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CAPA
28/03/2009 9:02 pm

     PS: a lista/ordem das faixas/canções ainda não é definitiva/correta

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DÉJA VU
24/03/2009 5:59 am

O Rio era a capital federal. Era a cidade de todos os brasileiros. Luiz Fernando Veríssimo escreveu que, quando menino, vinha ao Rio de avião e, ao fazer escala em São Paulo, se perguntava: que cidade estranha é essa? A revista O Cruzeiro, os filmes da Atlântida, a Rádio Nacional – tudo confirmava a centralidade do Rio. Carlinhos, filho de Edith do Prato e meu irmão de leite, repetia que conhecer o Rio era seu maior sonho. Tínhamos intimidade com os nomes dos acidentes geográficos e dos endereços do Rio. As marchinhas e sambas de carnaval eram todos cariocas. As celebridades pop e as eminências intelectuais viviam no Rio. As gírias vinham de lá. O samba, que aprendêramos que “nasceu na Bahia”, tinha se tornado nacional ao virar carioca. Nossos sotaques eram caricaturados pelos humoristas do Rio – e nós ouvíamos o modo de falar dos cariocas como um modelo para locutores e cantores, sem que o ressentimento fosse maior do que a admiração. Portanto, chegar ao Rio não era chegar a um lugar estranho, mas ao centro do nosso próprio lugar. Tenho 66 anos. Na minha infância e na minha mocidade era assim. Hoje, não apenas admito que isso mudou: orgulho-me de ter contribuído ativa e conscientemente para apressar e aprofundar essa mudança.

São Paulo era às vezes citada como uma cidade que “não pode parar”. Houve um dobrado marcial do seu quarto centenário. E só. A primeira menção a um logradouro paulistano que ouvi foi a “Rua Augusta” de um samba de Juca Chaves. Chaves era um subproduto da bossa nova que fazia uma caricatura desta para veicular sátiras políticas. Eu gostava. Embora eu fosse – e seja – um joãogilbertiano radical (ou talvez por isso mesmo), essas saídas para versões algo paródicas de estilos pré-bossa e para comentários diretos de atualidades me excitavam. Eu encontrava algo disso em Billy Blanco – e esse gosto teve, mais tarde, papel fundamental na minha captação das virtudes de artistas tão antagônicos como Tom Zé e Chico Buarque. Ouvir de Juca “Toda tardinha quando a Rua Augusta eu desço/ Se não me esqueço/ Para matar minha saudade/ Vou passear lá no Hi-Fi onde se ouve um samba em alta fidelidade”, com o detalhe de que “o dono da loja, um tal baixinho/ Muito chatinho/ Só quer ouvir rock and roll”, me fascinava. Era toda uma vida que se abria diante de mim: uma vida brasileira, urbana e rica, da qual eu não tinha conhecimento. Se me falassem de ruas do Recife ou de Belém eu não teria a mesma reação. Havia canções sobre essas cidades. O Ver-o-Peso era parte da cultura urbana brasileira. E o carnaval do Recife era tão presente nas páginas de O Cruzeiro que, em 1960, ao conhecer o espetacular carnaval da Bahia, eu fiquei surpreso, já que este nunca era mencionado nas revistas do Rio. Se eu ouvisse coisas sobre a vida em Porto Alegre ou em Fortaleza, isso tampouco teria o efeito que a notícia sobre a Rua Augusta me causou: essas outras capitais (todas as outras capitais) eram ao mesmo tempo mais conhecidas e menos importantes do que São Paulo. Sabíamos que São Paulo era uma cidade grande –  talvez maior do que o Rio. Eu tinha a informação fria de que São Paulo produzia riquezas, tinha fábricas, muita gente trabalhando, muitos imigrantes nordestinos e estrangeiros. E procurava não pensar muito nisso.

