
| CARNAVAL |
| 21/02/2009 5:00 am | Postado por Obra Em Progresso |
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Um dia escrevi aqui: “Os linguistas contribuem com sugestões utilizáveis quando se fizer um bom projeto de educação básica no Brasil. Mas no momento esses militantes fazem também um pouco de demagogia nociva, provavelmente sem o saber.” Heloisa comentou desta maneira: “Caetano, gostei da forma cuidadosa e moderada desse comentário. Isso me basta, por enquanto”. Lembro que em outro lugar ela pediu paciência a Luedy, que ele esperasse eu ler Bagno diretamente. Algo assim. Pois bem. Li “A norma oculta” e não mudei um milímetro. Ali ainda pesavam mais os vícios da esquerda autocongratulatória.
Encontrei Luedy pessoalmente. Ele veio com uma professora de linguística irresistível. Ela falava bem e era paciente quando eu a interrompia. Luedy quase não falava. Paquito, o amigo músico que nos apresentou, às vezes puxava o assunto para longe do tema central. Quase nunca concordávamos mas todos gostávamos de ouvir uns aos outros. Eu tinha apenas olhado as primeiras páginas de “Preconceito linguístico“. Depois que Luedy, Paquito e Tânia (esse é o nome da moça) foram embora, fui lê-lo. Heloísa tinha sido profética. A leitura realmente mudou minha disposição em relação ao combativo professor da UnB.
Não sei se o texto que Bagno publicou na Caros Amigos em resposta a minhas opiniões é mais ou menos agressivo do que o que ele mandou aqui para o blog (e depois pediu a Hermano para não publicar: Hermano, que, sendo antropólogo, está mais pros Bagnos do que pros Cipros, tinha me mandado o irado comment, perguntando se não seria o caso de evitarmos publicação de texto tão aguerrido e vulnerável - e eu tinha respondido optando pela publicação: não queria me proteger nem facilitar a vida de Bagno). Seja como for, o texto que li era violento o suficiente para aumentar minha má vontade. Não foi sem má vontade que li “A norma oculta”; não foi sem má vontade que comecei a leitura de “Preconceito linguístico”. Não foi sem alegria que vi minha disposição mudar. Viva Heloisa.
“A norma oculta” me deixou com as mesmas más impressões da entrevista à Caros Amigos: demagogia, ar de quem descobriu a pólvora, malevolência em relação aos consultores de gramática dos meios de comunicação, sobretudo um argumento central que não me balança: a tese do nascimento da gramática normativa há cerca de 2.000 anos como um mal do qual só o heróicos sociolingüistas do século 20 nos salvariam. Mas em “Preconceito linguístico” encontrei o que já nem buscava: razão, alguns argumentos sólidos, apreciações justas. Será que nada disso havia no outro livro – nem na entrevista? Será que nada havia no eco da campanha dos lingüistas? Claro que há coerência entre essas fontes e “Preconceito lingüístico.” Mas ao ler este fui posto em condição de ver o que há de bom mesmo onde eu não tinha visto antes.
Seria preciso contar a história da minha vida. Não posso fazê-lo aqui. Mas o fato é que sempre me excitaram observações como a do Padre Antenor, diretor do Colégio Estadual Teodoro Sampaio, de Santo Amaro, que dizia não podermos considerar errado o “entonce” do matuto do recôncavo, que é português correto mas antigo e não atual e errado. Comentários como esse me prometiam mais do que as nomenclaturas das análises lexicais e sintáticas. É verdade que tive mais sorte do que Luedy: me ensinaram as “categorias gramaticais” no curso primário; a análise sintática só começou no ginásio – e começou devagar: primeiro as orações simples, só mais tarde estudamos períodos compostos. Primeiro os “por coordenação” e depois os “por subordinação”. Se havia quem achasse chato, esses não eram em maior número do que os que não agüentavam história ou geografia – sem falar em matemática. Mas a mera insinuação da etimologia feita pelo padre me acenava com um mundo maravilhoso. Eu queria entender mais o que era a língua que falávamos, como se formara, como continuaria em sua trajetória. Em suma, eu tenderia mais para um linguista do que para um gramático. Embora as sutilezas das regras de concordância me apaixonassem. E até hoje eu ame o entendimento da crase e sofra com o mito de que ela é difícil, um fenômeno inescrutável, um capricho desarrazoado dos professores e da própria língua portuguesa.
