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TOM ZÉ, MARIANA, BARBARA & DAVID BYRNE
19/11/2008 1:21 am

Ouvi o disco de Tom Zé. Muito legal. Muito ele mesmo. Quando li que se chamava “estudando a bossa”, ri, gostei do tom de trilogia com os outros dois “estudandos”, e fiquei curiosíssimo para ver como é que ele ia tratar musicalmente o assunto. Diferentemente de mim, de Gil, de Gal e da torcida do Bahia, Tom Zé nunca foi um bossanovista. Comentado o “Estudando o samba” com David Byrne em Nova Iorque, logo que saiu a primeira coletânea de Tom Zé que ele fez, eu disse: “Muito da força desse disco vem de Tom Zé não ser da área do samba: ele não é do Recôncavo, tem sotaque do sertão, não é meio carioca como o povo de Salvador”. Claro que a força maior vinha do espírito experimental de Tom Zé e de suas escolhas no universo da música erudita contemporânea. Mas a distância, o estranhamento que sua origem propiciava contribuía muito para o experimentalismo e as escolhas. Agora, com a bossa nova, o que é que ele faria? Alegra-me muito que, ao fim e ao cabo, isso tenha algo a ver com nosso transamba aqui, nosso trabalhoso progresso. Pelo avesso. Mas tem. É um comentário de comentários sobre os ritmos do samba, as levadas, as batidas - e é o Rio. O Rio como tema permanente. Adorei ouvir Mariana Aydar dizendo “masturbar” com os erres superpaulistanos (não confundir com os retroflexos, que são meus e de Heloísa e de mais ninguém). E a afinação e musicalidade de Mônica Salmaso me impressionou de novo como tinha me impressionado quando cantamos juntos em Parati, com o Wakti. No disco com as músicas de Chico ela não me pareceu à altura sublime do que percebi naquela noite. Mas Zélia Duncan, Fabiana Cozza, todas. E David Byrne - na faixa que, à primeira audição me pareceu a melhor do disco - está divino. Os contrapontos engraçados, os contrapontos inventivos, os contrapontos sofridos, tudo no disco é Tom Zé puro. A explicitude nas várias recontagens da história também.

Barbara,

I liked your explaining why “mulatto” wouldn’t please you. (Here the word MULATO appeared in big letters on the front page of the most important Newspaper, just by Obama’s photograph, when he became President-Elect.) But I’d like to ask you a question: What were the reasons given by your colleague for not feeling that Obama qualified to be called African-American?

I remember having read that for a while, when Obama was still trying to be chosen by the Democratic Party as candidate, many blacks said something like they wouldn’t back him because he was not exactly an African-American, as his ancestors had not faced slavery in the USA nor had he experienced segregation or the struggle to overcome it. If I am not wrong, even Jesse Jackson (who finally cried when Obama won) had expressed himself in similar terms. Would your colleague’s ideas be similar to those? Or she has different reasons to think so?

This is a theme that’s very important to me, as for some decades now it’s been the tendency of people who think about “race” in Brazil to emulate American formulas. Sociologists, both Brazilian and American, have written about the perverse aspects of Brazilian “racial democracy”, stressing that open hostility (as was the case in the USA and South Africa) brought better results than our intense miscegenation and pretended lack of hatred between blacks and whites. I feel differently. But they may have a point. Still what interest me most are the actual differences between your people’s historic experience and our own. Let’s begin by my asking you about your colleague’s reasons.

Congratulations on Obama’s victory. It made me happy too.

Best wishes.
Caetano.

“Incompatibilidade de gênios” amanhã ou depois: agora é pra valer. Depois explico o atraso.

Moreno estava de licença-maternidade até hoje. Meu netinho nasceu. Mas tenho ficado em casa é para estudar com Zeca para as provas (por isso eu lia todos os posts todos os dias mas não escrevia nada). Amanhã voltamos, Moreno, Pedro, Daniel e eu, ao estúdio. Mega. Mix.

Salem,
eu mesmo não sei dizer qual o tom do meu diálogo com Heloísa. Creio que nem mesmo ela saberia, apesar da habitual clareza. Posso apenas rememorar vaga e provisoriamente as sutis diferenças de opinião em relação aos lingüistas que agridem os divulgadores da gramática. Depois meu papo (que eu supus bem-humorado) sobre a afirmação dela de que o sotaque mineiro é o que sofre maior discriminação. Mencionei os nordestinos. Depois tive que me esforçar para desfazer a idéia dela de que minha percepção do erre do interior paulista (e parte de Minas) descrita em “Verdade tropical” não era uma confirmação do primeiro argumento dela sobre quem sofre mais discriminação. No belo comment em que ela responde àquele que Joana achou que escrevi bem, ela diz que às vezes fui ríspido com ela, ou algo assim. Nunca senti que fosse. Mas sou um discutidor apaixonado. Em geral encrespo pela determinação de me fazer entender: o motivo é o argumento, não a pessoa. Nem mesmo desejo convencer o interlocutor de uma opinião fechada: apenas me debato para que se entenda bem o que minha argumentação, sempre parcialidades de um pensamento em progresso, quer instaurar. No caso de Heloísa, a pessoa só me inspira afeição e respeito. Hoje, por exemplo, lembrei-me de falar que estou estudando com meu filho de 16 anos, ajudando-o como posso nos estudos para as provas de português e literatura - mas também ouvindo-o (a pedido dele) sobre biologia e química, coisas de que não entendo, só para animá-lo a articular as idéias - porque me senti bem lendo de Heloísa que ela queria dizer à filha algo gozado que leu sobre armários desarrumados. Suely tem razão quando diz que Heloísa me leva a pensar e escrever coisas. Isso é afeto espontâneo. Creio que não é preciso explicar, já que quase todos aqui já externaram especial carinho por ela. Tomei a história da “neblina” pelo lado amoroso - notando que ela partiu da citação de Rosa. A frase de Riobaldo sobre Diadorim é uma das coisas mais lindas que a palavra humana já me deu. Às vezes a combinação de ironia com apego tenaz à comunicação do argumento pode criar um tom que parece irritação. A “fumaça de diesel” pode sugerir isso. Não sinto assim. Outros podem ver. Para mim, trata-se sempre de pedir “Oh Lord, don’t let me be misunderstood!”. O resto é dengo.

Amiguismo??????? É. É uma.

