
| ZAMBUJO, CICERO, AUGUSTO, ADORNO, PAPO À BEÇA |
| 30/10/2008 7:15 am | Postado por Obra Em Progresso |
|
ANTÓNIO ZAMBUJO, INDIE ROCK, COOL JAZZ, MINIMAL, BOSSA NOVA, THE NEW YORKER, MICHELANGELO ANTONIONI E MONDRIAN CONTRA AXÉ MUSIC DENTRO DE MIM? NÃ-NÃO. “A COR AMARELA” É BROWN IVETE E DANIELA. É O SAMBA DO RECÔNCAVO EM TRANSE NO PSIRICO, NO HARMONIA, NO TCHAN: É TRANSAMBA JÁ CONSTRUÍDO POR TODOS ESSES BAIANOS GENIAIS.
Gostei muito do CD do Portishead (já de cara, aquela falação em português paulistano sobre a “regra dos três”, em tom a meio caminho entre pastor evangélico e conversador new age): os timbres das programações fazem as modulações insólitas ficarem mais bonitas. A Gibbons é uma chorona cool e a atmosfera sonora parece com a foto da Estação de Rádio de Portishead. Gosto do Portishead há mais de dez anos: entrou com Karola, Candé, Marininha, Luísa Mariani e Natália Lage na casa de Milton numa festa. A “Disneylaândia” da Marilena. Na casa de Bituca não dava pra notar, mas no primeiro telefonema que dei lá estava Portishead na secretária. Achei bonito à pampa. Perguntei.
O disco do Camelo é bom à beça: ele toca violão muito bem naquela faixa de letra curta; a decisão de soar relaxado e livre de tiques reconhecíveis pode virar um novo tique se o ouvinte tiver má vontade – mas é assumida com bravura e realizada com decisão; eu gosto; é carioca num grau Marisa Monte; é um luxo que ele seja a estrela solitária do momento em nossa música inventiva.
Quero ouvir o disco de Arnaldo Antunes logo.
As palavras em caixa alta que foram citadas aqui como parte de artigo meu para o Pasquim eram declaração de Jimi Hendrix traduzida por mim. Foi da última entrevista que ele deu. Mandei pra aqui em cima da hora.
Vou ouvir o disco de David Byrne com Brian Eno na semana que vem.
Já ouvi muito do de Rodrigo Amarante com Fabrício dos Strokes (que trouxe a namorada): os ecos de pop rock do início dos anos 60 – com um toque country – soam com frescor inventivo que descarta ironia ou nostalgia; é música imediata; a gente não pensa em tiques nem em toques – apenas entra em contato com as emoções que motivaram as canções, ou melhor, nas emoções que as canções motivam. Mas a ida à Itália me interrompeu a audição, de modo que comentários mais responsáveis ficam para depois.
Quem vê assim pensa que ouço discos. Eu fazia isso em 1960: João Gilberto, Thelonious Monk, Chet Baker, Miles Davis, Sylvia Telles, Modern Jazz Quartet, Ray Charles, Maysa, Jimmy Giuffre, Dolores Duran, Ella, Sarah, Billie… Hoje ouço o que me mostram – e não ouço repetidas vezes cada coisa, como fazia então. E olha que ouvia esses que citei sem abandonar Caymmi, Chico Alves, Orlando Silva, Eliseth, Silvio Caldas, Aracy de Almeida cantando Noel – além de seguir com atenção irresistível o Nelson Gonçalves da fase Adelino Moreira, Anísio Silva, Paul Anka, The Platters, Pat Boone, The Diamonds e os sambas e marchas de carnaval, tudo pelo rádio. João Gilberto mais que tudo.
Ouço o que me atrai a curiosidade (por ouvir falar, por ler no jornal, por ter ouvido acidentalmente – no radio, em casa de amigo – um trecho que me excitou). Por exemplo: adoro Cornelius, o japonês de sons puríssimos, idéias rigorosas e sensibilidade violentamente delicada (se me é permitido o paradoxo – mas creio que sim, em contexto nipônico). Vou ouvir o novo disco do TV On The Radio, banda que o maluco do Folhateen sugeriu há um par de anos e cujos dois primeiros discos me encantaram (se bem que os ao vivo no Youtube nem tanto). Já disse que adoro Radiohead (a partir de OK Computer, mas com um gosto pelo pouco louvado Pablo Honey – que ouvi depois – e sem nenhuma rejeição a Kid A, ao contrário).
Aprendo algo com essas coisas e não lembro muito depois. Mas ouvir o CD do António Zambujo me prendeu à necessidade de ouvir de novo, de novo e de novo. Esse mesmo desejo senti quando Moreno me mostrou Buika cantando Mi Niña Lola. Quero ouvir muito, mais vezes, mais fundo. No caso do Zambujo, muito mais ainda. É a língua portuguesa. É a história do fado. É o fato de eu ter sempre só gostado de cantoras de fado, nunca verdadeiramente de cantores.
Amália reverbera em cheio em Mariza. Um espetacular virtuosismo vocal faz de Dulce Pontes uma das mais impressionantes cantoras da atualidade – embora sempre na beira do risco de parecer só virtuosística. Uma atenção ao desenvolvimento do fado – e do gosto na história do fado – faz de Mísia uma elegante guardiã da tradição: uma espécie de Nara Leão com mais canto e menos despojamento genuíno (o que não é desmerecer a cantora portuguesa, já que a brasileira é um caso extremo de inteligência crítica espontânea a serviço despretensioso do canto).
Mas há nos pianíssimos com arabesco no fado tosco de Dona Argentina da Parreirinha d’Alfama (e que sempre amei e amarei na Maria da Fé do Senhor Vinho, essa Maria da Fé que parece ter se afastado de mim, do Brasil, de nós, como se tivéssemos prometido algo que não podíamos lhe dar) algo que, para meu espanto, reencontro onde nunca esperei reencontrar: numa voz masculina. Admiro os fadistas homens, mas nunca cheguei a amar-lhes o canto. Fado para mim era cantado por mulher. Desde Ester de Abreu, da minha infância, até Mariza: mulheres, sempre mulheres.
Não é que o Zambujo me pegou de jeito? Há nele dois elementos que – para além do prazer imediato de ouvir-se uma voz naturalmente musical e relaxada – compõem para mim um grande passo: que seja um homem a cantar fado tão lindamente – e que o diálogo com a música brasileira se apresente tão orgânico, já não-pensado, já resultante de forças históricas que vêm se expandindo há décadas. O disco de Teresa Salgueiro é belo e emociona (finalmente com Carlos Lyra no destaque que merece). A atitude programática de Eugénia de Melo e Castro foi e é tocante, além de desbravadora. Mas o que se ouve em Zambujo é algo já que vai mais fundo. É um jovem cantor de fado que, intensificando mais a tradição do que muitos de seus contemporâneos, faz pensar em João Gilberto e em tudo que veio à música brasileira por causa dele.
Quando Zambujo canta “Nem às paredes confesso”, vamos ao fundo do fado e, ao mesmo tempo, sentimos a cultura da bossa nova e da pós-bossa nova já na corrente sangüínea da canção portuguesa. Quando ele canta um Vinicius com Antônio Maria (esse seu xará com acento circunflexo), a composição soa enfaticamente “moderna” e americanizada, embora o tratamento seja de fado. E o mais incrível é que “Lábios que beijei” não soa menos americanizada e “moderna” do que aquela. Não pelo arranjo, que é fadista, mas pelo Brasil que há ali. É de arrepiar e fazer chorar. Sentimos a força da cultura de língua portuguesa – aquela que, afinal de contas, mais me interessa – construindo-se. É que espero, ou melhor, exijo do Brasil a articulação do papo que ele tem de levar com o mundo – saindo de seu chiqueiro de atraso, intrigas e pequenezas.
Eu odeio o fato de o aeroporto de Salvador se chamar Deputado Luís Eduardo Magalhães: nem no “Polígono das Secas” de Diogo Mainardi há uma piada tão sinistra. Odeio a meia-trava que o ideologicamente amorfo PMDB pode significar no progresso politico nacional. Embora nunca se saiba: vai ver é daí que de repente vem algo que contribui para esse progresso. Ele existe: a vitória de honra de Gabeira no Rio, o repúdio à propaganda-perua de Marta insinuando bichice de Kassab, a importância maior dada ao bilhete único e aos CEUs do que à idéia de “a nossa turma tem de ganhar” são provas disso. Mas o chiqueiro ainda é a imagem dominante. Pois o disco do António Zambujo nos faz crer que viraremos esse jogo.
Gozado é que, procurando Zambujo agora no Youtube, achei-o cantando com Roberta Sá. Não sabia que ela o conhecia. Muito bom. Embora os outros vídeos dele que vi não estejam à altura do disco.
Outra que vi no Youtube – e essa me maravilhou – foi a caboverdiana Mayra Andrade cantando “Tunuca”, sentada no chão da rua com Mariana Aydar.
É gozado como em São Paulo existe essa polaridade PT/PSDB. No resto do Brasil não é assim. Em primeiro lugar porque ambos parecem sobretudo paulistas. Para mim, mais ainda, dois raminhos da esquerda da USP. Claro que li aqui gente dizendo que deixou-se de votar em Gabeira por ele “ser PSDB” – e notando que Paes é quem chamou logo um tucano para começar o secretariado. Sei que há petistas com essa onda por toda parte. E afinal o PSDB é “oposição”. Bem, só se for Serra querendo ser presidente contra uma Dilma qualquer de Lula. Mas o que pinta é a disputa dele com Aécio. Serra é feio que dói.
Vídeo sempre divino é o de Hermeto tocando garrafas e flauta com os rapazes dele dentro de uma lagoa (ou rio?: não vi correnteza). Um DJ de música minimal e house etc. foi quem me mostrou.
Depois de contar a história da crise financeira mundial passo a passo, a Economist chega esta semana com a nova de que os “emergentes” – que pareciam livres do contágio de derretimento – e eram a esperança da economia mundial mesmo quando o problema das hipotecas imobiliárias americanas já estava avançado – não parecem mais imunes. A boa notícia (que me fez lembrar o final do livro de Kapuscinski sobre a queda do Império Soviético – livro chamado “Império” de que gosto muito mais do que o homônimo de Toni Negri – e final que eu já citava no meu Verdade Tropical) é que os países grandes se sairão melhor. Grandes territorialmente e possuidores de economia diversificada. O Brasil tá aí. Mas vai atravessar as dificuldades inevitáveis com a mesma euforia de festa de posse do Lula em que já estamos viciados?