Entre a faculdade de filosofia e a música popular, minha admiração por Godard, pelos Beatles, pelos pintores pop e pelos poetas concretos me aproximou de Saussure e Jakobson, dos estruturalistas e pós, não dos gramáticos e filólogos. Entre 67 e 68 eu, além de já estar careca de saber que a língua muda, li “Tristes Trópicos”, Saussure, Jakobson, “As palavras e as coisas”, McLuhan, Oswald de Andrade (“a contribuição milionária de todos os erros”) – e nada de Napoelão Mendes de Almeida. De Antonio Houaiss, só a tradução do Ulisses de Joyce.
O artigo de Antonio Cicero na Ilustrada de 8/2/2009 expõe claramente a natureza de minha atitude contra a euforia dos lingüistas ao “desmascararem” o desejo de manter privilégios escondido por trás de toda paixão pela gramática. Leiam-no em http://antoniocicero.blogspot.com/. Chama-se Os Estudos Literários e o Cânone. Cicero diz, basicamente, que o cânone não é, como quer Eagleton, uma suspeita seleção feita a partir de interesses particulares, mas, ao contrario, algo que foi construído na luta das idéias e cuja força reside em não parar de ser qüestionado. A reação de certa esquerda ao cânone é semelhante à reação dos sociolingüistas à norma culta. Não que eles sejam a mesma coisa. Apenas, naquilo que têm em comum, suscitam reações parecidas nos meios que sonham com a revolução. Em ambos os casos essas reações me parecem tolas. A criação de um “paideuma”, de um recorte do cânone que nos obriga a revê-lo, é, explícita ou implicitamente, necessária à criação de algo relevante na história de uma arte e mesmo na construção de um estilo individual. Agusto de Campos pode dizer que John Donne e Sá de Miranda estão acima de Shakespeare e Camões. Ezra Pound detestava Gertrud Stein. John Cage queria livrar-se de Beethoven. Bergman detestava Orson Welles e Godard. Marcelo Nova pode desprezar João Gilberto. João ostentou gostar tão pouco de Noel que isso era uma espécie de escândalo silencioso. Mas tudo isso é diferente de querer-se desautorizar todo cânone. Muitas vezes em nome de reinvidicações de raça, gênero, classe e “orientação sexual”. Os panfletos de Bagno sempre me pareceram mais aparentados a essa tendência do que à decisão de contribuir para a vitalização da educação no Brasil. Além disso, me causa repugnância a facilidade com que se quer descartar mesmo a mais remota possibilidade de haver algo aproveitável na particularidade da história brasileira. Bagno vocifera contra a baixa estima que resulta de dizer-se que os brasileiros não falam certo ou que não sabem português. Mas faz coro com Marilena Chaui contra a celebração do descobrimento e não vê senão vergonha no fato de a nossa independência ter sido proclamada pelo príncipe da metrópole.
Claro, ninguém “não sabe” a língua que ouve desde que começou a viver. E nenhuma língua é incapaz de resolver os problemas de comunicação que seus falantes enfrentam. Mas, se esse aspecto da questão é evidente, o mesmo não se pode dizer da confusão que causa afirmar ao mesmo tempo esse grau de independência do fenômeno lingüístico e denunciar como mitológica a língua “ideal” dos gramáticos. De novo, sei que não se trata da mesma instância, mas se temos de definir como projetaremos o ensino da língua no Brasil precisamos ser claros justamente quanto ao que transcende (gostou, Heloisa?) a matéria bruta da fala diária e o corpo dos textos escritos existentes. Se seguimos a Marilena do panfletinho contra a celebração do descobrimento, como podemos clamar pela elevação da autoestima de uma nação tão monstruosamente formada – e apenas através da ligüística? Vê-se que há uma lacuna no pensamento. E vê-se que ela é aterrada com o entulho das variedades mais ingênuas das crenças em vanguardas revolucionárias.
