2008
Disse Caetano,ao dedicar essa canção à memória dos 3 rapazes que morreram na Mineira:
“Nós estamos aqui não longe do Morro da Providência, não longe da Favela da Mineira e fisicamente não longe e eu espero que também espiritualmente não estejamos, porque é trágico, é terrível e nós temos que virar esse jogo.”.
1978
Disse Clarice Lispector, no conto “Mineirinho”, escrito quando ela tomou conhecimento das circunstâncias em que a polícia matou aquele famoso bandido Mineirinho:
“É, suponho que é em mim, como um dos representantes de nós, que devo procurar por que está doendo a morte de um facínora. E por que é que mais me adianta contar os treze tiros que mataram Mineirinho do que os seus crimes.
(…)
Esta é a lei. Mas há alguma coisa que, se me fez ouvir o primeiro tiro com um alívio de segurança, no terceiro me deixa alerta, no quarto, desassossegada, o quinto e o sexto me cobrem de vergonha, o sétimo e o oitavo eu ouço com o coração batendo de horror, no nono e no décimo minha boca está trêmula, no décimo primeiro digo em espanto o nome de Deus, no décimo segundo chamo meu irmão. O décimo terceiro tiro me assassina - porque eu sou o outro. Porque eu quero ser o outro.”
Eu ainda não sei bem o que dizer sobre isso que em mim ecoa das balas, e ressoa da canção de Caetano, e percute do conto de Clarice. Apenas me pergunto a esse nós do fundo oco desse intervalo de 30 anos entre o que ela escreveu e o que ele cantou:
Um beijo, na linha do tempo-espaço: Magno,Molina, Odir, etc, etc, etc. Dionnara.
O SALÃO DO TRANSAMBA – LOBÃO
em 01.07.08
Eu me lembro daqueles olhos sangrentos
a contrastar com os meus
– de espanto.
Eu me lembro daqueles olhos.
Era um enigma ou uma interrogação?
Encontrá-los seria o mesmo que dizer:
desencontrar-se.
Nas vistas ao Rio,
onde repousaria todo des-saber.
Desencontrar-se no enigma
que me dispunha à decifração,
olhos sangrentos,
olhos sangrentos,
de toda espécie
de manifestação.
Que somente um marginal pode fazer.
Eis – me novamente marginal,
transeunte, bêbado,
putas ricas e pobres
todo mundo na Central.
Entre o gosto detestável, burguês,
e o morro à abrigar muitos,
mas muito mais,
mas muito mais
que dor.
A dor da gente é a das casas da favela
ao anoitecer,
milícias, tráficos, crianças com armas na mão.
E a favela toda sobe e desce,
desliza nas lamas
que compõem o chão.
Onde estão imersas as gentes,
sem estranhar à cena,
sem perguntar à cena,
incorpora o morro,
quando a noite cai.
Ai!
Quando a noite cai,
olhos de sangue,
acumulado de todas as gentes,
todos os continentes,
os marginais.
E, ali,
à deriva, vislumbra sol se pôr,
nenhum dissabor ou desgosto,
viver no meio da lama.
Sem afundar.
Porque nunca se acostuma
com as ordens da nação
composição
leitura.
A prisão habitaria todos os suspeitáveis,
todos os sentidos,
nos sete buracos
da cabeça
fendida.
E pode até ser que não.
E pode até ser que não.
As casinhas disformes, tortas,
sem muro, madeira puxando,
tijolo sobre tijolo,
as casinhas todas pintadas
à tinta pó –
abstrato substrato subscrito
mineirinho é o substrato abstrato que ouvi subscrito na voz concreta clara e era Clarice
sampler no meu nós de eu de eu de eu min hei!!! rinnnnnno!!!!!
não há quem possa dizer nome disso ou daquilo quando dói do não ser dito
possível passível do dizer
não diz isso não
diz isso nããão
o som de ouvir isso arrasta nas bordas a sombra de uma lâmina que passa desafiando os tímpanos
medo do tem que dar…
eu só sei que me deu uma alegria inesperada
será que clarice teria os peito igual ao meu? de mamilo marrom.
Caetano, mandei ontem um comentario mas devo ter feito algo errado pois ele nao aparece em lugar nenhum do blog. Vou escrever outro. A Enrica Antonioni perguntou muito por voce(voce nao esteve em ROma?) e estamos no nosso ultimo show em Montauban. Adorei seus comentarios sobre Transamba, e achei a palavra um achado.
bjs
Gilda
Julho 8th, 2008 at 9:43 am
o Guri de Caetano.
Julho 8th, 2008 at 10:33 am
2008
Disse Caetano,ao dedicar essa canção à memória dos 3 rapazes que morreram na Mineira:
“Nós estamos aqui não longe do Morro da Providência, não longe da Favela da Mineira e fisicamente não longe e eu espero que também espiritualmente não estejamos, porque é trágico, é terrível e nós temos que virar esse jogo.”.