Meu irmão Roberto e minha amiga Sônia Castro me surpreenderam: tendo ido ao Rio e a São Paulo, ambos gostaram muito mais desta do que daquela. Era raríssimo ouvir-se isso. Quando eu e Bethânia chegamos a São Paulo em 1965, de ônibus, na seqüência de sua carreira na peça “Opinião”, tivemos a impressão de que saíramos do Rio para uma cidade do interior. Não uma bonita e cheia de sobrados antigos como Santo Amaro, mas uma sem charme como Feira de Santana. O próprio ar nos parecia provinciano. A gente acreditava que ela era grande, mas não sentia que ela o fosse. As ruas não exibiam perspectivas parisienses, como o Rio, ou topografias pitorescas, como Salvador. As pessoas na rua pareciam ocupadas e desglamurizadas. O sotaque italianado entreouvido nos transportes coletivos nos fez crer que se tratava de estrangeiros. Os anúncios gigantes feitos de compensado na porta dos cinemas da Ipiranga, reproduzindo as caras dos atores em pinturas canhestras, nos pareciam a expressão mais gritante do mau gosto. A platéia do show se compunha em grande número de mulheres vestidas para a noite, com jóias, maquiagem e saltos altos: nada da turma cool do Rio, de jeans e cabelos longos lavados. E, finalmente, as pessoas com quem conversávamos mostravam inveja benigna do Rio, da Bahia, do Brasil brasileiro. Muitas vezes pareciam pedir desculpas por serem paulistas.

Foi Guilherme Araújo, um carioca, quem começou, em 1966, a dizer que São Paulo continha as potencialidades brasileiras. Tendo já vivido na Europa e usando a palavra “internacional” como elogio máximo a qualquer artista, Guilherme percebia que São Paulo nos abriria as portas da percepção do mundo, livrando-nos do provincianismo metropolitano do Rio. É difícil exagerar o quanto eu admirava Guilherme.

A partir de 1966, ele alugou apartamento na Paulista, ao lado da Gazeta. Simonal morava no bloco de trás, que dava para a rua São Carlos do Pinhal. Eu o achava talentosíssimo e muitas vezes estivemos juntos, em seu ap ou nos jardins de cimento do prédio, Simoninha bem pequeno iluminando os encontros. Comecei a tentar mudar minha disposição em relação à cidade. Em breve eu estava saindo com Toquinho e Chico, com grande felicidade. Mas Guilherme pedia uma adesão radical, que superasse o estágio Rio do Brasil. Toquinho era a paulistanidade em pessoa. Mas Chico representava à perfeição o amor dos paulistas doces pelo Brasil brasileiro – e este não parecia incluir Sampa.

Só mais tarde tomei contato com pessoas que olhavam para o Brasil com um jeito arrogante, como se fossem de uma grande cidade do mundo e tivessem que arrastar essa África às costas. Entendi que alguns queriam salvar o Brasil, outros, livrar-se dele. Passei a chamar isso (irresponsavelmente) de USP. Ainda chamo, com a mesma irresponsabilidade mas reconhecendo que é só para uso operacionalmente ainda eficaz. A história da USP está clara até no “Preto no Branco” de Skidmore. E tocante em “Tristes Trópicos”. Lembro de ler as páginas de Lévi-strauss sobre essa universidade para Zé Miguel ouvir e ficar na frente dele com os olhos cheios de lágrimas.

Já faz anos que acho Feira de Sanatana charmosa. Sua natureza de entroncamento no nó do Recôncavo com o Sertão; sua  prosperidade que resultou em elevação do nível intelectual de gerações novas (quando eu era menino, cidades como Santo Amaro e Cachoeira olhavam para Feira como se fossem professores e poetas olhando para um brutamontes); seu contingente de pessoas avisadas e civis. O paralelo com São Paulo sempre me voltou à mente. Hoje, com Feira liderando a vida acadêmica da região, acho que Santo Amaro, como o Rio, está com um ar de quem perdeu o bonde.