O que, então, é bom em “Preconceito lingüístico”? Em primeiro lugar, aqui Bagno freqüentemente mira os alvos certos. O livro de Josué Machado não precisa ser lido por inteiro: as citações escolhidas por Bagno justificam a crítica que este lhe faz. O verbete do “Dicionário Sacconi da língua portuguesa” é tão grosseiro quanto as explicações dadas por Bagno sobre rotacismo e vocalização do “lh” são claras e bem articuladas. Os erros que este aponta nos livros daqueles merecem ser destacados. E a vulgaridade agressiva do estilo deles deve ser combatida. O projeto de lei de Aldo Rebelo é ridículo. Sou amigo de Pasquale Cipro Neto (e admirador confesso do trabalho que ele faz), mas das palavras depreciativas que ele usou contra os lingüistas apenas “deslumbrados” é de fato adequada.
Além disso, Bagno aqui dá um esboço de programa que já é contribuição efetiva para um plano inteligente de educação de massa no Brasil. Ele não está sendo simplesmente o militante de um comando antigramatical. Na verdade, as propostas concretas que ele apresenta soam muito menos demagógicas do que os “Parâmetros curriculares nacionais”. Esse documento oficial (surgido, não se sabe como, no supostamente horrendo governo Fernando Henrique) parece mais um brado de protesto contra humilhações sofridas por falantes pobres, enquanto o próprio Bagno propõe “acionar nosso senso crítico toda vez que nos depararmos com um comando paragramatical e saber filtrar as informações realmente úteis, deixando de lado (e denunciando, de preferência) as afirmações preconceituosas, autoritárias e intolerantes”. Aí ele está elevando o nível de exigência em relação aos que desejam ensinar a norma a tanta gente que tem sede de ter acesso a uma. E o mesmo texto em que ele diz essas coisas é o exemplo da língua culta padrão, da norma – que não está no texto dos grandes ficcionistas nem dos poetas, muito menos na fala coloquial: é o português que Bagno usa (e as regras de que se vale para criticar o conhecimento de gramática de jornalistas e professores, com maior ou menor razão), o português das argumentações teóricas, do texto oficial, da produção acadêmica, e não o dos poetas e ficcionistas, que está mais perto dessa entidade que não pode ser reduzida à materialidade da língua móvel dos usuários: a língua ideal. O fato de Bagno usar pronomes no caso reto em função de objeto direto é mais do uma exceção que confirma a regra: é a exemplificação de uma proposta de regra nova que ele já põe, a sério, em prática (ele não usaria “menas”, “nós vai”, “três pastel” etc.: haveria o risco do texto ficar menos inteligível – e (o que é crucial) menos respeitável. Nenhum padrão é idêntico à pluralidade de entes reais que ele representa. Por que a língua teria de se resumir às falas concretas dos falantes? Mas é o Bagno que sabe disso que diz que ensinar português é ensinar a ler e escrever - numa norma padrão.
A distinção entre ensinar a língua e ensinar sobre a língua procede. Mas isso não pode ir além de meramente enfatizar o treino do uso em vez da análise do funcionamento. As comparações com a diferença entre dirigir automóvel e entender a mecânica do motor é simplista demais. Ainda bem que ele reconhece que numa certa altura tem-se que aprender algo sobre a mecânica da língua: afinal, de onde sairiam os gramáticos, os lingüistas, os técnicos? Há um continuum entre o aluno e o professor, não há uma linha igual à que separa o motorista amador do mecânico de oficina. Claro que Possenti está certo, no trecho citado por Bagno, quando diz que “saber usar as regras é uma coisa e saber explicitamente quais são as regras é outra”. Mas há grande alegria em ver revelado o processo que se dá dentro da gente quando efetivamos o uso da regra. Essa alegria não é igual à alegria do motorista que descobre o que é que faz o carro andar. Justamente por no caso da língua revelar-se algo que está dentro de nós. Não é tudo (acredito que há pensamento sem palavras) mas é muito, é mesmo quase tudo o que somos.
