
| TIPO TYPO NO FUBÁ |
| 19/09/2008 12:43 am | Postado por Obra Em Progresso |
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No dia em que acordei com a notícia de que as bolsas caíram depois de o governo americano ter injetado 85 bilhões de dólares na seguradora AIG, quero falar rápido sobre dois livros que estou lendo. “O que a esquerda deve propor”, de Roberto Mangabeira Unger, e “In Defense of Lost Causes” (“Em defesa de causas perdidas”), de Slavoj Zizek. Ambos ousam ir além do impasse da esquerda. Zizek, na mesma linha em que protesta contra o café descafeinado, ressuscita os terrores de Robespierre e Stalin para desqualificar toda a ênfase nos direitos humanos como desejo de “fazer a revolução sem revolução”. Mangabeira aconselha, detalhadamente, que façamos exatamente isso.
Proponho que quem me lê aqui leia “O que a esquerda deve propor”. É um livro pequeno mas muito denso (embora claro) e intenso (embora sensato).
O livro de Zizek ainda não foi traduzido em português. Há exemplares em inglês nas livrarias boas do Rio e de Sampa. É longo e intenso. Às vezes não tão claro, embora seja muito mais pop do que o de Mangabeira, que tem, apesar de tudo, recato acadêmico.
Mangabeira é um basileiro inteligentíssimo que fala excelente português com sotaque americano e teve o livro traduzido por Antônio Risério, pois o escreveu em inglês. Zizek é um esloveno inteligentíssimo que fala inglês com um sotaque jupteriano mas escreveu seu livrão em inglês mesmo.
Sou muito mais Mangabeira. Zizek, que é tão heterodoxo nas citações e referências (vão de Spielberg a Heidegger, de Hegel a Mel Gibson, de Walter Salles a Jidanov), é 100% ortodoxo em relação aos conceitos marxistas de “proletariado”, “capitalismo”, “luta de classes” etc. – e dos dogmas da psicanálise, tal como foram reenergizados por Lacan. Mangabeira, que não menciona Monty Python, já escreveu a crítica mais contundente que já li sobre o conceito marxista de “capitalismo”. Enquanto Zizek parece ter em mente as filas de operários de fábrica que salvariam o futuro da humanidade, Mangabeira diz que a esquerda errou estrategicamente ao desprezar a bequena burguesia. E a crítica feita por Mangabeira à produção intlectual recente (que parece se comprazer numa montanha russa de idéias chocantes) se aplica justamente a Zizek.
Mas o livro de Zizek é excitante. Ele não defende o terror sem nos ilustrar sobre meandros incríveis do stalinismo. E sua erudição (cinematográfica, filosófica, musical) é gigantesca e desembaraçada.
Seja como for, esses livros de recuperação do projeto da esquerda me atraem. Pois o que me atrai no projeto liberal é que ele tem se mostrado à esquerda da esquerda tradicional. Tenho horror ao conservadorismo estreito. E não sinto que o mundo em que vivemos está belamente organizado. Odeio o lucro levando monstros a contaminarem o rio Subaé com chumbo e mercúrio. Detestei cada passo da política de Bush e acho que já devemos há um bom tempo pensar nos Estados Unidos em termos realistas mas nunca submisso. Mangabeira: a hegemonia americana deve ser admitida de fato mas não de direito.
O grande escritor Luís Fernando Veríssimo disse uma vez que no futuro a briga vai ser entre os comunistas e as bichas. É apenas uma piada boa e errada (piadas não precisam ser corretas). Mas se fosse mais do que isso, Veríssimo talvez já saiba de que lado ele ficaria. Tenho certeza de que eu estaria com as bichas.
Digo sempre que sou melhor do que Gil, Chico e Milton a jornalistas que pensam que é modéstia minha (falsa ou verdadeira) dizer que não me acho um bom músico. É uma piada absurda para que eles percam o direito de pensar assim. Mas há algumas coisinhas que me fazem às vezes crer que sou mesmo superior a todos eles. Por exemplo: sou irmão de Maria Bethânia. O texto de Zuenir sobre “o primeiro a gente nunca esquece” diz o que se deve sobre o surgimento e a trajetória luminosa de minha irmãzinha.
Não tenho nenhuma rotina. Esqueci os poucos exercícios vocais que fonoaudiólogas me ensinaram quando tive uma rouquidão renitente, faz uns anos. Mas lembro de um som que parece arroto que relaxa as cordas vocais e/ou limpa pigarros.
Apesar da dolorosa visão de “Perdeu” – e do protesto explícito de “Base de Guantánamo” – grande parte das canções do disco que está saindo desta “obraemprogresso” é animada por um sentimento otimista a respeito da vida brasileira. Com as notícias de hoje e as leituras de que falei, minha desconfiança na economia de mercado está abaixo de minha crítica esquerdizante. “Lobão tem razão” é a canção mais à esquerda, dentre as politicamente “irresponsáveis”.
Li na semana passada que Lula tem o mais alto nível de aprovação até hoje registrado. Me senti em sintonia com o povo brasileiro. Eu também venho sentindo mais aprovação interna à figura de Lula do que antes. Mesmo quando votei nele, votei sem esperar chegar a gostar tanto. E olha que até chorei na cabine. Mas a sorte dele – um dos elementos mais fortes de sua personalidade pública – precisa chegar a superar o baque que Brasil e Rússia sofreram com a crise (de raiz americana) do mercado globalizado.
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| ESTÚDIO |
| 10/09/2008 3:33 am | Postado por Obra Em Progresso |
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Quero contar tudo sobre as gravações. Mas não entendo muito sobre a parte técnica. Houve aí quem peguntasse se fizemos muitos overdubs. Bem, isso eu posso responder. Não fizemos muitos overdubs. Quase não fizemos overdub nenhum. Pedro Sá gravou detalhes rítmicos de guitarra sobre uma das bases que fizemos para “A cor amarela” (fizemos duas). Gravamos doze bases (a última a ser gravada até agora foi a de “Ingenuidade”, samba que nem tinha pensado em gravar mas que a batida trans de Marcelo puxou para dentro do disco). Talvez hoje à noite (quarta) gravemos outra (uma canção nova, que nem acabei de fazer ainda, sobre Aveiro, cidade querida de Portugal).