Alguém disse aí (foi Suely?) que as pessoas aprovam ou desaprovam um filme segundo minha veneta. Nada mais injusto e longe da verdade. Nos anos 70 e 80, disse em várias entrevistas que não gostava dos filmes de Woody Allen (ele me parecia aquele cara anti-rock, anti-contracultura, anti-black-is-beautiful, anti-hippie, anti-punk, deslumbrado com “alta cultura” e apês cor de antílope - e roupas cor de antílope - do Upper East Side, anti-sulamericano, com uma mente estreita). Pois bem, a única coisa que consegui com isso foi a discordância de amigos que foram da saudosa Teresa Aragão a Pedro Almodóvar (cujo cinema é o oposto de tudo o que listei sobre Allen). E os cinemas lotavam de cultuadores dele. Ninguém me deu bola. Hoje, que já gosto de Allen (ele merece o prestígio de ter reeguido o cinema independente de Nova Iorque contra Hollywood, tem “final cut”, escreve “oneliners” espetaculares - aquela sobre a masturbação é divina: “por que falar mal da única relação sexaul que você tem com quem relamente ama?” - , “Bullets Over Broadway” é uma comédia para ninguém botar defeito, etc.), o público se afastou dele (se bem que ouço palavras animadas sobre o filme em Barcelona: vou ver). Em “O Cinem Falado”, pus na boca de Dedé e de Felipe Murray palavras de gozação ao então idolatrado “Paris Texas” (”‘Paris Texas’ é um dramalhão mexicano filmado como gravuras hiperrealistas americanas, com verniz alemão; e o mais cartea e ridículo dos Édipos não deixa de fazer sua aparição presunçosa”): a platéia inteira da pré-estréia (largamente de admiradores meus) vaiou a fala com fúria. Vi “Blade Runner” logo que saiu, em Salvador, com Paulo Cesar Sousa, Gi e Dani Mariani e, creio, sua tia Ângela, a avó dos meus netos. Elas já gostavam do filme. Estavam revendo. Paulo Cesar e eu não gostamos. No início me encantei com a direção de arte e os efeitos. Mas aquele cara com capa de Humphrey Bogart num ambiente degradado cheio de orientais vendendo olhos de peixe sob chuva me entediavam porque pareciam estar dizendo “olha, isto aqui é o futuro, nada de clean 2001-uma-odisséia-no-espaço”. Ah, e aquela música chatíssima feita com sintetizadores. Bem, as mulheres eram lindas (e nunca me conformei com a desaparição da morena de nome inglês - ou irlandês - que parece chinês). Perdi o bonde. Hoje o filme é um clássico, eu próprio dou muito mais valor tanto à percepção de que a tecnologia dispara sem que uma vida mais racional (e limpa) a acompanhe quanto ao esforço de criação de ambientes incríveis com mais forte resultado do que qualquer coisa feita hoje com os recursos de computador que não havia na época. Finalmente, apesar de ter imensas queixas quanto à mixagem da música maravilhosa que compus para o filme, acho “Tieta do Agreste” um grande filme. Só não é genial porque não tem as 3 horas que deveria ter. E essa opinião não só não encontra eco na turma paissandu-estação como provoca a fúria de pessoas íntimas. Tive de implorar a amigos para verem os enquadramentos divinos em preto-e-branco de “Eloge de l’amour”, de Godard. Então não sei de onde Suely (se é que foi Suely) tirou a idéia de que oriento o gosto cinematográfico nacional.

Acabo de assistir a “O poderoso chefão” no TelcineCult (minha TV vive ali) e fiquei abismado: como é divinamente realizado, como tem vida, afeto, tragédia, vigor. Coppola é o cara. Não tem Escorsese certo. Que atuações! E os temas do anjo Nino Rota: que música! (Desculpem os admiradores de Morricone (que merece ser admirado), mas Rota é tocado pela transcendência - e decididamente não merece as críticas grosseiras que Morricone lhe faz.) E no entanto, quando o filme saiu, eu nem fui ver: aquelas filas enormes, a festa do Oscar, as fotos de Brando com a boca cheia de algodão… Eu, que queria opor Blake Edwards a Woodie Allen - e Hollywood a Herzog (detestei “Aguirre” e “Casper Haus” e aquele do navio na Amazônia) , tinha (nesse caso) preguiça de acompanhar o cinemão: achava que não gostava de filme de máfia. Cada vez que vejo o filme de Coppola no Vietnam (incrível!) e os poderosos chefões 1 e 2 na TV (nunca vi no cinema!) fico extasiado.

Gostei de “Linha de passe” e de “Última parada 174″, por razões opostas. Um feito por carioca que vive em Sampa sobre a vida no Rio. O outro feito por cairocas que vivem no Rio sobre a vida em Sampa. Mas as razões opostas são outras.

Bem, vamos deixar pra falar de Sampa e Rio quando eu tiver tempo de escrever direito.

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MULATO, MAÇÃ, CANDÉ, 80%, ALEIJÃO, RC E CV CD DVD ACJ
10/11/2008 10:44 pm

A hipótese de “mulato” vir daquela palavra árabe sempre me convence mais do que a de que vem de “mula”. Mas o Houaiss dá “jumento” como o primeiro significado da palavra. Segue-se “burro pequeno, ainda novo”. O.K. Mais crível que SEJA burrico do que que VENHA DE mula. Para “vir de mula” seria preciso uma formação de palavra italiana (em inglês tem dois tês), como “frutato” (ou será “frutatto”?): era assim que eu pensava até ler o Houaiss. Seja como for - além de jumentos serem bonitos (e jumentinhos novos, lindíssimos, parecidos com Brigitte Bardot) - “mulato” é uma palavra com conotação positiva no português brasileiro que aprendi em casa e na rua. Mais: no segundo verso da canção que é o Hino Nacional Brasileiro não-oficial, “Aquarela do Brasil”, o país é chamado, orgulhosa e carinhosamente, de “meu mulato” (aliás o Houaiss dá “inzoneiro” como sinônimo de “mulato”, quando este tem valor adjetivo). By the way, a “Aquarela do Brasil” foi eleita em votação popular (popular mesmo: a audiência do Fantástico) como a primeira dentre as “maiores músicas brasileiras de todos os tempos”. Seguida, se não me engano, de “Águas de março”, “O bêbado e a equilibrista” e “Carinhoso”.

Glauber, lembro do Stained Glass. Depois eu falo.

Ricardo Pereira, conheço Júpiter Maçã (ou Apple). Depois eu falo.

Gravataí Merengue, concordo totalmente com você: afro-isso, afro-aquilo (e a forma americana “African- American” é ainda pior) é um modo racista de falar. Um egípcio é africano. Um bôer da África do Sul também. O mesmo para tunisinos, marroquinos e argelinos. “Africano” não quer dizer “negro”. Mas mesmo que todos os africanos fossem pretos, seria racismo designar povos tão variados (inclusive fenotipicamente), oriundos do maior continente da Terra, por uma só palavra. Iorubanos não são bantos, malineses não são bundos, haussás não são gege. São povos com histórias diferentes e muitas vezes tingidas de inimizades milenares. Chamar um mulato filho de uma branca americana com um preto do Quênia de “African-American” é uma grosseria histórica. Essas expressões são “muito piores do que qualquer outra adotada espontaneamente pelas pessoas”, como você diz. Usá-las é adotar o olhar do traficante de escravos.