É essa alegria genuína que levou Pasquale a reverenciar Napoleão quando este morreu, não o pedantismo que fazia dele uma figura cômica. Porque uma coisa é certa: se há uma esfumaçada miragem de norma culta, português correto, reverência à maneira lusitana de falar e escrever – essa miragem é pisoteada alegremente pelos brasileiros de todas as classes – e bem possivelmente pelas classes mais remediadas e urbanas. Os jornalistas riem dos gramáticos e da Academia, toda a gente ri de Portugal. A defesa quixotesca da língua culta é um cachorro morto nas ruas do Brasil. Temo que os sociolingüistas o chutem com demasiado prazer. O ódio aos Pasquales se deve a eles representarem um surpreendente sinal de vida no cadáver desse cão. Suspeito que Luedy adivinha que Bagno e Possenti não gostariam do Psirico porque o que correspondente ao Márcio Victor não é o “menas” mas o Pasquale: os “comandos paragramaticais” é que são brega. Se há um país onde regras de gramática são tradicionalmente (e mesmo saudavelmente) desprezadas é o Brasil. Comparemos o que se passa entre nós e o que se passa na França, na Espanha. Os argentinos têm o “vos” e resquícios de uma conjugação referente a esse pronome. Mas quem for filho de alguém que saiba ao menos ler, saberá todas as regras de uso de pronomes que há no castelhano. A rigidez normativa da língua francesa não tem igual. Já disse que sou contra o projeto de lei de Aldo Rebelo. Mas na França, onde a Academia realmente dita a moda (com a contribuição de ninguém menos que Lévy-Strauss, que foi de quem primeiro ouvi que não há línguas mais capazes que outras, que não há línguas primitivas, que não há hierarquia possível entre línguas), as ações de defesa da língua têm muito mais peso do que aqui. Vivi na Inglaterra: na cidade de Londres, as diferenças de pronúncia, vocabulário, sintaxe e tom entre as classes sociais (e a importância que é institivamente dada a elas por todos os ingleses) é maior do que entre as regiões do Brasil, por mais distantes que sejam umas das outras, por maior que seja a disparidade de poder aquisitivo. Dizia-se em Londres que o inglês da BBC era a melhor tentativa de padrão. O mito da homogeneidade do português brasileiro não é meramente um mito: é também a realidade de uma língua transplantada, língua de colônia, em que grupos diferentes de pessoas tiveram de passar a falar uma língua só.
Os lingüistas deveriam ficar felizes pela oportunidade. Na verdade acho que estão felizes. Não apenas o livro do Bagno está na 50a edição: a própria ciência lingüística encontra terreno tão fértil aqui quanto a psicanálise na Argentina. Bagno prefere repetir Marilena na cantilena da formação que não pode ser festejada, mas a colônia em que o príncipe da metrópole declarou a independência é tão original que, mesmo tendo ficado séculos atrasada em relação às outras colônias ibéricas quanto à instituição de universidades – e que exibe ainda a cicatriz desses descompassos e esquisitices nos resultados dos exames de aprendizado dos seus estudantes – produziu o maior romancista latinoamericano do século 19 (Machado) e o maior romancista latinoamericano no século 20 (Rosa) – pelo menos no dizer de Rodrigues Monegal, o grande teórico hispanoamericano de literatura.
Uma empreitada de familiarização da maioria dos brasileiros com as letras já agradece a contribuição que lingüistas como Bagno e Possenti vêm dando. Eu teria preferido me manter como o espírito de porco que, mesmo sem ser estudioso formal da matéria, toma a defesa dos comandos paragramaticais e escarnece dos esquerdismos triunfantes. Mas a leitura de “Preconceito lingüístico” mudou meu mood. Agora prefiro festejar o sucesso desse grupo tão intolerante quanto generoso. Acompanhar o aproveitamento das contribuições que ele traz. Claro que eles podem, como Tom Zé, recusar minha aprovação. Não faz mal. Seguem podendo ser bons para o que interessa.
Minha adesão aos lingüistas tem preço. É preciso que eles ouçam este leigo com a mesma isenção que ele os ouviu e pensem ao menos nas questões seguintes. 1) O cientificismo é, em muitos meios, considerado um preconceito. 2) As regras são sim filhas do uso real da língua pelos falantes e, tal como os próprios lingüistas detectam agora, sempre vieram de “baixo” para “cima”. 3) O fato de a gramática normativa poder datar de cerca de 2.000 anos atrás não diz nem que gramáticos tenham imposto os caminhos seguidos pelas línguas nem que eles não entrem na história da formação destas. 4) Os resultados de uma bem sucedida ação de letramento da massa brasileira poderão supreender esses seus proponentes: “tendências” poderão mudar porque 5) A escrita influencia a fala.