As letras de Zii e Zie soarão bem datadas quando o disco sair. Digo, aquelas que falam de fatos políticos pontuais, como a Base de Guantánamo (como alguém já notou aqui), assim como aquelas que têm uma versão muito peculiar minha da euforia afirmativa que nasce dessa nossa fase FH-Lula. Lygia Clark dizia que o tropicalismo era romântico: dependia das informações da hora: falar em Coca-Cola, Paulinho da Viola, passeatas, Brigitte Bardot era atrelar-se ao tempo – e preparar a própria obsolecência; enquanto ela, trabalhando na area de decisões formais e expressivas em princípio atemporais, tinha ambição clássica. Ela não o dizia com ar de superioridade sobre nós. Dizia com carinho e com uma rosa de plástico enfiada numa garrafa de Coca-Cola no meio da toalha de mesa que estendeu no chão de sua casa em Paris, para que nosso jantar parecesse um piquenique. Mas a Brigitte e as Cardinales não impedem que “Alegria, alegria” seja ainda minha canção mais querida por brasileiros. E o que é dito em “Diferentemente” sobre Osama e Condoleezza poderá ter uma graça futura que não podemos apreciar hoje. Sem falar nas profecias ultra otimistas que se ouvem em “Falso Leblon” e “Lapa”. Eu, na verdade, acho essas afirmações desaforadas mais interessantes em face da crise do que seriam se soassem meramente como reafirmação de uma aprovação ao governo de 80%.
Não sei o que é Zizi (ou Zie-Zie, ou Zy-Zy) em francês. (Será algum modo infantil de se referir a partes graciosas da anatomia masculina?) Mas vocês todos deviam saber o que é Zii e Zie em italiano. Escolhi o nome pela impressão curiosa (e bela) que essas palavras simples causam quando escritas juntas. As encontrei assim na tradução italiana de Istambul, de Orhan Pamuk, que li na ida à Turquia, presente de uma italiana espectadora assídua dos meus shows. É um modo livre, misterioso e revelador de coisas que não sei, de nomear um disco tão lançado à aventura.
Amo os argumentos de Cicero sobre as vanguardas. Mas entendo que não interessem a Augusto de Campos. Augusto é o autor de “Não” (uma versão encapsulada de muito do que Drummond diz num poema longo sobre o fazer poético, apresentada primeiro como um mini-objeto mimeografado – como os poemas “marginais” que lhe são contemporaneous – que ele distribuía entre amigos e possíveis leitores), um poema que extrai intensa poeticidade do modo como pensa seu próprio lançar-se no mundo, comentando assim a condição mesma da poesia. Ao ler os comentários (justamente) entusiasmados sobre os arrazoados de Cicero, me lembrei de que, ao ler “Dialética do Esclarecimento” (muitas veses atrapalha, em vez de ajudar, a escolha dessa palavra “esclarecimento”: sempre evitando “iluminismo”, “ilustração” ou mesmo “luzes”, o tradutor muitas vezes nos leva a esquecer o quanto é sobre o “esclarecimento” histórico, do século 18, que os autores estão falando), tinha encontrado algo que me fez pensar nos concretos. Sei que Haroldo gostava muito de Benjamin – e que a Escola de Frankfurt foi levada em grande consideração pelo grupo Noigrandres quando foi levado a pensar na dimensão política da aventura em que embarcavam. Augusto não gosta da apreciação que Adorno faz do jazz. Mas nunca desejou descartar os desafios teóricos que Adorno lançava. Fui olhar o livro e achei um dos trechos que me fizeram pensar em Augusto. Eis:
“O sentimento de horror materializado numa imagem sólida torna-se o sinal da dominação consolidada dos privilégiados. Mas isso é o que os conceitos universais continuam a ser mesmo quando se desfizeram de todo aspecto figurativo. A forma dedutiva da ciência reflete ainda a hierarquia e a coerção. Assim como as primeiras categorias representavam a tribo organizada e seu poder sobre os indivíduos, assim também a ordem lógica em seu conjunto – a dependência, o encadeamento, a extensão e união dos conceitos – baseia-se nas relações correspondentes da realidade social, da divisão do trabalho. (…) É essa unidade de coletividade e dominação e não a universalidade imediata, a solidariedade, que se sedimenta nas formas do pensamento”.
Não o cito como resposta argumentativa a Cicero, mas como uma indicação de que, entre outras coisas, o enfrentamento de questões como essa animou a criação da poesia concreta. E que é perfeitamente natural – e até saudável – que um poeta como Augusto olhe de longe (e com desconfiança) argumentos como o de Cicero, vendo pouco neles além do fato de que servem afinal para afrouxar o arco e instruir pensadores criticamente receptivos a uma poesia atada à sintaxe vista pelos concretos como expressão da opressão. Era uma luta que envolvia ambições também nessa área. Sou suspeito porque, dessa luta saiu a sensibilidade que não só entendeu o essencial do que eu pretendia fazer como prefigurou minuciosamente alguns argumentos que os tropicalistas viriam a formular (sem conhecer tais prefigurações), como é o caso da avaliação da Jovem Guarda e do “novo folclore urbano e internacional” que surgia, energético, na música pop de massa feita para a juventude. Mas é que sou ainda mais suspeito em relação a Cicero, que é um amigo íntimo e freqüente, com quem partilho inclusive comentários pouco simpáticos a Adorno e à Escola de Frankfurt.
Postei demais. É que, apesar de cansado da gravação, fui acordado, por ordem minha, para acompanhar a saída de meu querido filho adolescente para a escola: ele tem aula à 7, tem de acordar às 6, entrou o horário de verão e ele tem pena de desperdiçar as noites dormindo (embora, diferentemente de mim, não tenha dificuldade em adormecer). Acordei tendo dormido menos de uma hora – e não consegui dormir de novo. Aí sentei aqui e escrevi. E olha que ainda não saiu o catatau São Paulo/Rio. Mas quando sair, sairá curto: o que faz a gente escrever comprido é falta de tempo para editar os textos (mesmo na cabeça).
Evangelina, leia comment no post da foto do Moreno.
Heloísa, você que está lendo Verdade Tropical: já chegou no final, onde falo em países grandes?
|
| 266 comentários » | Assuntos: antonio cicero, António Zambujo, fado — |
 |
| GABEIRA E MANGABEIRA 2 |
| 30/09/2008 6:58 am | Postado por Obra Em Progresso |
|
Mas será que tem gente que pensa que o que todo o mundo quer é se drogar? Todo o mundo ou pelo menos todos os brasileiros? Tem gente que pensa que todo o mundo não se droga só porque há a proibição? Estou com Salem. Não devemos esperar que os poderes públicos nos tratem como crianças. E depois, por que será que a maioria da população não é alccoólatra? Nem mesmo tabagista? Mesmo sendo legais e glamurizadas por décadas de filmes de Hollywood (onde a primeira fala de personagens entrando numa casa era sempre “I need a drink”, a primeira idéia de um personagem em apuros era “I need a drink”, a primeira proviedência para consolar um doente na cama era “take a cigarette”) o tabaco e o álcool nunca viraram a obsessão das populações humanas. Agora, sempre houve (e haverá?) bêbados e drogados. Não há nenhuma indicação segura de que os haja menos hoje por algumas drogas serem proibidas. A certeza disso é tão idiota quanto a certeza de que as drogas ilegais só fascinam por significar transgressão. Não é só por serem proibidas que elas atraem, nem o desinteresse por elas decorre da sua proibição. Só pensando direito se pode discutir, discordar, concordar, dialogar. Vamos tentando.
Gabeira está virando o jogo.
Mangabeira apoiar Crivella não é surpresa nem mau sinal para mim. Primeiro porque Crivella é do partido dele: o PR foi criado por José Alencar (o vice de Lula), Mangabeira e Crivella. Desde a criação do partido que na imprensa se diz que ele é um partido da Igreja Universal, ou do Bispo Macedo. Não creio que seja isso. O trecho que a moça que postou comentário reproduziu do discurso de Mangabeira na reunião de apoio a Crivella é excelente. E corretíssimo. De fato é horrível querer-se usar o princípio do estado laico para discriminar uma corrente religiosa. Sendo que os cultos evangélicos têm, há muito tempo, recebido de Mangabeira atenção especial. No livro “Política” (o mesmo onde há a crítica do conceito marxista de “capitalismo”) ele contrapõe a importância política da teologia da libertação (católica) ao surgimento das igrejas evangélicas - e vê maior energia liberadora nestas do que naquela. Eu venho de um mixto de ateísmo com politeísmo e, embora veja programas evangélicos na TV desde os anos 90, sempre odiei a campanha que eles fazem contra o candomblé. Sem falar no cara que chutou a santa (se bem que o Bispo Macedo - cuja biografia li com grande interesse - disse ter errado e atrasado em décadas a obra da Universal). Mas se esses programas (e suas igrejas) me atraíram por serem fenômeno popular, eles me mantiveram atento por estarem trazendo para grupos de brasileiros a idéia de que prosperar é bom - coisa que a Igreja Católica estava longe de sequer admitir. Concordo com Mangabeira em que o crescimento das igrejas evangélicas é um dos acontecimentos mais importantes da história brasileira recente. Não estou dizendo que isso é necessariamente bom, apenas que é indiscutivelmente importante. Nunca tive nem tenho preconceito contra o televangelismo americanizado.