Contei que conheci Portishead há uns dez anos através de um elenco fascinante que entrou na casa de Milton Nascimento, numa festa. Disse que não foi lá que, através de Marininha, Karola, Candé, Luísa e Natália, tomei contato com o grupo inglês. Foi quando, dias depois, liguei para um deles, que ouvi uma gravação fantástica na secretária eletrônica. Perguntando, me informaram que a banda se chamava Portishead. Bem, todos os envolvidos me dizem que escrevo tão mal que ficou parecendo que conheci Portishead ligando pro Milton Nascimento. Se pareceu isso, corrijo: foi ligando para Candé que ouvi Portishead pela primeira vez. Ele (e as meninas bonitas) adoravam esse grupo. Até apelidei Candé de Portishead, já que muitas vezes era a banda que atendia quando eu ligava para ele. E, além de me dizerem que escrevo mal, Candé chiou por ter passado de protagonista a mero figurante na história.

Este blog é da obra em progresso, a feitura do “zii e zie”. Quando o disco estiver pronto para sair, acaba. Mas não se avexem não que vai demorar a sair. Já está todo gravado, embora não todo mixado. Falta também eu ir lá na Universal falar com Gê e Pedro (não Sá) para fazermos a capa (já tenho as fotos e as idéias de tipos). De todo modo, o disco só deve sair no ano que vem: Roberto Carlos e eu lançamos neste fim de ano o CD e o DVD do show com as músicas de Jobim.

Aqui vocês vão ouvir “Incompatibilidade de gênios” nas duas versões para eleger uma. Isso, amanhã ou depois.

Heloísa, você ficou de mal comigo. Minha resposta sobre o “aleijão” foi pura e doce, mesmo que parecesse teimosa e cruel. Justamente por não haver nada mau em mim em relação ao erre retroflexo é que nem lembrei do que você falava quando voltou ao assunto. Sabia que tinha lido algo assim da primeira vez mas, entre tantos comments, não me liguei em “Verdade tropical” (embora ali estivesse explícita a referência). Creio ser o único artista de fora da região do erre líqüido a usá-lo na composição (e gravação) de uma música não cômica nem folclórica, com profundo amor de identificação. Je t’embrasse. Tendrement.

Rafael, prefiro GABEIRA PRESIDENTE do que questionar o resultado da eleição. Embora, é claro, ache erradíssimo o cara que, no Globo, comparou a Zona Sul a um “curral eleitoral”.

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LI: VOCÊ ESTÁ PUBLICANDO COMENTÁRIOS RÁPIDO DEMAIS
5/11/2008 1:15 am

O discurso de McCain caracterizou a vitória de Obama como uma vitória dos “africanos-americanos”, como eles dizem lá. Foi um bom discurso. Elegante e, no todo, uma bela afirmação da energia histórica dos Estados Unidos. Mas as vaias que vinham da platéia (toda branca, até onde se podia ver na TV) terminavam soando como brados racistas. A menção à escandalosa ida de Booker T à Casa Branca em 1901, a convite de Teddy Roosevelt, foi oportuna e justa. Mas, ao fim e ao cabo, “na agradável noite do Arizona” (a meu ver onde há o céu mais lindo e as cidades mais feias do mundo - sem falar no deslumbramento que é o deserto de Sonora), ficou um gosto de racialização da eleição: eu a sentia como conteúdo mais fundo do que o equilíbrio civilizado da fala de McCain.

Sarah Palin (tipica personagem de Big Brother) estava mais que nunca imitando Tina Fey.

Mas vi tudo isso depois de ver Jesse Jackson chorando. Chorei junto com ele. Nem gosto das coisas que ele diz – seja no caso da palavra “nigger” que um rapper queria pôr como título de seu CD, seja na própria campanha de Obama: Jackson soa como um velho lutador racialista; Obama é um presidente mulato. Jackson chorava como um homem velho que vê a grandeza de um fato consumado suplantar a dos seus maiores sonhos.

(Isso acima ia num comment, mas recebi essa resposta do blog que transformei em título. Seguia assim: “vai devagar”.)

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Pedro e sua câmera soviética
4/11/2008 3:13 pm

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ZAMBUJO, CICERO, AUGUSTO, ADORNO, PAPO À BEÇA
30/10/2008 7:15 am

ANTÓNIO ZAMBUJO, INDIE ROCK, COOL JAZZ, MINIMAL, BOSSA NOVA, THE NEW YORKER, MICHELANGELO ANTONIONI E MONDRIAN CONTRA AXÉ MUSIC DENTRO DE MIM? NÃ-NÃO. “A COR AMARELA” É BROWN IVETE E DANIELA. É O SAMBA DO RECÔNCAVO EM TRANSE NO PSIRICO, NO HARMONIA, NO TCHAN: É TRANSAMBA JÁ CONSTRUÍDO POR TODOS ESSES BAIANOS GENIAIS.

Gostei muito do CD do Portishead (já de cara, aquela falação em português paulistano sobre a “regra dos três”, em tom a meio caminho entre pastor evangélico e conversador new age): os timbres das programações fazem as modulações insólitas ficarem mais bonitas. A Gibbons é uma chorona cool e a atmosfera sonora parece com a foto da Estação de Rádio de Portishead. Gosto do Portishead há mais de dez anos: entrou com Karola, Candé, Marininha, Luísa Mariani e Natália Lage na casa de Milton numa festa. A “Disneylaândia” da Marilena. Na casa de Bituca não dava pra notar, mas no primeiro telefonema que dei lá estava Portishead na secretária. Achei bonito à pampa. Perguntei.

O disco do Camelo é bom à beça: ele toca violão muito bem naquela faixa de letra curta; a decisão de soar relaxado e livre de tiques reconhecíveis pode virar um novo tique se o ouvinte tiver má vontade – mas é assumida com bravura e realizada com decisão; eu gosto; é carioca num grau Marisa Monte; é um luxo que ele seja a estrela solitária do momento em nossa música inventiva.

Quero ouvir o disco de Arnaldo Antunes logo.

As palavras em caixa alta que foram citadas aqui como parte de artigo meu para o Pasquim eram declaração de Jimi Hendrix traduzida por mim. Foi da última entrevista que ele deu. Mandei pra aqui em cima da hora.

Vou ouvir o disco de David Byrne com Brian Eno na semana que vem.

Já ouvi muito do de Rodrigo Amarante com Fabrício dos Strokes (que trouxe a namorada): os ecos de pop rock do início dos anos 60 – com um toque country – soam com frescor inventivo que descarta ironia ou nostalgia; é música imediata; a gente não pensa em tiques nem em toques – apenas entra em contato com as emoções que motivaram as canções, ou melhor, nas emoções que as canções motivam. Mas a ida à Itália me interrompeu a audição, de modo que comentários mais responsáveis ficam para depois.

