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OeP (SAUDADES) ZeZ
14/04/2009 2:53 pm

(NOTA DA MODERAÇÃO: Não é possível fazer novos comentários, mas os comentários antigos podem ser lidos após clicar no título de cada post deste blog. Apenas este post não tem comentários. Posts anteriores geralmente têm centenas de comentários que devem ser lidos por quem quiser saber o que aconteceu no progresso desta obra.)

O show vai ser no Canecão. Eu quis muito São Paulo para começar matando as saudades, mas o Rio tá mandando em mim. Fico feliz que seja no Canecão. O Canecão é a casa de show real do Brasil. As outras, com todo o respeito, são imitações. Não se pode imitar um boteco que atrai gente há muito tempo e não é pelo conforto nem pelo luxo nem mesmo pela qualidade do serviço. Pode-se imitar um bar bem feito e “bom”. Mas o Canecão é um boteco afavelado cheio de magia. Não adianta fazer um “melhor”.

Espero todos os internautas que ficaram amigos meus e amigos uns dos outros através de obraemprogresso. com.br. Os que puderem vir ao Rio, venham. Vamos se falar no camarim depois do show. Os que não puderem vir ao Rio falam comigo em BH ou Sampa ou Brasília ou Slavador ou Recife ou PoA ou Floripa ou Cuiabá ou Belém ou Curitiba (será que eu vou a Curitiba e Floripa este ano?: o “Cê” não foi) ou Fortaleza ou Campinas ou Campina Grande ou Goiânia ou Palmas (nunca fui a Palmas) ou em Buenos Aires ou em Montevideo ou em Roma ou em Florença ou em Amsterdam ou em Ann Arbor ou em Santiago ou em Minneapolis ou em New York ou em Paris ou em Londres ou em Tucson ou na Cidade do México ou em Bogotá ou em Madri ou em Piracicaba. Onde será que esse show vai?

Hoje passei o dia dando entrevistas. Me perguntaram várias vezes se eu não sentiria saudade do blog. Claro que vou sentir muitas saudades deste blog. Hoje ele pára – com acento agudo (finalmente li o “Acordo”: achei cheio de inconsistências, com todos aqueles pontos facultativos e com menos acentos diferenciais ainda; sou favorável a uma combinação entre os países lusófonos a respeito das regras ortográficas do português – e acho natural que desta vez o peso brasileiro seja maior do que nunca – mas penso que um acordo tal como o que foi formulado não vai ajudar muito nisso: a história futura poderá inspirar outras soluções – se enriquecermos e passarmos a dar as cartas e as coordenadas de um mundo melhor – e não vi nada sobre “camião” e “caminhão”, assim como nada encontrei sobre “porque”, “por que”, “porquê”, “por quê” – digo: se se decide pelas formas portuguesas ou brasileiras – mas entendo que esses não são casos de regra ortográfica propriamente). Sentirei saudades de todos os que se habituaram a escrever aqui. Sentirei falta de vir olhar os comments. Nunca vou esquecer as discussões sobre sotaques e microgramática com Heloisa, ou de sociolingüística e política com Luedy. A insistência de Gil em cobrar alguma solução brasileira para o dilema dos piratas tem de dar frutos para além do blog. Agradeço a aproximação de Possenti. Ele foi gentil em chegar perto e ajudar a mostrar a dignidade que há na empreitada dos lingüistas lulistas.

Eu adoraria falar de todos e de cada um que escreveu aqui. É das pessoas que sentirei saudades. Posso vir a conhecer de perto muitos deles, mas ainda assim sentirei saudade das personalidades virtuais que conheci aqui. Exequiela, Vero e Lucre, sempre mais sexuais do que as discretas brasileiras. Paloma que me cortou o coração ao sumir como que zangada, depois de ter feito aquela versão adorável de “Incompatibilidade de gênios”. Barbara, a quem eu precisava explicar por que eu ser baiano explica em parte eu gostar assim de São Paulo (remember my telling about Paulo Leminski’s idea of a link between Bahia and São Paulo: how these two, when put together, tend to be the most inventive team). Labi, tão inteligente e tão boa. Salem, Carias, Glauber, Joaldo (vou olhar a Impertinácia e de repente dou uma canja, de improviso), Paulo Osório (depois de São Paulo, minha preferência seria estrear em Lisboa), Teteco dos Anjos, esse anjo lírico do interior de Taubaté e da Sardenha, vianna vana caravana, Miriam Lucia, guto guimarães, bruno gumarães, Lucesar, Rafael, Luiz Castello, Tabatinga, Wesley Correia, Marcio Juqueira, Neyde L., Mara, Siboney, Kauim, Nando, ju, Lícia, Maria, Maria e Erica, Marcos Lacerda, Julio Vellame, Enzio Andrade, Emerson Leal, Guido Spolti, Miki Kawashima, Rea Silvia, Rosana Tiburcio, tanta gente de que não lembrei o nome agora – mas que não deve se sentir preterida por eu ter escrito tantos outros: era vontade de chegar até o seu. Minha idéia era não citar ninguém. Mas não resisti.

Hermano, cadê você? Gente, escrevi para Hermano faz uma hora e esperei que ele estivesse lá (ou chegasse lá) mas ele, que não tem celular (eu também não), não atende telefone em casa. Eu queria que ele escrevesse hoje também. Viesse para esta despedida. Para postar junto comigo este tchau. Para mim, Hermano é um dos maiores heróis do Brasil. Gosto muito do pesamento dele, da inteligência, mas acho que ele é um homem de ação, um herói moral e intelectual, que sente a força e o peso prático dos atos e das idéias. João Gilberto é um gênio, Antonio Cicero é um pensador, José Miguel Wisnik é um santo – Hermano Vianna é um herói. Não é a primeira vez que digo isso. Mas ao repeti-lo agora sei que ele e os outros todos vão saber quão seriamente eu o disse quando o disse pela primeira vez. Penso muito nisso. Penso muito em Hermano nesses termos. Sei que alguns de vocês sabem: Hermano é uma das pessoas mais importantes de nossas vidas.

Vellame: “Slumdog Millionaire” é uma fábula sobre o destino. É assim que o filme gostaria de se apresentar. Mas não é. É uma confusão sentimental e divertida utilizando-se de material humano grave. Não é bom. Mas é quase. Diverte um tanto e parece se redimir na dança final na plataforma do trem: Bollywood quase salva a alma de Hollywood. Por que tantos prêmios?

Jary comentou que escrevi “ascenção” , com “ç” e não com “s”. É o tipo do erro que cometo. Ou será que, como diriam os sociolingüistas de Luedy, é errado dizer-se que algo é um erro?

“zii e zie” é o título condizente com as cenas do Rio de hoje: “tios e tias” somos todos diante dos garotos que fazem malabarismo no sinal. Mas em italiano fica mais perto de São Paulo, que é o que desejo agora.

Já encontrei Glauber, Rafael, Mara, Joaldo, quem mais? Acho que já conheço Gil de longa data. Pretendo encontrar tantos que nunca vi pessoalmente.