Pedi a Moreno e Daniel que escrevessem sobre a parte técnica. Eles estão muito ocupados, todos os dias armando o set de gravação - além dos outros trabalhos que têm (Moreno me fez chorar com uma gravação que trouxe dele cantando, com arranjo de Jaquinho Morelenbaum, da canção americana “How Deep Is The Ocean”, em versão para o português brasileiro feita por Carlinhos Rennó, para um disco de obras-primas de compositores judeus americanos; ele e Daniel estavam acompanhando a mixagem do pocket-show do “A Foreign Sound” que fizemos no Baretto, no Fasano de São Paulo, para o DVD do filme “Coração Vagabundo”, de Fernando Andrade). No nosso disco, eles estão usando uma mesa EMI que era novidade na segunda metade dos anos 60 e hoje é tecnologia “vintage”. Contaram que “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” foi o primeiro disco gravado em uma dessas. Depois era numa igual que Jimi Hendrix trabalhava no Electric Ladyland. A daqui veio para o estúdio da Odeon, em Botafogo, depois ficou esquecida em algum lugar aonde fora para ser consertada. O dono do Estúdio AR, onde estamos gravando, a resgatou mas não a usou logo: precisava ainda de reparos. Ficou num depósito até não faz muito tempo. Parece que o grande produtor Mário Caldato fez nela o disco da adolescente paulista que ficou famosa pela internet (estou velho e os nomes próprios não vêm à memória com facilidade - sobretudo às quase 4 da manhã, depois de gravar e compor: com o nome do Bagno foi assim; não era desejo de mostrar desprezo). Bem, agora, depois de escrever esse parêntese todo, lembrei: Mallu Magalhães. A mesa parece feita de manches de avião. Tomara que Moreno esteja tirando fotos dela (vejo-o às vezes com uma camerinha digital na mão). Tudo está sendo gravado através dessa mesa, em fitas daquelas largas e de dorso preto que se usava antigamente (hoje em dia é quase sempre tudo no ProTools, tudo digital). A gravação (e a reprodução) analógica soam mais nuançadas e têm os graves profundos e os agudos macios. Moreno, Pedro e Daniel me disseram muitas coisas sobre a técnica de gravação que estamos usando. Mas vou esperar que eles escrevam para a gente postar aqui. Overdubs quem vai fazer sou eu: toda a voz e o violão serão gravados depois. Por enquanto só posso fazer guias de violão e voz. Não que a gente não quisesse gravar algumas coisas junto. Mas é que no estúdio, do modo como se pôde dispor as coisas, não dá para gravar essas coisas frágeis sem que haja vazamento. Mas o que temos sem mim é muito bonito (sinceramente acho que, na maior parte dos casos, ficaria mais bonito assim mesmo, sem mim, mas não sou insuspeito para opinar - nem posso dizer que abrimos mão do cantor cujo nome vai na capa do disco). Pedro Sá é o Pedro Sá. Mas noto que Ricardo Dias Gomes tem criado verdadeiras peças com o baixo: ele não apenas pontua e sustenta a harmonia: ele compõe estruturas riquíssimas, que a gente entende como arquitetadas mas percebe que foram espontâneas - é muito emocionante. E esse mote de “transamba” estimulou Marcelo a glosar de mil modos surpreendentes e intrigantes: seu som divino de roqueiro elegante vai aqui ao encontro da história do samba em sua vida.
O parêntesis (viram que escrevi essa palavra de duas maneiras?) do parágrafo acima contém afirmação que pode levar as pessoas a crerem que sou modesto (ou que quero parecer modesto). Não sou modesto. Desconfio sinceramente que o que ouvi hoje, sem minha voz e sem meu violão, vai ser um pouco estragado quando eu entrar. Mas talvez só para mim. Tem pessoas que me acham chato, atrasado, devagar, por fora, inautêntico, subdesenvolvido - no fundo concordo com essas pessoas. Não totalmente. Mas tem um lugar central em mim que vê tudo o que faço e sou como desagradável. Talvez seja um aspecto do narcisismo, uma dor vaidosa, a mesma coisa que fazia João Cabral lembrar sempre mais de quem falou mal dele. Na história de Bukowski que contaram aí, eu li pensado que o cara ia dizer que me achou parecido com Bukowski, não com a mulher que chiou por ele não gostar de Shakespeare (na verdade às vezes fico de saco cheio com a shakespearemania, tipo Harold Bloom, e adorei saber que Bukowski - escritor por quem não me interesso muito - disse que o detestava). Na verdade me identifiquei duplamente com ele nesse lance. Pelo dito sobre Shakespeare (embora eu acredite que Shakespeare seja mesmo genial) e pela obsessão por quem o reprovou por isso. Acho que Sylvia Colombo e Jotabê Medeiros sabem que minha reação foi política e nada pessoal (se é que é com esse caso que o comentarista está fazendo o paralelo). Eu próprio não mereceria um elogio especial por meu trabalho no show sobre Jobim. Mas Roberto cantando Jobim é, em si mesmo, um acontecimento tão importante que não pode ser desmerecido sem criar revolta. Minha presença lá também dava valor histórico ao lance: fomos Gilberto Gil e eu a chamar a atenção da crítica séria para a importância da Jovem Guarda. Filhos rebeldes da bossa nova, os tropicalistas fizemos o curto-circuito entre o fino e o brega - e dissemos que Roberto estava, desde sempre, acima de classificações. Seria preciso um show escandalosamente desastroso para justificar a má-vontade dos críticos de Sampa.
Gosto mais de São Paulo do que do Rio por mil razões. Até as que resultam em erros canhestros de perspectiva como o do caso acima. Ontem revi “Daunbailó” na TV e lembrei dos tempos heróicos da Ilustrada, com Matinas (de quem tenho tanta saudade - pessoal, não necessariamente profissional) e a abertura para um gosto internacional, uma reação saudável contra o ensimesmamento do Brasil. Mas as mil razões para amar Sampa ficam para ser desfiadas depois. Agora é dormir para gravar. Ah. Li todos os comments. Tive vontade de responder a vários trechos de vários. Mas agora não dá.
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| SAMBA TRANSEXUAL |
| 6/09/2008 4:42 am | Postado por Obra Em Progresso |
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Waldick Soriano morreu. “Eu não sou cachorro, não” é um clássico da cultura brasileira. Tenho orgulho desse grande baiano das nossas letras e músicas. Elite? Se há uma elite para mim, é a elite dos que têm ou tiveram grande intuição artística. Waldick era um desses. Que bom que nossa deslumbrante Patrícia Pillar fez um filme sobre ele a tempo.
