Tânia Maria e tocamos juntos, o que foi uma grande alegria. Fizemos “Manhã de carnaval” para nós mesmos e ficamos felizes com isso. “Manhã de carnaval” é a canção de Bonfá para o “Orfeu” que Tom Jobim chamava “aquela música russa” (e cuja coda ouço sempre por trás de “Stairway to Heaven“). Fiquei surpreso com vienenses me esperando à porta do hotel para pedir autógrafo e fazer fotografia. Uma gente de todas as idades, com jeito de solitária, sem falar português, falando inglês com sotaque forte e exibindo CDs antigos e novos meus, além de capas de discos de vinil. Jorge Mautner não saía da minha cabeça. Queria que ele visse os austríacos em plena brasilificação. Talvez eles saibam quão perto estão da outra opção. Istambul: o show lá foi lindo mas a cidade merece texto à parte.”

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Transamba e Caserta!
25/07/2008 2:55 pm

Caetano, da Itália, continua a refletir sobre a concepção da Obra em Progresso:

transamba - de trans + samba; nome de um novo gênero de música criado artificialmente (mas nem Deus sabe quão orgânica e necessariamente) no Brasil. Trans, prefixo de origem latina, significa: além de, através, em troca de. Samba, possivelmente de origem quimbunda, é um tipo brasileiro de música de dança, lamento e sabedoria. O trans de transamba para mim é como o trans em transcendência, transfiguração, transvaloração, transformista; mas também como em trânsito, transação, transporte, transa; e ainda como em transparência, translúcido, translumbramento; ou em transbordar, transviado, transtorno, transpiração. Ou seja, transamba é palavra que já vem dançando entre os sentidos. Mas entre principalmente esses sentidos. É o samba além do samba. Um samba desencaminhado e excessivo, mas sublime e superior. Isso é o que a palavra me diz. As músicas que eu (ou outrem) fizer sob essa rubrica poderão chegar mais ou menos longe dessa meta. Como, de resto, cada exemplar de samba de qualquer época chega mais ou menos perto de ser o que o samba surgiu para ser.

O título do disco que resultará da obra em progresso não será “Transamba”. Diferentemente de alguns, adoro a palavra. Ela me veio de repente, e logo ligada à lembrança da palavra “transvanguarda“, que ouvi e li tanto nos anos 80 e que designava um movimento italiano na área das artes plásticas. Por causa disso - e por causa de minhas passagens pela Itália nos últimos anos - tenho vontade de pôr no disco um título em italiano. Embora não pretenda cantar nada em italiano. Também estou lendo a tradução italiana do “Istambul” de Orhan Pamuk, o que faz o livro ficar duplamente curioso, e lá encontro palavras ou conjuntos de palavras que (sobretudo essas expressões italianas feitas de fonemas repetidos, como “ben bene” ou “pian piano”, “a poco a poco”, “man mano” - embora já saiba que não será nenhuma dessas a escolhida) parecem não ter nada a ver com as canções do disco. Nesse meu embrião de inspiração há algo dos títulos enigmáticos do rock dos anos 60 aos 80: “In-A-Gadda-Da-Vida“, “Regatta De Blanc“, o insuperável “Blonde on Blonde“… Enfim, alguma coisa que tire de esquadro toda a referência ao samba, ou aos transambas ou parasambas ou metasambas que a Banda Cê e eu vamos apresentar. Mas a palavra “transamba” aparecerá em algum lugar. Houve que não gostasse. Não só dentre os comentaristas do blog. Algumas pessoas amigas, inteligentes e, ademais, fãs do som e do repertório da Obra em Progresso, estranharam “transamba” com desagrado. Pelo menos num primeiro momento houve em alguns uma rejeição com cuja razão não atinei: eu gostei muito de “transamba” logo que a palavra me ocorreu. Mas aos poucos fui ouvindo a anaminese de cada um: tinham um vago medo de que eu estivesse sendo artificioso e esquematicamente marqueteiro. Mas era mesmo um medo vago. Ninguém dizia explicitamente. E ele era bem menor do que a mera desaprovação estética da palavra. Eu, como recebi essa inspiração como um acontecimento poético, desconfiava - e desconfio - de que o problema é mais o samba do que o trans. Na própria música há isso. Quando propus o projeto a Pedro Sá formulei a pergunta: será que samba dá samba? Porque é assim: ou bem nos voltamos para o samba e o cultivamos (e aí somos vistos com carinho pelos que cuidam da nossa cultura) ou nos afastamos dele e de toda a carga de fracassos do Brasil que ele carrega (como nos afastamos do catolicismo ou da umbanda por descrença histórica e nos aproximamos dos cultos neo-pentecostais) e buscamos nos sentir integrados na mescla de estilo caipira norte-americano com estilo crioulo norte-americano que ganhou o nome de rock’n'roll nos anos 50. Isso e todos os desdobramentos disso (do reggae ao disco, do rap ao grunge, do house ao punk…) são magnetos, pólos de atração reais e vitais: servem no mínimo de referência obrigatória, mas na verdade de critério de julgamento. O samba não teria salvação. O mero reconhecimento do seu balanço amarra a imaginação e a sensibilidade, desanima a alma que quer ser livre e nova. Então foi e é um desafio enfrentar essa empreitada. Um aprofundamento da pesquisa com o rock independente (ambiente “nobre” da criação de música popular hoje) esboçada em “Cê”, sem contaminação de samba, seria mais estratégico, talvez mais saudável, no esforço de afirmação de uma produção brasileira de ponta que se imponha no mundo. Mas as coisas não acontecem assim. Mesmo porque eu tradicionalmente sou mais de sugerir do que de realizar: minhas limitações muiscais não permitiriam mesmo que fosse eu próprio a perfazer o que sonho para o criador de música brasileira. Então é transamba. Isso vai servir para engrossar o caldo.