Gil: “entro na velhice”, foi o que escrevi. Não “entro para a velhice”. Sua troca de preposição parece revelar que tipo de inquietação a frase lhe causou. Mas é apenas uma constatação. Se Ricardo e Marcelo se aproximam da idade adulta, se Moreno e Pedro estão no seu auge, eu entro na velhice. Ou, dito de outro modo, igualmente objetivo: os primeiros têm 27 anos, os outros dois têm 36 e eu tenho 66 (faço 67 em agosto). Mas, veja bem, é “entro”. Isso dura. E hoje em dia 66 é infância da velhice. Não estou demasiadamente preocupado. Aliás, não estava nada preocupado quando escrevi: se estivesse, acho que não escreveria.

Foi bom à beça este blog. Agora é concentrar para ensaiar e fazer um show todo interessante para quem quiser ver. E para todos nós, muitas boas conseqüências (além de boas lembranças) desse período aqui.

“zii e zie” dia 8 de maio no Canecão. Depois, para outras datas, consultem meu site oficial. E leiam os jornais. Felicidades.

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RICARDO, MARCELO, RELEASE E P.S.
10/04/2009 7:40 pm

ENTREVISTA COM MARCELO CALLADO:

C - Que discos e que artistas tiveram mais importância em sua formação musical?

M - The Beatles (Rubber Soul) - Foi a primeira banda pela qual tive real interesse musical.
Me lembro de voltar de uma viagem que tinha feito ao Pantanal em 1987 com minha família, escutando uma coletânea de músicas dos Beatles feita pelo meu primo Juca em K7. Fiquei doido com aquilo que tinha escutado, e chegando ao Rio fui fuçar nos vinis do meu pai pra ver o que rolava de Beatles lá. Como não tinha muita coisa (embora ele gostasse muito da banda) pedi pra que minha mãe comprasse o LP dos Beatles que ela mais gostasse. Ela voltou com o Rubber Soul, disco que ouvi repetidas vezes sem parar durante dias, e que me influenciou e influencia até hoje por tudo que nele há.

Mulheres Q Dizem Sim (Mulheres Q Dizem Sim) - O Mulheres foi seguramente um dos responsáveis por eu estar aqui hoje tocando. Além de ser uma banda que estava muito ao meu alcance (por ser aqui do Rio, todos os componentes serem conhecidos, amigos de amigos e tal…), a musicalidade da coisa, me pegou de jeito. Aquilo que eles faziam, traduzia muito bem o que eu pensava em fazer com música. Ali, em 1994 ouvindo Mulheres Q Dizem Sim, começou minha vontade de ter banda.

Ween (Pure Guava) - Acho que esse disco do Ween, que andava lá pela casa do Jonas, junto com a fita-demo Macacomóvel da banda Zumbi do Mato, apresentada a mim pelo Gabriel, foram muito importantes para abrir as portas de um novo universo. O “Universo das brincadeiras levadas a sério”

C - O que significa o rock para você?

M - Jimi Hendrix.

C - O que significa o samba?

M - Samba é desfilar na Sapucaí no meio de uma bateria com mais de 200 ritmistas.

C - Quais os bateristas que você mais admira (no rock, no samba, no jazz, em qualquer gênero)?

M - Admiro muitos: Tutti Moreno, Wilson das Neves, Alan Myers (DEVO), Jaki Liebezeit (Can), Steve Shelley (Sonic Youth), Domenico Lancelotti (+2) e o grande Joseph “Zigaboo” Modeliste (The Meters).
Também admirava muito o jeito que meu pai tocava caixa-de-guerra nos blocos do Rio.
Mas os meus prediletos e os que mais noto influência em meu jeito de tocar são : Ringo Starr, Mitch Mitchell do Experience e Leo Massacre Completo da banda RAME.

C - Você participa de mais de uma banda (e colabora com outras) atuantes no Rio de Janeiro. Como você vê a cena musical daqui?

M - Vejo com muito bons olhos a parte que diz respeito a produção musical. Há muitas bandas e artistas com talento de sobra e muita vontade de trabalhar e produzir aqui no Rio. Não vejo uma união desses artistas para a formação de um movimento, de um coletivo, ou mesmo um festival ou algo assim. É tudo mais na base do “cada um por si”, mas acho que há uma verdade em ser assim, desse modo.
O que acho mais engraçado na cena musical daqui, e que não vejo com muito bons olhos, é a escassez de lugares de médio porte com condições boas pra se apresentar ao vivo, aliada a um certo desinteresse por parte do público carioca em conhecer novidades, o que acaba criando um círculo vicioso de apatia.
Um exemplo disso é que no ano passado o Do Amor, minha banda, fez três vezes mais shows em SP que no Rio.

C - Como você vê a cena da música no mundo. O que te interessa mais?

M - Essa é uma boa pergunta pois acho que ando meio em falta com o mundo.
Apesar de achar maravilhosas todas essas novas ferramentas que dispomos para baixar músicas, conhecer bandas, trocar arquivos etc., eu acabo as utilizando pouco, e por conta disso acabo não ficando muito ligado nas novidades que tão rolando no cenário musical mundial atual. De vez em quando procuro algo novo que ouvi em algum canto e corro atrás, principalmente quando são bandas daqui do Brasil. Mas na real me interesso mesmo e me divirto mais, indo a sebos e resgatando velharias em vinis.

C - Quais as bandas de que você mais gosta das surgidas mais recentemente (no mundo, incluíndo o Brasil)? Quais as que você mais admira desde sempre?

M - Recentemente, cerca de um ano atrás, me liguei em uma banda americana chamada Vampire Weekend. Aqui no Brasil vi vários shows incríveis nos festivais independentes: Macaco Bong, Hurtmold e DJ Maluquinho são alguns que me recordo agora.
As bandas que mais admiro desde sempre são: The Beatles, The Wailers, Devo, Os Mutantes, Novos Baianos e Acabou La Tequila.

C - Como você compararia o trabalho no “Cê” e o trabalho no “zii e zie”?

M - Acho que os dois discos são felizmente parecidos por terem conseguido chegar nas idéias e conceitos iniciais propostos. Cê no tratamento de banda dado às composições, que tendiam mais pro rock, e Zii e Zie no tratamento da mesma banda dado aos sambas.
O que acho que mudou, é que pelo fato de termos ido pra estrada e feito zilhões de shows, houve um amadurecimento no entendimento musical individual e por conseguinte no todo. No processo de feitura do Zii e Zie, cada um de nós, já sabia mais ou menos o que tinha que fazer para se chegar no resultado. No Cê a gente simplesmente ia chegando.
Isso faz com que eu acabe concordando com a turma roqueira da Bahia quando eles dizem que sentem que Zii e Zie possui uma unidade maior. É uma unidade maior - e isso não quer dizer que em Cê era pouca - na forma da banda pensar e tocar .

ENTREVISTA COM RICARDO DIAS GOMES:

C - Que discos e que artistas tiveram mais importância em sua formação musical?

R - No meu interesse por música sempre busquei uma abrangência de estilos e épocas. Mas de fato por alguns discos eu me apaixonei profundamente. Eles me desafiaram, a cada audição (muitas e muitas), me contaram segredos novos e arrebatadores, de maneira que devo ter buscado ser um pouco eles em toda minha trajetória. Aqui vai o nome do disco seguido pelo artista.