Uma amiga americana reclamou por eu não ter incluído “transexual” entre as palavras que citei ao escrever sobre “transamba”. Ela disse que o prefixo “trans”, nos Estados Unidos de hoje, lembram antes de tudo “transexual”. Pois bem, aqui está: hoje estávamos gravando “Base de Guantánamo” e, num tempo de espera para Moreno e Daniel acertarem alguma coisa na máquina, Pedro Sá começou a tocar “Outra vez”, de Jobim, eu, cá do meu canto, comecei a cantar e aí, numa reação imediata e miraculosa, Marcelo inventou uma levada circular na bateria que fazia o samba daquela canção ser mais samba e, ao mesmo tempo, o levava para outra dimensão. Era um samba transexual. Quer dizer: ia além do sexo (que, como todos sabem, é a instância máxima da realidade).
Gravamos dez bases (nove além da base da “Base de Guantânamo” - e oscilo entre grafar assim, à portuguesa ou, como antes, à espanhola, respeitando a origem cubana do nome, como aliás, fazem os americanos - ou estadunidenses, como quer Exequiela, embora eu me recuse a escrever “estadounidense”, já que esse “ou”, em português, se impõe como um ditongo pesado, um incômodo a mais nessa palavra mal inventada). Quase tudo foi saindo de primeira. Muito rápido. Só as mais fáceis tomaram mais tempo. Mas nada está pronto ainda. Só as bases (quer dizer, baixo, bateria e guitarra - minha voz e meu violão servindo apenas de guia). É bonito. É igual ao que se ouve nos shows e não é igual ao que se ouve nos shows. Precisamos completar os arranjos e ouvir mais para saber um pouco melhor. Às vezes nos emocionamos. Em geral quando ouvimos algo gravado na véspera e que não nos pareceu suficientemente bom na hora.
Além dessas 10 músicas, talvez eu faça uma outra (ou duas outras) que tenho no coração mas ainda não na cabeça. Talvez decidamos incluir coisas como “Incompatibilidade de gênios” e mesmo “Outra vez”, de Tom, ou algo de Carlos Lyra. Por enquanto o disco terá apenas canções minhas (sendo que “Sem cais” é em parceria com Pedrinho). Com esses transportes transexuais pode ser que o certo seja mesmo manter o repertório próprio, novo. Isso dará talvez mais nitidez ao projeto.
Mas não esqueci os papos de lingüística etc. Adoraria responder com vagar a Lucas (que começou a conversa): adorei o post dele.
A Ricardo Tabone: Pasquale nunca ensinou - muito menos impôs - a norma lusitana aos leitores brasileiros (eu adorei o lance sobre “deletar” - palavra que uso muito e a que pensei que “deletério” também se aparentava: olhei no dicionário e vi que não).
A Rogério: obrigado pela lembrança do inteligentíssimo (e, como sempre, meio suspeito) texto de Adorno - como ele consegue encantar a esquerda pondo-se à direita da direita!
Jaquleine Lé: obrigadíssimo por tudo.
Sônia Benites: sei que “num” e “numa” são tão corretos quanto “em um” e “em uma”; mas você admite que há correto e incorreto?
Maira: adorei o show de português “medieval”.
A Edmilson: que saudade! E: sempre ouvi e ouço “num” e “numa”, mas “dum” e “duma” já estava antiquado desde a minha infância; será que “num” vai cair, puxado pelos jornais?????
A Emanuel: a resposta racional é que se conjugo o verbo sempre na terceira perco o direito de prescindir do pronome sujeito; ouço com prazer os “tu é” dos cariocas e os “tu vai” dos gaúchos, mas sei que há um empobrecimento de possibilidades do uso da língua; de todo modo, não há porque não ensinar às pessoas como funcionam as conjugações, tendo em vista o pronome pessoal escolhido; invejo meus amigos de língua espanhola quando, escrevendo a eles em sua língua, me sinto muito mais à vontade para dizer “sua” sem que haja dúvida de que me refiro a uma terceira pessoa - além de o “L” do artigo definido feminino os livrar dos dilemas da crase: “a la” é o feminino de “al”, ninguém erra; em português “à” é o feminino de “ao”, nada mais, mas as pessoas se enrolam com a crase - e ainda há essa onda de escrever-se “à mão” (embora não digamos “ao lápis”), quando “à mão” quer dizer outra coisa: quer dizer que algo está ao alcance da mão. Aliás, amei ler no texto “medieval” de Maira “aa” em lugar de “à”. Isso porque há anos digo que seria legal se escrevêssemos “aa”, como feminino de “ao”: ficaria bonito e não teríamos esse rolo da crase (que adoro mas vejo que é um sofrimento para muitos). Na entrevista de Bagno (eu não lembrava que era esse seu nome - e olha que o Lucas o cita no primeiro texto), ele diz que deveríamos pôr acento grave na preposição “a” e pronto, deixar esse negócio de crase pra lá. Como no cartaz de rua (oficial): “túnel à 500 metros”. Isso é copiado do francês. Em francês é que a preposição tem sempre acento grave. Mas como faríamos quando fôssemos traduzir “a la”? Prefiro “aa”: é bonito, parece umas coisas que se lêem em holandês, adoro vogais repetidas. Somos brasileiros, somos livres para propor uma coisa assim. Essas coisas me interessam mais do que a reforma ortográfica que vem aí. Pelo que li a respeito, ela me pareceu idiota. Desculpem meu jeito. Mas é o que me pareceu.
A JSR: admitir a norma culta e festejar a mutação! Eis aí uma boa fórmula.
Enfim, a todos eu gostaria de dizer muito mais, me exlicar mais, dizer que sei muito bem que lingüistas estudam o fato “língua”, como apreendemos relações tão complexas aos 2 anos de idade, em que medida há uma gramática pre-existente em nós, como se dão as mudanças na história das línguas etc. - e que as convenções gramaticais são o que são: convenções, regras aceitas por coletividades organizadas (nações) - além de repetir que Pasquale não faz nada que desminta isso (e muito menos ergue a voz para chamar qualquer lingüista de “pseudo-lingüista”) - mas estou cansado, cheguei do estúdio, tenho as canções na cabeça, preciso dormir pra saber amanhã se faço música nova ou não, se meu filho Tom vai ao cinema ver “Linha de passe” comigo (o futebol é a alegria dele).
A primeira cancão que gravamos foi “Lobão tem razão“. Depois, “Tarado ni você“, “Sem cais“, “Perdeu“, “Por quem“, “Lapa“, e seguimos nessa ordem. Mas no disco a ordem, é claro, será outra. Bem outra. Ainda não sabemos qual. Bom dia.