Continuo gostando do sucesso de Bagno, Pasquale, Maria de Lourdes, Possenti e Psirico.
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| LULA PENA BAMOR LABI |
| 12/02/2009 9:25 am | Postado por Obra Em Progresso |
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Labi ilumina tudo com sua graça. Mas não gostei de Baraka não. E será que eu escrevi que música na praia devia ser proibido? Meu Deus! Perdão, Labi. Seu amigo diplomata assintomático tem sintomas de diplomata. Houve quem escrevesse aí que Assis Valente não era diplomata, mas eu li numa biografia dele, escrita por um casal de espíritas, que tudo podia ser explicado pelo fato de, em outra encarnação, alguém ter sido do sexo oposto. Assis Valente se suicidou. O texto dele num livro em tributo a Carmen Miranda, editado pouco depois da morte dela, é de rachar o coração. Muitos outros escrevem longos elogios: ele apenas diz que quando ela foi para os Estados Unidos a vida dele acabou. Ontem Ronney Argollo e Eduardo Melo, ambos de 22 anos, foram expulsos do Shopping Iguatemi por terem se beijado na boca. Eles estavam com a amiga Ísis Santos, também de 22 anos, conversando, na Alameda das Griffes, no terceiro piso. Fizeram denúncia na 16a delegacia, na Pituba, contra o segurança Itamar, que os expulsou, e contra o Shopping. A Tarde diz que Ronney chamou a atenção do guarda para a lei municipal que proíbe homofobia - número 5275/97, sancionada pelo então prefeito Antônio Imbassahy. Itamar declarou que famílias que passavam poderiam ficar constrangidas. A direção do Shopping apresenta a mesma justificativa. Graciliano Ramos conta que, preso pela ditadura Vargas num navio, se recusava a comer comida feita por um pederasta. Olavo de Carvalho escreveu que ele tinha todo o direito de sentir-se assim. Ninguém pode discordar disso. Mas daí Graciliano nenhum pode passar, digo eu. O que não digo, Labi, é que os ancestrais dos nossos ancestrais merecem mais respeito do que o povo de hoje. Só perguntei se eles não merecem respeito nenhum. De minha parte, acompanho com paixão as mudanças sintáticas, semânticas e melódicas das sucessivas gerações de gente iletrada com que tenho contato. E de gente letrada também. Melódicas? O aspecto que mais me fascina na fala dos jovens cariocas hoje - fala vinda das favelas - é a música meio cigana, meio cearense, ascendente, das frases ditas pelos traficantes, pelos meninos que fazem malabarismos nos sinais - e pelos meus filhos.
A cantora que mais me interessou nas últimas semanas foi Lula Pena. Uma portuguesa de voz grave e violão eletrificado que canta como um poeta.
O Pituaço, que é como a torcida do Bahia chama o estádio de Pituaçu, é bonito pra caramba. E ver a Bamor é experiência única. A Bahia é o único lugar onde se vê futebol com samba-reggae. E as palmas sincopadas que a galera bate? Só a elegância sutil de Bobô - que rima perfeitamente com a risada de Andy Warhol: gente do passado, lembra de “O rock errou”?, e das rimas de Rita em “Esse tal de Roque Enrou”?, também: conhecem rima toante, poesia espanhola, J.C. de Mello Neto? - a elegância de Bobô, eu dizia, por si só, já valeria uma ida ao novo estádio (que o governo de Jaques Wagner entrega à cidade com naturalidade suficiente). Mas o povo de Salvador naquele lugar, sob aquela luz e reagindo com aquele suingue, é luxo só. Tive enormes saudades de Tom. Ele teria adorado. O jogo, o Bahia contra o Poções (time da cidade de mesmo nome, próxima a Conquista, me dizem), foi bom. Começou morno e parecia que ia continuar assim. Mas eu acho que os jogadores do Bahia perceberam que os poçõenses não estavam a fim de levar uma goleada igual à que tinham levado do Vitória (acho que 6 a 0) e reuniram forças e animação para fazer um gol em cada tempo. Os interioranos marcavam homem a homem - e não desistiram de lutar mesmo depois de alvejados. Mas o Bahia conseguiu fazer jogadas bonitas. Mas estas (como é tão freqüente no futebol) não foram as que produziram os gols. Os gols foram surpresas excitantes e algo desconectadas da lógica do jogo. Pensei muito no livro Veneno Remédio, de Zé Miguel Wisnik. E saí feliz.