Pureguava - Ween
Buy - Contortions
Funkify your Life: The Meters Anthology - The Meters
Axé - Candeia
Portrait in Jazz - Bill Evans
Miles Smiles - Miles Davis
Duty now for the future - Devo
The Stooges - The Stooges
Axis: Bold as Love - The Jimi Hendrix Experience
Sonatas opus 13 e 14 de beethoven
Ahmad Jamal at the Pershing: But Not for Me - Ahmad Jamal
First Issue - Public Image Ltd.

É interessante que enquanto faço a lista reparo que todos os discos eu descobri na minha
adolescência e têm um gostinho de sonho. Há vários outros discos marcantes mas esses
da adolescência (uns 10 a 15 anos atrás) de fato foram cruciais na construção da minha personalidade
musical e aquilo que busquei tocando e pensando música.

C - O que significa o rock para você?

R - Rock deve ser um monte de coisas pra outras pessoas. Mas pra mim rock, puramente falando, se associa a um sentimento de visceralidade. Se faz no trabalho de assumir e expressar um íntimo impulso agressivo comum a civilização. Rock é um pouco histérico. Não tem a ver com racionalização. É um não apego. Um não narcisismo. É um gesto pouco elaborado. Por isso é mais rítmico e timbrístico e menos harmônico e melódico. Simplicidade (menos algorítmico) que implica em profundidade. Além disso tudo, rock é proveniente da língua inglesa, ou seja, proparoxítona.

C - O que significa o samba?

R - Samba é do Brasil. Vem da nossa fala. Possui um certo ostinato de raízes africanas, mântrico e lúdico. Emocionante. Diferente do Rock, possui um pouco mais de formalização. Então, pra fazer samba tem que fazer Poesia. Não basta dizer, tem que dançar

C - Quais os instrumentistas que você mais admira (em jazz, samba, rock)?

R - Não sou muito admirador de instrumentistas puramente.  Mas admiro muito quando um artista desenvolve uma maneira única de utilizar seu instrumento para se expressar artisticamente. Acontece desses sujeitos terem suas maneiras de tocar (técnica) sistematizadas mas isso não garante que ninguém que “copie” aqueles gestos desenvolvera uma maneira singular de tocar.
Bernard Edwards
Lennie Tristano
Les Paul
Mestre Vieira
Richard David James

C - Você participa de mais de uma banda. Como vê a cena carioca?

R - O Rio tem uma diversidade de bandas muito grande. Mas tem sofrido de um problema sistemático:
Preguiça. Em outras cidade do Brasil, principalmente em São Paulo, quando vou tocar com “Do Amor” ou
“Brasov” vejo que o público se forma sempre com pessoas curiosas afim de descobrir algo novo. No Rio
tenho a impressão da galera estar sempre a procura do Programa, da night, da bombação. Claro que em
Sampa ou em Brasília também tem isso. Mas tem também o público interessado. O Rio tem poucas casas de pequeno e médio porte pra tocar porque os programas que “dão certo” já são sabidos e ninguém quer arriscar algo novo. Salvo o fenômeno de música brasileira na Lapa que de fato é muito positivo mas não é suficiente para abranger toda complexidade de bandas que acabam tocando muito mais fora do Rio. Em várias capitais não há muitos lugares pra tocar também mas têm os maravilhosos festivais (não só em capitais) que é o sonho de qualquer banda. Esse é um fenômeno em desenvolvimento. Os festivais ainda têm o que melhorar em estrutura e organização mas é feito por gente séria e por público interessado. O que acaba criando uma demanda de shows fora do festival. Sem falar nos ricos encontros entre bandas de cantos diferentes do país. No Rio se depende muito da mídia para tornar um projeto viável pois a mobilização das pessoas interessadas em fomentar
a cena musical não é auto-sustentável, ainda. Sem falar num problema mais geral do país que é a situação vergonhosa do transporte público. Fica difícil perambular pelos interiores em ônibus fedorentos ou pelas estradas entupidas de cratera.

C - E a cena musical no mundo, como você vê?

R - Vejo com interesse que Estados Unidos e Europa estão super recheados de festivais o ano inteiro com bandas de todos os cantos do mundo. Há também casas de shows muito organizadas que as pessoas vão regularmente. Na tour do Cê em 2007 tive a oportunidade de sair muito para conhecer os lugares. Por exemplo uma festa reggae em Brixton em Londres ou o maravilhoso show do Pylon numa lugarzinho charmoso underground em Chapel Hill. Também vi shows ruins em outros lugares mas é impressionante a dignidade da “cena”. O público paga pra ver o show e as casas e as bandas são pagos pelo trabalho suficientemente para viverem fazendo isso.

C - Quais as bandas de que você mais gosta das surgidas mais recentemente (no mundo, incluíndo o Brasil)? Quais as que você mais admira desde sempre?

R - Vou citar alguns nomes de bandas que admiro recentemente surgidas no mundo misturadas com
outras mais antigas que ainda produzem discos.

Number, Macaco Bong, Natalie Portman’s Shaved Head, Cérebro Eletrônico, Sonic Youth, La Pupunha, Imbécile, Zumbi do Mato, Fanfare Ciocarlia, Rubinho Jacobina, Lou Reed, Siba e a Fuloresta, Kevin Ayers, Jupiter Maçã

C - Como você compararia o trabalho no “Cê” com o trabalho no “zii e zie”?

R - Em Zii e Zie nós fomos musicalmente um pouco mais ambiciosos que no Cê. O transamba
foi levado ao extremo.  Cê é o retrato de quando inventamos um jeito de fazer os arranjos baseados
nas idéias individuais frente a composição minimalista da banda. Zii e Zie se utiliza desse método,
que continuou se desenvolvendo nos shows e aplica mais claramente ao samba. Em Cê não havia
um objetivo estilístico tão definido. Zii e Zie é um disco de samba na medida em que o reinterpreta.
Está vivo. É disco de rock pois pega emprestado das bandas de rock um pouco da maneira com que
seus integrantes interagem. Assim como o Cê, é um pouco erudito quando se vê que há um forte
contraponto entre frases rítmicas e melódicas bem definidas.