Quem vê assim pensa que ouço discos. Eu fazia isso em 1960: João Gilberto, Thelonious Monk, Chet Baker, Miles Davis, Sylvia Telles, Modern Jazz Quartet, Ray Charles, Maysa, Jimmy Giuffre, Dolores Duran, Ella, Sarah, Billie… Hoje ouço o que me mostram – e não ouço repetidas vezes cada coisa, como fazia então. E olha que ouvia esses que citei sem abandonar Caymmi, Chico Alves, Orlando Silva, Eliseth, Silvio Caldas, Aracy de Almeida cantando Noel – além de seguir com atenção irresistível o Nelson Gonçalves da fase Adelino Moreira, Anísio Silva, Paul Anka, The Platters, Pat Boone, The Diamonds e os sambas e marchas de carnaval, tudo pelo rádio. João Gilberto mais que tudo.

Ouço o que me atrai a curiosidade (por ouvir falar, por ler no jornal, por ter ouvido acidentalmente – no radio, em casa de amigo – um trecho que me excitou). Por exemplo: adoro Cornelius, o japonês de sons puríssimos, idéias rigorosas e sensibilidade violentamente delicada (se me é permitido o paradoxo – mas creio que sim, em contexto nipônico). Vou ouvir o novo disco do TV On The Radio, banda que o maluco do Folhateen sugeriu há um par de anos e cujos dois primeiros discos me encantaram (se bem que os ao vivo no Youtube nem tanto). Já disse que adoro Radiohead (a partir de OK Computer, mas com um gosto pelo pouco louvado Pablo Honey – que ouvi depois – e sem nenhuma rejeição a Kid A, ao contrário).

Aprendo algo com essas coisas e não lembro muito depois. Mas ouvir o CD do António Zambujo me prendeu à necessidade de ouvir de novo, de novo e de novo. Esse mesmo desejo senti quando Moreno me mostrou Buika cantando Mi Niña Lola. Quero ouvir muito, mais vezes, mais fundo. No caso do Zambujo, muito mais ainda. É a língua portuguesa. É a história do fado. É o fato de eu ter sempre só gostado de cantoras de fado, nunca verdadeiramente de cantores.

Amália reverbera em cheio em Mariza. Um espetacular virtuosismo vocal faz de Dulce Pontes uma das mais impressionantes cantoras da atualidade – embora sempre na beira do risco de parecer só virtuosística. Uma atenção ao desenvolvimento do fado – e do gosto na história do fado – faz de Mísia uma elegante guardiã da tradição: uma espécie de Nara Leão com mais canto e menos despojamento genuíno (o que não é desmerecer a cantora portuguesa, já que a brasileira é um caso extremo de inteligência crítica espontânea a serviço despretensioso do canto).

Mas há nos pianíssimos com arabesco no fado tosco de Dona Argentina da Parreirinha d’Alfama (e que sempre amei e amarei na Maria da Fé do Senhor Vinho, essa Maria da Fé que parece ter se afastado de mim, do Brasil, de nós, como se tivéssemos prometido algo que não podíamos lhe dar) algo que, para meu espanto, reencontro onde nunca esperei reencontrar: numa voz masculina. Admiro os fadistas homens, mas nunca cheguei a amar-lhes o canto. Fado para mim era cantado por mulher. Desde Ester de Abreu, da minha infância, até Mariza: mulheres, sempre mulheres.

Não é que o Zambujo me pegou de jeito? Há nele dois elementos que – para além do prazer imediato de ouvir-se uma voz naturalmente musical e relaxada – compõem para mim um grande passo: que seja um homem a cantar fado tão lindamente – e que o diálogo com a música brasileira se apresente tão orgânico, já não-pensado, já resultante de forças históricas que vêm se expandindo há décadas. O disco de Teresa Salgueiro é belo e emociona (finalmente com Carlos Lyra no destaque que merece). A atitude programática de Eugénia de Melo e Castro foi e é tocante, além de desbravadora. Mas o que se ouve em Zambujo é algo já que vai mais fundo. É um jovem cantor de fado que, intensificando mais a tradição do que muitos de seus contemporâneos, faz pensar em João Gilberto e em tudo que veio à música brasileira por causa dele.

Quando Zambujo canta “Nem às paredes confesso”, vamos ao fundo do fado e, ao mesmo tempo, sentimos a cultura da bossa nova e da pós-bossa nova já na corrente sangüínea da canção portuguesa. Quando ele canta um Vinicius com Antônio Maria (esse seu xará com acento circunflexo), a composição soa enfaticamente “moderna” e americanizada, embora o tratamento seja de fado. E o mais incrível é que “Lábios que beijei” não soa menos americanizada e “moderna” do que aquela. Não pelo arranjo, que é fadista, mas pelo Brasil que há ali. É de arrepiar e fazer chorar. Sentimos a força da cultura de língua portuguesa – aquela que, afinal de contas, mais me interessa – construindo-se. É que espero, ou melhor, exijo do Brasil a articulação do papo que ele tem de levar com o mundo – saindo de seu chiqueiro de atraso, intrigas e pequenezas.

Eu odeio o fato de o aeroporto de Salvador se chamar Deputado Luís Eduardo Magalhães: nem no “Polígono das Secas” de Diogo Mainardi há uma piada tão sinistra. Odeio a meia-trava que o ideologicamente amorfo PMDB pode significar no progresso politico nacional. Embora nunca se saiba: vai ver é daí que de repente vem algo que contribui para esse progresso. Ele existe: a vitória de honra de Gabeira no Rio, o repúdio à propaganda-perua de Marta insinuando bichice de Kassab, a importância maior dada ao bilhete único e aos CEUs do que à idéia de “a nossa turma tem de ganhar” são provas disso. Mas o chiqueiro ainda é a imagem dominante. Pois o disco do António Zambujo nos faz crer que viraremos esse jogo.

Gozado é que, procurando Zambujo agora no Youtube, achei-o cantando com Roberta Sá. Não sabia que ela o conhecia. Muito bom. Embora os outros vídeos dele que vi não estejam à altura do disco.

Outra que vi no Youtube – e essa me maravilhou – foi a caboverdiana Mayra Andrade cantando “Tunuca”, sentada no chão da rua com Mariana Aydar.

É gozado como em São Paulo existe essa polaridade PT/PSDB. No resto do Brasil não é assim. Em primeiro lugar porque ambos parecem sobretudo paulistas. Para mim, mais ainda, dois raminhos da esquerda da USP. Claro que li aqui gente dizendo que deixou-se de votar em Gabeira por ele “ser PSDB” – e notando que Paes é quem chamou logo um tucano para começar o secretariado. Sei que há petistas com essa onda por toda parte. E afinal o PSDB é “oposição”. Bem, só se for Serra querendo ser presidente contra uma Dilma qualquer de Lula. Mas o que pinta é a disputa dele com Aécio. Serra é feio que dói.

Vídeo sempre divino é o de Hermeto tocando garrafas e flauta com os rapazes dele dentro de uma lagoa (ou rio?: não vi correnteza). Um DJ de música minimal e house etc. foi quem me mostrou.

