
| O GUARANI |
| 30/12/2008 5:28 pm | Postado por Obra Em Progresso |
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Fui com Tom e Cezar Mendes ao cinema ontem. Tom adora comédia e filmes falados em português (inclusive dublados: aos 8, 9 anos ele perguntava, ao ouvir canções ou diálogos de filmes em inglês: “pai, a gente tem que ouvir essa língua horrorosa?”). Ele queria ver “Se eu fosse você 2″ - tinha visto o 1 comigo e tinha adorado. Adoramos esse 2 também. Mas o importante é que foi no Espaço de Cinema Glauber Rocha, projeto de recuperação do Cine Guarani, sonhado por Cláudio Marques (acho que foi esse o nome que me disseram) e tornado realidade com a participação do Unibanco. Entrar no saguão e ver que os painéis de Carybé estão lá intactos foi comovedor. Quase todos os filmes que mais amo foram vistos pela primeira vez nesse cinema. Ele se chamava Guarani e, quando Glauber morreu, Antônio Carlos Magalhães mudou-lhe o nome para Cine Glauber Rocha - e pôs uma reprodução do grafismo de Rogério Duarte para o cartaz de “Deus e o Diabo na Terra do Sol” na frente. A homenagem era mais do que merecida: quando eu ia às matinais dominicais do Guarani, Glauber excitava a inteligência da cidade para o cinema e desprovincianizava Salvador. Nos artigos do Diário de Notícias, nas palestras pra lá de informais feitas antes de algumas projeções do Clube de Cinema de Walter da Silveira e, finalmente, nos filmes que passou a fazer, Glauber lançou o cinema consciente na Bahia e o cinema brasileiro no mundo. De forma indelével. Vi “Deus e o Diabo” lá. “Rocco e seus irmãos” e “No balanço da horas”. E a Praça Castro Alves é o ponto de vista ideal para a Baía de Todos os Santos e para o Carnaval. O Guarani se transformou agora num Centro Unibanco de Cinema Glauber Rocha com vista para a baía. Tem café, livraria, quatro salas com equipamento de som e imagem de primeiríssima e decoração elegante. Vou voltar lá na primeira semana de 2009, sem Tom, para ver “Gomorra”, que está na sala 1.
Cezar Mendes é um músico de nascença. Sem ter estudado com ninguém, ele ensina a todos. Ouve as harmonias e as reproduz sem nem pensar. Todos o conhecem dos trabalhos com Marisa Monte, sobretudo de sua partcipação nos Tribalistas. Também com Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes em trabalhos fora dessa banda-piada, que é o que, como os Doces Bárbaros, os Tribalistas foram em princípio. Cezar (é assim, com Z, que ele foi registrado) ama bossa nova e as grandes canções americanas dos anos 30. Mas foi ele a anunciar, na cerimônia do Prêmio Multishow no Theatro Municipal do Rio, a força artística de Pitty. Senti emoção muito forte ao ouvir o disco do Portishead com ele. Sem interesse por rock ou música eletrônica, Cezinha foi ficando impressionado com as relações entre as linhas melódicas cantadas pela Gibbons e as ondas de acordes que desenham riffs de gosto expressionista. Ele não perdia nem sequer um lance musicalmente interessante que pintasse. Comentou junto comigo o que havia de notável, surpreendente ou agradável na música desse grupo curioso. Cezinha é de Santo Amaro. Quando eu estava no fim da adolescência ele ainda era menino. Seu irmão, Roberto, é merecidamente famoso pela limpidez cristalina com que aborda (e transforma) todos os toques de chula e samba-de-roda do Recôcavo. Mas Cezar é o cara da sensibilidade harmônica. E do visceral bom-gosto musical. Ele não gosta de carnaval. Mas não deixa de perceber a musicalidade de uma cantora de trio se ela a possui. Ele gostou mais de “Zii e Zie” do que de “Cê”.