RELEASE:

Um passo a dar com a banda do “Cê” (hoje bandaCê) e a lembrança permanente daquele disco de Clementina com Carlos Cachaça. “Incompatibilidade de gênios” e “Ingenuidade” estão em “zii e zie” porque são as faixas núcleo daquele disco, as que ficaram sempre acesas na memória. Não tenho um exemplar do disco de Celementina comigo. Talvez um vinil tenha ficado na casa de Dedé e hoje Moreno o achasse. Mas nem perguntei a ele. Num dos primeiros ensaios do Obra em Progresso, aquele em que Jaquinho foi o convidado, quis ensaiar “Incompatibilidade” e comentei com Pedro, Ricardo e Marcelo que na minha lembrança Clementina cantava em, digamos, dó maior, em vez do lá menor do João Bosco. Tinha na memória uma harmonia mais convencional quando ouvi a gravação desse samba com o autor pela primeira vez: a que tinha ouvido antes com Clementina. Achei que João Bosco tinha feito uma rearmonização e desejei voltar ao jeito que está no disco dela. Mas não estava certo de que minha lembrança não fosse uma ilusão. Jaquinho então disse: “por que você não faz em dó maior, se é isso que você está sentindo?”. Tentei achar a gravação de Clementina ali na hora (Moreno não ia aos ensaios), na internet, mas não achei. Achei uma exuberante e espetacular de João Bosco ao vivo no YouTube. Em lá menor, claro. Me pergunto se há muita coisa melhor do que aquilo no mundo. Mas minha idéia era totalmente oposta à daquele tratamento jazzístico moderno e com um suíngue de samba tão profundamente sentido por todos os músicos que chega a doer. Voltei para a sala de ensaio com vontade de talvez nem cantar a música. E com a certeza de que, se o fizesse, seria em lá menor: o dó maior seria bonito numa versão ingênua que quisesse ser o que Clementina soava pra mim. Na versão simplificada mas nada ingênua que eu imaginava, o centro tonal em lá menor - e os acordes tensos ao seu redor - era o que se exigia. A batida monótona tinha de o ser tanto quanto a de “Perdeu”, embora um tanto diferente: partindo da idéia básica da batida de Bosco. Experimentamos. E a canção entrou não só no show seguinte como está no disco. Me demoro contando sobre a entrada de “Incompatibilidade de gênios” (e algo sobre a de “Ingenuidade”) em “zii e zie” porque acho que isso joga luz sobre todo o sentido do novo disco. Conhecendo o que eu sugeri para “Perdeu” (e o que, juntos, conseguimos com esse transamba), os 3 caras da banda intuíam o que deveria estar em minha cabeça como tratamento para “Incompatibilidade”. Mas as mudanças por que o projeto de arranjo passou em minha mente eles não acompanharam. Voltei do computador decidido a incluir a música no disco e dizendo que a versão de João era humilhante mas que a gente faria um “transamba”, enquanto ele fazia “samberklee”. A piada era boa e fez rir. Não dá para competir: nossa versão apenas mostra uma abordagem diferente, que talvez suscite outras interpretações desse samba obra-prima. Isso diz muito do que fazemos, neste disco, com o samba em geral.

De “Diferentemete” (a mais velha das canções do CD) a “Lapa” (a mais nova), todas as composições nasceram comigo usando batidas de samba no meu violão - e buscando frases melódicas que evocassem a tradição do gênero. As únicas exceções talvez sejam “Por quem?” e “Sem cais”. Digo “talvez” porque para “Por quem?” sempre imaginei uma bateria dobrando uma transbossanova sobre o ternário às avessas do meu violão - e a balada de “Sem cais” já veio à mente de Pedro com muito samba dentro. Pode ser que alguém ache difícil reencontrar isso em “Menina da Ria” ou mesmo em “Lobão tem razão”. Mas eu digo que, embora em “A cor amarela” haja explícitas palmas de samba-de-roda, há mais samba na base daquelas duas canções (e em “Tarado ni Você”) do que no axé light da menina preta. Mantive as minhas batidas de violão do momento da composição em todas as gravações. Sugeri relações de contraste ou de distorção entre elas e a atividade dos outros instrumentistas. Chegamos a coisas muito bonitas e, mesmo para nós, intrigantes.

“zii e zie” é um disco feito com a bandaCê, concebido para ela. Ela tinha sido concebida para fazer o “Cê”. Por isso há mais unidade na partida do “Cê” do que na chegada, ao passo que há mais unidade na chegada do que na partida do “zii e zie”. Para nós quatro foi custoso reconhecer essa verdade (que pareceu óbvia a ouvintes não envolvidos na feitura). “Cê” foi concebido para criar uma banda. Mas foi um disco de letras muito pessoais minhas. Eu olhava para meu entorno próximo. Em “zii e zie”, as letras olham para mais longe. Atém-se majoritariamente ao Rio, mas aí vai a lugares variados: da favela ao Leblon, da Lapa à praia; de Chico Alves a Los Hermanos; de anônimos típicos a celebridades atípicas, como Kassin, a combinações inusitadas de personalidades cariocas, como Guinga e Pedro Sá. Mas as letras olham para mais longe de mim também: Guantánamo, grutas do Afeganistão, Washington. Voltam os nomes próprios e o tom de comentário dos signos dos tempos que sempre fizeram presença em meu repertório.

Tudo contribuiu para que este viesse a ser um disco mais de banda do que o anterior. Moreno e Daniel Carvalho ficaram mais felizes com o material sonoro que produzíamos. E nós nos sentíamos ainda mais relaxados no diálogo com eles dentro do estúdio. Pedro foi mais um produtor que dirige a feitura da música. Moreno, mais um produtor que dirige a feitura do som. Daniel era responsável pela técnica de captação. Moreno tem um ouvido muito fino para gravação, mixagem e masterização. Ele ilumina os técnicos. E o tratamento sonoro que ele e Daniel trazem ilumina a música.

“zii e zie” é um disco muito claro e denso, nascido num ano de chuvas no Rio, um ano de nuvens pesadas e escuras, sem metáfora. É um disco que saúda a era Fernando Henrique/Lula e fala de ambições de ascensão do Brasil no cenário mundial num tom de tristeza íntima mitigada. Entro na velhice. Pedro e Moreno estão no auge da idade adulta. Marcelo e Ricardo chegam a ela. Somos pessoas de gerações diferentes partilhando interesses muiscais e humanos semelhantes. E com assustadas expectativas de futuro soando em nossas cordas metálicas, plásticas, mucosas.

Caetano Veloso.

P.S.: Soube por Francisco Bosco que João, pai dele, acaba de gravar “Ingenuidade” também. Eu gravei sem nem reouvir o disco de Clementina: apenas a lembrança do que julguei ter ouvido. Gravei com erros (um deles um tanto sério) na letra. Ouçam a gravação de João quando sair, para correção. Ou voltem, se acharem, à de Clementina (simplesmente celestial). É um modo de mostrarmos respeito a esse extrapordinário sambista de nome extraordinário: Serafim Adriano (o anjo imperador, como Francisco e eu dissemos em uníssono ontem na Cinemathèque, depois do show de Jonas Sá).

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PAPO COM PEDRO
4/04/2009 9:14 pm

C – Mostrando “Zii e Zie” a andré t, em Salvador,…

P – Cê mostrou a ele?

C – Mostrei.

P – Que legal.

C - …ele estava conversando conosco muito relaxado, rindo etc. Quando botei o disco ele ficou sério e calado ouvindo. Permaneceu sério quando acabou de ouvir. Perguntei se não tinha gostado. Ele disse logo que esse disco era melhor do que o “Cê”. Eu ri e perguntei se isso era bom ou ruim. Ele disse: “o ‘Cê’ eu só ouvi até a metade”…

P – Caramba!

C – Como é que você sente “Zii e Zie” em relação a “Cê”?