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| MARGINAL PINHEIROS |
| 28/08/2008 3:22 am | Postado por Obra Em Progresso |
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Estou tão enfronhado no Rio com esse projeto da Obra em Progresso que tenho me sentido longe à beça de São Paulo. Vim aqui fazer o show com o Rei no belo teatrinho do Niemeyer no Ibirapuera e senti o tamanho da saudade que eu estava de Sampa. O teatro é elegante e induz à quietude. Se o show fosse no Ginásio do Ibirapuera, o ruído dos aplausos assustaria a boba da Folha e o burro do Estadão que escreveram sobre o show. Há anos não leio nada tão errado sobre música brasileira - e, mais uma vez, envolvendo Roberto Carlos e este transblogueiro que vos fala. Se eu tivesse direito a convite, teria chamado Augusto de Campos para estar presente ao encontro: foi ele quem escreveu o primeiro texto de apoio crítico à Jovem Guarda, prefigurando o tropicalismo e opondo a energia da turma de Roberto e Erasmo à pretensão da turma de Elis. São Paulo é isso. Quando vi a Ponte Otávio Frias em frente aos prédios pós-modernos da Marginal Pinheiros (prefiro prédios pós-modernos aos chamados modernos que encheram nossas cidades de desarmonia, em nome da racionalidade) me senti esperançoso. Dei entrevista a Jô (onde disse isso) e segui para o lançamento do livro do Mangabeira na Casa das Rosas. Agora (já às duas e meia da manhã) o provincianismo fraco dos articulistas dos dois grandes jornais locais não conseguiu abalar essa sensação. O Brasil de Tom, que é o Brasil que precisa estar à altura da bossa nova, cresce para fora e para longe do Brasil dos débeis de cabeça e de coração.
Escrevo isso só para mostrar aos que comentaram as críticas hilárias da província paulistana que também li e que fiquei com pena dos dois fanfarrões que não sabem nem escrever. O do Estadão então é inacreditável. Como é que qualquer editor deixa sair um texto com tantos erros de português, tantas redundâncias e obscuridades, tamanha incapacidade de articular pensamentos? A da Folha não sabe pensar mas exprime de forma primária esse seu não-saber. O outro, nem isso. O texto dele é tão mal escrito que a gente tem de adivinhar o que ele pensa - e chega à evidência de que pensa errado. Mas de alguma forma o artigo da mulher parece ser mais prejudicial do que o do cara. Não respondo aqui a ela nem a ele. Nada digo aos jornais que os publicaram. Deixo aos leitores paulistanos que viram o show. Eles vão escrever protestando. Os jornais talvez publiquem algumas das cartas.
Chega de verdade. “Lobão tem razão” vai ficando muito bonita dentro de mim. Cada vez que a canto ela parece melhor. Fui cantar um trechinho no Jô e fiquei emocionado. “Lapa” nos pareceu - a mim e aos caras da Banda Cê - boa de cara. “Lobão tem razão” cresce com o tempo (em nós, pelo menos). Agora vamos começar o trabalho de estúdio: três dias de ensaio e, na segunda, começa a gravação do CD. O DVD, feito de números em construção, tirados das apresentações no Vivo Rio e no Oi Casa Grande, vai ser um documento da Obra em Progresso. Mas o CD será a prova dos noves (é dos noves, sim: a gente parece que tem medo de pôr os numerais no plural! - até o Oswald de Andrade, naquela grande frase de um dos seus manifestos, escreveu “a alegria é a prova dos nove”; bem, não está errado, mas a própria prova é sempre feita com o uso da expressão “noves fora…”; e como eu já gosto de nove, essa idéia de noves - muitos, múltiplos noves - me dá enlevo). Muito aprenderemos sobre essas canções e suas concepções sonoras quando as ouvirmos gravadas em estúdio. De minha parte, estou curioso e um tanto impaciente. Suponho que a gente vai lançar o CD ainda este ano. O DVD, como recordação do processo que chegou até ele, fica para um pouco depois. Depois do carnaval?
Acho que todo o mundo devia ler o livro “O Que a Esquerda Deve Propor”, de Roberto Mangabeira Unger. É um livro pequeno, denso mas muito claro, que faz renascer o sentimento de “ser de esquerda” em nós. Há propostas concretas interessantes e sobretudo uma visão do mundo hoje que nos liberta para pensar. De minha parte, vejo ali formuladas muitas das idéias que tentei eu próprio encontrar dentro de mim. O capítulo sobre os Estados Unidos e seu papel no mundo hoje é obrigatório - e independe de você querer ou não apostar nas sugestões de mudanças institucionais que Mangabeira oferece. Leiam e vejam se não está ali tudo o que precisamos saber agora sobre a morte das formas de política de esquerda que conhecíamos - sem que seja necessário passarmos a ser conservadores. Há décadas que venho dizendo que Brasil não pode jogar fora a contribição que nos quer dar esse pensador. Agora vejo que o Brasil não vai fazer isso. Temos um dever de originalidade. Temos algo a dizer ao mundo. Mesmo que nunca o disséssemos - mesmo que nunca o digamos - nós o temos. Mesmo que o calemos ou nos recusemos a articulá-lo, temo-lo (e é com prazer que o digo assim, homenageando o português lusitano, que também é nosso e que não devemos ignorar: um dia desses vou escrever sobre lingüistas que agridem os gramáticos em nome de uma demagógica receptividade ao que às vezes é mera limitação opressora dos falantes - mas não vou voltar aos erros do carinha do Estadão).
Estou escrevendo qualquer coisa hoje porque fiquei muito pegado com os shows de Tom/Roberto e nunca mais tinha escrito nada. Mas voltarei.
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| Direto da edição: atrás do transamba |
| 22/08/2008 1:05 am | Postado por Hermano Vianna |
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AQUI FALA O HERMANO: Quito Ribeiro é parceiro de longa data. Acho que nos conhecemos quando ele era adolescente. Era um dos amigos do Moreno, que se tornaram também meus amigos queridos e hoje têm carreiras artísticas/intelectuais tão interessantes e diversificadas, algumas já ilustres: Pedro Sá, Kassin, Lucas Santtana, João Miguel, Pedro Süssekind e muita gente mais. Turma bacana essa… Quito é músico, produz seu próprio transamba baiano/jamaicano. Disco e shows excelentes e poderosos. Mas é também roteirista, editor etc. Fizemos juntos o roteiro de Tempo Rei, documentário sobre Gil. Ele participou da edição do Música do Brasil, do Central da Periferia. Montou O Maior Amor do Mundo, filme de Cacá Diegues. Etc. Etc. Agora está editando as entrevistas de Obra em Progresso, para o DVD. Da ilha de edição da Natasha, no seu segundo dia de trabalho, ele manda este texto, cheio de boas questões de quem está mergulhado nas horas e horas de material filmado por Toni Vanzolini:
“Estou aqui começando a editar o material de entrevistas que vai ser incluído no DVD. Faz parte deste processo inicial a idealização de um roteiro, ou de vários, à medida que vamos tomando conhecimento do material que dispomos. Um ou vários, todos são, em geral, diferentes do roteiro que foi escrito antes do material ser filmado ou gravado.