1978
Disse Clarice Lispector, no conto “Mineirinho”, escrito quando ela tomou conhecimento das circunstâncias em que a polícia matou aquele famoso bandido Mineirinho:
“É, suponho que é em mim, como um dos representantes de nós, que devo procurar por que está doendo a morte de um facínora. E por que é que mais me adianta contar os treze tiros que mataram Mineirinho do que os seus crimes.
(…)
Esta é a lei. Mas há alguma coisa que, se me fez ouvir o primeiro tiro com um alívio de segurança, no terceiro me deixa alerta, no quarto, desassossegada, o quinto e o sexto me cobrem de vergonha, o sétimo e o oitavo eu ouço com o coração batendo de horror, no nono e no décimo minha boca está trêmula, no décimo primeiro digo em espanto o nome de Deus, no décimo segundo chamo meu irmão. O décimo terceiro tiro me assassina - porque eu sou o outro. Porque eu quero ser o outro.”
Eu ainda não sei bem o que dizer sobre isso que em mim ecoa das balas, e ressoa da canção de Caetano, e percute do conto de Clarice. Apenas me pergunto a esse nós do fundo oco desse intervalo de 30 anos entre o que ela escreveu e o que ele cantou:
quando? como? vamos virar esse jogo?
Julho 9th, 2008 at 4:33 pm
Um beijo, na linha do tempo-espaço: Magno,Molina, Odir, etc, etc, etc. Dionnara.
O SALÃO DO TRANSAMBA – LOBÃO
em 01.07.08
Eu me lembro daqueles olhos sangrentos
a contrastar com os meus
– de espanto.
Eu me lembro daqueles olhos.
Era um enigma ou uma interrogação?
Encontrá-los seria o mesmo que dizer:
desencontrar-se.
Nas vistas ao Rio,
onde repousaria todo des-saber.
Desencontrar-se no enigma
que me dispunha à decifração,
olhos sangrentos,
olhos sangrentos,
de toda espécie
de manifestação.
Que somente um marginal pode fazer.
Eis – me novamente marginal,
transeunte, bêbado,
putas ricas e pobres
todo mundo na Central.
Entre o gosto detestável, burguês,
e o morro à abrigar muitos,
mas muito mais,
mas muito mais
que dor.
A dor da gente é a das casas da favela
ao anoitecer,
milícias, tráficos, crianças com armas na mão.
E a favela toda sobe e desce,
desliza nas lamas
que compõem o chão.
Onde estão imersas as gentes,
sem estranhar à cena,
sem perguntar à cena,
incorpora o morro,
quando a noite cai.
Ai!
Quando a noite cai,
olhos de sangue,
acumulado de todas as gentes,
todos os continentes,
os marginais.
E, ali,
à deriva, vislumbra sol se pôr,
nenhum dissabor ou desgosto,
viver no meio da lama.
Sem afundar.
Porque nunca se acostuma
com as ordens da nação
composição
leitura.
A prisão habitaria todos os suspeitáveis,
todos os sentidos,
nos sete buracos
da cabeça
fendida.
E pode até ser que não.
E pode até ser que não.
As casinhas disformes, tortas,
sem muro, madeira puxando,
tijolo sobre tijolo,
as casinhas todas pintadas
à tinta pó –
e pode ser até que não,
o salão do transamba.
E pode ser até que sim,
o salão do transamba.
Julho 9th, 2008 at 11:57 pm
Na minha modesta opinião, de longe, a melhor da nova safra.
Julho 11th, 2008 at 12:42 pm
abstrato substrato subscrito
mineirinho é o substrato abstrato que ouvi subscrito na voz concreta clara e era Clarice
sampler no meu nós de eu de eu de eu min hei!!! rinnnnnno!!!!!
não há quem possa dizer nome disso ou daquilo quando dói do não ser dito
possível passível do dizer
não diz isso não
diz isso nããão
o som de ouvir isso arrasta nas bordas a sombra de uma lâmina que passa desafiando os tímpanos
medo do tem que dar…
eu só sei que me deu uma alegria inesperada
será que clarice teria os peito igual ao meu? de mamilo marrom.
Julho 11th, 2008 at 12:46 pm
seria melhor assim:
us peito igual us meu de mamilo marrom.
mamilo marrom. nunca tinha reparado no bonito que tem no bonito do dizer isso.
Julho 13th, 2008 at 1:05 pm
Belíssima canção. Cê se multiplica, faz tantas e diferentes letras e ritmos, que parece vários compositores. Grande abraço.
Julho 26th, 2008 at 2:47 pm
Caetano, mandei ontem um comentario mas devo ter feito algo errado pois ele nao aparece em lugar nenhum do blog. Vou escrever outro. A Enrica Antonioni perguntou muito por voce(voce nao esteve em ROma?) e estamos no nosso ultimo show em Montauban. Adorei seus comentarios sobre Transamba, e achei a palavra um achado.
bjs
Gilda
Dezembro 11th, 2008 at 2:58 am
linda
e triste
Dezembro 26th, 2008 at 10:47 pm
caetano,
nós, todos nós, VAMOS virar essa história. é nóis na fita, mano.