And, Heloisa (for some reason I think that’s the right spelling of your name: with an H; maybe I’m wrong but as I always post without going back to read…), I certainly don’t have a good ear for foreign languages, but I don’t have much of a hard time reproducing the pronunciation of their vowels or consonants. I remember the short “u” used to be pronounced as a Portuguese “a” by Brazilians when I was young. Then people realized it was not that opened and tried to imitate the original English “non-vowel” - and ended up pronouncing something like a Portuguese “ô”, which sounds horrible. For example: people used to say “blash” (with a Portuguese “a”) for “blush”; now they say “blôsh” - and it makes me sick. Maybe that’s why you think I pronounce “a” instead of “â” in such cases. Yes, “â” is the closest to it. But we don’t have that in Brazil really - not with a differential value. In Portugal they have (that’s why there it is not hard to tell the difference between an “à” and an “a”, since the simple “a” sounds “â”; in Brazil we don’t have that, and we either write “à” when it’s only an “a” or pronounce “áa” to make sure we know there is a “crase”, i.e., a contraction of the preposition “a” and the definite article in its feminine form, “a”). To be sure, we have always pronounced “blêfe” and “flêrte” - in Bahia, “bléfe” and “flérte” - for “bluff” and “flirt” (and we kind of hear too open an “a” when the word “bluff” is pronounced in a movie). But we used to say “blash” when the word used here to refer to the stuff was “rouge” (a much better word), that we pronounced, effortlessly, à la française. That all means that we were always looking for a real vowel to put there, where there was no vowel proper. Well, of course THERE ALWAYS IS a vowel when you produce a vocal sound. But if it’s not “a”, “e”, “ê”, “i”, “o”, “ô” or “u”, it’s a non-vowel. Are you thinking I say this because I am Brazilian and my ear is used to just those vowels? No. Of course I know about the French “u”, which is half “u” half “i” - as is the German “ü”. Or the German “ö” or “oe” - there are lots of different vowels in different languages. But they demand a minimum of definition. It was my English teacher in London who explained to me that the short “u”’s pronunciation (as opposed to the long “u”, that’s pronounced “iú” - for, as you must have noticed, all long vowels in English are not real vowels but diphthongs: ei, íi, ou, iú…) is just the animal releasing of vocal indistinct sound. Well, you have something like it everywhere, like in the final “as” in Portugal, the final “es” in Catalan (and French, and Neapolitan, and…)… But in English it’s a very frequent sound entity. And often it’s the main vowel in a word. The other “short” vowels are always something in-between defined vowels: the “a” in “cat” is something between (Portuguese-Spanish-Italian-French…) “a” and “é”; the “o” in “pop”, something between “ó” and “a”; the “i” in “fitness”, something between “i” and “ê”, and so on and so forth. As for “far” or “car” (I don’t remember your example): it is not the same case as “dirt” or “Curt”. I must have had it wrong, saying all vowels followed by an “r” sounds undefined. What I meant was that MOST do. Especially if it’s followed not only by an “r” but by an “r” and another consonant. In fact, the “i” in “stir” sounds more like in “dirt”. But it’s for sure that it does in words like “curl”, “curse”, “verse”, etc. The vowel “a” doesn’t behave the same way. The “as” in “start”, “fart”, “lark”, don’t sound like a non-vowel. Rather, like a slightly O-ish A.
Sorry for the long gramatiquice in English. I was really trying to explain what I had meant. But I don’t know anything about English grammar theory. Or theoretical English grammar. Or English theoretical grammar. I really did it just to amuse you. And myself.
|
| 44 comentários » | Assuntos: Brasil, Crivella, Gabeira, Igreja Católica, Igreja Universal, Mangabeira — |
 |
| NEW YORK TIMES |
| 12/09/2008 6:47 am | Postado por Obra Em Progresso |
|
Robson, acho, pensou que creio que os grandes jornais americanos não permitiriam críticas negativas a medalhões. Eu não disse isso. De fato, se fosse assim a imprensa de lá seria o oposto de uma imprensa livre. E o desenvolvimento técnico dos artistas estaria estagnado. Mas não é assim. Citei dois ídolos de geração anterior à minha porque eram os exemplos que eu dava quando comecei a falar no assunto. Mas não seria muito diferente se se tratasse de Dylan, Prince ou Al Green. Mesmo Iggy Pop. Um tratamento grosseiro e de antemão desqualificador não fica bem em jornais como NYT ou o Washington Post, eis tudo. Citei o caso extremo da crítica a Chico na Ilustrada: poderia lembrar que lá também li que o cello de Jaques Morelenbaum é “assassino” (sendo ele um cellista de quem o grandes músicos, críticos e produtores do mundo todo dizem tirar o mais belo som daquele instrumento - além de ter uma capacidade de improvisar e entender os meandros da harmonia com uma sensibilidade sem competidores) - e que os músicos da Timbalada deveriam estar numa jaula. Não é isso, no entando, o que interessa. O caso é que, na crítica ao show de Roberto comigo cantando Jobim, não chegou a haver uma patada desse tipo (embora “naftalínico” e “necrófilo” tivessem aparecido no Estadão e, sei lá, “modorrento” ou algo assim na Folha). Eu apenas identifiquei que, por trás disso, havia o folclore de soar desabusado - coisa que vem manchando a crítica de música popular no Brasil há anos. E quis informar a quem não sabe que isso não é normal no mundo todo. Escrevi que a crítica de música popular é “o lixão” do jornalismo porque é o que observo desde sempre (e isso é assim em todo o mundo, diferentemente do hábito de escrever de modo forçadamente iconoclasta, que só vejo acontecer aqui; digo, na grande imprensa, pois nos tablóides pós-punk - sobretudo ingleses, mas com imitações francesas, italianas, portuguesas etc. - isso é a norma). Mas ressalvei que, com a virada dos Beatles, uma confusão interessante se deu - e ela é visível sobretudo nos citados tablóides e revistas roqueiras, a um tempo esnobes e chulas. A imprensa neo-conservadora tende a ser grosseira (a Veja é exemplo gritante, mas vemos isso na Fox News, até na Newsweek e na Time, com seus “ele está errado”) e, com isso, adotou algo do linguajar desses tablóides. Mas vê-se que mesmo aí há exigência e cuidado quando se trata de crítica de cinema: alguém pode imaginar Isabela Boscov escrevendo absurdos como os que o Martins da música pop escreve? Alguma matéria sobre cinema é, de longe, irresponsável, errada, cínica, grotesca como a que li em Veja sobre supostos seguidores do Los Hermanos? Não. A Boscov mostra que estuda, que faz o dever de casa. Martins põe que Zé Miguel é “pior do que Moby“. Mas eu, eu mesmo, não sou vítima desses malucos. Recebo mais elogios do que mereço. Claro, os ódios contra mim são espalhafatosos. As mesmas razão que me protegem contra uma desqualificação unânime serve para deixar meus detratores espumando: minhas relações decisivas com o rock, que me levam a ter um certo protagonismo na história do gênero no país e, ao mesmo tempo, minha independência de - e mesmo relativa desatençao a - ele. Quando a Ilustrada abriu o gosto para uma perspectiva internacional e anti-provinciana, eu era do cânone - enquanto Bethânia, Chico e Milton, por exemplo, estavam no Index. Chiei muito contra isso. Milton, naquela época, era o músico brasileiro com maior prestígio internacional. Bethânia e Chico eram as duas mais sólidas reputações do mundo da música no Brasil. Era desproporcional um caderno de cultura e entretenimento reservar-lhes espaço pequeno e palavras de leve desprezo. Roqueiros dos 80 mais Gil, Caetano e Gal - fora, é claro, toda a inglesada e alguns americanos - me parecia programa estreito. Disse isso a Marcos Augusto e a Matinas. Ouvi pessoas próximas a mim dizerem, em tom de piada violenta, que não-sei-quem ou não-sei-quem deveriam ser despedidos. Sempre desmereci essas piadas, mesmo como piadas. Mas já li até na Caros Amigos, contado por um jornalista que está em plena e brilhante atividade, que destruí a carreira de jovem e promissor repórter por ele ter se negado a namorar comigo (eu teria recusado dar-lhe entrevista em Londres por ele não se entregar a mim - quando, na verdade, a entrevista foi feita, publicada e tudo, sem que ninguém tenha forçado ninguém a fazer nada com ninguém). Nessa mesma entrevista foi lançada a expressão “máfia do dendê” para caraterizar-nos a mim e a Gil - a aos baianos em geral - como manipuladores dos meios de comunicação. Unanimidade? Nunca, em nenhum período da minha vida, experimentei tal status. Não estou preocupado com isso: nem a desejo nem a temo, a unanimidade. E, pensando bem, até Machado de Assis recebe reiteradas estocadas (às vezes bem violentas e injustas) de Millor Fernandes. Colombo e Jotabê, no entanto, não parece que miravam em mim. Miravam institivamente no ambiente celebratório que cerca os eventos dos 50 anos da bossa nova. E ainda por cima com antipatia pela evidente ligação com o Rio que esses eventos fatalmente teriam. Houve um descompasso suspeito, sintomático, que foi flagrado por Bárbara Gância, colega e amiga dos dois críticos. Eu não me sinto impedido de me manifestar (com o desleixo que o assunto merece, mas não sem o esforço de precisão que a luta contra as consequências nefastas desses gestos exige). Finalmente, só tinha lido o trecho do Jotabê que Robson citara - e tinha achado forte (embora não me escapasse a falsidade da visão de meus poderes de cortador de cabeças). Fui ler hoje o texto inteiro. Achei bem menos forte do que o trecho fazia esperar. Mas o português está melhor (será que há um antropólogo copidescando o lance dele?). Hermano aqui só conserta coisas como Pasquali, Zizec… Aquele maravilhoso ato falho de, contando que trocara um “s” por um “z” num texto criticando o português (e a ética) do Xexéo, eu ter escrito “veses” ele deixou. E o “trexo” foi só uma vez, num texto que tinha a palavra grafada corretamente várias outras. Mas já confessei que me atrapalho em ortografia. F. Scott Fitzgerald dizem que era bem pior. E ninguém escreveu nada como “O Grande Gatsby”. Mas num blog, escrito nas migalhas das madrugadas, “typos” abundam. (”Typos”, para quem não sabe, pronuncia-se “táipôs”, com tônica na primeira sílaba, e é expressão inglesa para dizer “erro de digitação” ou “troca de uma letra por outra na gráfica”).
Chega desse papo. Como crítico, adoro os versos que chegam nos orgasmos mútiplos em “Homem“. E os de “Lapa”, então, com Lula e FH, nem vou falar. Mas hoje gravei violão e voz em “Lobão tem razão“. Ficou “pronta” pela primeira vez. Ia gravar mais, mas as relações da lendária mesa (que também foi onde se gravou todo o “Clube da Esquina“) com a outra mesa maior, e dessas com Moreno e Daniel, não foram harmônicas: eles perderam horas com os técnicos do estúdio AR tentando desvendar o mistério de um problema que pintou. Amanhã ouvimos como ficou gravada hoje e, a depender do que achemos do resultado, gravamos de novo. E, com fé em Billy Wilder, gravamos outras duas. Estou com pressa? Kind of. Aliás, falando em inglês, eu queria responder a um americano que escreveu duas vezes faz tempo: acho que vai ser legal um post bem curtinho em inglês. Mas será que eu sei escrever posts bem curtinhos?
Comecei com vergonha de tocar volão. Depois relaxei mais. Daí fui cantar e perdi todo o entusiasmo com o disco. Me achei sem graça, chato, com essa trava que aparece no estúdio (em show isso é bem melhor). Mas depois de cantar umas cinco vezes a canção toda (até para Daniel e Moreno chegarem à captação de som que queriam) comecei a me animar com as possibilidades. E terminei gostando de algo ali. E voltou à toda meu entusiasmo pelo disco.