Neste caso específico nunca houve um roteiro. Estamos fazendo o que em linguagem cinematográfica chama-se cinema direto. Seguindo os passos dos nossos “personagens” sem fazer maiores interferências.
Resolvemos em conjunto tentar falar sobre o transamba.
Fico então aqui na ilha de edição, montando estes roteiros virtuais, tentando tornar o transamba compreensível. E as perguntas não param de aparecer. Seja para tentar fazer conexões entre as partes do material; ou forçá-las; ou tentar cobrir buracos onde eles eventualmente surgem.
A edição de um material sempre carrega consigo certa insatisfação com o material que foi obtido. O que é natural porque uma dose de insatisfação é inerente ao próprio processo; ou seja: ao fazer as perguntas, não quer dizer que eu esteja levantando as questões fundamentais para que o filme tenha uma narrativa fluida e coerente ao final.
Enfim, como este trabalho permite este tipo de situação, resolvi compartilhar essas questões aqui no blog e publicar as perguntas que em outros trabalhos não tenho a oportunidade de fazer.
Não sei se essas respostas, se vierem, estarão melhor no blog ou nesta sequência que estou montando (no momento essas respostas me ajudariam sobremaneira), mas seguindo o mantra da Obra em Progresso…
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Uma vez ouvi Caetano dizer que pensou, junto com Pedro Sá, antes do Cê, em fazer um disco meio anônimo, mas que seu lado leonino não deixou e eles acabaram fazendo o Cê. Fico pensando em “Todo errado”, em “Lobão tem razão”, em Caetano e Moreno cantando “Be kind to your parents”… E pra mim isso tudo por algum caminho soa meio lado B de um Caetano que faz do seu show um ritual todo marcado, todo solar. Jacques Morelembaun e Arto Lindsay falaram algo disso nas suas entrevistas. Ao mesmo tempo penso no samba como um lado B de um ritual religioso. E aí me dá vontade de saber: porque que Caetano escolheu o samba para ser o mote desta Obra em Progresso?
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Agora ouvi Moreno dizer na entrevista, que também é atitude de um leonino, se quisermos continuar nestes termos astrológicos, expor o processo inacabado. Ele conhece o pai dele melhor do que ninguém. Donde concluo que o lado B de um leonino é tão solar quanto o lado A. Eu, da minha parte, tenho consciência que este transamba que estou procurando no material filmado, de alguma maneira é transcaetano. Ele já está presente aqui e ali ao longo da carreira dele. Já esteve iluminado aqui e ali, por assim dizer. Mas agora ele resolveu nomear. Que situação ou situações levaram Caetano a querer fazer isto agora? Ainda não encontrei no material a resposta.
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Estou aqui vendo a entrevista de Ricardo e chego a mais uma conclusão. Transamba é um apelido, a elaboração de algo que surgiu naturalmente. Surgiu a partir da coincidência de gostos estéticos testados pelo tempo, pelos ensaios, pelas passagens de som, pelas turnês. Essa coincidência na concepção dos arranjos gerou o que se costuma chamar “soar como banda”. Essa maneira como a banda soou e os músicos começaram a querer que ela continuasse a soar a partir daí, gerou o transamba. Desde o momento primeiro de preparação, quando Caetano tomou a decisão de compor para esta banda. Será? É a procura deste tipo de material que estou indo atrás: a banda Cê elaborando o transamba. Conversei com Henrique Alqualo, que está trabalhando aqui comigo e ele diz que temos. Será que isto vai dar caldo?
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Na entrevista de Arto Lindsay, ele situa o transamba entre o transa e um R&B contemporâneo feito por gente como Raphael Saadiq. Por este ponto de vista transamba seria “samba atravessado”, ou um samba que traz em si a sobreposição de vários sambas. Ao mesmo tempo, ouvindo as musicas novas nos shows, vejo citações nas letras de Guinga, Pedro Sá, Kassin, Francisco Alves, Seu Jorge, Los Hermanos. Cabe a pergunta: Transamba tem uma linhagem?”
VOLTA O HERMANO: Como dá para perceber vai ser também bacana acompanhar o progresso da edição também por aqui. Toda fez que Quito for encontrando as respostas ou novas perguntas, haverá novos posts no blog Obra em Progresso.
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| 15 comentários » | Assuntos: Arto Lindsay, DVD, edição, Moreno Veloso, Quito Ribeiro, Ricardo Dias Gomes, Toni Vanzolini — |
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| CASA GRANDE |
| 19/08/2008 4:50 am | Postado por Obra Em Progresso |
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Deixo para discutir restauração do Pelourinho e Imbassay mais tarde. Hoje e amanhã tem show da Obra em Progresso no Teatro Casa Grande. E depois junto-me a Roberto Carlos (”nós precisamos saber quem é que chamamos de rei”, eu disse dele, no show Circuladô, ao contar que ele escreveu “Debaixo dos caracóis dos seus cabelos” para mim, como uma reza para eu voltar do exílio, aonde fui mandado pela ditadura militar) - e junto-me a ele para cantar canções de Tom Jobim. Tenho de despender muita energia para me concentrar nas duas tarefas.
O Casa Grande era A Casa Grande, no meio dos anos 60, quando era ainda um lugar de MPB (com mesas, comida e bebida, mas pequeno e com ar de lugar de encontros, não uma cervejaria que virou Las Vegas, como o nosso também amado Canecão). Depois virou teatrinho. Vi muito teatro lá. E muitas vezes vi Bethânia, acho que fazendo “A Cena Muda”, no seu palco. Hoje, com grana da Oi mas com o mesmo grupo tocando o lance, é um teatrão, muito bem equipado e com uma acústica excelente. Fico emocionado de me apresentar lá.
Vou cantar duas músicas novas (”Lapa” e “Lobão tem razão”); vou cantar todas as outras que fiz para o novo CD e que já cantava no Vivo Rio do MAM; vou cantar Kassin; vou cantar Dé e Cazuza; vou cantar Lupicínio; vou cantar Carlos Lyra; vou cantar “Cê”; vou cantar Caymmi… Não estou preparado para mostrar um trabalho muito limpo e acabado como seria de se exigir para a gravação de um DVD: é ainda obra em progresso. O limpo e acabado fica para o CD de estúdio. Mas acho que estamos mais ajustados do que na fase pré-Europa. A Banda Cê me apaixona. Muitos sons celestiais pintaram no ensaio geral que acabou faz poucas horas. Estou cansado mas estou animado. Não dá para discutir ACM, Pelourinho e Imbassay hoje. No momento, a única afirmação político-partidária que devemos fazer é: VOTEMOS EM GABEIRA PARA PREFEITO.