Perguntaram o que leio. É sempre sem método. Agora achei um posfácio de Luís Felipe de Alencastro na edição de bolso do “Coração das Trevas” de Conrad e aproveitei para ler a novela na lindíssima tradução de Sergio Flaksman (que, aliás, para meu orgulho, é avô dos meus netos). Por causa disso, peguei o exemplar de “Under Western Eyes”, que me tinha sido dado por Paulo César Sousa (uma das pessoas de quem mais gosto nesse mundo - e que é um grande tradutor de Nietzsche e de Freud, além de Brecht e outros alemães) e estou lendo, assombrado, essa história apaixonante que é, também, uma visão amarga sobre a Rússia - e uma profecia (que soa como uma reflexão a posteriori) sobre o Leninismo-Stalinismo. No meio tempo, olho a história da poesia brasileira de Alexei Bueno. O que ele diz sobre os poetas concretos de São Paulo no paralelo que faz entre estes e os parnasianos é simplesmente abominável. Sob qualquer ponto de vista. Aliás, já na introdução, embirrei com o português desse poeta respeitado e erudito. Sei não. Parece coisa ruim. Falo do que estou lendo esta semana. Não sobre o que li ao longo dos anos. Talvez depois. Feliz Ano Novo.
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| CHELPA FERRO E AVA ROCHA |
| 27/12/2008 3:16 am | Postado por Obra Em Progresso |
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O par de dissílabos era irresistível. É fato que fui ver Chelpa Ferro no Casa Grande e Ava Rocha na Cinemathèque. Mas vou começar comentando o show do Do Amor. Também na Cinemathèque, o Do Amor fez um show animadaço. Além de grandes covers do Devo, do Ween e de Pinduca, a banda tocou seu repertório próprio, sempre muito bem, e trocou de figurino três vezes. Eu ia escrever que, para quem pensa que em banda “indie” os caras ficam parados e sérios (aquela marra de “indie”), o Do Amor era um desmentido, mas vi hoje no Youtube uma sátira de Hermes e Renato (muito boa) sobre bandas indies que cantam em inglês e tocam carimbó: deixei pra lá. Mas “Pepeu baixou em mim”, a versão de “Lindo lago do amor” e a “Bicha” de Pinduca seriam exemplos perfeitos. Compadrio e amiguismo à parte, Benjão, Ricardo, Marcelo e Bubu tocam muito. Marcelo estava pra lá de Marraquexe. Ricardo lançou uma voz de criança estrangulada que arrasou. As guitarras eram extremamente precisas. Em meio a uma confusão dos diabos, os caras tocavam com rigor.
Tudo era para parecer travessura de garotos mas o show super bem preparado do Chelpa Ferro tinha mais o espírito de molequeira do que a bagunça do Do Amor. A primeira parte, com Jaques Morelenbaum regendo a colagem de trechos de peças clássicas feita pelos Chelpa não poderia ter parecido molecagem, mas quando os três componentes entraram, por trás de uma tela sobre a qual era projetado um vídeo de visual concretista, a decisão noise se explicitou. Os timbres, seus controles e a relação entre isso e as imagens de detalhes dos aparelhos eram chiques e bem combinados. O volume às vezes passava do suportável, sem nunca fazer dos ruídos musicais meros barulhos desprovidos de discernibilidade. Havia texturas ricas e intrigantes. Mas a reiterada repetição de uma estrutura que consistia em partir do quase vazio até chegar a clímaxes ensurdecedores desanimava o ouvinte de esperar surpresas maiores. Numa terceira ou quarta volta desse esquema, Barrão, Luiz e Serginho pareciam três meninos aprontando. Mas dava gosto ver o acabamento do espetáculo. A colaboração de dois artistas plásticos e um editor de cinema em favor da música tem resultado em arte livre e intensa, sem deixar de parecer a bricadeira de meninos que a deve ter inspirado.