A Folha, a Veja, o Fasano, a Daslu, a Sala São Paulo, o Museu da Língua Portuguesa – tudo isso faz pensar em quanto Sampa é influente e interessante. O Oficina, Os Titãs, Os Racionais, a poesia concreta, o Hurtmold, o Nouvelle Cuisine, Céu, Tiê, Mariana Aidar, mil coisas fazem pensar que Sampa hoje é, como dizia John Lennon sobre Nova Iorque, “where it’s at”.

Mas o Rio é o Rio. Mesmo a Bahia, que pareceu a Stefan Zweig um viúva enlutada (mas altiva), nunca perdeu a majestade – e hoje, depois da fase de talento político de ACM (em que pese o intragável arcaísmo de sua truculência e o fato de até hoje eu não engolir que o aeroporto 2 de Julho tenha ganho o nome do filhe dele num piscar de olhos – enquanto o Tom Jobim demorou e teve de manter o nome antigo: o aeroporto de Salvador chamar-se Deputado Luís Eduardo Magalhães é uma homenagem ao livro “Polígono das Secas”, de Diogo Mainardi) – e do crescimento concomitante e congenial da indústria do carnaval, com sua música vulgar e energética, tão cheia de poesia bárbara e doçura profunda que mereceu o apelido de “axé music” – a Bahia  desenvolveu-se, modernizou-se, mostrou potência. Para o bem e para o mal (“Os Deuses da Aprovação”: o que é aquilo? Os adolescentes baianos perderam o senso de humor? Como é que aqueles professores de cursinho podem entrar outra vez em sala de aula e não ser saudados por estrondosas gargalhadas?), Salvador cresceu e enricou: há gente demais, engarrafamento, violência urbana. Mas há o Museu de Arte Moderna, o acervo arquitetônico do Pelourinho e adjacências, há o Parque de Pituaçu, há muita gente preta de carro novo bom. Há teatro. Há talento no teatro. Há Edgard Navarro e seu monumental “Superoutro” no cinema. Há provas de sobra não só de que a Bahia é a Bahia como de que as chances de lugares tão importantes recuperarem-se de fases depressivas são altas.

O índice de homicídios decresce em São Paulo e no Rio. Cresce em Salvador, em Santo Amaro, no Recife, nas cidades do interior do Mato Grosso. É preciso levar em conta o fato de que DECRESCE em Sampa e Rio. Talvez seja uma onda em relação à qual Bahia, Recife e cidades menores estejam apenas atrasadas.

Sou louco por hip-hop desde “Beat Street”, filme do início dos anos 80. Por causa dele compus “Língua”. Mas desde que vi garotos de moto com cara de zangados na Praça da Purificação, fazendo-a parecer-se muito com o Complexo do Alemão, tenho reação negativa imediata à política do rap. Em 1983 eu pensava que rap era a verdadeira música de protesto revolucionário: não era feita por intelectuais da classe média que se apiedavam dos favelados, mas por favelados. Hoje vejo que a moda da marra, o clima de bandidagem (mesmo que às vezes criticado na superfície) faz estrago e pode causar degenerescência em vez de libertação. Os Racionais permanecem como o grupo que fez “Sobrevivendo no inferno”, um dos mais importantes discos já feitos no Brasil. Mas o cômputo geral mostrando que há uma linha de influência que vem do gangsta rap até à Ilha do Dendê, com bravatas machistas-criminais e ostentação de champanhe e cadillacs, me causa profundo desconforto. Fica a glamurização de guerras entre facções de traficantes da  coisa que mais odeio: a cocaína. O aspecto formal do rap é o que mais me interessa hoje: as levadas enganosas, o dedo no botão do sinc, a distorção prosódica. Claro que a política dessa cultura é mais complicada do que minha reação atual a ela. E os jogos formais são política bastante. Mas não posso pensar São Paulo na perspectiva do Brasil de hoje sem mencionar o câmbio por que passou minha apreciação dos Racionais e relacioná-lo com a reiterada notícia da queda da violência urbana nos dois grandes centros do país, mormente na capital paulista.