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| 28 comentários » | Assuntos: Casa Grande, Roberto Carlos, Salvador — |
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| AQUI CAETANO VOLTANDO A FALAR: |
| 14/08/2008 5:56 am | Postado por Caetano Veloso |
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Sim. “Outros viram“, essa peça rara de Gil com Mautner (Gil com Mautner parece o nome de um coquetel), Gil liqüefazendo a pedra de crença de Mautner na grandeza do Brasil. Veja só. Eu, que vivo por isso e para isso, estranho. Acho que eu sou estranho.
Em Istambul um jornalista me perguntou qual a manifestação cultural brasileira recente que mais me interessa. Respondi: “os textos do filósofo Antonio Cicero. Seus livros O Mundo Desde o Fim e Finalidades Sem Fim e seus artigos na Folha de São Paulo”. De fato, O Mundo Desde o Fim é um osso duro de roer no ambiente metade frankfurtiano metade pós-estruturalista da produção acadêmica brasileira. Sendo que o aspecto mais Heidegger de Adorno e de Derrida dominam até (ou sobretudo) nos que mais se sentem à esquerda. Gosto mais de O Mundo Desde o Fim até do que de Roberta Sá, Maria Rita, Mariana Aydar, Vanessa da Mata, Marisa Monte e Adriana Calcanhotto. E do que de Dois Filhos de Francisco ou mesmo de Saneamento Básico. Mais do que dos 3 discos do +2. Mais do que Bendito Fruto.
O Mundo Desde o Fim não foi enfrentado. Justamente não vale dizer que é uma regressão para antes da filosofia modernista (uso modernista aqui no sentido do modernismo artístico e literário) do século 20: Heidegger e Wittgenstein (sem falar nos marxismos com a adesão confusa apesar de obstinada de Sartre). É um golpe luminosamente lógico nesse suposto avanço. Mas sou de temperamento rebelde e revolucionário (embora descreia de quase todas as revoluções) e procuro no mundo os sinais das profecias de Gil/Mautner, das propostas (também proféticas) de Mangabeira e das possibilidades sombrias que as notícias trazem. Agora mesmo defenderia o fundamento ultracartesiano de Cicero contra os desconfiados da razão, do indivíduo, do sujeito, dos direitos universais e do absoluto. Mas estaria sempre em guarda com o risco de acharmos que já chegamos e que não vale buscar alternativas. Em suma, sou muito de esquerda. Estão me achando ultrapresunçoso, dizendo esses nomes assustadores e fingindo intimidade com a complicação do que pensam os portadores desses nomes? Ótimo. Desobedeço Hermano que me pediu para ser menos difícil.
Isso tem graça porque sinto certa tristeza por ter abandonado o tom e as palavras poucas e fortes, claras e diretas do Cê (o que me deu um trabalho imenso para atingir) e ter voltado em parte às idéias gerais, “grandes”, barrocas e às referências ao Brasil de composições pré-Cê. Diferentemente de um que escreveu aí, sou louco por Cê. E tenho a pretensão de ser capaz de seguir no mesmo caminho, se decidir fazê-lo. Mas acontece que não decido. Entrei nesse transe de samba e nessa nova transa de rock com samba que me apaixonou. O incrível é que a Banda Cê se mostra igualmente rápida na percepção desse lance quanto no das músicas de poucas palavras. O Ben Ratliff, crítico do New York Times, numa crítica do Cê, escreveu que ali estavam minhas melhores letras em décadas. Conversando com ele num boteco no Lower East Side, perguntei que onda era essa, desde quando ele entendia português para afirmar algo assim. Mas a verdade é que concordo com ele. Não sei julgar as letras novas (fiz tudo a partir da música, sobretudo das levadas de bateria), mas sei que são mais palavrosas, mais caetânicas num certo menos bom sentido, do que as do Cê. Mas há coisas que só apareceriam depois do Cê. Na verdade, tudo só apareceria como aparece por causa de termos feito o Cê antes. O modo como vêm os nomes de Lula e FH, sem comentários mas com grande riqueza de significado, na música Lapa (que vou apresentar no Casa Grande, junto com Lobão tem Razão e as outras nova todas - que com Diferentemente já são dez) só me surgiria com essa liberdade porque há Odeio e Homem e Rocks. Não me arrependo.
Hermano me chamou a atenção para o fato de que ninguém fez até agora o que estamos fazendo: exibindo um repertório novo em shows e na internet, antes de gravá-lo no estúdio, em riqueza de detalhes do seu desenvolvimento. Uma das forças do Cê foi o segredo sobre o que viria. Agora é o compartilhar com ouvintes obscenamente as intimidades da feitura. Quando o disco estiver pronto (espero que até outubro) os interessados já terão versões ao vivo, em etapas diferentes, das canções. E ainda essa minha falação indiscreta. Sou leonino falador.
Por que não falo da poesia de Cicero? Talvez porque ela seja mais forte do que a sua filosofia e eu não me sinta nunca à vontade para falar de poesia. Acabo de ler um romance da escritora portuguesa Inês Pedrosa em que o poema Guardar e citado na íntegra. E é mesmo fantástico. Cicero tem a luz dos clássicos mas jamais a dicção dos neo-clássicos: um poema “menor” de Drummond (sobre surfistas na praia, algo assim), relido por ele, mostra-se nada “menor” - e é exemplo magnífico de sensibilidade clássica (quer dizer grega, romana, pagã). Mas Cicero é um anti-Ricardo Reis. O poema O Não, de Eucanaã Ferraz, me fez chorar quando li pela primeira vez - e me fez chorar quando li pelas vezes seguintes (foram várias primeiras vezes). Eucanaã - com tudo que guarda de atenção ao rigor de Cabral - tem uma dimensão romântica, uma descendência romântica, que Cicero não tem. Não entendo nada de poesia: só falo desses dois porque são meus amigos e seus poemas chegam a minhas mãos com facilidade.
