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PRETUBOM PSIRICO FANTASMÃO PARANGOLÉ
29/01/2009 4:45 am

A melhor coisa do mundo é pagode baiano. Eu sempre achei que o Tchan ia dar em riquezas. Harmonia do Samba. O ensaio do Psirico. Um ensaio do Psirico é sempre o bicho. Colagem de performances com percussão preciosa. Aquela música do “cabelo fica massa, êta, fica massa”, do Pretubom é o que há de bom. Kuduros de Fantasmão e Márcio Vítor: sempra a volta à chula. Quem diria que a chula do Recôncavo seria revitalizada pelo carnaval criticamente desprezado das ruas da Bahia? “Pretos da nova geração”. “Empurra, Piatã!”. As mil variedades de tratamento de uma mesma célula ritmo-harmônica, como nos blues. Uma evidência de energia crescente. E Márcio Vítor ainda canta “Samba da Bênção” e “O que é que a baiana tem?” pra deixar claro que tem consciência da linhagem a que pertence sua música.

Jorge Luis Borges escreveu que a piedade que o padre Bartolomeu de las Casas teve dos índios levou à escravização de negros africanos, o que nos deu os blues, Louis Armstrong, a habanera (avó do tango) e “a deplorável rumba ‘El manicero‘”. Sem sequer referir-se ao Brasil na sua lista do legado africano às Américas (o que é, em si mesmo, um escândalo), Borges exibe seu ódio pela canção que inspirou Caymmi em “O que é que a baiana tem” (onde Dorival mais expõe o parentesco com a música cubana que ele sempre disse que o samba da Bahia tem). Eu, que sempre adorei “El manicero” (mesmo antes de ouvi-la com Bola de Nieve), gozo ao ouvir as chulas estilizadas dos novos grupos de transpagode soteropolitano.

Amada Exequiela, para que brasileiros e argentinos entendamos esse desprezo de Borges pelo Brasil, transcrevo aqui trecho do romance “Recordações do Escrivão Isaías Caminha”, de Lima Barreto - escritor brasileiro do iniciozinho (eu amava quando se escrevia inìciozinho) do século 20:
“Nascera a questão dos sapatos obrigatórios de um projeto do Conselho Municipal, que foi aprovado e sancionado, determinando que todos os transeuntes da cidade, todos que saíssem à rua seriam obrigados a vir calçados. Nós passávamos então por uma dessas crises de elegância, que, de quando em quando, nos visita. Estávamos fatigados da nossa mediania, do nosso relaxamento; a visão de Buenos Aires, muito limpa, catita, elegante, provocava-nos e enchia-nos de loucos desejos de igualá-la. Havia nisso uma grande questão de amor-próprio nacional e um estulto desejo de não permitir que os estrangeiros, ao voltarem, enchessem de críticas a nossa cidade e a nossa civilização. Nós invejávamos Buenos Aires imbecilmente. Era como se um literato tivesse inveja dos carros e dos cavalos de um banqueiro. Era o argumento apresentado logo contra os adversários das leis voluptuárias que aparecem pelo tempo. A Argentina não nos devia vencer; o Rio de Janeiro não podia continuar a ser uma estação de carvão enquanto Buenos Aires era uma verdadeira capital européia. Como é que não tínhamos largas avenidas, passeios de carruagens, hotéis de casaca, clubes de jogo?”

Lima Barreto era mulato e é o mesmo autor da obra-prima “O Triste Fim de Policarpo Quaresma”, que entrou na quase-discussão entre Gil e Heloisa.

Alexei Bueno está errado quanto aos concretistas.

Será que Luedy não leva em conta minha afirmação de que as regras também são criadas pela multidão, pela necessidade prática de se comunicar? E: o sucesso do professor Pasquale (que, aliás, diferentemente dos linguistas que o agridem, nunca disse mal de nenhum deles) e da professora Maria de Lourdes (a da Tarde) não é prova de que “eles, sim, é que jogam para a platéia”, mas de que “a platéia” está sedenta de saber sobre a engrenagem da língua. É um sucesso legítimo. O insucesso (popular!) dos linguistas é que nos leva a pensar quão esnobe é o igualitarismo deles.