Faz uns anos, alguns amigos cariocas iam freqüentemente passar o fim de semana em São Paulo: eram clubbers. A noite paulistana! E a sensação de que tudo acontece. São Paulo me pareceu, por muitos anos, muito mais sexy do que o Rio. Por causa da concentração e da intimidade dos encontros interpessoais lá. No Rio, era como se estivésemos numa festa, onde se vê tanta gente atraente mas não se chega perto de quase ninguém tempo suficiente para aprofundar uma relação. Hoje nem sinto mais isso direito. Felizmente. Mas  entendo que sentisse.

Na canção “Lapa” há muito do que penso sobre o Rio hoje. Como vejo sua força, sua potência. O renascimento dos blocos no carnaval é outro sintoma. Los Hermanos, Roberta Sá, +2, Marisa Monte, Teresa Cristina. O hábito de virem os artistas viver no Rio: Lenine, Alceu Valença, Djavan, Adriana Calcanhotto. A quase eleição de Gabeira. Mas enfatizo Sampa e seus atributos porque sei que ainda é preciso repetir.

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UM DOS TEXTOS RIO/SAMPA
22/03/2009 5:14 am

(O outro é tão longo quanto: não tive tempo de reescrever e já já o posto também. E tem comment longo no post anterior: não estou fugindo da nossa discussão de boteco virtual: só quis dar um passo.)

Vejo o Rio da perspectiva da Zona Norte: passei todo  o ano em que completei 14 (um ano crucial na vida de qualquer um) em Guadalupe. Na época, o bairro não tinha nome. Não era um bairro. Era a “Fundação da Casa Popular”, criada pelo governo e colada a Deodoro. Eu ia de trem para a cidade, passando por Marechal, Oswaldo Cruz, Bento Ribeiro, Cascadura, Madureira, Riachuelo, Méier, Engenho de Dentro, Quintino (com aquele coretinho na praça em frente à estação), Encantado, Mangueira… Não mencionei todos, nem na ordem certa, como fazia de cor quando era jovem. Ou então de ônibus, passando por Irajá, por Parada de Lucas, Penha, Ramos… E a cidade era a Cinelândia, para ver filmes em sessão-passatempo ou grandes produções; era o Tabuleiro da Baiana, no Largo da Carioca; era principalmente a Praça Mauá, onde ficava a Rádio Nacional (lá eu vi Emilinha, Trio Irakitan, Ângela Maria, Cauby, João Dias, Dolores Duran, Marlene, Zezé Gonzaga, Neusa Maria, as orquestras de Radamés Gnatalli e Lirio Panicalli – nos programas de Paulo Gracindo, César de Alencar e Manoel Barcelos. Às vezes no “Marlene, meu bem”, que era uma espécie de “I Love Lucy” feito pra rádio mas com cenário e tudo para quem estava no auditório).

A Zona Sul a gente alcançava via Jacarepaguá, onde ficava a casa de Dalva de Oliveira. Passávamos primeiro por Realengo e Bangu, tomávamos banho de mar no Recreio dos Bandeirantes e voltávamos por São Conrado, Leblon e Ipanema – parando no Arpoador – depois Copacabana, Botafogo, Flamengo, Glória e da cidade direto para a Avenida Brasil. Esse era o périplo que Carlos, meu primo policial na casa de quem morei nesse ano (1956: Vinícius e Tom lançavam “Orfeu da Conceição”), fazia. Quando eu saía com Minha Inha (a prima que me trouxe para morar aqui, longe de meus pais e meus irmãos por um ano), ia a Niterói, tomar banho no Saco de São Francisco (era minha praia favorita e amo Niterói até hoje de todo o meu coração, inclusive com raiva das piadas que cariocas fazem a respeito da cidade).