Faz mais de semana que li a resposta de Tarso Genro a Merval Pereira, do Globo. Aprendi que os atletas cubanos não quiseram asilo brasileiro e, com planos de ir para a Europa, pediram para serem reenviados a Cuba. Assim, a simetria que busquei entre o caso deles e o de Battisti não funciona. E como na verdade me faz mais mal pensar que dois atletas tivessem sido entregues a possíveis perseguidores políticos do que que um condenado por crimes talvez políticos achasse asilo, em suma, que alguém fosse castigado do que alguém deixasse de sê-lo, retiro o que disse aqui há uns dois posts atrás.
Heloísa, comecei tentando ser inventivamente confuso (o que sempre nos protege de exibir nossas reais confusões) mas voltei a querer raciocinar e caí no meu velho estilo enrolado.
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| DAVID BYRNE & CINDY SHERMAN |
| 8/02/2009 6:11 am | Postado por Obra Em Progresso |
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David me escreveu dizendo que Mauro Refosco, o percussionista brasileiro que toca com ele, tinha lhe aconselhado Moreré, na ilha de Boipeba, abaixo de Morro de São Paulo. Que ele e Cindy pensavam em vir e, na volta para Nova Iorque, passar por Salvador. Se eu estaria aqui. Sim. Vieram e passaram o ano novo na escuna de Luísa Olivetto, mãe de Homero, marido de Kiki, irmã de Paulinha Lavigne. Quase tudo o que é interessante nessa passagem está no site de David, no “journal”. Lucre foi quem, mais ou menos cifradamente, me entregou que ele tinha escrito sobre nossos encontros. Os textos de David são generosamente longos. Meus posts aqui parecem hai-kais em comparação. Mas também lá se trata de um “journal” (“diário” na forma francesa, adotada pelo inglês: aliás há um livro muito bacana de Harry Mathews chamado “The Journalist”, que não é sobre Paulo Francis, mas sobre um Americano intranquilo que escreve um diário). Aqui é tudo mais para deixar aparecer o entusiasmo momentâneo, como na frase “a melhor coisa do mundo é pagode baiano”, e depois voltar para dizer que Psirico é o mais estimulante por causa do ar de gênio que circunda Marcio Vitor (Davi Moraes, Pedro Sá, Jaques Morelenbaum, Kassin e eu, pelo menos, achamos que Marcio Vitor é um gênio desde que o ouvimos tocar – e sua viagem com o Psirico não nos fez mudar de idéia). A percussão do Psirico é fenomenal. E o pendor para a colagem faz das apresentações uma aventura através de múltiplos enigmas. Marcio não canta como cantor. Ou raramente. Interrompe as canções com falas e gargalhadas. O resultado é moderno. Modernista na forma e com perene sugestão de perigosa liberdade no conteúdo. Há a virtude geral do neo-pagode: as variações sobre a célula da chula (“Psirico bate madeira, é viola: então cole na corda”). Essa característica, que vem desde o Gerasamba é um acontecimento importante em si. Mas há diferenças entre os grupos. O Fantasmão é o que soa mais produzido – e, diferentemente do Psirico, arredonda as composições e demonstra inspiração exuberante (a inspiração do Psirico é mais para criar ambientes cubistas, não para produzir peças individuais acabadas) – e de todos é o único que parece enfrentar os dramas racial e social de modo explícito. O Parangolé, que toma de volta essa palavra popular içada por Hélio Oiticica a assunto erudito internacional, é o mais leve desses três. A insistência num timbre agudo de teclado, que soa quase como um assovio, irrita um pouco depois de algum tempo. Mas os gritos de guerra conclamando os “parangoleiros” e as “parangoleiras” são lindos, tal como aparecem em rima com outras palavras e no suíngue da chula-axé. Pretubom eu só conheço da canção do “cabelo fica massa, êta, fica massa” (não achei o CD nas lojas nem nas placas