A escolha da primeira música a ser gravada obedeceu a um critério apenas prático: era a primeira música que estava na fita em que só tem uma versão de cada arranjo e, portanto, não precisa de Daniel fazer reduções complicadas nem de nós todos elegermos qual das versões se presta mais à adição do violão e do canto.
|
| 54 comentários » | Assuntos: |
 |
| LIBERDADE DE IMPRENSA |
| 11/09/2008 6:06 am | Postado por Obra Em Progresso |
|
Meu único problema com as esquerdas é que percebi ser o credo liberal mais resistente historicamente do que o comunista. Assim, a liberdade de opinião - a de imprensa em particular - é (até que um Zizek desses me convença) sagrada. Agradeço a Renato por ter me mostrado o forte texto de Jotabê Medeiros. Lembro que Osias já tinha me dito, educadamente, que achara o texto de Medeiros mais próximo de uma verdadeira crítica musical do que o de Syvia. Não pense que não sei que seria mais calmo, mais seguro, mais nobre, não comentar os comentários negativos que fazem sobre meu trabalho. Dezenas de vezes já se passou coisa semelhante comigo. Sou escoladíssimo nesses assuntos de reagir à imprensa. Nos anos setenta isso fazia parte de minhas apresentações públicas: eu lia e comentava (inclusive o português) de vários críticos nos palcos dos shows. Achei esse trecho do Jotabê que Renato mandou excelente. O português está muito melhor e os argumentos são bonitos e corretos. Muitas vezes, ao longo dos anos, já ouvi e li jornalistas dizendo que eu estava pedindo suas cabeças. Quase tanto quanto ouvi de colegas que se sentiram prejudicados por matérias de jornal. Não acredito que tenha o poder de destruir carreiras jornalístcas. O jornalista com quem mais violentamente briguei é ainda, anos depois de ter morrido, o mais influente do país: Paulo Francis. Brigar com jornal é brigar para perder. Quem tem coragem não se incomoda com isso. Mencionei os editores, no caso do show com Roberto, porque sempre ouvi de jornalistas (e li impresso) que títulos, manchetes e destaques são decididos pela editoria. Muitas vezes ouvi isso em tom de justificativa ou de pedido de desculpas. E disse que algo semelhante significaria, nos Estados Unidos, a demissão do repórter porque esse é um argumento que venho repetindo há anos: se um cara quisesse escrever no New York Times que “o chato do Ray Charles está no Madison Square Garden outra vez” ou “ninguém agüenta mais Tony Bennet”, o editor perguntaria se ele sabia onde estava. Isso é simplesmente verdade, é uma observação antropológica: americanos não acham normal ver desrespeitados os medalhões que são o orgulho do país. No entanto, já li na Ilustrada, em crítica a que o editor deu meia página, isto: “não ouvi nem vou ouvir o novo disco de Chico Buarque; não preciso disso para saber que não vale nada, repete as mesmas rimas” etc. Informo aos leitores brasileiros que coisas assim só se lêem nos tablóides de rock’n'roll ingleses (porque, mesmo na Inglaterra, no Guardian ou no Times não sai). Agora você acha que estou seguro de que isso só é negativo? Não. Nem isso. Acho graça em o Brasil ser assim esculhambado. É um país punk rock, em que a grande imprensa tem sotaque de tablóide marginal. Sou um medalhão transviado, como já disse, e me sinto até bem com esse negócio. Mas em linhas gerais me esforço para levar o Brasil a aprender a se poupar mais. Talvez eu não faça a coisa do modo mais eficaz. Mas algo se aproveita. Fico feliz em ver Jotabê respondendo tão bem e encontrando espaço e liberdade para fazê-lo. É disso que eu gosto. Tenho tanto poder de impedi-lo de manter seu posto no Estadão quanto ele de convencer o Itaú a não me contratar. E menos vontade.
|
| 32 comentários » | Assuntos: |
 |
| LINGÜISTAS |
| 2/09/2008 1:51 am | Postado por Obra Em Progresso |
|
Peço perdão a C por interromper o que quer que seja que estávamos falando (o que era mesmo? sobre críticas e a imprensa? alguém pensou que era contra São Paulo? jamais: estou muito no Rio mas gosto muito mais de São Paulo sob vários pontos de vista - um dia volto a esse antigo tema): preciso dizer a Lucas Matos que eu nunca escrevi que lingüistas não amam a língua portuguesa - e que quando falei em demagogia eu me referia a determinados argumentos que vi publicados, não a todos os lingüistas. Não preciso ser especialista na disciplina para me manifestar. O que escrevi foi: “Sou apaixonado pela língua portuguesa e por gramática (ao contrário de lingüistas e demagogos em geral, acho o sucesso público de figuras como o professor Pasquale um bom sintoma).” Já li e ouvi de diversos demagogos (alguns eram lingüistas) reações enraivadas à presença pública de Pasquale e outros gramáticos que dão dicas em revistas ou na TV. Diferentemente deles, acho um bom sinal que tal fenômeno tenha surgido e crescido. Não há nenhum charme de falar sobre o que não sei aí. Sei muito bem de tudo isso. Quanto à lingüística propriamente dita, li Saussure (aquelas aulas) no início dos anos 70. Li somente porque os poetas concretos falavam dele, Lévi-Strauss (cujo “Tristes trópicos” me apaixonou em 1968) falava dele, todos falavam de Jacobson, que falava dele. Fiquei maravilhado com a afirmação de que a língua é viva e mutante na práxis dos falantes: a língua é falada, a escrita seria apenas uma notação convencionada a posteriori, como as pautas musicais. Nunca vou esquecer sua observação de que o francês é a única língua ocidental que tem uma palavra cuja grafia não guarda nem um só dos valores fonéticos originais das letras que a compõem: “oiseaux”. Depois, entre muitas outras conversas, observações e leituras, fui nuançando essa visão. Para meu governo (tenho uma vida mental íntima, como todo o mundo, que não se desenvolve para publicar-se: aqui no blog naturalmente essa vida íntima se expõe mais, mas é só uma tênue película - como sói acontecer.). Há já um bom número de anos, fui fazer show em Campinas e um professor da Unicamp me entregou um presente: o livro de uma lingüista, com uma dedicatória bonita (”Para Caetano, com as palavras que me faltam”). O livro era sobre português europeu e português brasileiro. Talvez surjam aqui imprecisões, já que perdi o livro numa das mudanças que se seguiram à minha separação - e muitas vezes o confundo com um outro, de autoria coletiva, chamado “Português brasileiro” (título e expressão que adoro). O da professora era escrito num português excelente e tudo nele me interessava. Mas havia coisas que me ficaram como questões numa discussão que nunca se deu. Por exemplo: ela assumia de uma vez por todas que a segunda pessoa do singular não existe no Brasil. É “você” e acabou. A segunda do plural, então, já tinha morrido antes de o Império terminar. Considerava também como inexorável o desaparecimento futuro das conjugações reflexivas (os verbos pronominais). Ora, eu acho que os gaúchos dizem “tu” a torto e a direito (talvez mais a torto do que a direito); os cariocas conjugam, com muita ginga, verbos na segunda pessoa para enfatizar ironia ou agressividade (”tás me estranhando!”, “tás por fora”, “tens cara de veado” etc.) e usam o “tu” para mostrar informalidade (”tu é gay, tu é gay que eu sei”, o Maracanã grita para alguns jogadores; meu filho de 16 anos diz a seus amigos - e ouve deles - coisas como “tu vai lá e chega na mina.”); os pernambucanos perguntam sempre “viste?” - que muitas vezes eles suavizam para “visse?”; os paraenses conjugam o verbo na segunda pessoa, quando escolhem “tu” em vez de “você” - e muitos deles usam o possessivo na segunda do plural (a um casal ou grupo de amigos perguntam: “esses livros aqui são vossos?”). E, seja como for, todos os brasileiros, inclusive (talvez mesmo principalmente) as crianças entendem as letras das canções de Orestes Barbosa ou de Chico Buarque em que o cantor se dirige à amada na segunda do singular. Não se pode dizer que todas essas pessoas não possuam esses recursos da língua. Muito menos que as estará oprimindo quem lhes explicar como funcionam. Por outro lado, meus amigos baianos e cariocas (inclusive muitos semi-analfabetos) riem dos mineiros (e de alguns falantes do interior de São Paulo) quando eles omitem o pronome dos verbos reflexivos: “paixonei com ela” (em vez de “me apaixonei por ela”), “espera eu aprontar” (em vez de “espera eu me aprontar”), “assustou” (em vez de “se assustou”) etc. Lembro que, no livro, a professora indicava tratar-se de tendências. Mas, além de ela dar valor normativo a essas tendências, o argumento de que qualquer transmissão de conhecimento relativo à tecnologia da língua é opressão era recorrente. Essas eram questões que gostaria de discutir com ela. Mas meu tempo foi sempre escasso - e temi importuná-la e tomar seu tempo. Depois perdi o livro. Volto a pensar nessas coisas (e em outras que encontrei, nascidas das descobertas de Noam Chomsky) sempre que vejo reações públicas de lingüistas a qualquer exposição de paradigma culto. Finalmente, li uma entrevista na Caros Amigos, que me foi enviada por Tuzé de Abreu, de um lingüista que escreveu “A norma oculta”, defendendo o português de Lula contra os preconceitos da “elite”. Eu tenho idéias políticas a respeito. E não preciso me formar em ligüística na Sorbonne para expô-lo. Claro que são argumentos para se discutir. Mas são fortes. Na entrevista do autor de “Norma oculta” (não estou evitando escrever seu nome: simplesmente esqueci, mas faço questão de mencionar o nome do livro, que deve ser lido) há agressões a Pasquale (por parte dele e dos entrevistadores) e a toda idéia de correção ou enriquecimento da fala. E um quase silêncio mórbido sobre a língua escrita. Ora, eu acho que esses arroubos de populismo são em geral um superesnobismo mal disfarçado. Claro que sei que se escrevia “frecha” (até os poetas românticos ainda usavam essa forma) e que , portanto, dizer “TV Grobo” não é exatamente errado. Mas as pessoas que dizem “grobo” são as mesmas que têm vocabulário menor, menos acesso aos conhecimentos, menos poder. Os emergentes brasileiros que, saindo da pobreza para a crescente classe média, desejam aprender com os Pasquales da vida são os alvos finais da agressão desses lingüistas. Por mais bem intencionados que sejam, estes resultam demagógicos, pois proíbem a troca natural entre os níveis de informação (sendo assim mais contra o dsenvolvimento orgânico da língua do que os gramáticos) e ostentam estar de posse de teorias de ponta. Aliás, naquela longa entrevista de Lévi-Strauss a Didier Eribon, o grande antropólogo diz que começou influenciado pela lingüístca mas que nos últimos anos deixou de interessar-se pelos textos teóricos da disciplina por achá-los muito esnobes e preciosistas. Acho que se tivermos mais brasileiros letrados, melhores escolas, menos pobreza (isto já começa a se dar), o trato com a palavra escrita poderá mudar muitas “tendências”. E é gritante o desleixo pela palavra escrita nesse processo. Sim, me lembro de Saussure. Mas, por exemplo, há “tendências” misteriosas: por que leio hoje nos jornais e nos livros quase sempre “em um” ou “em uma”, em vez de “num” ou “numa”? Será que há uma regra que desconheço? Os falantes que ouço, todos, sempre disseram “o corpo foi encontrado num canto da praça Genral Osório”. Mas os jornais escrevem “em um canto da General Osório”. As moças da TV já dizem preferencialmente “em um”. E já começo a ouvir pessoas de carne e osso dizendo “em uma rua escura” em vez de “numa rua escura”. Será que é regional (como a professora que me mandou o livro toma uma inclinação mineira contra os verbos pronominais como universalmente brasileira, eu estarei tomando uma tendência baiana a fazer a contração da preposição “em” com o artigo indefinido como regra nacional?)? “Você e tu”, está na minha letra de “Língua”. Odeio ter lido um elogio à decisão do novo traditor de Proust (um Py, aliás bom) de “evitar o lusitanismo “raparigas’” e chamar o título do terceiro volume de “Em busca do tempo perdido” de “À sombra das moças em flor”. Mas quê que é isso? Trata-se de um livro do início do século 20, contando histórias que se passam no século 19, um livro culto, complexo - por que diabos deve-se sacrificar o ritmo e a sonoridade bonita que Mário Quintana encontrou para traduzir “À l’ombre des jeunes filles en fleur” (inclusive mantendo o mesmo número de sílabas e a acentuação no “i” do original)? Só para usar o termo “moça”, vulgar, pesado, e dar a impressão de que escreveu em português brasileiro “natural”, sem “lusitanismo”? Não! Para mim ficou foi sem a beleza de “À sombra das raparigas em flor”. O que isso tem a ver com os lingüistas, a língua falada, a norma culta, a norma oculta, a demagogia e a mania de pensar que o melhor modo de resolver o problema das favelas é destruir o sistema de esgoto de que desfrutam as “elites”? Tudo.