Quando Bethânia veio fazer o Opinião, eu vim de irmão mais velho. Ela ficou em Botafogo, na casa de Rosinha Pena (que foi mulher de Glauber Rocha) mas eu fiquei no Méier: Minha Inha estava morando lá, casada com um português. Era um bairro que eu já amava desde os 13 anos: seu jardim à margem da estrada de ferro, o cine Imperator (enorme, luxuoso, confortável e popular), tudo. Enfim, quando voltei da Bahia em 66 para ficar, fiquei na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, quase esquina com Santa Clara. Depois fui para o Solar da Fossa, que era onde hoje é o Rio Sul, na boca do Túnel Novo.

Depois Sampa, Londres, Salavador de novo. Na volta para o Rio, morei no Leblon, Jardim Botânico, Ipanema e, agora, Leblon outra vez. Por causa do AfroReggae me liguei a Vigário Geral e lá voltei muitas vezes. Já fui em bailes funk na Mineira, no Alemão e em Cidade de Deus. Sendo que, até morrerem meus primos mais velhos (e, para minha maior tristeza, uma das mais jovens também, Tânia Maria, que foi promotora pública atuante contra grupos de extermínio, correndo corajosamente risco de vida), eu ia regularmente a Guadalupe, à mesma casa onde morei. Moreno me acompanhava e Zeca chegou a pegar a fase final. Tom é o único que não freqüentou. Em compensação, dos meus três filhos, é ele, por causa do futebol, quem mais vai à Zona Norte hoje: joga sempre lá, treina lá e seus maiores amigos são de lá.

Cheguei a Sampa com Bethânia em 65. Achamos que parecia uma cidade do interior. E supusemos que os passageiros dos ônibus fossem estrangeiros, por causa do sotaque italianado. O clima era muito provinciano. Não se viam namorados se beijando na boca na rua, como era comum em Paris, no Rio ou em Santo Amaro. Os cinemas da Ipiranga ostentavam cartazes gigantes pintados a mão e não permitiam que os homens entrassem sem paletó. As moças na rua pareciam tímidas e desarrumadas, com os cabelos oleosos. E as pessoas bacanas que fomos conhecendo tinham nostalgia do Rio, da Bahia, do Brasil. As mulheres ricas elegantes que pintavam no teatro para ver Bethânia eram arrumadas demais, ninguém vinha de cara lavada, cabelo nos ombros e calças jeans. Eram peruas pintadas e cheias de jóias. Não foi fácil gostar de São Paulo. Mas me apaixonei pelo teatro de Augusto Boal (o “Zumbi” era uma maravilha) e pelo Oficina (“Os Pequenos Burgueses” era uma montagem que parecia européia, com uma atuação de Fauzi Arap de fazer tremer).

Bethânia, Gal, Tom Zé, Pitti, Gil e este transblogueiro que vos fala atuamos numa peça musical de Boal chamada “Arena Canta Bahia”, sem sucesso de público ou de crítica, mas de grande valor formal e técnico: Boal treinava nosso corpo, compunha imagens perfeitas com nossas figuras. Mas, logo que pude, me mandei para a Bahia.  Quando voltei a Sampa, depois de Copacabana e do Solar da Fossa, me apaixonei pela cidade. E, seguindo um comentário de Guilherme Araújo – carioca original - , passei a achar que o Rio não estava com nada. Meu irmão Bob, que veio a Rio e São Paulo antes disso, desde sempre desprezou o Rio e elegeu Sampa. Mora lá desde os anos 60 e conhece tudo da cidade: não erra caminhos, sabe onde ficam os bairros, tudo. Nunca se sentiu bem no Rio: acha os cariocas agressivos em sua desinibição.

No período do tropicalismo, o Rio me parecia provinciano em seu metropolitanismo de país subdesenvolvido – e São Paulo com  peso internacional real, em seu provincianismo cosmopolita. Não era a metrópole do Brasil: era uma cidade do mundo. Eu via como certo que no futuro São Paulo passaria a contar mais. Nunca mudei essa visão. E hoje as coisas são assim, não mais apenas parecem que serão assim. Todos os aspectos disso se impunham à minha sensibilidade: o fato de as platéias paulistas serem a um tempo mais ingênuas e mais informadas; o jeito a um tempo receptivo e exigente das pessoas com quem conversávamos; a distrubuição pouco brasileira das comunidades de imigrantes em “colônias” um tanto isoladas – tudo contrastava com as platéias-estrela do Rio, com as pessoas blasê e pouco rigorosas do Rio, com o amálgama brasileiríssimo das etnias e classes no Rio.