dos vendedores piratas) – mas isso já é o bastante. Essa música é um dos grandes amores meus aqui neste verão. So much for transpagode. David, eu dizia, veio e foi gozada a cara que ele fez quando eu contei que Schopenhauer disse que a cor do homem é preta, no mínimo marrom, os brancos de cabelos e olhos claros sendo uma ultraminoritária degeneração só encontrada no norte dessa pequena peninsula da Ásia que é a Europa: são algo como ratos albinos. Cavalos, diz ele, na hipótese mais simpática. Isso porque David tinha perguntado se Gil e eu compúnhamos na Bahia, com tanta gente nas nossas casas, se não tínhamos um estúdio para onde fugir. Não, claro. Ele disse que ele, na tradição puritana, precisava entrar em algum lugar e dizer a si mesmo: agora vou trabalhar. Eu disse que compunha às vezes enquanto conversava com amigos (não contei que fiz Menino do Rio em presença de Peti, que inspirou a canção, conversando com ele, com Dedé e outras visitas que estavam em minha casa, sem que nenhum deles notasse: com o violao na mão, baixinho, às vezes calado, pensando as notas e as palavras; em pouco tempo estava pronta). David ficou meio fascinado. Eu comentei (com a mais funda e mesmo grave sinceridade): deve ser por isso que nossas canções não saem muito boas. Ele riu mas ficou sério quando viu que só ri um pouco para acompanhá-lo. A história de Schopenhauer surgiu mais para equilibrar essa gozada observação mútua de vantagens e desvantagens.
Isso foi na visita que fizemos à casa de Gil na véspera do casal americano ir embora. Antes tínhamos pedalado 15 quilômetros no deslumbrante parque de Pituaçu, confraternizado, em festa produzida por Paulinha, com Marcio Vitor e Fabio Cascadura, rodado a Baía de Todos os Santos em lancha, assistido a um light show engraçado na igreja de São Francisco. David é tudo que há de bom. Stop Making Sense é o mais lindo filme de show de rock, possivelmente porque o show dos Talking Heads era um dos mais lindos que já houve. Ele nunca perdeu a elegância. O show que fez com Margareth Menezes foi um grande sucesso da Margareth Menezes, mas ele estava um tanto invisível. Já os outros que vi dele, foram todos simplesmente geniais. Agora ele me disse que está fazendo um show show: com dançarinos e tudo. Deve ser fenomenal, porque ele é, como eu disse no show que fizemos juntos no Carnegie Hall (e do qual há, sim, Lucre, gravação com proposta para sair em CD), o mais chique dos roqueiros. Considero o entendimento que ele teve da música no Brasil um aspecto dessa chiqueza.
A namorada dele agora é a Cindy Sherman. Ela é uma pessoa muito direta e clara. Eles estarem juntos é uma dessas coisas certas que raramente acontecem aos seres humanos. Cindy é uma grande artista. E é considerada uma grande artista. São fotos que, ao longo dos anos, ela faz de si mesma encarnando personagens. Dito assim, parece coisa pouca. Mas ver as fotos é uma experiência única. Nunca parece realista. Nunca tem menos força do que a visão de algo real e inimitável. Ela e David também pedalaram pela orla e a impressão que a configuração racial dos grupos humanos que iamencontrando lhes causou pode ser medida no texto de David no “journal” dele.
Eu sabia que falar em grupos de pagode baiano ia alucinar a rapaziada. Hermano veio junto como nunca. Mas mais de 500 comments é demais. Heloísa, volte por favor.
Luedy, me dirijo demais a você porque gosto de você e porque você não comenta meu argumento de que as regras que há foram criadas pela multidão anônima. A norma culta é cria do sermus vulgaris. Os socioliguistas podem contribuir se se projetar uma política de educação. Mas não desejo que se comece por aposentar a análise sintática nem por ensinar-se “menas” nas escolas. Não.