P – São muito diferentes. Quando eu estava fazendo o “Zii e zie”, eu achava que ele é melhor. Mas outro dia alguém pôs alguma coisa do “Cê” e eu achei o “Cê” do caralho. Então ficou mais difícil. Agora, tem uma coisa assim: o trabalho de Marcelo e Ricardo amadureceu muito e isso dá uma maturidade à banda, à gente tocando, que aparece no “Zii e Zie”.

C – Eu vejo tudo o que houve de desenvolvimento, mas acho o “Cê” mais conciso. Você sabe que não estava só o andré t: tinha uma turma do rock de Salvador. Tava o Glauber Guimarães, o Fábio Cascadura, estava também o baterista do Cascadura, era uma turma assim. Numa coisa eles concordavam: achavam que esse disco tem muito mais unidade do que o “Cê”…

P – Ah, e’? Engraçado.

C – …o que pra mim é muito surpreendente…

P – Mas ao mesmo tempo isso quer dizer alguma coisa.

C – É. Todos não podiam se enganar da mesma maneira.

P – E é o pessoal do rock. Mas é engraçado. Porque eu ouço o “Cê” como muito mais conciso no conceito.

C – É. Ele se ateve ao que ele é. Quase não tem nuances pra fora. Mesmo “Musa híbrida” não vai muito longe. E eu lembro que muito dessa concisão se deveu a você ter me chamado a atenção para o disco dos Pixies na BBC de Londres.

P – “The BBC Sessions”.

C – Que é uma coisa incrível. Lembro de você falar que é João Gilberto – e é. E o “Cê” sempre me pareceu ser fiel a isso. A primeira faixa ser “Outro”, tão concentrada e original, com uma linha melódica radical, em três mas com a melodia em relação estranha com esse três, e a bateria dobrada em cima, tocando reto e rápido. E essa peteca não cai ao longo do disco. Eu não vejo isso no “zii e zie”. Eu vejo que o “zii e zie” tem mais densidade no som da banda mas não tem a mesma unidade do “Cê”. Eu disse isso a eles e eles até ficaram um tanto surpresos. E essa redução ao mínimo do “Cê” eu atribuo muito àquele disco do Pixies. Lembro que fiquei tão maravilhado que fui ouvir os discos de carreira do Pixies, que são bonitos mas nenhum é como aquele.

P – Não. Nenhum.

C – Nenhum é realmente tão bom. Pensando em tudo isso, eu queria te perguntar sobre uma conversa que nós tivemos sobre Iggy Pop, que eu tinha visto aqui no Canecão e que tinha achado bacana, que ele velho no palco fazendo aquelas coisas resultava melhor do que Mick Jagger nesse filme novo sobre os Rolling Stones. Você concordou e, quando eu disse que na época em que eram jovens, Iggy Pop não chegava aos pés de Mick Jagger, você fez uma cara de quem diz “sei não…” e falou do quanto Iggy Pop e Stooges são importantes pra você. Queria que você falasse disso.

P – Eu acho que o Stooges é uma banda pedra-bruta. É meio tipo um Jorge Ben do rock’n’roll. Eu acho que é seminal aquilo, é muito verdadeiro e muito justo. E o Iggy Pop, ele é aquilo ali. Ele não poderia ser outra coisa. Ele não é falso. Ele não é hipócrita, artisticamente falando. Eu acho que isso é uma coisa do rock’n’roll. É o que se diz do rock’n’roll. É também o que a gente curte no rock’n’roll. É dionisíaco. É bruto. E aquilo ali foi dar no punk rock. Foi a senha pro punk rock. Foi uma linha muito importante que eles deram. Por exemplo, Velvet Underground, acho que está nessa linha também.

C – Mas você acha Velvet Underground tão coesamente autêntico no sentimento quanto o Stooges?

P – Não, eu acho que não.

C – Eu também não acho. Velvet é divino, mas às vezes uma coisa é divina sem ser… Entendo quando você diz que Stooges é como Jorge Ben, mas Velvet Underground não é como Jorge Ben.

P -  Não. Mas o Velvet, logo depois do comecinho já é influenciado pelo Stooges. O Stooges foi uma banda muito influente.

C – Engraçado, você diz que Stooges foi a senha pro punk, mas eles também foram para David Bowie, que não era punk.

P – Ele ficou encantado com Iggy Pop. Ele passou ao largo do punk – e os punks até se opunham a ele em certa medida, mas ele ficou encantado com Iggy Pop e produziu um disco do Iggy Pop.

C – É. Ele produziu Lou Reed também.

P – Produziu o “Transformer” que é um grande disco.

C – É um espetáculo. Eu acho que o melhor trabalho de David Bowie foi produzir o Lou Reed.

P – Ha-ha-ha-ha-ha!

C – Ha-ha-ha-ha-ha! Mas eu gosto mais de David Bowie hoje do que gostava antes.

P – Eu acho que David Bowie se junta sempre com as pessoas certas. Ele sabe com quem se juntar.

C – É, você falou isso naquela nossa conversa. Uma coisa que apareceu ali foi que eu contei que Ralph Mace queria que eu trabalhasse com David Bowie, ele me levou para assistir ao show dele na Round House, dizendo que eu ia me identificar muito com Bowie e ele ressaltava que eu adoraria Angela e que ela me adoraria também. Eu nem cheguei a conhecê-la pois eu não gostei do show de David Bowie e, embora fosse apresentado a ele por Mace no camarim, disse a Mace que não tinha vontade de trabalhar com aquele cara. Mace queria que eu fosse passar um tempo na casa que Angela e David tinham nos arredores de Londres. Eu não quis. Eu estava te contando que quando li na imprensa brasileira que Angela tinha dado entrevista à TV Americana dizendo que tinha pego Bowie e Mick Jagger na cama – eu pensei que se tratasse de uma ex-mulher ressentida querendo detonar o ex-marido – e  quando eu te disse que eu tinha escapado de boa, você me cortou dizendo que tinha lido em “Mate-me por favor” uma entrevista de Angela em que ela parece não só ser mais inteligente do que Bowie como não ter nenhum ranço em relação à riqueza da vida sexual que eles levavam.

P – É. Angela aparece muito bem no livro. Bowie diz coisas muito legais também, mas ela me pareceu superior a ele. Acho até que coisas como Iggy Pop e Lou Reed podem ter sido dicas dela. Ela sabe das coisas.

C – Uma coisa engraçada é que o disco dos Pixies, essa visão que você tem dos Stooges, a comparação que você fez de Pixies com João Gilberto, o próprio Nevermind do Nirvana, tudo isso eu poria dentro dessa categoria de coisas que têm uma tendência minimalista. Não de semelhança com música minimalista – que isso o Police tem mais e Police é uma coisa totalmente diferente disso. Police aliás é um a que talvez eu volte porque é uma banda de que eu gostei muito quando saiu Synchronicity, acho um disco estupendamente bonito…

P – Eu acho muito bonito também.