Quando Verdade Tropical saiu, Marcos Augusto Gonçalves, carioca com quem fiz amizade no Rio e que hoje é paulistano de adoção e tem alta função na Folha, queixou-se de uma quase ausência de São Paulo no livro. Ele sabia que a cidade fôra tão importante na formação do tropicalismo que, mesmo com todas as menções a ela, ele achava que o livro ficava-lhe em débito. Eu detestei o número da Ilustrada (ou já existia o Mais?) dedicado ao meu livro. Mas nunca neguei que a observação de Marcos fosse fundada. Eu próprio acho que nem todas as palavras afetivas ditas sobre minha primeira casa (foi em São Paulo que primeiro tive apartamento para morar), sobre Boal e o Oficina, sobre os poetas concretos, sobre minhas farras com Chico e Toquinho (e o sex-appeal paulistaníssimo de Toquinho) põem em proporção o peso que São Paulo deveria ter naquele livro.

“Zii e zie”  é um disco todo do Rio. Seu som, seus temas, seu clima, tudo tem a ver com o fato de meus filhos terem crescido aqui – e com minha adolescência em Guadalupe. Mas sonho em lançá-lo em Sampa. O italiano do título tem vem muito da saudade de São Paulo, do prazer em ouvir e ler paulistas dizendo “tios” e “tias” (ou mesmo “tiozinhos”) para se referirem aos adultos. A presença de São Paulo em nossa mente é, hoje, a realização do que Guilherme intuíra em 66 e que me pareceu óbvio já em 67. Gil, sempre Gil, sabendo das coisas essenciais antes, tinha uma decisão pró- São Paulo mais bem desenvolvida do que a minha. Mas Gil não fala dessas coisas assim. Quem afinal compôs “Sampa” fui eu. Sinto mais do que orgulho.

Hoje São Paulo nem feia mais parece. São tantas coisas grandes e belas que a força da grana garante, é tão nítido o gume São Paulo na entrada moderna do Brasil na História – Museu da Língua Portuguesa, Racionais MCs, Cidade Limpa, Augusta sendo um Largo da Ordem-Pelourinho-Lapa mais antenado com o mundo, Sala São Paulo, OSESP – que hoje sentimos sua liderança e sua centralidade sem precisar pensar.

Demorei a conhecer paulistas que se sentissem superiores ao Brasil. Primeiro achei só os arrogantes e alienados. Só depois vi os realistas. Zé Miguel Wisnik nota que paulistas se ressentem de um deficit de brasilidade e também de uma sensação de superioridade em relação ao país. Muitos oscilam entre esses dois polos. Os queridos e úteis intelectuais da USP sempre parecem que querem salvar o Brasil de si mesmo – ou simplesmente, num universalismo marxista regional, descrêem de tudo o que for nacional. Fernando Henrique falando dos soldados brasileiros que “não sabem marchar – eles sambam” é uma caricatura disso. O livro de Marilena contra a celebração do Descobrimento é uma versão sisuda e errada do mesmo sentimento. Mas ponhamos essas desmunhecadas na conta da geração: esses ecoam ainda modos de sentir do paulista culto que leu muito nos anos 50 e escreveu muito dos 60 em diante. Porque Oswald, Haroldo de Campos e Mário de Andrade não eram assim. E o jovens pós- Zé Celso e pós Rita Lee muito menos.