Glauber, por mim eu não morro mesmo. Sinto muito por Lux Interior (eu pensava que fosse “luz interior”, que idiota eu sou: será que, já que o “Lux” de Lux não é luz, o “Vox” de Bono não é voz?). Você é muito bom. Sua frase sobre a solidão (que Salem destacou) foi arrasadora (sobretudo no contexto em que apareceu). Não gosto do argumento da “felicidade obrigatória”. Não é infundado. Não acho errado propriamente. Apenas, como disse, não gosto. Mas é porque acho-o parcial, limitado, superficial. Adoro sua colher na recuperação crítica do progressive rock. Eu vi Pink Floyd na Inglaterra com gosto: era bonito o show em Glastonbury, em 70 ou 71. Mas já havia rido ouvindo-o em disco, em Sampa 1968, sob o efeito do aiuasca. Mas achava Yes chato (perdão, Hermano). E Genesis. E tudo. EL&P, já contei: sinceramente, tive vontade de vaiar; foi a Mercedes Robirosa, uma argentina que tinha ido comigo ao festival da Ilha de Wight, quem me impediu, dizendo que eu também era músico e que eu não gostaria de ser vaiado por colegas (eu o tinha sido, e muito, mas achei que ela estava certa). Nessa época eu era muito combativo. Achei os caras caretas, o guitarrista com uma correia de pele de bicho (com a cabeça do animal!), a música pretensiosa e vazia. Eu gostava mesmo (e ainda gosto) é do primeiro solo do Lennon, “Plastic Ono Band”. Em Verdade Tropical eu digo que não gostava de prog e que gostava de punk (e Stevie Wonder e Bob Marley). Mais recentemente, passei a ligar proguessivo a Julio Medaglia malhando a gente e elogiando Rick Wakeman. Mas acho que você está certo. E suas escolhas são fincadas em sua cultura pessoal e sua sensibilidade. Ouço muito pouco música. Mas vou tentar reouvir Yes e Genesis.
Não gosto de música. Parar para ouvir música é intimamente constrangedor. Quando eu tinha 18, 23, 37 anos, não era. Foi ficando. Adoro a observação de Millôr Fernandes: “a música é a única arte que te pega pelas costas”. Acho o volume dos shows todos muito altos no Brasil. E as bandas na Bahia fazem permanente barulho. Tenho horror a som na praia. Isso devia ser proibido. Acho um crime que haja barracas de alvenaria na areia. Mas o pior é que eles tocam música. Tenho ódio de axé, pagode, rock, pop, samba e MPB na praia. Praia é para se ouvir o barulho das ondas. E mesmo longe das praias, às vezes me sinto feliz num restaurante: depois de algum tempo percebo que a razão é não haver música ambiente. Chico Buarque disse tudo: se é ruim, me irrita, se é boa me atrai e rouba minha atenção à conversa, à comida, a tudo. A coisa que mais gostei de ouvir nos últimos tempos foi Moreno cantando a versão de Carlos Rennó para “How Deep Is The Ocean”. Posso ouvir mil vezes, como ouvia Ella, Billie, João, Maysa ou Sylvia Telles. Estou tentando me reeducar para ouvir música. Meus tempos livres se preenchem automaticamente coma leituras. Ouvir música… Vou me reeducar para isso. Mas gostei do disco do Radiohead e dos discos do Psirico, Fantasmão e Parangolé. Gosto de Céu e de Roberta Sá. Amei ouvi/ver Mariana Aydar e Mayra cantando “Tunuka”. Adorei Buika cantando a canção da menina Lola. Choro só de pensar em “Volver” (o tango). O disco do Arlindo Cruz é lindíssimo (ouça, ouçam). “Moisés e Aarão”, de Schoenberg é uma experiência larga e profunda. David Byrne me disse que achou difícil gostar de Zii e Zie à primeira audição. Meio à Exequiela, irritou-se com a repetitive guitarra. Depois, diz ele, se enamorou de “Por quem?” e de “Lobão tem razão”. Daí foi reouvir “Perdeu” e passou a gostar. Terminou gostando de tudo. O disco dele com Brian Eno, eu gostei logo de “Home”, que abre, com uma dessas letras estranhamente lindas que ele sabe escrever. Vou ouvir mais e saber mais.
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