Depois de contar a história da crise financeira mundial passo a passo, a Economist chega esta semana com a nova de que os “emergentes” – que pareciam livres do contágio de derretimento – e eram a esperança da economia mundial mesmo quando o problema das hipotecas imobiliárias americanas já estava avançado – não parecem mais imunes. A boa notícia (que me fez lembrar o final do livro de Kapuscinski sobre a queda do Império Soviético – livro chamado “Império” de que gosto muito mais do que o homônimo de Toni Negri – e final que eu já citava no meu Verdade Tropical) é que os países grandes se sairão melhor. Grandes territorialmente e possuidores de economia diversificada. O Brasil tá aí. Mas vai atravessar as dificuldades inevitáveis com a mesma euforia de festa de posse do Lula em que já estamos viciados?

As letras de Zii e Zie soarão bem datadas quando o disco sair. Digo, aquelas que falam de fatos políticos pontuais, como a Base de Guantánamo (como alguém já notou aqui), assim como aquelas que têm uma versão muito peculiar minha da euforia afirmativa que nasce dessa nossa fase FH-Lula. Lygia Clark dizia que o tropicalismo era romântico: dependia das informações da hora: falar em Coca-Cola, Paulinho da Viola, passeatas, Brigitte Bardot era atrelar-se ao tempo – e preparar a própria obsolecência; enquanto ela, trabalhando na area de decisões formais e expressivas em princípio atemporais, tinha ambição clássica. Ela não o dizia com ar de superioridade sobre nós. Dizia com carinho e com uma rosa de plástico enfiada numa garrafa de Coca-Cola no meio da toalha de mesa que estendeu no chão de sua casa em Paris, para que nosso jantar parecesse um piquenique. Mas a Brigitte e as Cardinales não impedem que “Alegria, alegria” seja ainda minha canção mais querida por brasileiros. E o que é dito em “Diferentemente” sobre Osama e Condoleezza poderá ter uma graça futura que não podemos apreciar hoje. Sem falar nas profecias ultra otimistas que se ouvem em “Falso Leblon” e “Lapa”. Eu, na verdade, acho essas afirmações desaforadas mais interessantes em face da crise do que seriam se soassem meramente como reafirmação de uma aprovação ao governo de 80%.

Não sei o que é Zizi (ou Zie-Zie, ou Zy-Zy) em francês. (Será algum modo infantil de se referir a partes graciosas da anatomia masculina?) Mas vocês todos deviam saber o que é Zii e Zie em italiano. Escolhi o nome pela impressão curiosa (e bela) que essas palavras simples causam quando escritas juntas. As encontrei assim na tradução italiana de Istambul, de Orhan Pamuk, que li na ida à Turquia, presente de uma italiana espectadora assídua dos meus shows. É um modo livre, misterioso e revelador de coisas que não sei, de nomear um disco tão lançado à aventura.

Amo os argumentos de Cicero sobre as vanguardas. Mas entendo que não interessem a Augusto de Campos. Augusto é o autor de “Não” (uma versão encapsulada de muito do que Drummond diz num poema longo sobre o fazer poético, apresentada primeiro como um mini-objeto mimeografado – como os poemas “marginais” que lhe são contemporaneous – que ele distribuía entre amigos e possíveis leitores), um poema que extrai intensa poeticidade do modo como pensa seu próprio lançar-se no mundo, comentando assim a condição mesma da poesia. Ao ler os comentários (justamente) entusiasmados sobre os arrazoados de Cicero, me lembrei de que, ao ler “Dialética do Esclarecimento” (muitas veses atrapalha, em vez de ajudar, a escolha dessa palavra “esclarecimento”: sempre evitando “iluminismo”, “ilustração” ou mesmo “luzes”, o tradutor muitas vezes nos leva a esquecer o quanto é sobre o “esclarecimento” histórico, do século 18, que os autores estão falando), tinha encontrado algo que me fez pensar nos concretos. Sei que Haroldo gostava muito de Benjamin – e que a Escola de Frankfurt foi levada em grande consideração pelo grupo Noigrandres quando foi levado a pensar na dimensão política da aventura em que embarcavam. Augusto não gosta da apreciação que Adorno faz do jazz. Mas nunca desejou descartar os desafios teóricos que Adorno lançava. Fui olhar o livro e achei um dos trechos que me fizeram pensar em Augusto. Eis:

“O sentimento de horror materializado numa imagem sólida torna-se o sinal da dominação consolidada dos privilégiados. Mas isso é o que os conceitos universais continuam a ser mesmo quando se desfizeram de todo aspecto figurativo. A forma dedutiva da ciência reflete ainda a hierarquia e a coerção. Assim como as primeiras categorias representavam a tribo organizada e seu poder sobre os indivíduos, assim também a ordem lógica em seu conjunto – a dependência, o encadeamento, a extensão e união dos conceitos – baseia-se nas relações correspondentes da realidade social, da divisão do trabalho. (…) É essa unidade de coletividade e dominação e não a universalidade imediata, a solidariedade, que se sedimenta nas formas do pensamento”.

Não o cito como resposta argumentativa a Cicero, mas como uma indicação de que, entre outras coisas, o enfrentamento de questões como essa animou a criação da poesia concreta. E que é perfeitamente natural – e até saudável – que um poeta como Augusto olhe de longe (e com desconfiança) argumentos como o de Cicero, vendo pouco neles além do fato de que servem afinal para afrouxar o arco e instruir pensadores criticamente receptivos a uma poesia atada à sintaxe vista pelos concretos como expressão da opressão. Era uma luta que envolvia ambições também nessa área. Sou suspeito porque, dessa luta saiu a sensibilidade que não só entendeu o essencial do que eu pretendia fazer como prefigurou minuciosamente alguns argumentos que os tropicalistas viriam a formular (sem conhecer tais prefigurações), como é o caso da avaliação da Jovem Guarda e do “novo folclore urbano e internacional” que surgia, energético, na música pop de massa feita para a juventude. Mas é que sou ainda mais suspeito em relação a Cicero, que é um amigo íntimo e freqüente, com quem partilho inclusive comentários pouco simpáticos a Adorno e à Escola de Frankfurt.

Postei demais. É que, apesar de cansado da gravação, fui acordado, por ordem minha, para acompanhar a saída de meu querido filho adolescente para a escola: ele tem aula à 7, tem de acordar às 6, entrou o horário de verão e ele tem pena de desperdiçar as noites dormindo (embora, diferentemente de mim, não tenha dificuldade em adormecer). Acordei tendo dormido menos de uma hora – e não consegui dormir de novo. Aí sentei aqui e escrevi. E olha que ainda não saiu o catatau São Paulo/Rio. Mas quando sair, sairá curto: o que faz a gente escrever comprido é falta de tempo para editar os textos (mesmo na cabeça).

Evangelina, leia comment no post da foto do Moreno.

Heloísa, você que está lendo Verdade Tropical: já chegou no final, onde falo em países grandes?