Chico Buarque para mim é São Paulo. Um grande paulista da linhagem dos que sentiam o deficit de brasilidade de forma dolorosa. E se tornou o mais perfeito brasileiro-carioca simbólico de todos os tempos. Saber que o talvez maior compositor popular de minha geração é um paulista diz tudo sobre a intensidade da energia de São Paulo. E diz mais ainda sobre os caminhos misteriosos da nossa tomada de consciência desse fato e de suas projeções. É só para isso que importa o quanto Chico desaprovará esta interpretação. Quanto ao “talvez” que escrevi antes de “o maior”, ele se deve a eu ter pensado em Jorge Ben e em Paulinho da Viola: Gil e eu não me parece que estejamos no páreo. Somos relevantes pelo conjunto da obra crítica, política, teórica, comportamental que acompanha o trabalho de composição. Mas Chico é o cara da canção. E ele é paulista.

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MAU GOSTO
5/03/2009 1:24 am

Cordão é sinônimo de bloco. Só quem saía sem corda eram os trios elétricos. Das grandes sociedades às escolas de samba (como lembro dos Diplomatas de Amaralina!), dos Filhos de Gandhi aos Internacionais, do Crocodilo ao Ilê Aiyê - todos sempre saíram com cordão de isolamento. Isso nunca impediu os foliões de brincarem carnavais inteiros de graça. Ainda hoje é assim. Moreno, meu sábio filho, nunca entrou num camarote ou num cordão - nunca deixou de brincar mais do que eu, nunca reclamou. Quando nossa maior paixão era o Olodum, eu subia no caminhão com Paulinha Lavigne (Aloísio Mercadante era companheiro querido e animado), usava fantasia e dançava dentro da corda, Moreno brincava a noite toda na pipoca.

A primeira vez que vi as escolas de samba do Rio foi na Avenida Presidente Vargas, com Dedé. Choramos de emoção: era 1965, o ano em que a Império Serrano saiu com os “Cinco bailes na história do Rio”. Estávamos na arquibancada. Naquele tempo havia uma arquibancada longa de um lado só da avenida: do outro lado era uma corda guardada pela polícia. Quem não tinha dinheiro para comprar lugar na arquibancada ficava de pé na rua, sambandinho, colado na corda. Os foliões que tentaram seguir as escolas foram repelidos a cacetetaas pela polícia montada. Dedé e eu ficamos chocados, mas ninguém sequer reclamava. Nem uma palavra nos jornais. Nós  próprios terminávamos sempre sendo retomados pela beleza do espetáculo e desistíamos de implicar com a dureza da polícia..

Depois o Darcy Ribeiro construiu o Sambódromo. Paulinho da Viola era contra - acho que ainda hoje não se conforma com a ideia de “praça da apoteose”, muito menos com a exclusão do folião pobre, que olha por frestas, do alto de viadutos, pouco pode ver.

Quero citar a obra-prima que é “Invocação”, do Quanta Ladeira, esse bloco recifense que canta espetaculares paródias obscenas de canções conhecidas. Nesse caso, a graça vem da ironia com o Recifolia, um carnaval pop abaianado (”resto de janta abaianada”) que se serviu ao povo daquela cidade por alguns anos. A última frase diz: “ai que saudade do cordão de isolamento”. Uma reação a essa intervenção no carnaval pernambucano fez muito bem à cidade: o carnaval de lá tem tanta força na tradição que pode viver quase só dela. O carnaval baiano que me apaixonou em 1960, quando fui de Santo Amaro pra Salvador, se pautou, desde 1950 pelo menos, pela invenção novidadeira. O trio elétrico serviu, antes, de inspiração e, depois, de argumento para os tropicalistas. Não tinha corda. Num frevo que escrevi sobre o assunto (”Um frevo novo”) digo “Todo mundo na praça e manda gente sem graça pro salão”. Só parte da juventude de alta classe média ia às ruas: ou eram comunistas, ou eram boêmios, ou eram veados, ou eram dos Internacionais. Minto: os velhos ainda saíam nas “grandes sociedades”.