Adoro “Lígia” e creio que João canta a letra que Tom escreveu sozinho. Depois é que ele chamou Chico para refazê-la. Amo de qualquer jeito. E também acho legal a negação (”denegação”, diriam os freudianos). Acredito no que a irmã dele contou. Quando esses discos mais “sinfônicos” sairam, eu não fiquei muito atraído: era um ardoroso fã de “Brigas nunca mais”, “Saudade fez um samba”, “Outra vez”, “Se é tarde, me perdoa” - sentia pena de ver Tom parecer considerar menores essas maravilhas e querer ser Villa Lobos. Depois envelheci e até esse senão desapareceu. Mas ainda gosto mais desses sambinhas perfeitos. Embora neste momento goste mais ainda dos sambinhas imperfeitos ou mais-que-perfeitos dos grupos de transpagode baiano.

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TRANSTUDO
22/01/2009 2:00 pm

Indo para Santo Amaro com meus filhos no sábado da festa de Reis, passou por nós um caminhão de transportadora – um desses caminhões imensos – em cuja carroceria metálica e fechada estava escrito em letras grandes: TRANSTUDO. (Será que decidiram se fica “caminhão” ou “camião”? – preciso comprar um desses folhetos que instruem sobre o “acordo”: me vêm muitas perguntas sobre coisas que nunca vejo mencionadas nas reportagens.) Lendo essa palavra pensei em nosso blog aqui e nas canções do Zii e Zie, de que tão pouco falamos. “Já temos um passado”, lembrou um amigo. Gostei de ler isso. E, com mais cuidado do que o que pude ter quando postei comment respondendo a Luedy (quer dizer: sem tantos typos e erros de ortografia) desejei escrever aqui no cabeçalho um texto rapsódico no qual se misturassem a pergunta pelos motivos da ausência de Eloísa (a quem peço desculpas por voltar a pôr acento agudo no nome: volta e meia me vejo escrevendo “Antônio Cícero” em vez de Antonio Cicero, assim como tenho que fazer força para escrever “Candido” – e ouvir “Cândido” com meu ouvido interno – , mas é que imagino sempre como seria absuro escrever Jose em vez de José, ou Josue em vez de Josué, ou Tomas em vez de Tomás – e volto a querer que os nomes próprios sejam acentuados segundo a regra geral de acentuação a que se submetem os nomes comuns – mas é claro que entendo que as pessoas assinam como foram registradas – e que admitimos pronunciar “cândido” ou “Antônio” quando lemos “candido” ou “Antonio” – que, a rigor, assim escritos seriam dois paroxítonos – , mas nunca esperamos que o funcionário responsável pelos resgistros escreva Jose ou Tomas ou Josue), a reiteração do protesto contra a ideia de que estamos proibidos de dizer o que quer que pareça ser contra Lula (é horrível quando se parte do princípio de que um governante não pode ser criticado), as imagens que me ficaram do romance “Under Western Eyes”, de Joseph Conrad, e a importância que teve a leitura de um livro chamado “A vida como performance”, do crítico inglês Kenneth Tynen, presente de Thiago Felix, um novo (e muito jovem) amigo baiano, que está escrevendo ele próprio um livro, e que gosta de citar não-sei-quem que disse que quem só lê clássicos e obras-primas é porque não gosta de literatura. Mas, além de ter que aguentar (sem trema) períodos com maior número de travessões do que um texto de Nietzsche, como o que está entre parêntesis aí acima, o pobre companheiro de obra aqui teria que sofrer mais do que alunos como o Luedy em aulas de análise sintática ou como eu em aulas de matemática. Daí decidi voltar a seguir o conselho de uma sábia amiga nossa e separar o papo em tópicos e os tópicos em parágrafos entremeados de espaços brancos.