Ava tem uma voz grave. Não de timbre cúprico como a de Bethânia. Nem de timbre limpo e nítido como a de Simone. Nem de timbre cavernoso como a de Ângela Ro Ro. A voz de Ava tem muito ar. Tem grave mais doce do que todas as citadas. Ava apresenta composições suas com parceiros diversos. São canções originais, com letras de beleza difícil. A banda que a acompanha soa bem e os arranjos têm inventividade e equilíbrio. A violoncelista canta com musicalidade mais segura do que a cantora. Isso acontece quando – num número a que a platéia reagiu como a um hit cult – eles apresentam “Pra dizer adeus”, de Edu Lobo e Torquato Neto, em ritmo de marcha-rancho. Ava parece muito amável para ser uma nova moça de voz grave a virar mito na noite. Mas carisma para isso ela tem.
Sou louco pelo Cascadura há anos. Chamava-se Dr. Cascadura. No CD mais recente, “Bogary”, a banda mantém o charme Rolling Stones dos primeiros discos, mas a sonoridade pesada tem textura de Queens of the Stone Age. É muito bem feito. Cascadura é uma banda baiana (merecedora da tradição soteropolitana que vai de Raul Seixas a Pitty) que já existe há anos e que leva quem a ouve a se perguntar por que é que ela não se tornou conhecida como deveria. Fábio canta de um jeito de causar inveja a cantores de rock brasileiros (e latinos em geral): emite a voz como se fosse alguém de língua inglesa e ainda pronuncia as palavras de modo a nos levar a crer tratar-se de um cantor americano. Seu timbre e seu fraseado são tão diferentes dos de Mick Jagger que no tempo em que a banda soava mais como os Stones isso conferia grande originalidade ao som, produzindo uma combinação de base keithrichardiana com canto mais melódico e de sonoridade quase R’n'B. Sob certo ponto de vista, ele é mais musical do que Jagger. Não sei se nos discos antigos eles já usavam auto-tuning como fazem agora. Creio que não. (Estou na Bahia e não sei se deixei o outro disco deles no Rio – quando estava lá não sabia se o tinha deixado aqui.) De todo modo, funciona muito bem com o jeito de Fábio cantar. O produtor andré t (que eu conhecia do disco de Rebeca Matta) participa como músico e deve ter contribuído muito para a criação do som massudo de “Bogary”.
Aqui, embora essa gente toda seja baiana, não há compadrio nem amiguismo: não conheço pessoalmente nenhum deles. Suponho até que seja gente que nem liga para o que eu faço (o que, em muitos casos, é simplesmente ótimo). Fico feliz de poder mencionar esses grandes merecedores de atenção porque assim Glauber Guimarães vê que eu sei que a Bahia não pode nem parecer ser só música de carnaval. Não posso deixar de dizer a Glauber que a partir da faixa “Elnora” comecei a pensar em quão injusto é fingir-se que Lulu Santos é “pop” e que o “verdadeiro” rock brasileiro não lhe deve muito.
Há um erro de português (desses que me incomodam) logo no título de primeira canção do CD do Cascadura: “Se alguém o ver parado” em vez de “Se alguém o vir parado” (ou, em outra aceitável hipótese, “Se alguém o vê parado” – mas a letra da música não autoriza esta última). Não vou encher o saco com meu nhem-nhem-nhem detalhista sobre por que é errado e por que me incomoda. Outro dia. Por ora, basta dizer que há coisas bem bonitas nas letras do Cascadura: “Juntos somos nós // Sós não somos não” (de uma canção que, aliás, eles dedicam a um casal de Porto Alegre, provando que a verdadeira Bahia – do rock – é o Rio Grande do Sul); “Em tua forma sadia escondes de modo eficaz // A fisgada da ferida que me é tão familiar” – este par de versos são da canção “Caim”, que começa assim: “Vou te pôr no meu lugar pra ver como você se sai”.