Na Avenida Sete, as famílias punham cadeiras na beira da calçada para assistir ao que passasse. Logo estavam cobrando para alugá-las. As cadeiras ficavam amarradas em cordas que iam de árvore a árvore e roubavam toda a calçada aos foliões. Bem, faz uns bons anos que os camarotes que avançavam sobre o espaço do folião em Ondina foram proibidos (no período Imbassahy?). No ano passado, acompanhei Brown e o Camarote Andante, a pé, da Barra a Ondina. Neste ano, fiz o mesmo percurso em cima do trio do Psirico. A generosidade dos espaços - e o aproveitamento que as multidões fazem deles - é empolgante.

Daniela Mercury há anos não aluga seu trio a blocos: sai sem corda. Não é a única. Brown também. E há vários trios financiados pela prefeitura que saem sem corda. Feitas as contas, não houve piora, talvez tenha havido melhora na configuração topográfica do carnaval da Bahia.

Antes de ver o de Salvador, já tinha, aos 13 anos, passado o carnaval no Rio. Ver a Avenida Rio Branco vazia e sem animação me cortou o coração nos anos 90. Estava tudo reduzido aos desfiles das escolas. Há 4 anos, passei os dias de carnaval no Rio, sem ir ao carnaval. Estava sofrendo, de luto por dentro, não queria ir ao Sambódromo. Fui com Antonio Cicero e Marcelo Pies ver uma exposição no CCBB. Isso fica no centro, perto da Candelária, que é onde a Rio Branco desagua na Presidente Vargas. Para minha surpresa, vi muita gente fantasiada por ali. Pedi licença a Cicero e Marcelo e fui olhar a avenida. Chorei de emoção: estava como quando eu tinha 13 anos: cheia de “clóvis”, blocos, famílias fantasiadas, tudo. No dia seguinte Hermano Vianna me chamou para ver um mini-bloco que Kassin tocava na Avenida Atlântica (eu estava num apart-hotel entre Copa e Ipanema). A Atlântica estava vazia. Mas, voltando de lá, vi burburinho no Arpoador. Fomos olhar e Ipanema estava apinhada de gente. Nos disseram que o Monobloco tinha passado horas antes. A turba remanecente estava pronta para um carnaval pernambucano, baiano, pronta para tudo. Não havia mais blocos. Sobretudo me impressionou a ausência total dos poderes públicos: os vendedores improvisados paravam no meio do safalto, em qualquer lugar. Lembrei-me de quanta coisa se fez na Bahia e no Recife nestes anos. Há regras para a distribuição dos vendedores. Há proibições, planejamento. O Rio oficial porta-se como se nada houvesse além do Sambódromo. Ouço que o número de blocos cresceu enormemente. Que o folião pipoca é multitudinário outra vez no meu Rio. Fico tão feliz que nem dá para explicar. E espero que surja o que surgiu na Bahia: repertório novo e forte - e presença da prefeitura.

Todas essas coisas - e tantas mais - tomaram minha cabeça (além do que é mais forte: o samba do Psirico, a “viola” do Fantasmão, Daniela com o trio caprichadaço puxando milhares e milhares de pessoas, Ivete deixando o pano branco voar, Preta cantando bem um repertório massa na varanda do Camarote 2222, Xande cantando super bem, o Ilê em sua majestade, Armandinho agora com multidão atrás outra vez, Retrofoguetes homenageando Armandinho, Lucas Santana, Trio eletrônico arrebentando…) que não sobra muito espaço para reclamar do que nem tem modelo melhor no passado para comparação.

Bem, eu teria muito do que reclamar - mas não seria de nada do que o pessoal reclama. Talvez começasse, como Zizek, a reclamar contra a existência do carnaval. Mas não penso como Zizek mesmo! Paro em constatar que, nos blocos convencionais (mas nunca no Chiclete), quem brinca mais é quem fica fora da corda: quem está dentro leva aquele “sem graça” do salão de que falava minha música. As roupas uniformes ficam muito feias quando essas pessoas estão cansadas e sem nenhuma outra emoção positiva além da certeza de que está dentro do bloco. Mas já falei demais sobre o mau gosto carnavalesco da classe média provinciana em Verdade Tropical.

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