A Bahia era parte da região leste quando eu era estudante. Com Rio e Espírito Santo. Passou a ser oficialmente Nordeste durante da ditadura militar, creio. Salvador e o Recôncavo têm cultura e sotaque particulares, diferentes dos do nordeste (embora, com a grande imigração que inchou a cidade, venha soando mais e mais nordestina: os “dis” e os “tis” de Daniela Mercury me soam muito pouco palatalizados, quase como se ela fosse de Serrinha, mas ela é soteropolitana). O estado da Bahia é grande como a França. O sul tem, na zona cacaueira, ecos do sotaque sergipano dos seus primeiros “colonizadores”. Mas para o sudoeste já estamos em ambiente meio mineiro meio capixaba. O oeste e o noroeste têm parentesco com Minas, Goiás e Tocantins. O norte é nordestino.

Joaldo é de Araci. Conversamos em Santo Amaro mas estava muito barulho e não deu para eu medir o grau de palatalização dos seus “dis” e “tis”. Passei um tempo em Serrinha quando criança, no final dos anos 40 (Araci era um distrito de Serrinha): deixei de ver o eclipse total do sol por isso (em Santo Amaro todo mundo viu). Eu vivia com tosse e muito franzino, daí me mandaram para os ares secos do sertão: meu primo Edmundo morava lá – acho que minhas primas Silvinha e Leda ainda moram.

Uma moça
De lá do outro lado da poça
Numa aparição transatlântica
Me encheu de elegante alegria
(Ai, Portygal, ovos moles, Aveiro)
Menina da Ria
Menina da Ria
Menina da Ria

E uma preta
(Parece que eu estou na Bahia)
Tão Linda quanto ela, dizia
No seu português lusitano:
“Pode o Caetano tirar uma foto?”
Menina da Ria
Menina da Ria
Menina da Ria

Arte Nova, um prédio art-nouveau numa margem
Em frente à marina-miragem:
Os barcos na Ria. E depois

Uma taça sobre o pubis glabro, um estudo
Nenhum descalabro se tudo
É sexo sem sexo em nós dois
Menina da Ria
Menina da Ria
Menina da Ria

Sempre hesito ao tentar pontuar uma letra quando a copio (raramente escrevo toda antes de ir cantando). Às vezes desejo fazer como João Cabral, que pontuava seus poemas segundo as regras de pontuação da prosa. Às vezes quero ser como Oswald, que quase não pontuava. Termino na terra-de-ninguém entre o uso de pontuações pesadas no meio do verso e a ausência de pontuação onde a mudança de linha parece fazer as vezes de vírgulas e pontos. Bem, a maluquice acima é a letra de “Menina da Ria”. A música, só depois. Mas não é que as outras letras sejam menos malucas. Se alguém quiser, explico de onde vem e o que significa a expressão “do outro lado da poça”.

“Gomorra” é um Cidade de Deus sem Hollywood. Bem, dito assim parece que não fica nada. Mas fica a magnífica tradição visual do cinema italiano. Os atores são o bicho. O filme é belamente fotografado e dirigido. Os ambientes desolados, o conjunto residencial que parece uma prisão, a feiúra e vulgaridade das pessoas, a amargura da vida humana – tudo captado de modo a resultar num belo filme. A última frase escrita sobre a imagem do trator que, como um carro alegórico (que aqui mereceria o nome), levanta para os céus os corpos dos dois garotos mortos, diz que a Camorra ajudou a financiar a construção das Torres Gêmeas. Informação relevante. Mas me senti mal ao pensar nisso em casa. Quanto ressentimento dos Estados Unidos tem a esquerda européia! Será que é paranóia minha ver aí um desejo de veladamente louvar (ou ao menos justificar) os fanáticos que enfiaram os aviões no World Trade Center?