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| POST (MAS A VOTAÇÃO CONTINUA LÁ) |
| 16/12/2008 5:48 am | Postado por Obra Em Progresso |
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Hurtmold é muito bom. Texturas densas, contrastes bem criados, leveza clara, peso encorpado brilhante. Raramente a gente é levado a pensar tão exclusivamente no som. Contei aqui que gostei do disco de Marcelo Camelo, mas ontem no Canecão, com as muitas meninas bonitas e os alguns caras bacanas cantando tudo com ele – e o som do Hurtmold nunca sendo engolido, nítido que é – fiquei ainda mais bem impressionado do que já estava. Quando o show estreou em Pernambuco, li num jornal de Sampa que devia-se ao Hurtmold a grande diferença entre o disco de Camelo (que, segundo a crítica, era chato) e o show de Camelo (que, segundo a crítica, era bem melhor). Quem lesse aquilo ia pensar que a banda não estava no CD. Mas o fato é que o show é igual ao disco, inclusive pela definidora sonoridade (e competência) do Hurtmold. Claro que ver os caras tirando aquele som na cara da gente produz um impacto maior. Mas isso acontece com qualquer grupo que toca bem ao vivo. Camelo também impressiona muito tocando violão e guitarra. É muito natural o senso de tempo dele, a pegada, a relação entre cantar e tocar. O jeito direto e muito masculino dele se comportar no palco é outro elemento da concentração que o espetáculo impõe. Por um momento, por um período, Marcelo Camelo é a estrela solitária da canção popular brasileira – como no tempo em que uma estrela, para sê-lo, precisava ser solitária.
Ouvi de novo (e melhor) Little Joy – o projeto que Rodrigo Amarante vem tocando com Fabrizio Moretti e acho que aquela bonitinha que estava com eles em Los Angeles quando eu fiz o pior show da temporada do “Cê” – e depois fomos para o mais hilário restaurante “brasileiro” do mundo. O CD é fenomenal. As comparações que vi publicadas entre o trabalho de Amarante e o de Camelo são tão idiotas que a gente tende a querer evitar até pôr os nomes dos dois na mesma página. Mas seria tão artificial fingir não notar que os Hermanos dominantes estão insinuando caminhos próprios ao mesmo tempo que isso não seria menos ridículo do que os disparates das comparações. Resumidamente, o que me parece é que Camelo estruturou um “trabalho solo”, no sentido em que Ney Matogrosso ou Sting o fizeram: exibindo seu gosto pessoal e adensando sua persona autoral. O que traz os riscos conhecidos. A meu ver, ele se pôs logo acima dos piores desses riscos. Mas resta uma gota de expectativa de ser tomado a sério. Uma gota a mais do que a que já havia nos próprios Hermanos pós (e algo anti) “Ana Júlia”. Já Amarante, participando de uma nova banda – e meio estrangeira – , já sai por uma vereda que o liberta dos perigos da super-autoria e do tomar-se a sério demais. Os temas de Little Joy são musicalmente próximos da “música adolescente” da época em que havia música adolescente: fins dos 50, começo dos 60. O capricho e a inspiração são tão evidentes quanto no caso de Camelo, mas essa marca estilística (teen late 50’s e early 60’s) e o fato de passar a ser membro de uma outra banda quebram qualquer empostação. Bem, o show de Camelo conquistou a juventude – e com isso já teve a empostação quebrada. Mas é quase evidente que o oposto não acontecerá com Amarante. O fato é que ambos, para nossa alegria e nosso orgulho, estão enriquecendo suas vidas e a história da música popular no Brasil. Esperemos Little Joy chegar até aqui.
Vi e ouvi, na MTV, Karine Carvalho cantando “Tatuí” com 3 na Massa, banda pernambucana/paulistana, e achei sensacional.
“Zii e Zie” (ou “zii e zie”) ia ficar só com 12 faixas. Mas, pelo poder dos meus filhos Moreno e Tom, voltou a ter 13: ambos querem “Diferentemente” na tracklist (track, sim: faixa: gosto demais dessas palavras para designar as unidades que compõem um LP, um CD, um álbum). Quem acha enjoado disco longo resigne-se. Eu mesmo acho. Embora não ache chato canção (ou faixa) longa.