CASERTA!

Eis a escultura que orna a fonte em frente à entrada do hotel de Caserta, em fotos tiradas por mim e por Giovana Chanley:

Mas Caserta não é só essa reprodução em alvenaria grosseira de alguma escultura clássica (será mesmo isso?). Caserta tem a Reggia (no pátio da qual foi o meu show), que é uma Transversailles (ou Trasversalhes): o palácio, os jardins, tudo é como uma Versalhes gigante - ou mais gigante. Os salões, os pátios, os quilométricos jardins, tudo é feito para extasiar. Transversal do tempo (para homenagear nosso tema central, que é a música popular do Brasil - e insistir na educação dos leitores para a absorção adequada do termo “transamba”), esse palácio é uma mega jóia barroca construída no século 18. Se houver pedidos, há fotos de tudo isso para mostrar: Giovana, minha assistente, é como os japoneses nos (tão citados hoje) anos 80: fotografa tudo.

P.S. já de Portugal: Muito importante a existência do disco “Transamba” de Marcos Moran e Samba Sete. Entrei no site brasilemvinil e fiquei maravilhado de ver a palavra já escrita ali. Pena que não deu para eu ouvir as músicas. Por que será? Será que é porque estou no Algarve? Vou perguntar aqui e vou postar um comentário depois. Por agora é só relembrar que minha “inspiração poética” já tinha chegado a outro. E em 1973! Para mim a palavra “transamba” fica reafirmada com a existência do disco de Marcos Moran. Não ouvi mas deu pra gostar do repertório, com muito Antônio Carlos e Jocafi mais o Partido Alto do Chico e o Pagode do Paulinho da Viola. Transamba ou transsamba: o prefixo trans, me informa Hermano, nunca pode ser seguido de hífen.”

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De volta à Revolução Cubana
21/07/2008 12:48 am

Caetano, ainda na Europa, não se esqueceu de sua promessa:

“Eu disse que voltava ao assunto:
Na Europa todos os jornalistas me perguntam sobre o caso Fidel. Eles sabem apenas que Fidel ralhou comigo por causa de uma canção sobre Guantánamo. Fico um tanto triste. Na verdade acho que Fidel não foi político ao me acusar de pedir perdão ao imperialismo americano e a chamar a atenção para um trecho de entrevista onde aparece crítica a Cuba (e reconhecimento dos conseguimentos civilizatórios dos Estados Unidos), em detrimento da canção em si, que é o que devia contar mais. Afinal uma canção é imediatamente ouvida e assimilada por muitos; uma entrevista, mal e mal por poucos. No nosso caso, a canção mostrou-se forte, arrancando aplausos entusiasmados em todos os shows do Obra em Progresso e repercussão na imprensa e um forte boca-a-boca. Com o evidente potencial de, uma vez gravada, tornar-se enormemente conhecida e mesmo amada. Já a entrevista nem era boa. Tive pequenos problemas com o modo como ela foi editada (sobretudo no que diz respeito à sucessão presidencial e à ausência de crédito a uma frase de Mangabeira), mas não especialmente no que se refere ao caso Fidel/”Base de Guantánamo”. Quanto a isso, sei que fui eu a me expressar de modo afobado e daí obscuro. Eu não queria receber aplausos fáceis da esquerda e ser tomado por um anti-americanista recém saído do armário. Não sou Neil Young. Nem quero ser o Mick Jagger de “Sweet Neo Con” or something: um inteligente neo-liberal (no sentido nobre do termo) como Jagger jogando para a galera num tom que, a despeito do acerto básico na apreciação da questão, soa demagógico. Minha “Guantánamo” não tem nada disso. O próprio estilo despido e enxuto (diferente aliás, quanto a isso, embora não quanto à sinceridade, do de “Haiti”, com que alguém aí, erradamente, a identificou) atesta uma atitude direta nascida de observação simples que levou a um estado de espanto indignado. Pareço um poeta concreto, fazendo boa crítica positiva do próprio trabalho? Ótimo. Adoro parecer um poeta concreto. Se o risco de a crítica estar muito aquém da que os pobres produtores das obras podem apresentar, para que falsa modéstia? Fidel poderia ter sido aconselhado por aqueles que, perto dele, ouvem música e pensam em cultura a calar o bico e deixar a canção fazer sua parte, com a entrevista relegada ao esquecimento. O resultado seria um renascimento da força afetivo-simbólica que a revolução cubana tem na mente da minha geração de latino-americanos. E até da imorredoura simpatia que a própria figura de Fidel arranca do nosso cerebelo. (Ou hipotálamo?) Mas não. Ele transformou o episódio numa manifestação anti-Cuba. Os europeus não conhecem a canção, só a fofoca de celebridades velhas do folclore político da América Latina: o Comandante contra o “ex-revolucionário” tropicalista. A ignorância! Mas insisto em que um país onde as pessoas precisam de permissão especial para viajar ao exterior não é o melhor exemplo de respeito aos direitos humanos. Ir e vir é simplesmente o mais básico destes. Deixa os frankfurtianos dizerem que a “busca da felicidade” é mais cruel do que o nazismo. Tou fora. Só espero que com essas declarações sinceras de amor (mesmo meio morto) pela revolução cubana, não venha agora ser a CIA a anotar que pedi perdão ao ditador. Mas acho que a CIA é menos grossa do que isso.”

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Música nova “Sem Cais”
18/07/2008 2:20 pm

Caetano toca “Sem Cais”, música que fez em parceria com Pedro Sá, guitarrista da Banda Cê.

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Caetano comenta “Falso Leblon”
18/07/2008 1:00 pm

Desta vez, para variar, comentários em texto sobre uma nova canção de Obra em Progresso, enviados da Europa:

“A primeira coisa que fiz em “Falso Leblon” foi a levada da bateria. Eu queria construir uma linha de baixo e, por fim, uma melodia em cima daquela levada. E de fato fiz as coisas nessa ordem. Sugeri algumas divisões rítmicas para o baixo, Ricardo as desenvolveu e multiplicou, disse a Pedrinho que encontrasse o lugar (e os timbres) dele entre esses dois elementos, e só então compus a melodia. Não que tivéssemos armado uma base completa a que eu somei a melodia depois. Isso tudo foi apenas uma série de breves exemplos de combinações possíveis. Feitos num ensaio. Eu cantava a batida do contratempo e do bumbo. Quando Marcelo experimentou na bateria de verdade, passei a cantar (praticamente sem notas) as frases do baixo. Quando voltei pra casa, depois do ensaio, esbocei a melodia. Vi que ela tinha uma semelhança com a de “Perdeu”: ambas são como clarinadas – o que combina tanto com o bandido de “Perdeu” quanto com o “eu” da letra de “Falso Leblon”: um som matinal e masculino, com gosto do que em inglês se chama lindamente de “morning wood”. São dois mundos. O do garoto favelado e o meu, isto é, o dos que compram as drogas que ele vende e têm opiniões cool sobre a violência no Rio. Aquela mesma divisão esquemática de “Tropa de Elite”. Mas, tal como em “Perdeu”, em “Falso Leblon” eu não tinha idéia do que iria pôr na letra mesmo quando a melodia já estava pronta. Para ser sincero, a única coisa que pensei que poria foi o nome de Francisco Alves, por causa da melodia tipo “Serra da Boa Esperança” da segunda parte da música. Quando vi, o resto estava se impondo. No caso de “Perdeu” percebi logo que o que estava saindo era um “Meu Guri” que, em vez de ser um ladrãozinho (como disse Vinicius quando teve a casa assaltada), era um chefete do tráfico. (Quando mostrei a música aos caras da banda, fui dizendo: é uma espécie de “Meu Guri”, e fiquei contente quando li aqui no blog – e na imprensa – que muita gente pensou a mesma coisa.) Mas as clarinadas de “Falso Leblon” anunciam uma manhã onde o sexo não perdeu o gosto pelo excesso (de atividade e, sobretudo, de poder) como em “Perdeu”, mas pelo clima de desesperança. Mal comparando, “Falso Leblon” está para “Perdeu” assim como os filmes de Antonioni estão para o neo-realismo. É uma crônica fragmentária sobre o Leblon Big Brother e o retrato de alguma menina tão bonita quanto auto-destrutiva. É também sobre o mundo das celebridades, o meu – e isso não vai sem uma expressão de alegria talvez para alguns injustificável. Em primeiro lugar, o título, que tirei de um dos versos que me ocorreram, me faz rir por ecoar a história (ou lenda) de que o bairro tem esse nome porque, como o Gantois na Bahia, ali foi a propriedade de uma família francesa, de nome Le Blond, ou Leblond (acho que há até um apart-hotel com esse nome), que quer dizer “o louro” (ou “o loiro”, como diria meu amigo paulista), o que dá ao título o sentido semi-oculto de “falso louro”, a bem dizer, um masculino para “falsa loura”. Depois há os fotógrafos (que ganharam, por causa do personagem de Fellini, esse nome de paparazzi). Eles por vezes irritam (embora se diga que muitas vezes eles são chamados indiretamente pelas próprias vítimas) mas não deixam de compor o clima de charme sinistro das esquinas de Ataulfo de Paiva com Aristides Espínola e principalmente da rua Dias Ferreira no trecho correspondente. Sinistro porque às vezes é assustador ver um cara surgir da sombra de uma parede, com um gorro preto e uma camera preta. Charme porque é parte do folclore do Leblon de hoje. Breve histórico do jornalismo de celebridades: nascido do fascínio brega inglês pela família real, expandido depois para as autoridades políticas e para esses clones de imperadores romanos de filme holywood que são os rock stars; ele, com uma pitada da fofoca chapa-beje da Hollywood do período dos grandes estúdios, cresceu na Espanha depois que Franco caiu e o rei voltou e, a partir da Hola espanhola, virou Caras argentina e, depois, brasileira, tudo isso sendo finalmente potencializado pelo advento da internet. O grau do meu desprezo por esse fenômeno eu meço pela ausência até de raiva em mim. Não que eu não tenha sentido raiva quando percebi que um desses espiões estavam criando problemas reais para mim. Mas o fato é que não desamo minha condição de celebridade. A vida pode oferecer milhões de caminhos para você encontrar situações de felicidade. Ser famoso não é um impedimento. De minha parte, não entendo muito bem quando leio que há que separar a vida pessoal da fama profissional, e, sobretudo, que devemos proteger nossos filhos desse mundo pecaminoso em que nos metemos. Somos atrizes dos anos 20 e 30 temendo que seus filhos sejam filhos de putas? E vejo Michael Jackson pondo burca nos garotinhos dele. Comigo não, violão. Há uma alegria em ser célebre. E é justamente por reconhecer isso que eu não sinto ansiedade em relação às situações inerentes à situação: eu entendo tão mal quem esconde os filhos quanto quem telefona para os sites de fofoca dizendo que está com Fulano de Tal no Sushi Leblon. Claro, quando se trata de gente direita, cada um encontra o equilíbrio que lhe é mais adequado. Mas essa onda anti-celebridade é apenas o outro lado da moeda dos sites de fofoca. Tou fora. E realmente detesto drogas. Subjetiva e objetivamente. Em mim e nos outros. Espero que algo dessas decisões internas apareça nos versos, nas notas e nos tempos de “Falso Leblon”.”

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Caetano toca música inédita “Falso Leblon”
14/07/2008 4:41 pm

Mais uma música inédita composta entre os segundo e terceiro shows da primeira temporada do “Obra em Progresso”.