|
| 99 comentários » | Assuntos: língua portuguesa, linguística — |
 |
| MAIS IMPRENSA |
| 30/08/2008 5:28 pm | Postado por Obra Em Progresso |
|
Osias,
Sempre penso em como a crítica de cinema tem sido mais bem servida do que a de música popular. Não quero desmerecer os críticos de música, mas em toda parte há maior seriedade cercando o crítico de cinema. Seriedade editorial, para começar. Embora o cinema seja arte novíssima - e tenha começado como mera atração de feira de novidades - , ele ganhou status de assunto respeitável. Suponho que isso aconteça porque o público de cinema é mais adulto, melhor de vida e mais letrado do que o público da canção. Mas acho gostoso esse desequilíbrio que veio com o upgrade britânico para o rock nos anos 60: os críticos de cinema mantêm seu ambiente tradicionalmente sério, mas os de música misturam ignorância com hiper-erudição e petulância nos julgamentos. Só não deixo passar o uso que se faz disso para manter o mito de que somos cronicamente inviáveis. Acho que se o professor da USP elogia o filme de Sergio Bianchi e desconhece o romance de Diogo Mainardi é só por demarcação de território entre “esquerda” e “direita”. Os dois livros de Mainardi que li (aconselhado por Paulo Francis que dizia, ainda na Folha, que Diogo era o cara) são muito melhor literatura do que “Cronicamente inviável” é bom cinema. O que não é dizer muito. É raro alguém escrever de modo inteligente e equilibrado sobre música popular. Mas a maluquice desproporcional da crítica de rock, feita de elogios extravagantes e desaforos, excita. É sinal de que samba (etc.) não é resguardado, não é coisa de classes dominantes. Me sinto bem nesse lugar. Vai aí abaixo uma leitura/piada do artigo do cara do Estadão. É só para divertimento. Eu mesmo, antes de reler o que escrevi, vi que tinha grafado “trexo” em vez de “trecho” numa das veses em que usei a palavra. Quando, por causa de um bate-boca ridículo sobre um outro show-tributo a Tom Jobim, mandei um texto pro JB chiando com o Xexéo e chamando-o de ignorante, a primeira frase da resposta dele era uma denúncia de que eu escrevera um “z” onde deveria ter escrito um “s”. Sou apaixonado pela língua portuguesa e por gramática (ao contrário de lingüistas e demagogos em geral, acho o sucesso público de figuras como o professor Pasquale um bom sintoma) mas sou muito desarmado em matéria de ortografia. O Jotabê e a Colombo só receberam tanta atenção (de quem não tem tempo para quase nada além da Obra em Progresso para preparar o novo CD) porque sou obsessivo com a afirmação das glórias nacionais (justo eu que escrevi aquele samba para Aracy - e a pedido dela!). Escrevi a “aula” abaixo porque Paulinha adora minhas gramatiquices e só a posto para você ler:
Caetano, o Rei e o show de naftalina
Mais preocupados em lustrar prestígio de Tom Jobim do que em ousar e suplantar-se, totens da MPB fazem noite tediosa
Crítica Jotabê Medeiros
Os melhores momentos do show de Roberto Carlos e Caetano Veloso em homenagem a Tom Jobim acontecem quando o próprio Tom Jobim, no telão, surge cantando suas canções e tocando-as ao piano. É um efeito sintomático: quando a homenagem, ao vivo, é menos vibrante do que a imagem vítrea, a memória, algo vai errado.
Na segunda frase temos logo uma formulação torta: “é um efeito sintomático”. Mas isso é problema de estilo. Já as vírgulas que separam a expressão “ao vivo” são mais do que desnecessárias: constituem erro, uma vez que “ao vivo” tem o mesmo papel de adjetivar “homenagem” que “vítrea” tem de qualificar “imagem”. Trata-se de uma mania de usar vírgulas em excesso, coisa que tem prejudicado tantos textos jornalísticos (e mesmo literários) entre nós. Há também imprecisão (e mau gosto estilístico) em chamar “a memória” de “imagem vítrea” (por quê? porque se tratava de projeção de vídeo? será que alguém pensa que vídeo é vidro? ou apenas quer dizer que imagens na memória são de vidro?).
Roberto e Caetano fizeram de tudo para Tom Jobim: bajularam-no, superlativaram-no, choraram-no.
Como o autor justificaria o uso da preposição “para” com os verbos (seguidos de pronomes átonos) que vêm depois dos dois pontos?
A platéia entendeu, compreendeu, participou, emocionou-se junto - talvez mais pela própria força das canções do que pela grandeza das versões.
“Entendeu, compreendeu” e “participou, emocionou-se junto” formam um par de incômodas redundâncias. E o “talvez mais” diz que a “grandeza das versões” é imensa, já que a “força das canções” em pauta é reconhecidamente extraordinária (apreciação da qual o jornalista nem de longe discorda). Todo o texto (e seu título) gostariam de dizer exatamente o contrário disso.
Mas tudo que Roberto & Caetano não conseguiram foi fazer com que a obra de Tom suplantasse a solenidade, a paródia, o gesto imitador.
Afinal o tom criticado era de solenidade ou de paródia? E “gesto imitador” vem para ilustrar uma ou outra? O período resulta incompreensível.
Aboleraram Tom Jobim, regrediram sua canção à idade da pré-bossa, ao barroquismo da fase Orlando Silva (nem ao menos um Mário Reis pintou ali).
Mas afinal os cantores não conseguiram sair da solenidade ou “aboleraram Tom Jobim”? Sem querer entrar muito nas questões de conteúdo, não se pode deixar aqui de notar que foram cantadas muitas canções do Tom da fase pré-bossa nova, período em que o samba-canção era tido como “abolerado”, com o qual Orlando Silva nada tinha a ver. Orlando Silva, um estilista típico dos anos 30, é o cantor que mais influenciou João Gilberto (João não se cansa de dizer que Orlando era “o maior cantor do mundo”). Com todo o respeito por Mário Reis (e o reconhecimento das afinidades superficiais entre seu canto e o de João), sempre senti que João é mais Ciro Monteiro e Orlando Silva filtrados por Chet Baker do que Mário. Para piorar a confusão, o jornalista qualifica como “barroquismo” as características do canto de Orlando, que nada tem a ver com o sambolero pré-bossa nova, com o qual Tom, sim, tem tudo a ver. E o verbo “regredir” - é transitivo direto?
Naftalínico, o concerto cedeu à nostalgia, à vontade de que o tempo fique congelado, que as coisas sejam imutáveis e polidas ad infinitum.
Que miséria redacional! “Naftalínico”, esse horrendo neologismo (o adjetivo existente é “naftalênico”, referente ao naftaleno, de que “naftalina” é um nome comercial) abre o período, que é confuso em si mesmo e incongruente com o aparente argumento central do artigo. Além de o abandono da preposição “de” na última frase deixar o trecho capenga, surge a pergunta: cedeu-se à vontade de que “o tempo fique congelado” e as coisas sejam “imutáveis” ou que elas sejam polidas “ad infinitum”? Digamos que o jornalista creia que “imutáveis” e “polidas ad infinitum” sejam expressões sinônimas: como ele concilia isso com a afirmação de que se “abolerou” Jobim?
O pianista Daniel Jobim, neto de Tom, usava o chapéu característico do avô, como que para reiterar a onipresença do compositor. Um gesto dispensável, já que o próprio repertório tinha essa função.
Deus do céu! O repertório tinha a função de reiterar a onipresença do compositor? E o chapéu de Daniel (que é um dos elementos constantes na maneira poética e desconcertante de ele incorporar a persona do avô - traço de sua própria personalidade que se salva da estreiteza pelo modo espontâneo com que sua musicalidade abissal se expressa) foi usado “como que” para reiterar essa reiteração?
Foi como num jogral escolar em homenagem ao Duque de Caxias ou coisa parecida, em que as qualidades do homenageado são discorridas de forma artificial, mal ensaiada. Um lustro tedioso num monolito de ouro.
“Um lustro tedioso” faz pensar num qüinqüênio sem novidades. Mas será que o jornalista crê que essa imagem do monolito de ouro (supostamente a obra de Jobim, que, em outros lugares do texto, ele lamenta que se tenha deixado “congelada”) a que se dá um “lustro tedioso” é uma boa imagem literária? E as qualidades do homenageado “são discorridas”? O verbo “dicorrer” aí pode ser tomado como transitivo direto? E o Duque de Caxias, como pôde o autor colocá-lo tão perto desse monolito? É isso que se aprende nos manuais de redação? Jesus de Nazaré!