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ERASMO, GLAUCO, ÁLVARO GUIMARÃES
18/10/2008 6:42 am

Álvaro Guimarães foi uma pessoa determinante na minha formação. Foi mesmo mais do que isso: foi um anjo do Destino. Bethânia e eu fazemos música por causa dele. Ele me apresentou à primeira mulher que conheci. Depois me apresentou a Duda Machado, uma das maiores influências que, com prazer e deslumbramento, sofri. Alvinho me apresentou ao Brizolismo, a Roberto Pinho e ao professor Agostinho da Silva. Ele inventou o nome Baby Consuelo (e deu esse nome para Bernadete Cidade usar publicamente como vocalista dos Novos Baianos). Ele era amigo de Glauber antes de eu conhecer qualquer dos dois pessoalmente.

Foi assim: conheci Alvinho através de Sônia Castro e Lena Coelho (mãe de Laís Bodanski). Ele era um jovem diretor de teatro. Todos eram de esquerda e estavam próximos ao CPC da UNE. Mas Sônia me disse que Alvinho era crítico do panfletarismo do CPC. Logo Alvinho conversava comigo e, sem sequer ter me ouvido cantar, me chamou para fazer a trilha sonora do filme dele: confiava nas minhas conversas sobre João Gilberto, Miles Davis e Caymmi. Depois me fez compor trilhas para as peças “O primo da Califórnia” e “A exceção e a regra”. Fiz tudo, embora protestando. Isso mudou minha vida. Alvinho montou “O Boca de Ouro” e chamou Bethânia para cantar “Na batida do samba”, no escuro, na abertura do espetáculo. Só a voz. Ninguém nunca mais esqueceu aquela voz e ela virou uma figura de culto entre a turma de teatro de Salvador. Anos depois Alvinho brilhou atuando na peça de Fausi Arap “O amor do não”, em Sampa e no Rio. Recentemente, ele tinha um programa de TV, onde apareci falando sobre o carnaval. E Alvinho desapareceu. Fui reecontrá-lo no sul da Bahia, vivendo no Arraial da Ajuda. Foi um reencontro muito amoroso e comovente para nós dois. Hoje choro com saudade dele e com fascínio diante do mistério das amizades que desenham a vida da gente.

“Fera ferida” é muito Roberto na minha cabeça. Não gosto de me intrometer na questão do que é mesmo de Roberto e Erasmo (ou de Lennon e McCartney). Mas tenho curiosidade e alguma idéia sobre as individualidades envolvidas. Há coisas de rima em “Fera ferida” que eu atribuiria a Erasmo (com seu talento para os versos rimados e seu amor por essa forma, como atestam o uso que ele fez do poeminha de Ghiaroni e as letras do disco do “Coqueiro verde” - sem falar em “Sentado à beira do caminho”, um esplendor de clareza e precisão), mas o tema de “Fera ferida” é Roberto puro. O que impacta nessa canção é o tom de confissão íntima de Roberto, tom que fica reforçado pelo fato de a música ter sido lançada em sua voz. Mas Erasmo é tudo o que eu disse em “Verdade tropical” e muito mais. Lendo o livro de Midani (que tem algumas lembranças que não coincidem com as minhas mas é mesmo um ótimo livro), vi voltar a imagem forte de Erasmo, sua personalidade rock. José Agrippino de Paula também gostava mais de Erasmo do que de Roberto (como Midani) e eu sempre entendi por quê.

Recebi vários livros de Glauco Mattoso: ele me mandou aqui pra casa essa semana, dizendo que afinal lhe tinham dado meu endereço. Fiquei feliz. Faz tempo que não tenho notícias dele. Li algumas coisas de Glauco na Caros Amigos (quando estava viajando muito com o “Cê” pelo Brasil, comprava Veja e Caros Amigos para ler no avião: era sempre gozado; à vezes comprava também a Carta Capital, que eu chamava de “a Veja do Lula”). Quem me apresentou a poesia do Glauco foi Augusto de Campos. Nesse tempo Glauco tinha um jornalzinho poético (todo escrito por ele) de que Augusto gostava muito. Fiquei interessado. Depois, livros. E a revelação de que esse não era o nome dele: era um trocadilho com “glaucomatoso”, pois ele sofria de galucoma. O que o levou à cegueira total. Ele é o poeta cego, Homero, um arquétipo, um poema de Antonio Cicero, uma Idéia com i maiúsculo. Vou ler todos os livros e já já volto a falar nele.

Prometo para breve escrever sobre a palestra de Zizek (por ora, só digo que não foi tão divertida assim, não me fez rir; adianto a Roberto Joaldo de Carvalho que reconheci o primeiro artigo de Terry Eagleton: acho que Hermano tinha me mandado faz um tempo; comecei a ler o segundo – também muito bom – mas cheguei do estúdio tarde e me obriguei a parar.)

O texto sobre Rio e Sampa está esperando moderação (minha não do Hermano). Por ora, basta celebrar a próxima vitória de Gabeira e dizer que, sem candidato em São Paulo, fiquei triste com a mancada da campanha de Marta. Sempre levo em consideração o fato de um candidato “de esquerda” ser o favorito dos mais pobres. Não é populismo. É uma antiga ligação com a esquerda universitária, que sempre pus em questão mas que sempre me comove quando cria um laço com as populações carentes, pra lá do apelo de time de futebol que ela tem para pessoas de classe média que querem parecer inteligentes, cultas ou bondosas. Mas não dá pra perdoar Marta nem João Santana (que é conhecido meu da Bahia e que ela responsabilizou pela patada) nessa história de perguntar se o eleitor sabe se Kassab é casado e se tem filhos. O velho Suplicy reagiu com dignidade. Se eu fosse o Kassab, eu teria respondido ao indiscreto que, na sabatina da Folha, perguntou “você é homossexual”?, assim: “sou”. Pra cortar o papo. Entre outras coisas, porque nem sei o que possa significar “não ser homossexual.” Eu não daria para ser político (com trocadilho, por favor, como diz o Agamenon).

Tomei as notas acima desde ontem à noite. Mas o Salem tem razão (isso é freqüente nele): voltei ao estúdio e estou pondo voz. Antes estava rouco. Agora, gravando de novo, não tive tempo de reler os textos – e não postei. Mas tenho escrito muito nos comments.

Heloisa, é duro para um baiano, vizinho dos nordestinos (e nordestino na denominação oficial de hoje em dia), ler que o preconceito contra sotaques e “tendências” lingüísticas regionais se volta sempre para os mineiros. Você, tão cosmopolita, nessa hora soa ilhada pelas alterosas. O erre “líqüido” e sonoro (algo inglês, sobretudo inglês americano) da região de Alfenas e Três Pontas (e do interior de São Paulo – além de parte de Goiás) é peculiar e soa cômico aos ouvidos dos demais brasileiros (assim como é curiosa a onda de não conjugar os verbos pronominais como tais). Mas a caricatura do nordestino ganha de longe como tipificação depreciativa (com agressões à vezes explícitas em cartas à redação de jornais paulistanos). O mineiro – como o gaúcho – pode ser freqüentemente imitado com exagero, mas não é tão facilmente discriminado quanto o “baiano” ou o “paraíba.” (“Baiano” aqui no sentido que o paulistano comum dá à palavra; “paraíba”, no que o carioca comum lhe dá.) De resto, adorei sua tradução da frase francesa que você me mandou. Ficou mais concisa em português. No seu português. Embora eu não esteja seguro de que tenha sido justa comigo.