C – Foi um dos discos de rock que mais me marcaram, desde os anos 60. Eu gosto muito, por exemplo, do disco dos Sex Pistols. Mais do que do The Clash. Eu até vi um show do The Clash em Paris. Gostei. Mas eles não tinham aquela coisa coesa dos Pistols. O som deles vai para muitos lados, tem muita coisa. Estranhamente os Pistols, que eram uma coisa meio inventada – e que tinham aquele baixista Sid Vicious que meio não tocava – fizeram um disco como aquele. Aquilo é uma verdade só. Já os discos do Clash, sei lá, tem sempre alguma coisa que sobra…

P – Album triplo, né? “Sandinista”.

C – “Sandinista”. Eu conheço gente que gosta de rock, conhece muito rock, mas não tem essa necessidade de coisas ultra-concentradas como essas de que a gente falou. Gente bacana e boa no que faz. Eu não sou como João Gilberto, nem como Jorge Ben nem como Iggy Pop. Eu sou quase um comentarista. Poderia nem estar fazendo música. Nada é necessário em mim. É tudo meio contigente, meio diletante. Tem gente que não gosta de mim e não sabe por que. Eu poderia explicar a essas pessoas que elas têm toda razão em não gostar se elas têm necessidade de algo assim. Eu mesmo não gosto muito. Eu gosto quando eu vejo um artista como Tim Maia: a pessoa tem que ser aquilo.

P – Eu gosto também. Mas eu também gosto das pessoas que têm senso crítico. Eu admiro muito as pessoas que têm senso crítico. Valorizo.

C – Eu não me desvalorizo.

P – Eu sei o que você está falando.

C – Não dá é pra eu curtir muito. Em primeiro lugar porque sou eu e depois porque artistas assim como eu não me impressionam muito. Me impressiona mais gente como Jorge Ben ou João Gilberto. E de todos os discos de rock que saíram depois dos Beatles o que eu mais gosto é o do John Lennon, o primeiro Plastic Ono Band.

P – Eu amo esse disco também. E seu disco que saiu logo depois desse do Lennon – se bobear foi feito na mesma época – é um disco assim, que é o “Transa”. Não é à toa que a gente tocava duas músicas dele no show do “Cê”. Eu adoro a gravação de “Maria Bethânia”, aquele baixo!

C – Vamos tocar mais duas do “Transa” no “Zii e Zie”. Mantendo o tema das coisas nucleares, unitárias – e das personalidades nucleares – como você vê a criação de música na sua geração?

P – Eu sou otimista. O que eu vejo mais são cenas. Não movimentos, mas cenas. Tem umas cenas no Rio, tem em São Paulo, tem em Recife, tem em Salvador. O Pedro Alexandre Sanchez fala que a turma do Instituto tem muitas ramifações. Essa banda que eu produzi agora na Bahia, o Ronei Jorge e os Ladrões de Bicicleta, eu sou suspeito pra falar porque eu sou o produtor, mas eu achei muito bacana. E tem interrelações entre os grupos e as pessoas, não é só que as pessoas se conhecem, mas que elas têm participação efetiva musical no trabalho umas das outras.  Tem um projeto em Salvador chamado Baiana System, de um cara chamado Beto. É um projeto experimental com guitarra baiana. É muito interessante. Tem um de Belém que eu gosto muito, um guitarrista chamado Pio Lobato, que produziu os Mestres da Guitarrada, que tem um lance misturando música eletrônica com carimbó, músicas do norte, que eu gosto muito também. O próprio Do Amor, eu curto muito o Do Amor.

C – Quero ainda perguntar sobre guitarra. Guitarra no Brasil e no mundo, antes e agora. Onde você se sente como guitarrista?

P – A guitarra eu acho que ainda é um instrumento mítico. Todo mundo quer ser guitarrista. Ha-ha-ha-ha. Não é isso. Mas a guitarra é um instrumento forte ainda hoje. Mesmo com música eletrônica, a guitarra ainda é um símbolo. Ela tem um negócio. Fora isso, pra mim é muito natural tocar guitarra. Não sei, tem muitos guitarristas interessantes hoje. Acho que tem uma onda, não sei, acho que se abriu muito o significado do que é tocar guitarra. Antigamente tinha sempre “o melhor guitarrista do mundo” do momento. Tipo Jimmi Hendrix, Jeff Beck, Eric Clapton, Jimmy Page. Depois Van Halen, Steve Vai, todos esses guitarrista hipervirtuosos, teve um momento em que um deles era o melhor do mundo. Hoje não tem isso.  Antes era esse virtuosismo absurdo. Depois do grunge, que a guitarra voltou a ser uma coisa mais bruta, tocar guitarra passou a ser uma coisa muito ampla, ser guitarrista hoje em dia pode significar muita coisa. Você não tem de ser necessariamente um guitar hero, você tem milhões de possibilidades. De som, de ondas, de tudo.

C – E você próprio, onde você acha que se situa como guitarrista?

P – Como guitarrista, não sei, eu sou… não sei.

C – Eu sei que é chato perguntar isso à própria pessoa.

P – Não. Eu sou, acho que eu sou virtuoso, mas não sou tão virtuoso quanto um cara muito virtuoso. Acho que eu talvez não seja tão virtuoso quanto o Davi, por exemplo. Não sou um cara que sabe fazer uma coisa só na guitarra, como o cara dos Stooges, por exemplo. Ele faz pouquíssima coisa na guitarra – mas também ninguém faz como ele. Também não sou só um guitarrista solo, como o Catatau: eu adoro fazer base também. Eu acho que sou amplo. Eu toco violão, toco baixo. Acho que talvez eu seja um pouquinho de tudo o que eu gosto.

C – E emocional e esteticamente, como você se identifica? Se você é mais blues, se é mais cool – e quais os guitarristas que mais te inspiram no seu gosto, você pode admirar mais um mas gostar mais de outro…

P – Eu posso começar respondendo isso dizendo quais as minhas duas inflências no instrumento e na música, que foram Jimi Hendrix e João Gilberto. Foram os dois caras que me formaram. Na pré-adolescência eu fiquei tomado pelos discos deles. Abriram minha cabeça. Eu pensei música e aprendi a ouvir música ouvindo essas duas pessoas. Como uma coisa básica pra mim. Na verdade são dois caras muito diferentes, são dois caras extremamente diferentes. O Jimi Hendrix é um cara muito mais explosivo, ele é distorcido, saturado, Jimi Hendrix é saturado, ele é saturação, ele é descontrole, é dionisíaco, ele até se perde na coisa dele mesmo. E ele só faz música dele, ele quase não toca música de outras pessoas. João Gilberto é o contrario. É o cara introvertido, que calcula, que pensa aquilo, as passagens, os acordes, a harmonia, João Gilberto é harmonia. Jimi Hendrix é blue, que quase não é harmonia, né?, é outra coisa.. Agora os dois têm uma coisa, têm um feeling, têm um banzo, têm um negócio, os dois têm um suíngue, um molejo, um mambo, uma magia que nos dois me leva para a música.

C – Magia é a palavra que mais define o que eu estava perguntando.

P – É.

C – Agora uma outra coisa que eu ia falar com você é que no livro do Ben Ratliff sobre John Coltrane, entre os músicos que foram influenciados por John Coltrane ele põe o Iggy Pop, e põe uma declaração muito bonita do Iggy Pop sobre Coltrane.