Caetano (animado com suas sambadinhas à Rubens Barrichello) mostra que é mais eficiente nas versões de clássicos da chamada música brega brasileira (como fez em Moça, de Wando, ou Sozinho, de Peninha). Aí, ele consegue “emprestar” elegância e prestígio à canção e, em contrapartida, revestir-se de sua “sinceridade”. Mas, confrontado com a fineza de Jobim, parece diluir-se, perder lastro ou, então, é apenas reiterativo, com reverência exagerada.
Nunca soube que Rubens Barrichello sambasse. Tenho horror a corridas de automóveis. Comento esse trecho pessoalmente, não como professor. Está mal escrito mas parece conter crítica justa a minhas limitações. Mas o fato é que para mim não há como exagerar a reverência a Tom Jobim.
Há pouca ousadia no repertório: Garota de Ipanema, Samba do Avião, duas vezes Chega de Saudade. Um dos momentos é quando Caetano, em seu set solo, canta Caminho de Pedra. “Essa é uma canção não muito conhecida de Tom Jobim. No disco de Elizeth, que ouvi com Bethânia em Salvador, nos anos 60. Fico feliz em ter a chance de cantá-la aqui, com orquestra. Muito modestamente e muito inseguramente, mas com coração”, avisou, ao finalizar com um “peeeeedra” de doer os ouvidos.
A gente se pergunta: a que exatamente se refere a frase “um dos momentos é quando…”. Aí voltamos e relemos lá em cima que “há pouca ousadia no repertório”. Ah!, um dos momentos em que há alguma ousadia é quando… Ter de fazer força para adivinhar o que um jornalista quer dizer (ou ter que, mentalmente, redigir por ele) - sobretudo sendo algo afinal tão simples - é de lascar.
E a voz de Roberto é tamanha que às vezes ela precisa de controle. Sim, nós já sabemos da extensão de sua voz, ele não precisava exibir-se tanto. E ele ousa muito pouco também, porque não é do seu feitio -mas bem que podia ter algum ás na manga. Apenas um número poderia dizer-se que é surpreendente: Por Causa de Você. Roberto lembra da forma como foi composta - Jobim a deu a Dolores Duran, que a levou ao camarim e fez uma letra para ela escrevendo com “lápis de sobrancelha”.
O número era surpreendente porque Roberto contou que Dolores usou o lápis de sobrancelha? É um tanto ridículo, mas tomara que seja isso que o jornalista quis dizer. De outro modo, o que há de surpreendente em Roberto cantar “Por causa de você”? A identificação dele com Dolores é antiga (e registrada). A história da letra dessa música é folclore conhecidíssimo. Consta que Vinicius já tinha escrito uma letra (ou que Tom já lhe havia entregue a música para que ele o fizesse) mas que, ao ouvi-la ao piano, Dolores escreveu imediatamente as palavras que ficaram coladas para sempre a ela. Teria sido tanta a urgência em fazê-lo que Dolores, sem uma caneta por perto, usou o lápis de maquiagem. Seja como for, Roberto não tem voz muito potente. Tem é musicalidade e naturalidade de emissão, relaxamento no ataque das notas. O “português ruim” do jornalista não dá conta da poesia contida no reinado e na modéstia do autor de Detalhes. O que me soou mais surpreendente na voz de Roberto (embora não necessariamente mais emocionante) foi o “Samba do avião”.
As duas orquestras seguiam caminhos diametralmente opostos. Em Roberto Carlos, sob a regência de Eduardo Lages, a big band servia à música romântica de salão, marca do ?Rei? nas últimas décadas. Com Jaques Morelenbaum, sideman de Caetano, ela ia ao ponto extremo de sofisticação, mas as idas e vindas sugeriam alguma esquizofrenia aos ouvidos.
“Sugeriam alguma esquizofrenia aos ouvidos”????? O que uma frase dessas nos sugere aos ouvidos então? Paranóia? Pânico?
Claro, não seria honesto dizer que foi tudo um porre. Houve bons momentos, especialmente nos números menos solenes, como em Tereza da Praia, que Caetano e Roberto trataram como uma espécie de embolada.
Embolada? Não! Será que ele estava pensando em “desafio” nordestino? Embolada? Muito difícil de entender. Não seria honesto usar a palavra “porre”, nesse sentido, nesse lugar. Mas “Tereza da praia”, da fase do sambolero, foi a única canção tratada de forma abolerada.
A cenografia e a direção do show eram de bom-gosto, com intervenções precisas, procedentes, sem exageros rocambolescos.
Puxa, Felipe Hirsch, Daniela Thomas e Monique Gardenberg adorariam poder dizer algo semelhante do texto do Jotabê, mas é duro ler “intervenções precisas, procedentes, sem exageros rocambolescos”. Rocambolescos? - perguntam-se os pobres Felipe, Daniela e Monique. E: intervenções?
Houve dois concertos cruciais das homenagens à bossa nova nesses últimos dias, os dois do projeto Itaú Brasil: o de João Gilberto, mestre do estilo, e o de Caetano e Roberto, epígonos de João. Por que o de João é mais moderno, menos necrófilo? Talvez porque João é a criatura que se confunde com sua criação - ele parece ter sido engolido pela música, está em uma simbiose doida e sonha com o desaparecimento em pleno palco. Essa condição o salva da armadilha de ser cover de si mesmo.
Aqui, apesar da “simbiose doida” (que diabo é isso?), o escritor do Estadão parece discordar de sua colega da Folha, embora ambos estivessem animados pelo mesmo desejo proviciano da imprensa paulista quando se trata de música popular: soar como os tablóides de rock’n'roll inglês. A Colombo da Folha falou abertamente mal do show de João: ela queria desqualificar a empreitada do Itaú e mostrar que não gosta de bossa nova (então, era o caso de se perguntar, por que a escolheram para escrever sobre o evento?). O Jotabê chama os dois concertos de “cruciais” e parece querer dizer que o de João era bom e o nosso não (o que já cria um problema para a escolha da palavra “crucial”). Mas termina dizendo que o dele era apenas “menos necrófilo” do que o nosso. Que belo elogio! Menos necrófilo! João ia adorar. É no que dá a pessoa não aprender a escrever.
A bossa de Caetano e Roberto, ao menos nesse show, está doente e chamaram dois totens da MPB para fazer a necrópsia.
Suponho que “necropsia” seja uma palavra paroxítona. O acento agudo no “o” que o jornalista pôs não procede. Mas, necrópsia ou necropsia, isso se faz em doentes. E o autor quis florar seu estilo com essa dupla jogada de passar da doença à morte e de separar “Caetano e Roberto” de “dois totens da MPB” numa mesma frase? Seria horrível, mas, dada a debilidade do resto do texto, nem isso parece ser o que está aí. Parece confusão mental e incapacidade redacional a serviço do velho hábito de não permitir que nada brasileiro se afirme. Nos Estados Unidos um texto semelhante poderia significar a perda do emprego por parte de seu autor. Na Inglaterra também - a menos que fosse no New Musical Express ou na revista Mojo (se bem que, do ponto de vista da língua, nem mesmo nessas publicações um artigo desse nível seria admissível).
|
| 41 comentários » | Assuntos: bossa nova, Estadão, jornalismo cultural, língua portuguesa, Tom Jobim — |
 |
| MARGINAL PINHEIROS |
| 28/08/2008 3:22 am | Postado por Obra Em Progresso |
|
Estou tão enfronhado no Rio com esse projeto da Obra em Progresso que tenho me sentido longe à beça de São Paulo. Vim aqui fazer o show com o Rei no belo teatrinho do Niemeyer no Ibirapuera e senti o tamanho da saudade que eu estava de Sampa. O teatro é elegante e induz à quietude. Se o show fosse no Ginásio do Ibirapuera, o ruído dos aplausos assustaria a boba da Folha e o burro do Estadão que escreveram sobre o show. Há anos não leio nada tão errado sobre música brasileira - e, mais uma vez, envolvendo Roberto Carlos e este transblogueiro que vos fala. Se eu tivesse direito a convite, teria chamado Augusto de Campos para estar presente ao encontro: foi ele quem escreveu o primeiro texto de apoio crítico à Jovem Guarda, prefigurando o tropicalismo e opondo a energia da turma de Roberto e Erasmo à pretensão da turma de Elis. São Paulo é isso. Quando vi a Ponte Otávio Frias em frente aos prédios pós-modernos da Marginal Pinheiros (prefiro prédios pós-modernos aos chamados modernos que encheram nossas cidades de desarmonia, em nome da racionalidade) me senti esperançoso. Dei entrevista a Jô (onde disse isso) e segui para o lançamento do livro do Mangabeira na Casa das Rosas. Agora (já às duas e meia da manhã) o provincianismo fraco dos articulistas dos dois grandes jornais locais não conseguiu abalar essa sensação. O Brasil de Tom, que é o Brasil que precisa estar à altura da bossa nova, cresce para fora e para longe do Brasil dos débeis de cabeça e de coração.
Escrevo isso só para mostrar aos que comentaram as críticas hilárias da província paulistana que também li e que fiquei com pena dos dois fanfarrões que não sabem nem escrever. O do Estadão então é inacreditável. Como é que qualquer editor deixa sair um texto com tantos erros de português, tantas redundâncias e obscuridades, tamanha incapacidade de articular pensamentos? A da Folha não sabe pensar mas exprime de forma primária esse seu não-saber. O outro, nem isso. O texto dele é tão mal escrito que a gente tem de adivinhar o que ele pensa - e chega à evidência de que pensa errado. Mas de alguma forma o artigo da mulher parece ser mais prejudicial do que o do cara. Não respondo aqui a ela nem a ele. Nada digo aos jornais que os publicaram. Deixo aos leitores paulistanos que viram o show. Eles vão escrever protestando. Os jornais talvez publiquem algumas das cartas.
Chega de verdade. “Lobão tem razão” vai ficando muito bonita dentro de mim. Cada vez que a canto ela parece melhor. Fui cantar um trechinho no Jô e fiquei emocionado. “Lapa” nos pareceu - a mim e aos caras da Banda Cê - boa de cara. “Lobão tem razão” cresce com o tempo (em nós, pelo menos). Agora vamos começar o trabalho de estúdio: três dias de ensaio e, na segunda, começa a gravação do CD. O DVD, feito de números em construção, tirados das apresentações no Vivo Rio e no Oi Casa Grande, vai ser um documento da Obra em Progresso. Mas o CD será a prova dos noves (é dos noves, sim: a gente parece que tem medo de pôr os numerais no plural! - até o Oswald de Andrade, naquela grande frase de um dos seus manifestos, escreveu “a alegria é a prova dos nove”; bem, não está errado, mas a própria prova é sempre feita com o uso da expressão “noves fora…”; e como eu já gosto de nove, essa idéia de noves - muitos, múltiplos noves - me dá enlevo). Muito aprenderemos sobre essas canções e suas concepções sonoras quando as ouvirmos gravadas em estúdio. De minha parte, estou curioso e um tanto impaciente. Suponho que a gente vai lançar o CD ainda este ano. O DVD, como recordação do processo que chegou até ele, fica para um pouco depois. Depois do carnaval?