E vou parar pois está longo à beça esse post.

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ELEIÇÕES
10/10/2008 5:47 am

A votação para escolha da versão de “Incompatibilidade de gênios” que vai para o CD só se dará quando tivermos disponibilizado as duas gravações em MP3 (Hermano, Daniel, Moreno, é mesmo em MP3?) aqui. E isso só acontecerá quando eu tiver posto a voz definitiva. “Voz definitiva” lembra estúdios de gravação de antigamente. Hoje soa gozado. Seja como for, achei bacana que muitos já tenham votado, mesmo sem ouvir. Primeiro pensei que a versão com efeitos e um violão regular ganharia por unanimidade. Agora vejo que há quem vote na versão com solo de guitarra e violão-base correpondendo aos arroubos do solo. Veremos.

GABEIRA GABEIRA GABEIRA GABEIRA GABEIRA GABEIRA. Vamos redobrar o entusiasmo e deixar a onda crescer. Gabeira é uma onda boa. O Rio está tendo coragem de olhar para si mesmo. Acho que estamos bem com Paes e Gabeira para escolher. Não tenho nada contra Paes. Mas Gabeira é muito mais coerente. Desprezemos a mão pesada da grande imprensa em sua tentativa de sufocar a força espontânea que a candidatura de Gabeira desencadeou. Tudo o que ele fez de admirável - respeito aos concorrentes, limpeza na campanha de rua, desprezo pelos “santinhos” - vai ganhar cada vez mais significado. Gabeira se eleger prefeito do Rio é algo bom em si mesmo. Comecemos a pensar em ajudá-lo a governar. E que esse nosso pensamento chegue ao governo do estado e ao planalto. Essa raiva de Dirceu é patética. E a de Vladimir (de quem sempre gosto mais) é apenas para uso de campanha. Depois todos terão de conviver com a retidão e a sensatez que Gabeira nunca abandonou e que há de manter quando for prefeito.

Rei do Rio é uma expressão boa por ser livre do medo de tendências absolutistas ou totalitárias. É uma piada boa e benigna.

Falando em rei, hoje ouvi no rádio do carro a gravação de Bethânia de “Fera ferida”. Como é que Roberto fez essa canção tão extraordinária numa fase em que já não era de se esperar dele algo assim contundente? “Fera ferida” é tão boa quanto “Curvas da Estrada de Santos” e chega a bater lá em cima, em “Se você pensa”. Começa dizendo “acabei com tudo” - e nunca mais a peteca cai, em duas longas estrofes com rimas fortes para idéias fortes, indo desaguar no refrão desafiador “não vou mudar”. Esse refrão soou (e soa) como um paradoxo violento: Roberto dizendo que não muda (e explicando em tom de queixa que “esse caso não tem solução”) justamente quando estava mudando pela primeira vez em muitos anos. Ouvir isso hoje - e na voz de Bethânia - me fez chorar. (Eu também gravei essa canção - do que muito me orgulho - mas é só uma homenagem ao grande acontecimento poético: a gravação não está à altura da música).

Hoje minha irmã mais velha, Nicinha, completa 80 anos. Sinto não poder estar em Santo Amaro: estou preso ao estúdio. Mas transcrevo aqui a letra da música que fiz (e gravei) há alguns anos sobre ela:

NICINHA

Se algum dia eu conseguir cantar bonito
Muito terá sido
Por causa de você
Nicinha
A vida tem uma dívida
Com a música perdida
No silêncio dos seus dedos
E no canto dos meus medos
E no entanto
Você é a alegria da vida.

Não vi o debate dos presidenciáveis americanos: preso ao estúdio. Gosto de Obama por ele mesmo, não tanto pelo que penso que ele pode fazer uma vez que assuma o poder. Mesmo porque agora ninguém sabe que país ele irá governar dentro de alguns meses. Que mundo! Muitos esquerdistas dizem que isso é a prova de que o capitalismo é mau e vai acabar. Hm. Gosto do capítulo de Mangabeira (não no livrinho que recomendei mas num grande, chamado “Política”) sobre como é discutível (e frágil) o conceito de “capitalismo” em Marx. Acho que as dificuldades do mundo são grandes desde sempre. Creio em melhoras e progressos. Os grandes empreendimentos civilizatórios, os impérios, as nações, passaram temas e soluções para a frente. Tem algumas coisas que deveriam ser inegociáveis. Muito do que se chama de “direitos humanos” está entre essas coisas. Por que será que Zizek não inclui a Revolução Americana em sua lista de revoluções exaltadas? O programa da Revolução Americana é ótimo - e não teve terror. Ingleses? Cromwell?

Estou lendo o livro de André Midani, “Música, ídolos e poder“, e estou impressionado. É um livro bom, escrito por um homem incrível, sobre uma vida improvável. Muito bonito o destino desse homem que eu amo tanto e que foi tão importante para mim. Independentemente disso, é um livro para ser lido por quem quer que se interesse por música no Brasil e tenha prazer em ver o assunto olhado de uma perspectiva não provinciana, de uma larga visão histórica. Da chegada dos aliados na Normadia aos downloads e aos piratas, uma personalidade singular, sofrida e curtida (nos dois ou mais sentidos) faz a gente aqui se sentir real, possuidora de um tamanho real.

Não gosto de reeleição. Se algo pode ser chamado, como Zé Dirceu grosseiramente chamou, de “herança maldita” do governo FH, é a instituição da reeleição. Há sempre a força da máquina do estado do lado de quem quer se reeleger. Até que dois mandatos de FH e dois de Lula não foi coisa tão ruim quanto me parecia que fosse ser. Mas os prefeitos todos se reelegerem é demais. E na Bahia a situação é odiosa. O cara que levantou uma favela nas areias da orla e tirou a calçada portuguesa do Porto da Barra não pode ser reeleito. Acorda baianada! Vamos votar no petista e dizer a ele que a condição é repor as pedras portuguesas no Porto. Estive lá e vi que, além da mera burrice de destruir o que é bonito e tem valor histórico, a laje que foi posta como calçada não agüenta um aguaceiro e 15 joggers. Não dá para reeleger esse cara. A não ser que ele se comprometa em refazer a calçada do Porto e, principalmente, tirar as construções de barracas permanentes das praias. Tem que ser como no Rio: monta sua tenda de-manhã e desmonta no por-do-sol. E nada de sombrinhas presas à areia - o que faz com que, de-noite, parte da orla soteropolitana pareça um cemitério. Sei que esta última mosntruosidade já estava lá quando João Henrique chegou. Mas não é a quem faz o que ele faz que se pode pedir pra consertar coisas assim.