Luedy, me desagrada muito ver as regras da língua tratadas como se fossem opressão da classe dominante. Nós não temos declinações porque isso se rarefez no latim vulgar e desapareceu na formação das línguas modernas. Não foi uma aristocracia nem uma casta de gramáticos que impôs tais mudanças, mas a força do homem comum, da multidão iletrada. Por que idealizar quem hoje diz “dois pão” ou “nós vai” e demonizar o homem do passado que construiu a língua usando-a? Dentro de cada língua moderna as mudanças foram quase exclusivamente ditadas pelo uso do homem comum, do povo, da multidão. É esse trabalho anônimo e grandioso que é desrespeitado quando vocês dizem que a norma é arma de dominação da elite.

As regras de concordância (e as outras) foram criadas no uso. São os próprios linguistas que o dizem.

O entusiasmo ingênuo com a manipulação política da linguística corre o risco de cevar uma atitude arrogante. Um grupo de linguistas lulistas se sentiria no direito de agredir os humildes professores de gramática e os humílimos curiosos vocacionados para o entendimento da engrenagem da língua (que os há muitos: Luedy tinha horror à análise sintática e eu tinha horror à matemática, mas os cursos não devem ser feitos contemplando preferencialmente os não vocacionados: escola tem de ser chato em algum nível, não acho que ela deva rivalizar com o parque de diversões, o cinema americano e os momentos de dengo com os pais). E vamos deixar Eça em paz e parar de fingir que alguém exige de escritores e jornalistas que evitem a próclise. Me deem um tempo.

Possenti, eu também não acho que Lula deveria necessariamente fazer curso universitário. Quanto à formação básica, acho que ele fala muito mais bonito do que Collor, por exemplo. (E tão feio quanto FH. Este e Lula criam sempre algum constrangimento quando falam de improviso como presidentes. Constrangimento por razões tanto estilísticas quanto temáticas. Mas, que fazer? Demos graças aos deuses por essa dupla da esquerda uspiana – em coligação com a CUT e a Fiesp – ter chegado ao poder no Brasil, antes – ou melhor, logo depois – que algum aventureiro lançasse mão.) E acho que Lula (como ele próprio diz, com mais ou menas graça) ampliou seu repertório, isto é: estudou um tanto. Mas gosto muito mais do português e do jeito de pensar de Marina Silva. Ele pode ter a manha de manutenção do poder (uma virtude em talentos políticos), mas ela tem mais elegância intelectual (isso também pode ser virtude política).

Faço este post-anaconda porque perdi comments bacanérrimos (bem mais soltos – estava num momento jovial) e necessitei responder a vários estímulos. Os dois primeiros parágrafos já estavam prontos faz algum tempo. Depois me enrolei no tempo dos comments perdidos e dos assuntos acumulados. Desisti várias vezes. Recomecei. Não pude cortar (é o mais difícil). E ainda fiquei com pena de não ter espaço para mais do que simplesmente dizer que os pesos e medidas violentamente desproporcionais usados pelo governo Lula nos casos dos atletas cubanos (que pediram asilo e foram mandados de volta em avião venezuelano) e o do guerrilheiro italiano condenado em sua pátria por quatro assassinatos (ou execuções…). Não gosto desse clima. É nessas horas que me sinto um liberal inglês.

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EDITH DO PRATO
11/01/2009 4:42 am

Foi muito emocionante ver Paulinho Daflin segurando o caixão de Edith Oliveira ontem. Ele veio para Santo Amaro para ficar perto do samba-de-roda, da chula, do violão de Roberto Mendes e de todos os mestres anônimos que, para além do mestre maior, Gilberto Gil, ajudaram Roberto a construir e refinar seu estilo. Paulinho tinha vindo para ver e ouvir - e terminou vivendo em Santo Amaro por consideravelmente longo tempo. Já faz longo tempo também que ele deixou a cidade. Comove ver o quanto essa cultura - que Edith encarnava - pode atrair jovens guitarristas brasileiros de toda parte. Havia muita gente no enterro. A maioria era de Santo Amaro mesmo. O grupo Vozes da Purificação cantou na capela. Paulinho Daflin segurou a alça do caixão ladeira acima. (Como eu me lembrei de Carlinhos ao sentir a brisa do alto do cemitério, aonde ele sempre nos chamava para conversar, fugindo do calor! Carlinhos era o filho mais velho de Edith, meu irmão-de-leite, a razão de ela ter podido me amamentar quando o leite de minha mãe rareou. Luciano, o filho mais novo, estava lá. Carlinhos, infelizmente, morreu muitos anos antes de sua mãe).