P – Eu entendo isso pelo caminho do Coltrane ser um cara que não podia ser outra coisa, tinha de ser saxofonista, com aquele som, com aquele jeito. O Miles já é outra onda. O Miles é um comentarista.

C – Eu me identifico muito com Miles Davis. Admiro muito ele mas acho ele assim.

P – É. Eu me identifico com as duas coisas. Sou geminiano, não sei…

C – Miles Davis também era geminiano. João Gilberto também.

P – João Gilberto também.

C – Você falou em Hendrix e João, que são duas pessoas que apareceram em épocas diferentes: João no final dos anos 50 e Hendrix no final dos 60. Além de João Gilberto, o que é que foi mais forte pra você na música brasileira e o que é que permaneceu mais?

P – Em primeiro lugar meu pai tocando violão em casa. Eu ficava muito ligado no som do violão e da voz dele. Gostava de ouvir aquilo. Ele não era virtuoso mas ele compunha e tocava muito e isso ficou num lugar muito íntimo meu. Agora, de música brasileira, logo depois do João Gilberto veio o disco “Cantar” da Gal. O disco “Cantar” também abriu muito. Pra vários lados: pro Donato, pro Gil, pro Jorge Ben (que o Gil tá tocando como Jorge Ben naquela música “Barato total”). Eu tinha 10 anos, mais ou menos, e eu achava que o “Cantar” tinha a ver com João Gilberto. Eu não sabia por que, mas achava.

C – Hoje você já sabe.

P – Mas também aquilo pra mim era música brasileira. E música brasileira tem uma outra coisa. Além de eu entender a letra, tinha uma coisa que eu não encontrava no Jimi Hendrix nem no Police. Eu estava ouvindo Jimi Hendrix, voltava pra o “Cantar” ou pra o João Gilberto, aquilo me dava um relaxamento. Tem uma coisa que eu senti e que até hoje eu sinto: a música brasileira parece que está mais perto da música, num ponto. Um ponto menos virtuosístico, parece que ela não tem muito filtro, que ela está ali. É uma coisa zen, eu não sei explicar bem, mas é uma coisa que eu sempre sinto em relação à música brasileira.

C – Eu também sinto. Mas a gente é um pouquinho suspeito porque a gente é brasileiro.

P – Não, não. Eu estou falando isso mas eu não me basto nisso.

C – O que você está dizendo implica outra coisa, que quem falou não foi um brasileiro, foi um americano.

P – Melvin Gibbs. Um contrabaixista que trabalha com Arto Lindsay e que é um gênio.

C – Eu lembro que ele disse a você que os músicos americanos estão preocupados com a proficiência, enquanto os brasileiros estão preocupados diretamente com a música.

P – Ele não falava do músico. Era mais do ouvinte. O ouvinte americano dá valor à proficiência, o brasileiro dá valor à música. O americano exige de quem toca que toque bem, que apresente seu trabalho; o brasileiro vai pela música.

C – Essa observação é bonita. Mas ela me faz pensar porque tem uma coisa…

P – Mas ele não estava dizendo isso como se fosse uma coisa necessariamente positiva do Brasil.

C – Quando alguém quer botar seu trabalho para competir com os outros nos Estados Unidos, ele já parte de um nível alto de exigência na fatura que o brasileiro não se impõe. Isso pode ser reflexo das responsabilidades da sociedade americana, que em tudo se esforçou para realizar o melhor  que possa. Há uma coisa bonita nessa responsabilidade americana. Mas isso também pode distanciar daquilo que se quer atingir através do apuro técnico, que é o espírito íntimo da música. O que eu vou dizer pode, no fim, confirmar a observação de Melvin Gibbs, mas os americanos desenvolveram também um desrespeito à exigência da fatura muito mais do que nós. Quando eles já estavam gravando Bob Dylan, os Stooges etc., aqui ainda pedíamos desculpas para gravar Nelson Cavaquinho. E se exigia uma aparência de qualidade no acabamento. Digo porque quando lancei o “Muito” a crítica ficou irada, dizendo que era feito no fundo do quintal – e demonstrando deslumbramento com discos que parecessem produzidos. Ou seja, os americanos têm uma coragem de desrespeitar a fatura muito maior do que a nossa. Bob Dylan gravava com a voz de Pato Donald, errava o tempo, quebrava os compassos. Eu aqui, nem me deixavam tocar violão em meus discos. Só depois que eu voltei de Londres. Os americanos parecem que estão dizendo: nós podemos fazer muito mais bem feito o mal feito do que vocês, do que qualquer um. É uma coisa engraçada porque parece com a questão da arte moderna. Você pede a uma pessoa: “desenha-me um carneiro” e pode ser que a pessoa saiba desenhar um carneirinho. Mas na arte contemporânea é capaz de a maioria dos artistas plásticos não saberem desenhar um carneiro. Mas você vê uma ilustração na New Yorker, com traço aparentemente ingênuo, tosco, mas de propósito, cê vê que aquilo é sofisticação. Enquanto aqui alguém tenta fazer um traço destro.

P -  Pô, você foi num ponto que aí é um esculacho total. Nesse ponto aí… Se for comparar isso com a música…

C – Tem isso com a música também. Não estou dizendo que isso é A realidade. Mas é um aspecto do qual a gente tem de ter consciência, senão a gente não tem lucidez sobre o que está fazendo ou sobre o que está ouvindo. Isso são as entranhas do poder imperial americano. Que nós vivemos.

P – Vivemos.

C – É uma realidade econômica, social, política, histórica, cultural. E estética. Se a gente não vir isso a gente não sabe como é que se passa o que está se passando conosco.

P – É. Lógico.

C – Às vezes pode ser doloroso mas é melhor assim do que você ficar enganado e ressentido.

P – Isso também é um diálogo interno do Brasil consigo mesmo. O Brasil tem um tanto de dificuldade de ter um diálogo consigo mesmo. Os Estados Unidos têm diálogo consigo mesmos: eles têm dificuldade de ter diálogo com os outros. Porque o negócio deles é com Deus, né? O negócio do povo puritano é direto com Deus.

C – Eles vivenciam um mito de eleição, de destino. Nós também temos algo assim: não pode haver nação sem um mito de si própria.

P – Você tem muitas intuições verdadeiras. Você é um visionário realista.

C – Você gosta mais de Caymmi ou de Noel Rosa?

P – Gosto mais de Caymmi.

C – Se vê que você é aquele que foi formado por João Gilberto, mesmo.

P – Embora eu ame a Vila Isabel, ache um bairro incrível. E Noel é aquilo. Mesmo. É tudo bem feitinho, bem acabadinho. Eu gosto de Noel. Mas é que eu tive muito mais contato com a obra do Caymmi do que com a obra do Noel. Eu não tive um contato visceral com a obra de Noel Rosa. Eu acho muito bonito mas foi um contato de museu. Já Dorival eu escuto os discos dele, escuto as versões todas que são feitas. Pra mim é uma coisa muito mais internalizada.