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| SIFU? |
| 6/12/2008 10:35 pm | Postado por Obra Em Progresso |
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Não me incomoda muito que o presidente da república tenha usado a expressão “sifo” num discurso no Rio. Conheço pessoas que estavam lá e ficaram revoltadas. Dou-lhes razão. Mas não me abalei muito. Me aborrece mais que todos os jornais do país, ao contar a história, tenham grafado “sifu”. Não entendo a razão. Me parece que assim os jornais mostraram no mínimo tanta vulgaridade quanto Lula. “Sifu”, assim escrita, é uma palavra oxítona. O “u” final cria o problema. Ele entrou aí porque palavras relativas a sexo são vistas como sujas: não têm história. O verbo que está abreviado na segunda sílaba da palavra composta não contém a vogal “u”: é “foder”. Mas leio até em livros eruditos “culhão” no lugar de “colhão”, “buceta” no lugar de “boceta” e “fuder” no lugar de “foder”. “Sifo” é, assim escrita, a palavra paroxítona que o presidente pronunciou - e sua segunda sílaba é a primeira do verbo abreviado. Escrevê-la com um “u” é transformar a primeira página dos jornais brasileiros em parede de banheiro suja de parada de ônibus. Este sou eu: apesar das incertezas a respeito da origem do uso da palavra “veado” para designar “homossexual do sexo masculino”, me sinto mal quando vejo escrito “viado”. Millôr Fernandes escreveu que quem escreve “veado” está dando provas de que é um. Acho que adoro dar esse tipo de prova, pois só grafo “veado”. Primeiro porque sou adepto da tese de que se está dizendo o nome do animal e não algo derivado de “desviado”. Depois porque, na dúvida, preferiria manter a mesma atitude que exijo em relação a “boceta”, “colhão” e “foder”. Cariocas e baianos não escrevem “chuveu” nem pernambucanos, “cibola”. Não. “Sifu” é uma indecência oxítona que a imprensa consagrou.
Implico com a mania - que começou nos anos 70 com a poesia marginal - de se ecrever “homi” (como em “os homi”) em lugar de “home”. Supostamente estão transcrevendo a fala de gente do povo, que não pronuncia o eme final. Leio isso em romances e poemas - até em ensaios. Alguns põem o circunflexo: “os hômi”. Esses ao menos evitam o oxítono fatal. Mas criam uma complicação desnecessária. Suponho que evitam “home” porque os (ainda poucos) brasileiros que lêem iriam pensar tratar-se da palavra inglesa que significa “lar”.
Este blog e os shows em que fui mostrando as canções são a exposição do trabalho que sairá em disco no ano que vem. Só “Menina da Ria” (uma canção singela e gozada) não é conhecida de quem quer que freqüente estes chats aqui. Quando eu disse que o projeto pretende um aprofundamento da experiência de “Cê” não estava anunciando uma radicalização no sentido das aparências de indie-rock, mas um aprofundamento do trabalho que iniciei com Pedro, Ricardo e Marcelo. Com essa mesma formação, enfrentar desenhos rítmicos do samba tem sido, para nós quatro, uma aventura maior do que seria confirmar expectativas de definição roqueira mais “pura” no meu trabalho. Marcelo, Ricardo e Pedro não escreveram aqui até hoje porque não quiseram. Mas eu posso dizer que eles estiveram sempre entusiasmados com o que vimos fazendo. A verdadeira Bahia é o Rio Grande do Sul. O sul é um mercado mais voltado para a cultura pop de língua inglesa do que o resto do Brasil. O centro-sudoeste compra sertaneja (mas também axé). Do Rio para cima, pelo litoral, axé (mas também sertaneja), pagode, rock brasileiro moderno, pop brasileiro moderno (odeio a denominação MPB). O cinema brasileiro também tem muito menor penetração no sul do que no resto. Então, para a moça que assina Joana: “zii e zie” não será ir mais fundo no que há no “Cê”, mas ir a lugares aonde o “Cê” não foi. Já comentei aqui que o crítico Ben Ratliff disse no NYT que as letras do “Cê” eram as minhas melhores em 20 anos, sei lá. Que mexi com ele, em Nova Iorque, dizendo que ele nem sabia português. Mas que agora penso que ele tinha razão, de certa forma. A concisão quase saxã do “Cê” não se encontra em meus textos de antes nem de depois desse disco. Mas é porque eu não quero.