Acho que todo o mundo devia ler o livro “O Que a Esquerda Deve Propor”, de Roberto Mangabeira Unger. É um livro pequeno, denso mas muito claro, que faz renascer o sentimento de “ser de esquerda” em nós. Há propostas concretas interessantes e sobretudo uma visão do mundo hoje que nos liberta para pensar. De minha parte, vejo ali formuladas muitas das idéias que tentei eu próprio encontrar dentro de mim. O capítulo sobre os Estados Unidos e seu papel no mundo hoje é obrigatório - e independe de você querer ou não apostar nas sugestões de mudanças institucionais que Mangabeira oferece. Leiam e vejam se não está ali tudo o que precisamos saber agora sobre a morte das formas de política de esquerda que conhecíamos - sem que seja necessário passarmos a ser conservadores. Há décadas que venho dizendo que Brasil não pode jogar fora a contribição que nos quer dar esse pensador. Agora vejo que o Brasil não vai fazer isso. Temos um dever de originalidade. Temos algo a dizer ao mundo. Mesmo que nunca o disséssemos - mesmo que nunca o digamos - nós o temos. Mesmo que o calemos ou nos recusemos a articulá-lo, temo-lo (e é com prazer que o digo assim, homenageando o português lusitano, que também é nosso e que não devemos ignorar: um dia desses vou escrever sobre lingüistas que agridem os gramáticos em nome de uma demagógica receptividade ao que às vezes é mera limitação opressora dos falantes - mas não vou voltar aos erros do carinha do Estadão).
Estou escrevendo qualquer coisa hoje porque fiquei muito pegado com os shows de Tom/Roberto e nunca mais tinha escrito nada. Mas voltarei.
|
| 48 comentários » | Assuntos: Augusto de Campos, bossa nova, Estadão, Folha de S. Paulo, Jovem Guarda, Mangabeira, Roberto Carlos, São Paulo — |
 |
| Letras e Shows atualizados |
| 20/08/2008 5:29 am | Postado por Obra Em Progresso |
|
OBRA EM PROGRESSO ANUNCIA: As letras de “Lapa” e “Lobão tem razão” já estão publicadas em LETRAS. O set list do primeiro show do Casa Grande (realizado ontem, 19/08/2008) também já está publicado em SHOWS. Desta vez Marcelo Roselli, marido de Giovana Chanley (musa deste blog), teve papel fundamental. Mas não tirando fotografias, ou se aventurando nas ruas de Moscou ou Istambul. Foi ele quem descobriu a entrevista do JB com Lobão e mandou o texto para o Caetano. O jornal chegou no camarim momentos antes do início do show, mas acabou “costurando” seu roteiro, desencadeando novas situações provocantes (em vários níveis, e referentes a múltiplas discussões) de “stand-up comedy“. Tudo vai aparecer em vídeo e em breve por aqui.
PS: O set list do show de 20/08/2008 também já está publicado em SHOWS. Foram poucas as mudanças com relação ao show do dia anterior: Caetano não cantou La Mer, e no lugar de Todo Errado, ele e Jorge Mautner (com, é claro, a participação de Nelson Jacobina) cantaram O Vampiro, com a levada carimbó elétrico apresentada no primeiro show de Obra em Progresso do Vivo Rio.
|
| 8 comentários » | Assuntos: Casa Grande, letras, Lobão, O Vampiro, setlists — |
 |
| AQUI CAETANO VOLTANDO A FALAR: |
| 14/08/2008 5:56 am | Postado por Caetano Veloso |
|
Sim. “Outros viram“, essa peça rara de Gil com Mautner (Gil com Mautner parece o nome de um coquetel), Gil liqüefazendo a pedra de crença de Mautner na grandeza do Brasil. Veja só. Eu, que vivo por isso e para isso, estranho. Acho que eu sou estranho.
Em Istambul um jornalista me perguntou qual a manifestação cultural brasileira recente que mais me interessa. Respondi: “os textos do filósofo Antonio Cicero. Seus livros O Mundo Desde o Fim e Finalidades Sem Fim e seus artigos na Folha de São Paulo”. De fato, O Mundo Desde o Fim é um osso duro de roer no ambiente metade frankfurtiano metade pós-estruturalista da produção acadêmica brasileira. Sendo que o aspecto mais Heidegger de Adorno e de Derrida dominam até (ou sobretudo) nos que mais se sentem à esquerda. Gosto mais de O Mundo Desde o Fim até do que de Roberta Sá, Maria Rita, Mariana Aydar, Vanessa da Mata, Marisa Monte e Adriana Calcanhotto. E do que de Dois Filhos de Francisco ou mesmo de Saneamento Básico. Mais do que dos 3 discos do +2. Mais do que Bendito Fruto.
O Mundo Desde o Fim não foi enfrentado. Justamente não vale dizer que é uma regressão para antes da filosofia modernista (uso modernista aqui no sentido do modernismo artístico e literário) do século 20: Heidegger e Wittgenstein (sem falar nos marxismos com a adesão confusa apesar de obstinada de Sartre). É um golpe luminosamente lógico nesse suposto avanço. Mas sou de temperamento rebelde e revolucionário (embora descreia de quase todas as revoluções) e procuro no mundo os sinais das profecias de Gil/Mautner, das propostas (também proféticas) de Mangabeira e das possibilidades sombrias que as notícias trazem. Agora mesmo defenderia o fundamento ultracartesiano de Cicero contra os desconfiados da razão, do indivíduo, do sujeito, dos direitos universais e do absoluto. Mas estaria sempre em guarda com o risco de acharmos que já chegamos e que não vale buscar alternativas. Em suma, sou muito de esquerda. Estão me achando ultrapresunçoso, dizendo esses nomes assustadores e fingindo intimidade com a complicação do que pensam os portadores desses nomes? Ótimo. Desobedeço Hermano que me pediu para ser menos difícil.
Isso tem graça porque sinto certa tristeza por ter abandonado o tom e as palavras poucas e fortes, claras e diretas do Cê (o que me deu um trabalho imenso para atingir) e ter voltado em parte às idéias gerais, “grandes”, barrocas e às referências ao Brasil de composições pré-Cê. Diferentemente de um que escreveu aí, sou louco por Cê. E tenho a pretensão de ser capaz de seguir no mesmo caminho, se decidir fazê-lo. Mas acontece que não decido. Entrei nesse transe de samba e nessa nova transa de rock com samba que me apaixonou. O incrível é que a Banda Cê se mostra igualmente rápida na percepção desse lance quanto no das músicas de poucas palavras. O Ben Ratliff, crítico do New York Times, numa crítica do Cê, escreveu que ali estavam minhas melhores letras em décadas. Conversando com ele num boteco no Lower East Side, perguntei que onda era essa, desde quando ele entendia português para afirmar algo assim. Mas a verdade é que concordo com ele. Não sei julgar as letras novas (fiz tudo a partir da música, sobretudo das levadas de bateria), mas sei que são mais palavrosas, mais caetânicas num certo menos bom sentido, do que as do Cê. Mas há coisas que só apareceriam depois do Cê. Na verdade, tudo só apareceria como aparece por causa de termos feito o Cê antes. O modo como vêm os nomes de Lula e FH, sem comentários mas com grande riqueza de significado, na música Lapa (que vou apresentar no Casa Grande, junto com Lobão tem Razão e as outras nova todas - que com Diferentemente já são dez) só me surgiria com essa liberdade porque há Odeio e Homem e Rocks. Não me arrependo.
Hermano me chamou a atenção para o fato de que ninguém fez até agora o que estamos fazendo: exibindo um repertório novo em shows e na internet, antes de gravá-lo no estúdio, em riqueza de detalhes do seu desenvolvimento. Uma das forças do Cê foi o segredo sobre o que viria. Agora é o compartilhar com ouvintes obscenamente as intimidades da feitura. Quando o disco estiver pronto (espero que até outubro) os interessados já terão versões ao vivo, em etapas diferentes, das canções. E ainda essa minha falação indiscreta. Sou leonino falador.
Por que não falo da poesia de Cicero? Talvez porque ela seja mais forte do que a sua filosofia e eu não me sinta nunca à vontade para falar de poesia. Acabo de ler um romance da escritora portuguesa Inês Pedrosa em que o poema Guardar e citado na íntegra. E é mesmo fantástico. Cicero tem a luz dos clássicos mas jamais a dicção dos neo-clássicos: um poema “menor” de Drummond (sobre surfistas na praia, algo assim), relido por ele, mostra-se nada “menor” - e é exemplo magnífico de sensibilidade clássica (quer dizer grega, romana, pagã). Mas Cicero é um anti-Ricardo Reis. O poema O Não, de Eucanaã Ferraz, me fez chorar quando li pela primeira vez - e me fez chorar quando li pelas vezes seguintes (foram várias primeiras vezes). Eucanaã - com tudo que guarda de atenção ao rigor de Cabral - tem uma dimensão romântica, uma descendência romântica, que Cicero não tem. Não entendo nada de poesia: só falo desses dois porque são meus amigos e seus poemas chegam a minhas mãos com facilidade.
|
| 43 comentários » | Assuntos: antonio cicero, caetano veloso, Cê, Eucanaã Ferraz, Gilberto Gil, heidegger, Jorge Mautner — |
 |
| Istambul, Milton, Gil e muito mais |
| 9/08/2008 4:03 am | Postado por Obra Em Progresso |
|
Caetano escreve:
“João Cabral de Mello Neto me disse que podia ler mil textos dizendo que um poema seu era genial ou que ele era o maior poeta brasileiro, mas se lesse um só que dissesse qualquer coisa contra sua poesia, esse não lhe sairia da cabeça. Mesmo que fosse o texto menos inteligente. Lembrei disso ao notar que tendo a responder a quem discorda ou critica. Será a incomensurável vaidade dos artistas (não vou dizer “dos poetas”)? Há quem diga que é a sede de discussão. Também. Quando estou de bom humor, penso que é a vontade de ser compreendido. Mas Björk disse que querer ser entendido é uma forma de arrogância.