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| O transronco da cuíca, segundo Alberto Mussa |
| 11/08/2008 5:38 pm | Postado por Hermano Vianna |
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Aqui fala o Hermano:
Outro dia, no meio desta Obra em Progresso, recebi email de Alberto Mussa - meu escritor brasileiro contemporâneo favorito (já escrevi sobre os motivos de minha admiração por sua obra neste prefácio), autor de Elegbara, O Trono da Rainha Jinga, O Enigma de Qaf, O Movimento Pendular, além de ser o tradutor/organizador de Os Poemas Suspensos: Al-Muallaqat - anunciando que estava concorrendo com samba enredo para o desfile de 2009 da escola de samba Salgueiro. A letra diz assim:
GRES Acadêmicos do Salgueiro - Carnaval 2009
TAMBOR
Presidente: Regina Duran
Carnavalesco: Renato Lage
Autores: Edgar Filho, Simas, Beto Mussa, Gari Sorriso, Bené do Salgueiro Intérprete: Rhichahs
Canto uma herança
da humanidade primordial
de árvores tombadas um tom grave
deu a cadência original
a idéia de um gênio anônimo
meu ancestral
caçador que na mata uma fera enfrentou
quando sua vitória quis anunciar
pôs o couro esticado, bateu, repicou
ôô ôô, ôô ôô
Festa na aldeia
lua cheia, um clarão
tem batuque a noite inteira
é magia, adoração
De ocidente a oriente
em diferentes formas se multiplicou
Qual é o povo
que não bate o seu tambor
Quem cruzou o mar
encontrou um som guerreiro
e desde então o baticum não quer parar
zambê, zabumba, ilu-abá
angoma, tumba, candongueiro
batá-cotô no meu terreiro
põe na roda o tambozeiro
o Brasil nasceu de mim
inclusão, cidadania
furiosa bateria
coração que bate assim
Menina, quem foi teu mestre?
um batuqueiro
que arrastava
o povo do Salgueiro
Não me lembrava de que Mussa era também compositor de samba. Fiquei alegre com a redescoberta e, como ele é um transescritor (e conhecedor admirável da história da cultura africana no Rio de Janeiro), achei bacana sugerir que lesse o nosso blog e publicasse por aqui suas reflexões sobre samba e transamba. Hoje ele me mandou o seguinte texto:
“Meus amigos, atendendo a um gentil convite do meu querido Hermano, deixo aqui umas reflexões, um tanto incipientes, sobre o conceito de transamba.
Em primeiro lugar, é importante tentar definir samba. Em termos musicais, a coisa parece simples: todo mundo reconhece a batida que define o gênero, criada nos arredores do Estácio, no princípio do século 20.
Historicamente, no entanto, há um pequeno problema: antes de surgir o samba do Estácio – do samba que a gente hoje reconhece como samba –, havia outras batidas, outras formas rítmicas também chamadas de samba, como o samba de caboclo (versão profana do cabula, batida característica dos candomblés de angola); ou o “maxixe” gravado por Donga, o famoso “Pelo telefone” (que os especialistas não classificam como samba propriamente dito).
Pode ter sido uma mera questão de evolução lexical; mas acho que há algo mais profundo nisso: os que chamaram de samba a forma rítmica surgida no Estácio queriam dizer alguma coisa.
Talvez uma história diga mais que reflexões abstratas. Um dos instrumentos de percussão de origem africana que logo foram introduzidos na execução do samba do Estácio foi a cuíca. Na África, a cuíca era um tambor sagrado, representava a misteriosa voz dos mortos. Poucos iniciados no culto dos antepassados podiam assistir à sua execução, os demais ficavam respeitosamente escondidos em suas respectivas casas, apenas ouvindo, aterrorizados.
Os sambistas do Estácio profanaram a cuíca, fizeram dela um tambor carnavalesco. De voz dos antepassados, passou a ser a gargalhada que se intromete de repente, no meio da percussão. Reparem que a maioria dos grandes cuiqueiros (isso pode ser visto, por exemplo, nas baterias das escolas de samba) toca de boca aberta, rindo, gargalhando – postura rara num tocador de surdo ou de repique.
É curioso que se fale normalmente em “choro” da cuíca, como se o riso embutisse ou fosse a mesma coisa que um lamento. Aliás, em “Pintura sem arte”, Candeia define o que é samba pra ele, e fala que o samba é esse lamento, não se reduz à música ou a ritmo. Mas esse já é um outro assunto.
O samba, portanto, é uma “profanação”. Entendo esse termo como uma espécie de radicalização da alegria, da irreverência, da liberdade. No samba de caboclo, profanavam-se as antigas danças de umbigada, a semba, ligadas a ritos de fertilidade e de fecundação; no “Pelo telefone”, o maxixe dos salões foi ainda mais carnavalizado, arrastado pelas ruas e levado aos morros.
Foi esse conceito que os velhos do Estácio quiseram traduzir quando importaram a palavra.
O samba, portanto, já nasceu trans. Não é apenas um gênero musical, definido por uma batida particular. É uma atitude existencial, nasceu como atitude existencial, uma atitude de radicalização da irreverência num contexto histórico de extrema opressão (talvez o Candeia entre aí: samba é lamento porque guarda a memória de suas origens trágicas, quando era perseguido, quando era crime cantar samba).
Não é o samba, evidentemente, o único gênero de música que expressa alegria e irreverência. A diferença é que no samba essas coisas são estruturais. Sem essa atitude, não existe samba.
Precisamente por ser mais uma atitude que uma forma musical, tão logo surgiu se ramificou em diversos subgêneros: passou a ser também samba-choro, samba de partido-alto, samba de enredo.
Por não estar reduzido a um mero padrão rítmico, o samba sempre teve capacidade de se adaptar e de se inserir em novos contextos e ambientes. Por exemplo, a famosa polêmica entre Noel Rosa e Wilson Batista não foi mais que uma discussão teórica sobre o samba como atitude. Wilson era partidário do samba-quilombo; Noel achava que, para que o samba continuasse a ser samba, tinha que ser samba-cidade.
E o samba se transformou com Noel, se transformou com Paulo da Portela, Cartola e Silas de Oliveira. Virou samba-canção e sincopado; ganhou até uma bossa nova. É um gênero em transcurso.