Fui ao Mistura Fina ver o show de Luie, Liminha e Dádi. O artista era o Luie. Mas o trio (que depois ainda trouxe, de quebra, Cesinha na bateria) também parecia constuir um gênio musical. Luie é um cara da geração do Dádi. Eu o conheço desde os anos 70. É um desses caras que se apaixonaram, talvez desde a infância, pelo repertório de estilos que ganhou o mundo sob a rubrica “rock”. Fiel a suas eleições, ele só cantou em inglês - e só clássicos do rock’n'roll, dos blues, do country e de todas as misturas desses três elementos. Eu, que desenvolvi meu gosto de modo totalmente diferente, fico maravilhado quando vejo alguém assim. Luie tem musicalidade e feeling genuínos, ele canta de dentro da verdade daquela cultura. Não se trata nem de perfeição na imitação (o sotaque, por exemplo, não é limpo de brasilidades) mas de identificação profunda com a sensibilidade e a poesia daquele mundo. Além disso, ouvir “Dead Flowers” ou “Wild Horses”, “Like a Rolling Stone” ou “Hey Joe” é reviver os anos iniciais de minha tardia descoberta da energia histórica do rock (sou joãogilbertiano antes de tudo). Liminha (que tocou comigo em 1968, quando ele tinha 17 anos!) é o que sempre me pareceu: um músico grandioso. Dádi (que tocou comigo nos anos 90 e é uma das pessoas que mais adoro neste Rio de Janeiro) é um contrabaixista deslumbrantemente culto de tudo aquilo que Luie representa: ele toca baixo como se fosse uma extensão das guitarras de Luie e Liminha, com toda a manha, todo o sentimento daquele tipo de música. O trio soava tão bem que parecia que o equipamento de som era o melhor já montado em Tóquio. Fiquei emocionado.
Escrevi que postaria quando os comments chegassem a duzentos há dois posts atrás. E cumpri. Agora é esperar a liberação de “Incompatibilidade de gênios” por parte da editora de Bosco&Blanc.
QUERO “PÓ PARÁ COM O PÓ” CANTADO POR IVETE, DANIELA, CHICLETE, ASA, JAMIL E QUEM MAIS
Salem, você também lê meus pensamentos. A música de Nelson Cavaquinho que eu mais canto em casa é “Rugas”. E gosto mais de Nelson do que de Cartola, se é que se pode falar assim. Eu o conheci bastante e ele, com aquela cor de cerâmica e cabelos prateados, era o caboclo mais lindo. Penso o mesmo que Egberto. No mínimo. Nando lembrou certo: falei sobre o violão de Nelson para ilustrar aquele argumento. Já ouvi João Gilberto cantar “Rugas”. De lascar. Três beijos na sua testa.
Adoro Radiohead. Thom Yorke canta muito e a banda é boníssima. Não creio que Milton se entusiasmasse com eles, mas há algo de Minas ali sim. Como sou baiano, muitas vezes prefiro até Arctic Monkeys, pela linhagem mais seca, que vem de Sex Pistols, Nirvana, Strokes - e o eterno disco dos Pixies na BBC. Radiohead é muito líquido. O som é muita água e o texto é muito obscuro, muito “não quero que você me entenda”. Mas é um grupo refinado e caprichado. Lindo de se ouvir. Acho que não vou ao show da Madonna, mas ao do Radiohead eu quero ir.
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| 273 comentários » | Assuntos: Dádi, Liminha, Luie, Nelson Cavaquinho, oxítonas, Radiohead, rock, The Three Amigos — |
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