Política é o fim? Lembro dessa música do “beijo na boca“. Muito boa. Em parte era uma conversa entre mim e Gil. E ele acabou entrando na política. Agora, acaba de sair do ministério. Minha resenha é mais para positiva. Tivemos grande visibilidade nacional e internacional para o ministério da cultura brasileiro; tivemos a sintonia desse ministério com o que se pensa de mais avançado a respeito de direitos na era da reprodutibilidade digital e da difusão pela internet (com Lessig saudando nominalmente Gil por ser o exemplo de atitude inovadora e libertária por parte de um governo); tivemos os pontos de cultura; tivemos a criação da casa do samba-de-roda, com restauração do solar de Araújo Pinho em Santo Amaro. Tivemos também os problemas: esboços de autoritarismo, como no projeto da Ancinav (que Lula cortou pela goela, que ele não é bobo), por exemplo. Não gosto muito de me imaginar tendo poder oficial. Ouvi o disco novo de Gil que me chegou pela Internet. Fiquei alegre com a animação dele em fazer coisas novas frescas, gostei de “Não gruda” (será isso mesmo?), adorei a menção a meu pai na música sobre minha mãe, chorei com a última estrofe de “Não tenho medo da morte” (aquela em que muda de “mas sim medo de morrer” para “mas medo de morrer, sim” - algo assim). Mas só ouvi uma vez, na viagem, e estou comentando de memória dessa única audição.
MILTON
Vi Milton e os Jobim em Milão. Já tinha visto no Mistura Fina. Mas lá foi ainda mais emocionante. Foi num lugar imenso, ao ar livre, e as pessoas todas ficavam hipnotizadas pela música. Principalmente pela voz de Milton. A musicalidade dele fica mais notável no mundo transparente e econômico dos Jobim. As decisões a respeito das notas de “Chega de Saudade”, em todas as suas passagens polêmicas, aparecem com uma clareza e uma naturalidade sobrehumanas. “Esperança perdida”, com aquela introdução deslumbrante, chega a doer no coração da gente. “Inútil paisagem”, lenta e em registro agudo, parece radiografada. Tudo isso (e tudo o mais) se deve em grande parte às relações peculiares de Milton com a bossa nova. Milton é um não-joãogilbertiano. É um gênio que se formou fora da zona de gravidade de João Gilberto. É como se ele fosse filho de Edu e Elis - e de Agostinho dos Santos - sem ter precisado passar por João. Paulinho da Viola (para citar outro gênio) é menos tributário da bossa nova do que Milton, mas é mais dependente da revolução joãogilbertiana, do minimalismo essencialista do mestre. Milton, ao contrário de Paulinho, tem tudo a ver com as relações da bossa nova com o jazz moderno, com a grande canção americana e com a música clássica impressionista, mas nada a ver com o canto íntimo e o violão enxuto de João. Seu canto pressupõe amplos espaços, cúpulas, céus. Ouvi-lo cantar Jobim com Daniel e Paulinho (e Paulinho Braga) é ser levado a estudar a música que há em Tom e no próprio Milton. A gente estuda sem pensar. E o vento de Caymmi entra como explicação de tudo. É a musicalidade caymmiana, tão amada por João Gilberto, que ressurge em sua grandiosidade e seus luxuosos mistérios, num pólo oposto às versões dos sambas de Caymmi que João apresentou ao longo da vida. Mas é também a única interpretação de um
clássico caymmiano tão adequada e genial quanto as de João Gilberto.
ISTAMBUL
Comecei a ler o livro de Pamuk antes de sair da Itália. Chegamos a Istambul de noite. Um rapaz gentil e suave nos recebeu e outro nos acompanhou no carro. Falava inglês. O motorista, não. Era bom ver a estrada perto do mar, palmeiras, ciprestes, árvores altas. O asfalto era todo bom e a iluminação forte e sem falhas. Passamos por ruinas romanas: colunas, paredes, um aqüeduto. Logo a polícia nos parou. O motorista mostrou documentos. Dialogaram (quase discutiram) em turco. Giovana e eu ficamos quietos. Quando liberaram o carro, o rapaz que nos acompanhava nos disse que o país estava passando por um momento delicado. Ele se referia à tentativa dos secularistas de derrubarem judicialmente o governo e cassar o partido do primeiro ministro. A acusação era de terem agido em desacordo com o princípio de total separação entre religião e Estado, peça central da constituição republicana instaurada por Atatürk no início do Século 20. O atual presidente é religioso, sua mulher usa véu, e o governo conseguiu mudar uma lei que proibia as moças de usarem véu nas universidades. Sinam, o rapaz que falava inglês, completou dizendo que a tendência fundamentalista cresce na Turquia. Eu tinha lido na The Economist sobre isso (eu não disse que leio The Economist?) e, como um liberal inglês, concordava com a tese da revista de que não seria bom se se derrubasse esse governo religioso mas liberal. Sinam discordava docemente: um infiel, descrente e moderno, ele achava que os secularistas tinham razão. Eu não entendia bem o inglês dele (não entendo bem inglês) mas acho que, em suma, ele dizia que mais vale lutar diretamente pelas coisas que você acha certas do que buscar muita sutileza estratégica. Ele também dizia que a Turquia vai entrar na União Européia e que tanto os secularistas quanto o governo querem isso. Não insisti com a pergunta “e os fundamentalistas?”. Aprendi muito pouco sobre tudo isso com Sinam. Mas estávamos já no apartamento grande e luxuoso de um hotel com bossas orientais e visão ampla para o Bósforo. Ah, o Bósforo! Tínhamos atravessado uma ponte sobre o Chifre de Ouro. Perguntei a Sinam se tínhamos cruzado o Bósforo. Não. Era só o Chifre. Ele me disse que talvez do banheiro eu visse a ponte sobre o Bósforo. Fui ao banheiro e vi, através de uma parede-janela de vidro (que tentei abrir, iludido pelo reflexo do piso, pensando que ela dava para uma varanda, mas descobri no dia seguinte que ela dava para uma praça asfaltada 18 andares abaixo), o Bósforo. De noite, as luzes das margens, as embarcações iluminadas, a ponte. De dia, o azul profundo, as diferentes formas de a superfície da água se encrespar (segundo os ventos por cima e as correntes por baixo), as torres finas das mesquitas. É extraordinariamente bonito e também é emocionante pensar que esse estreito separa a Europa da Ásia, que Constatino quis chamar a cidade de Nova Roma, que os otomanos a tomaram e dali comandaram o mundo muçulmano por séculos. Lembrei de ter lido, há muitos anos, um livro sobre o Islã, escrito por um árabe, em que os turcos aparecem como um povo opressivo que desfigurou o espírito essencialmente tolerante dos muçulmanos, criando uma imagem que era o oposto do que ocorrera no Califado de Córdoba, quando cristãos e judeus viviam em paz num mundo islâmico. É um livro cujo título e autor gostaria de lembrar agora, pois foi escrito muito antes do Taliban e do 11 de setembro.
A noite de Istambul é animada como a de Buenos Aires ou de Madri. Muita gente nas ruas pela madrugada. Nas praças, nos bares, nas calçadas. Muitos táxis. No dia da nossa chegada, alguns generais foram presos supostamente por planejarem um golpe contra o governo. Muitos militares são secularistas. Mas The Economist insinua que eles não são mais liberais do que o atual primeiro ministro. A equipe técnica e de produção do meu show saiu para passear enquanto eu dormia de manhã. Ao voltarem, Giovana estava nervosa porque, ao tirar fotos no Grand Bazaar, foi ameaçada por uma senhora de roupa preta e só com os olhos à mostra. Ela gritava e queria tomar a câmera da mão de Giovana. Giovana ficou em pânico, quis correr, foi difícil. André Botto, o nosso iluminador, tentou socorrê-la. Mas havia o risco de os homens que a cercavam reagirem e criar-se uma briga perigosa. Bahar, uma das moças da produção local, chegou a tempo de esclarecer para a mulher de véu negro que a foto podia ser apagada. No dia seguinte o consulado americano sofreu um ataque no qual 6 pessoas morreram. Mas nossos acompanhantes turcos estavam calmos e nos transmitiam calma. À noite, ouvi uma explosão que fez tremer o hotel. Fui olhar pela janela. Em pouco tempo vários carros de polícia evacuaram a imensa praça asfaltada em frente do hotel. Uma voz se ouvia por auto-falante. Um grupo de fotógrafos obteve permissão para entrar na àrea isolada e flashes explodiam, com as câmeras todas apontadas para um lugar no chão da praça. Do décimo oitavo andar não dava para eu ver nada. Parece que os policiais acharam outro explosivo ali e o desativaram. Liguei a televisão em busca de notícias mas só vi um programa de variedades em que se apresentava um rapper turco, com todos os trejeitos dos rappers americanos (e dos seus imitadores franceses, espanhóis, ingleses, italianos, portugueses…). A apresentadora super perua reproduzia os movimentos dos braços que todo rapper faz, e chamou alguém da platéia que soubesse a a letra toda. Veio um rapaz magro e feio, e, tal como se vê crianças brasileiras dizendo as rimas do “Diário de um detento”, repetiu toda aquela cascata de palavras em turco, para gargalhadas da apresentadora e de seus convidados - e ovação da platéia. O refrão com melodia era bem árabe (bem uma variante turca do canto melismático árabe), o que dava o tom local, mas, curiosamente, remetia a muitos raps americanos que fazem refrães com melodia árabe clichê. As voltas que o mundo dá. Voltei à janela e a praça ainda estava deserta e cercada de carros de polícia.
O show em Istambul foi numa concha acústica parecida com a do Teatro Castro Alves em Salvador. Muito bom. Platéia turca. Reação admirada e quente. No quarto do hotel, segui lendo Orhan Pamuk e sua Istambul em preto e branco, triste de saudade do império otomano. Mas ao olhar pela janela ou ao andar pela praça em frente à Mesquita Azul, ao olhar incrédulo para a cúpula sobrenatural dentro de Santa Sofia (que foi catedral bizantina mas virou mesquita e hoje é museu), Istambul sempre se reafirmava intensamente colorida. Senti uma certa sensação de opressão em Moscou e mesmo um quase medo. Em Istambul, com toda essa tensão política, medo nenhum.
Tenho de corrigir: o melhor show da turnê foi em Viena. Na Ópera de Viena. Não só a acústica era no mínimo tão boa quanto a de Luxemburgo: o espaço, a inteligência natural da platéia, o ar culto da sala - tudo fez com que eu cantasse melhor do que posso. Trouxe um taco do chão do palco: presente do diretor da instituição.”
|
| 30 comentários » | Assuntos: bossa nova, Gilberto Gil, Istambul, João Cabral de Mello Neto, Jobim Trio, Milton Nascimento, política, Tom Jobim — |
 |
|
 |
| SHOWS |
Novembro 2008
| | 1 |
| 2 | 3 | 4 | 5 | 6 | 7 | 8 |
| 9 | 10 | 11 | 12 | 13 | 14 | 15 |
| 16 | 17 | 18 | 19 | 20 | 21 | 22 |
| 23 | 24 | 25 | 26 | 27 | 28 | 29 |
| 30 |
|
|