Edith viveu 94 anos. Sempre foi alegre e gostava muito das coisas da vida. Para olhar-se no espelho e conferir se a roupa estava boa para ir à praça numa noite de novena, ela percutia com os lábios uma batida de samba e dava uma dançadinha, batendo com as mãos nos quadris: não se reconheceria parada e séria. Tocava o prato-e-faca da história do samba (mesmo no Rio, há velhos que lembram das rodas antigas em que às vezes alguém tocava prato; Moreno, meu filho, é um excelente tocador de prato, inclusive tendo tido de repetir o samba em 5 por 4 que tocou em minha “13 de Maio” para uma gravação de Fiorella Manoia: o prato no samba antecedeu Edith e sobrevive a ela, mas todo esse passado e todo esse futuro veio a depender dela: não é natural para nós, seus parentes, chamá-la - ou ouvir chamarem-na - Edith do Prato, mas sabemos que não é descabido).

Jorge Portugal e Roberto Mendes estavam conversando lá atrás, entre uns jazigos caiados. Nicinha e Elza choravam muito sós, cada uma tão sozinha quanto se pode estar, apesar de estarem juntas e rodeadas de todos nós. Elas pareciam mais escuras, um pouco menores e quase sem volume. Não era propriamente tristeza o que todos sentíamos. Mas Elza e Nicinha, as irmãs biológicas de Edith, tinham muita tristeza adensando as cores de suas imagens e esgarçando-lhes a matéria. Meu amigo Chico Motta, Jota (meu sobrinho querido), Mabel - todos éramos capazes de conversar com alguma animação. Ao descerem o caixão onde estava o corpo de Edith, olhei para Clara Maria e comecei a cantar baixinho “Viola, meu bem”. De modo muito natural, aprofundou-se um silêncio que fez minha voz ser ouvida - e me fez reforçá-la - e aí todos responderam ao chamado do refrão. Transcrevo aqui a letra inteira desse lindo samba tradicional em homenagem à memória de Edith - e consciente de que Heloisa em particular e os blogueiros nossos aqui em geral lembrarão o Sertão metafísico de Rosa:

Vou-me embora pro sertão
Viola, meu bem, viola
Eu aqui não me dou bem
Viola, meu bem, viola
Sô empregado da Leste
Sô maquinista do trem
Vou-me embora pro sertão
Eu aqui não me dou bem
Ô viola, meu bem, viola.

Esse “sô” é “seu”, de “senhor”, ou, como escrevia o próprio Rosa (e que eu, o cara legal do “sifo”, que fui agredido por um professor de sobrenome italiano citado aqui por um companheiro nosso equivocado, prefiro), “seo”. Sei que muita gente pode pensar que é “Sou empregado da Leste/ Sou maquinista do trem”, mas não é não. É o cara pedindo ao empregado da Viação Férrea Federal Leste Brasileiro (que tantas vezes me levou de Santo Amaro a Salvador), ao maquinista do trem dessa empresa estatal que foi dizimada por Mário Andreazza durante a ditadura militar (na esteira do rodoviarismo desenfreado que veio como indesejável efeito colateral da industrialização de JK, da qual, aliás, Lula é um resultado direto e muitíssimo menos indesejável), que, por favor, o leve de volta pro sertão: ele não se dava bem na cidade, na zona da mata, no Recôncavo; queria o ilimitado.
Tantas instâncias comprimidas num parágrafo, todas trançadas, pode parecer despropósito. Mas nada é demais para fazer face ao tamanho do acontecimento que é a morte de Edith Oliveira, minha mãe, minha mestra, minha amiga, meu amor, rainha da vida e, portanto, da história verdadeira do Brasil.

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