C – Você gosta de samba-jazz, daquilo que aconteceu no Beco das Garrafas…

P – Eu gosto. Gosto do Edison Machado, Luís Carlos Vinhas. Donato daquele período eu acho psicodélico, eu acho muito louco aquilo. Eu amo o Donato dessa época. Amo de paixão.

C – E Tamba Trio?

P – Eu gosto também. Eu acho maluco. Eu acho todo esse lance bem maluco.

C – E Zimbo?

P – É legal.

C – Elis com Zimbo?…

P – É legal, é bem legal. Eu não gosto do excesso de convenção.

C – Eu na época detestava. Hoje eu gosto. Mas também é como um negócio que é muito bem feito dentro de um gosto um tanto ingênuo.

P – Mas eu gosto do Edison Machado. Entendo quem não gosta, mas eu gosto muito. Prefiro Tutti Moreno. Mas gosto. Tutti se diz influenciado pelo Edison Machado mas eu me interesso muito mais pelo jeito dele tocar do que pelo do Edison. Luciano Perrone eu gosto muito também – que é diferente deles dois, é só tambor, bateria de tambores, que eu acho lindo.

C – Eu gostava muito de Edison mas confesso que eu gosto mais de Tutti também. Agora: Mutantes, rock dos 80, rock no Brasil, Rita Lee…

P – Rita é minha musa total. Amo Mutantes e amo o disco dela Tutti Frutti. É um desses discos que…

C – Mutantes anos 60 ou Mutantes progressivo?

P – 60 total. O progressivo é legal mas não me faz a cabeça. Tem muita masturbação. É uma vaidade musical que não me interessa na música de jeito nenhum. É um TIPO de vaidade musical que não me interessa.

C – Os grupos que os influenciaram, tipo Yes, você gosta deles?

P – Eu admiro. Acho que eles tocam pra caralho. De verdade.

C – Genesis, Yes ou Emerson Lake and Palmer? Digo isso porque eu achava esses 3 os mais difíceis de engolir. Hoje estou aprendendo a gostar.

P – É, são difíceis de engolir. Mas acho que desses 3 prefiro o Yes. Mas tem um grupo considerado progressivo que eu gosto mais que todos que é o Can, um grupo alemão.

C – Isso que eu ia te pergutar: esse grupos alemães… e os italianos, como Forneria… eu me lembro de ouvir.

P – É. Todos esses grupos…

C – Mas você não acha que Pink Floyd era diferente? Que foi antes e tinha um espírito diferente?

P – Acho. Eles eram psicodélicos.

C – E rock Brasil anos 80?

P – Rock anos 80, quando eu comecei a tocar, quando comecei a estudar violão é que essas bandas apareceram. Foi entre meus 10 e meus 13 anos. Eu gostava de ouvir Gangue 90 no radio. “Nosso louco amor” , eu achava essa música engraçada. Gostava da Blitz. Gostava muito do primeiro disco da Blitz. Até hoje eu gosto, eu acho. Se eu ouvir vou gostar. Mas, por exemplo, Paralamas eu demorei pra gostar.

C – Eu gostei quando saiu o “Passo do Lui”. Levei pra a Bahia, ficamos ouvindo o verão inteiro.

P – Muita gente gostou do “Passo do Lui”. Eu só comecei a gostar no “Selvagem”. Mas foi do caralho o show no Rock in Rio. Titãs eu sempre gostei. Quer dizer, eu não gostei de “Sonífera ilha”. Mas “Cabeça Dinossauro”  é genial. Agora, tem um disco que eu tava até falando com Kassin outro dia, que eu adoro, que é o ultimo disco com Arnaldo: “tudoaomesmotempoagora”. Eu adoro esse disco. Acho que eles chegaram numa maturidade musical que não tinha nos outros discos.

C – É, tem uma unidade!

P – E não soa como uma banda gringa. Tem uma originalidade. O que também me fez a cabeça, antes, foi Ultraje a Rigor, o primeiro disco. Eu adorava.

C – “Vamos invadir sua praia” é uma obra-prima. E o samba no Rio de Janeiro? Vamos sair da reserva indígena do rock e vamos para a reserva  indígena do samba.

P – É muito importante para mim, véio. Bem, sempre me fascinou a escola de samba, as baterias.

C – E Paulinho da Viola?

P – Paulinho da Viola foi uma coisa depois. Tinha dois sambas-enredo que eu adorava. O “Bumbupraticumbum” e “Mangueira é um canto de fé”. Meu pai me levava no Morro dos Prazeres, tinha um amigo que tocava e eu perguntava a ele “como é o samba, como é a batida?”,  e ele batucava com a mão, tocava pandeiro. Eu ficava fascinado. Já aos vinte anos, descobri o Fundo de Quintal, o Zeca Pagodinho. Eu adoro esses discos dos anos 80 de samba. ADORO esses discos. Têm um som! Acho bem gravado. Acho que foi a primeira vez que no Brasil foi gravada a percussão como a coisa principal. Você ouve os discos antigos, a percussão fica enterrada na base, um sonzinho. “Fala Mangueira”, é lindo esse disco, mas a percussão fica ali assim, escondidinha. E nesses discos dos anos 80 é percussão quase na frente da voz e é bem tirado o som do surdo, você escuta tudo.

C – Isso era um cara que era dos Cariocas até que fazia essas gravações. Eu acho. Luís Roberto. Depois passou a ser Rildo Hora. Mas antes de Rildo era ele.

P – Eu acho essas gravações dos anos 80 de samba mais bonitas do que as de agora. Tem uma gravação sua que eu amo: “Samba da cabeça”. É anterior a essas dos 80. Mas tem isso. A percussão na frente e o som da percussão não é um bolo. Acho que saiu numa coletânea japonesas que o Gavin lançou. Depois ele botou na caixa.

C – E Beth e Clara? Elas puxaram um pouco o cordão.

P – Puxaram sim. O disco da Beth, “Pé no chão” já tem o Fundo de Quintal, toda  a galera. É o máximo. Eu adoro esse disco da Beth Carvalho.

C – E agora tem umas moças que cantam samba.

P – É. Roberta Sá, Mariana Aydar e…

C – A própria Maria Rita.

P – Sim. Maria Rita. Eu acho ótimo essa leva de meninas. Mas eu gosto messsmo é da Mart’nália.

C – Porra. Ha-ha-ha-ha. Isso é uma humilhação, isso não é uma opinião. Ha-ha.

P – Foi mal, foi mal. Mas é que a Mart’nália é maravilhosa, sou fã incondicional. Ha-ha-ha. Acho que ela é tudo aquilo e mais um pouco.

C – Eu estava falando de umas meninas, não estava falando de “o samba em pessoa”.

P – Eu tava falando com a Inti sobre chegar tarde em show, acho que a gente estava atrasado pra ver o show do Lenine, aí ela disse: “depois que um dos melhores shows que eu vi na minha vida foi o bis da Mart’nalia, eu agora chego qualquer hora em qualquer show porque tudo pode acontecer”. Foram 40 minutos de bis da Martnália e foi o melhor show que nós vimos em não sei quanto tempo.

C – Então vamos ouvir o Rodrigo Campos. “São Mateus” é um belo título.

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