Me parece que o transamba é um ponto desse transcurso, mais um galho dessa grande árvore. Mas vai continuar a ser samba se mantiver a atitude existencial primitiva, que eu não consigo ainda definir muito objetivamente, mas que a gente sente o que é.
abraço forte,
alberto mussa”
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| De volta ao Rio |
| 5/08/2008 6:12 pm | Postado por Caetano Veloso |
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GABEIRA, gente! Quando Nelson diz que não vai votar em GABEIRA porque a democracia representativa faliu, o que quer dizer? GABEIRA é uma das poucas provas de que a democracia representativa não faliu. Ele não entrou no Congresso e para lá levou modernidade e honradez? Afinal, Nelson, o que foi que deu certo? A ditadura do proletariado? Acorda! GABEIRA é uma das provas (mas não a única) de que a democracia representativa não faliu. Temos os exemplos de Jefferson Peres e Pedro Simon. Temos Marina Silva. Mesmo parlamentares menos impolutos contribuem para o equilíbrio de forças dentro da sociedade. GABEIRA mostrou, além da coragem e firmeza na resistência contra a corrupção, visão aguda de fatos importantes: ele soube, por exemplo, medir o peso da presença do Exército Brasileiro no Haiti - e tirar as conclusões (ou as perguntas) pertinentes relativas à ação do exército na luta de superação do poder paralelo do crime. Enquanto outros queriam esconder os escândalos por quererem livrar a cara de Lula, ele enfrentou a questão (e sem destruir o que Lula significa). No caso da presença no Haiti, em vez de descartar a colaboração brasileira (decidida por Lula) com as forças da ONU, viu ali um dos aspectos positivos do governo. Ele estava certo nos dois casos. Muita gente não quer gostar de GABEIRA porque ele torna complicada (rica) a aprovação de Lula. Em geral é a mesma gente que despreza o que o Exército Brasileiro fez (e faz) no Haiti. Fingem que isso não é Lula. Isso é que é o bom Lula. GABEIRA representa tudo o que o Rio tem deixado de lado para cultivar Chagas Freitas, Garotinhos, Rosinhas e Crivelas.
Claro que na Rodada de Doha os países mais poderosos se fecharam de modo algo cínico, uma vez que os emergentes tiveram antes que aceitar tantas pressões para abrirem sua barreiras. Mas os ricos também perdem com isso. Eles vão ver. Eles não perdem é por esperar. Leio o Veríssimo mas também leio The Economist. Muitas vezes me sinto um liberal inglês. Estranhamente, no entanto, a referência feita pelo chanceler Amorim ao 11 de setembro em tom de ameaça me causou muito menos indignação do que em princípio me causaria. É que os resultados de Doha são tristes. E Amorim não estava simplesmente ameaçando, já que é fato que o 11 de setembro teve também como resultado um esboço de revisão de posições por parte dos super-poderosos. Escrevo tudo isso que me vem à mente - a respeito de tema tão complicado - em homenagem a Carolina (sei mai stata a Ferrara?) que lebrou que, na Itália, fazendo o “Cê” no ano passado, eu dizia: “in Brasile dicono que io parlo troppo”. Non è forse, bella. È senza dubio. Io parlo troppo. In Francia io dicieva: “dans le Brésil tout le monde dit que je parle trop”. In Estati Uniti: “I am famous in Brazil for speaking too much”. In Portogalo: “no Brasil eu tenho a fama de falar demais”. É isso aí. Mas adorei saber que você também é, apesar de toda essa falação, tarada ni mim.
Cheguei ao Rio. Vou me virar em cinco para ensaiar as músicas novas, reensaiar as velhas novas e as velhas velhas, e compor outras que vêm se esboçando.
No Teatro Casa Grande não haverá convidados, nem no palco nem na platéia. Já tinha falado com Arto Lindsay, com Jonas Sá e ia falar com Gil. Mas não há possibilidade de ensaiarmos com eles e fazermos o que temos de fazer. Só o Mautner vai continuar fazendo os bis, já que os números dele estão ensaiados (não precisa nem repassar). Quanto à platéia, o teatro é menor, são só 3 dias e tenho milhões de amigos (ou pelo menos quero ter, como Roberto Carlos) no Rio de Janeiro.
Encontrei Teresa Cristina no aeroporto de Paris. Que alegria! Ela e eu ainda celebrávamos nosso encontro no Obra em Progresso. Nunca esquecerei de Teresa cantando “Nu com a minha música”.
Vou me esforçar para postar textos curtos, viu Carolina? (Se bem que seu comentário veio justo quando consegui os textos mais concisos.) E os próximos serão sobre as novas novas e os ensaios.
Lucas, é transrock, Lucas. Não precisa ser transamba. Transamba é o disco do Marcos Moran. Eu gosto quando os defensores do samba dizem que nem “Desde que o samba é samba” é samba. E quando os defensores do rock dizem que nem “Rocks” é rock. Eu sou o Falanjo e estou num lugar, meio incômodo, meio sublime, de onde se olha essas eleições de gênero com certa distância. E, ah, para Paulo Henrique: nem Comte nem Cristo: progresso como em James Joyce.
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| Notas de Caetano |
| 1/08/2008 4:08 pm | Postado por Obra Em Progresso |
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Caetano, ainda voltando da Europa, nos manda estas notas:
“TRANSROCK
Vi uma ótima Joana nos dando adeus porque acha que perdemos o gume do “Cê”. Vamos ver o que o repertório posto junto (em CD?) nos dirá. Gozado é que vi a palavra “anamnese” com um “i” no meio. Fui ver no meu texto, já estava lá. Será que estou “píssico”, como dizia o pessoal de Guadalupe quando morei no Rio em 1956?
NÃO É TRANSAMBA: É TRANSROCK, STUPID. Será que é mesmo a economia que vai pôr as coisas no lugar? Antes eram os Marxistas que diziam isso, depois os neo-liberais. AGORA É NÓS.
Transrock: novo passo dado pelo velho Caetano e os jovens Pedro, Ricardo e Marcelo da Banda Cê, depois do ousado e refinado CD “Cê”. Que tal? Uma boa chamada para a Downbeat!
POLÍTICA:
Os eleitores cariocas temos de nos encontrar em torno do nome de FERNANDO GABEIRA. É isso aí: GABEIRA para prefeito do Rio deve tornar-se a decisão das pessoas lúcidas e honradas dessa cidade, vivam elas no Complexo do Alemão ou na Gávea, na Barra ou em Parada de Lucas, em Santa Teresa ou no Vidigal, na Ilha do Governador ou no Leblon. GABEIRA: não podemos perder essa oportunidade de dizer algo nítido. ACORDA, RIO DE JANEIRO, AS ELEIÇÕES MUNICIPAIS ESTÃO AÍ.
Ouvi elogios de luxemburguenses e alemães à Cidade da Música do Rio. Fiz questão de divulgar. O arquiteto é bom de acústica. Cesar Maia ainda está aí. Mas o candidato a prefeito é FERNANDO GABEIRA. Nenhuma dúvida quanto a isso.
Obra em Progresso: fiz duas músicas na Europa (até agora). Uma cita nominalmente Lobão, a outra diz os nomes de Lula e FH. Tudo com amor.
As opiniões políticas aqui expressas são minhas, assino Caetano Veloso, não são necessariamente do blog nem da equipe, liderada por Hermano Vianna, que o projetou e toca.”
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| 30 comentários » | Assuntos: Cê, Fernando Gabeira, Rio de Janeiro, transamba, transrock — |
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