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Transorvetão - de Ferrara a Istambul
9/07/2008 8:03 pm

De seu giro pela Europa e pelas bordas da Europa, Caetano manda mais notícias:

“Há quem diga aí que gostaria que eu escrevesse sobre os outros lugares por onde passo nesta turnê que interrompeu a Obra em Progresso ao vivo no Rio. Afinal, só a Rússia? Digo que os dois motivos que me levaram a comentar Moscou estão ausentes aqui: dias de folga (lá, tive quatro dias; aqui, nenhum ainda) e a novidade e relativo exotismo do lugar (aqui é Europa ocidental, Itália agora, lugares onde já vim dezenas de vezes). Embora esteja em Ferrara (a terra de Antonioni) pela primeira vez, vejo uma cidade italiana, com suas belezas particulares, é claro, mas dentro de um estilo conhecido. E não tenho tempo. Escrevo sem cuidado porque espero o avião para Istambul. Bem, vou ter um dia de folga lá ­ e Istambul é grande novidade em minha vida.

Mando duas fotos da única peça arquitetônica que encontrei em Ferrara capaz de rivalizar com a Catedral de São Basílio:

Eu próprio tirei as fotografias (assim como aquela do monumento a Pedro, o Grande, o Navegador etc.). Mas todas as outras fotos de Moscou (as melhores) foram tiradas por Giovana Chanley. Eu nunca tive uma câmera e quase nunca tiro fotografias. Lembro do tempo em que só os japoneses tiravam fotografia de tudo o tempo todo­ e nós achávamos engraçado. Bepe, nosso guia sardo na Itália, contou que os japoeneses da equipe que rodava um documentário sobre a Sardenha tiravam fotos de todos os pratos que iam comer nos restaurantes. Eu, que queria ser cineasta, acho chato quando se tira muita foto da gente nas praias, no carnaval, nas celebrações, porque parece que tudo perde o gosto. Não me vejo tirando foto do meu almoço. De fato, a interrupção do ritmo de uma situação pelos constantes arranjos para fotografar enche o saco. Há décadas que vejo coisas incríveis no carnaval da Bahia e me prometo levar uma câmera para registrar. Mas sempre deixo para o próximo ano pois não quero perder o carnaval. Fotografar ou filmar é como sair dali e olhar de fora. E parar para ser fotografado atrapalha.

***

Mas será que visões de Moscou, de Luxemburgo, de Istambul - ou a volta à Itália, à Áustria, à Espanha ou a Portugal - contribuirão com alguma coisa para as canções que tento continuar compondo para o repertório de “transambas”? Não sei. Sinto saudades dos shows no Vivo Rio. Hermano e Paulinha me contam que provavelmente, na minha volta, teremos muita atividade neste blog (acompanhamento dos ensaios e das gravações do disco) mas nada de show mais. A não ser que a gente tivesse deixado o CD para o ano que vem. Não era meu plano.

Como ouvi dizer que vamos também dar notícias da gênese de novas canções, conto agora que comecei uma que deve se chamar “Lobão tem razão” ou “Chega de verdade”. Já existe em parte, é transamba, e já contém as duas frases que lancei aí acima como candidatas a título.

***

Estou em Istambul - e foi aqui, num quarto enorme de hotel, todo envidraçado, de onde se vê o Bósforo (de onde virá o Pavel turco para dizer que está tudo errado?) e, naturalmente, o extremo oeste da Ásia. Aliás, voar de Roma a Constantinopla foi como reler o livro de Gibbon em menos de duas horas. Foi rever o que aconteceu nesta parte nuclear do nosso mundo desde Augustus até Maomé. E passando pelas guerras entre as facções do cristianismo, com Jorge de Capadócia odiado pelo autor (talvez por ser inglês ele teve mais gosto em desancar o padroeiro da Inglaterra), e, antes, pelas barganhas entre Roma e os bárbaros. Adoro os “alamanos” terem sido uma tribo germânica que se autodenominava assim, significando que eram “todos os homens”. E outra, da Gália, cujos indivíduos se chamavam de “francos”, significando que eram “livres”. Mas eu olhava pela janela do avião, emocionado, e pensava que o mais bonito é o estilo de Gibbon.

Mas Istambul não é só “Lobão tem razão” não. Depois, quando eu estiver de volta à Itália (ou quando eu já estiver na Espanha), eu conto.

***

De uma vez por todas: apesar da gracinha das fotos do sorvetão na Gelateria de la Luna, eu não acho a catedral de São Basílio cafona nem brega nem kitsch. Discordo de Gullar nesse ponto. Acho que disse tudo quando a chamei de transbrega. Mas não disse não. Ela é linda.”

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Caetano comenta “Perdeu”
9/07/2008 4:25 pm

“Não conta a história, porque é um pouco mais abstrata, entendeu? Você sente só aquele clima”

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