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REI, REIS
4/10/2008 6:57 pm

Roberto Carlos não é o primeiro rei brasileiro. Não falo dos de Orleans e Bragança, que foram imperadores. Mas de Francisco Alves, o rei da voz. Luiz Gonzaga, o rei do baião. Sem falar nas rainhas (anuais) do rádio. Carlos Imperial esteve por trás do Roberto bossa nova do primeiro disco e também por perto no início da fase pop rock. Mas os epítetos da Jovem Guarda (Ternurinha, Tremendão e Rei) devem ter sido forjados por Magaldi & Maia, a dupla de publicitários (o segundo, um homem que se notabilizou por suas posições de esquerda) que, se não me engano, orientava a criação da imagem do programa e do grupo. Os da Rádio Nacional eram sempre criados por César Ladeira, se não me falha a memória (e nos últimos anos ela tem falhado à beça): Francisco Alves, o rei da voz; Orlando Silva, o cantor das multidões; Aracy de Almeida, o samba em pessoa… Em todos os casos, tratava-se do embrião do que hoje você chama de marketing. Luiz Gonzaga cantou (e eu me abstive de repetir): “se mereci minha coroa de rei, essa sempre honrei: é a minha obrigação”. De Londres escrevi para o Pasquim que, tal como Gozaga, Roberto merecera sua coroa de rei – e a honrava. Eu estava profundamente emocionado pela audição em primeira mão de “Curvas da Estrada de Santos”, com Roberto sozinho ao violão na sala de minha casa no exílio. Anos depois, quando, no show “Circuladô”, quis contar que ele tinha escrito “Debaixo dos caracóis dos seus cabelos” para mim, como um desagravo por ter percebido que o exílio era um castigo pesado demais, eu frisei que “é bom que a gente saiba quem é que a gente chama de rei”. Os esboços de marketeiros não enfiaram esse título pela goela dos brasileiros abaixo: como nos casos de Chico Alves e Gonzaga, eles captaram o que a voz do povo queria articular. Se não fosse assim, eu não estaria nervoso por dividir o palco com Roberto. E, se parte do meu nervosismo se devia à grandeza de Tom e à musicalidade de Jaquinho e dos músicos com quem eu estava trabalhando, parte maior ainda se devia à importância que dou a Roberto Carlos. Mas devo lembrar que a emoção boa, pura, de estar ouvindo coisas grandiosas – e que estão ligadas a toda a minha vida – na voz de um personagem tão significativo (o que me fez chorar todas as noites em que nos apresentamos) também contribuiu para a impressão de que meu terno estava apertado.

Okay, Exequiela, not ALL but MOST long English vowels are in fact diphthongs. Still I hear two vowels in all those “oos” you mentioned. Well, maybe not in “goose”… A friend of mine told me I sound pedantic when I start talking about all this grammar and phonetics business. I had thought I sounded sexy. It’s because I find theory very sexy. Mostly when it’s obvious I have no scholarship whatsoever in the matters.

Gabeira vai ser o rei do Rio. Vocês vão ver.

Vi o debate entre Biden e Palin (nomes feitos de bons ditongos ingleses). Foi mais agradável do que o de Obama e McCain. Pelo menos eles se olhavam. E dessa vez foi a republicana quem se apressou em pedir permissão para chamar o senador de Joe. A pressa mostrou que isso estava no script com a função de criar a intimidade que Obama, também jovem, não conseguiu com McCain, e de mostrar-se mais educada do que o preto, que acabou sendo tratado como “boy” pelo experiente McCain. Este repetiu mil vezes “senator Obama doesn’t seem to understand”. Biden procurou não dizer coisas semelhantes sobre Palin pois esta já era uma piada mundial com as burrices que disse em entrevistas. Ela se recuperou, vê-se que com o treinamento. Mas as piscadelas de olho, os “Áiracs”, “Áirans” e “Núkelars” que ela emitia com orgulho – além de seus acenos de mão e trejeitos juvenis de eterna cheer-leader – faziam com que seu corpo de gostosa provocasse repulsa em mim. Ela parece essas mães ainda jovens e bonitas que fazem cara de secundaristas e deixam os filhos embaraçados. Eu odiaria ser filho dela. Biden não foi canastrão quando falou sobre a morte da mulher e da filha. Mas ele tem um amendoado irregular nos olhos ou aquilo é uma plástica mal feita?

Já estava bom da gripe quando fui gravar e notei que a seqüela do som de nariz tapado só aparecia quando ouvíamos a voz gravada. Adiamos e, em duas noites, botei voz em “A cor amarela”, “Base de Guantánamo”, “Perdeu” e “Tarado ni você”. Pedro Sá levou uma câmera que parecia um objeto soviético. Era. Diz que é máquina vintage russa que dá imagens fantásticas. Tomara que ele apresente fotos boas de nós no estúdio. Gravamos também os coros de “Base de Guantânamo” e as palmas de “A cor amarela”: foi festa no estúdio pois Ricardo e Marcelo vieram para isso. Tony Vanzolini andou filmando umas noites lá (quando gravávamos “Menina da Ria”) mas até hoje não pintou nada aqui no blog. Perguntemos a Hermano.

Também não depende de mim o tamanho das letras. Perguntemos a Hermano. Li a palavra “blogosfera” justamente em Portugal (aqui também se usa), quando visitei um blog muito legal de um português que alguém me indicou em Lisboa. Mas não sou muito de ler blogs (leio pouco mais do que e-mails na internet). Então nem sei se o tamanho das letras aqui está longe do padrão, se é que há um padrão. Só tenho é a idéia de lançar aqui duas versões da gravação de “Incompatibilidade de gênios” que fizemos. Uma com um solo de guitarra e um violão base que corresponde às intenções do solo, outra com uns efeitos de guitarra com um violão regular. Ambas são lindas e escolhemos provisoriamente a dos efeitos. Mas eu queria ouvir a opinião (e contar os votos) dos visitantes aqui do obraemprogresso.

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GABEIRA E GABEIRA
1/10/2008 3:13 am

Não voto em Crivella nem que vaca tussa. Meu candidato é Gabeira e sempre disse isso. Não sei por que a dúvida. Conheço as opiniões de Crivella (e da turma da IURD) sobre os homossexuais. Mas todos hão de convir que eles são muito mais abertos em relação ao aborto e ao uso de camisinha do que a Igreja Católica. Eles também (até naqueles mini-tele-dramas sobre casais que sofrem porque o cara bebe ou é infiel) não mostram ter muito problema com pessoas amigadas ou namorados que vivem juntos. Agora, hipocrisia, extorsão doce, disputa de clientela - tudo isso é das religiões em geral. Vá lá, falo sobretudo do ambiente católico em que cresci. Respeito o mundo cultural de minha mãe. Mas nunca me ceguei para as evidências de fraude permanente. Religião é coisa difícil. Não existe sem essas coisas. E parece que a humanidade não existe sem religião. As opiniões de Mangabeira se originam em posição filosófica muito séria a esse respeito. Não compartilho. Admiro. São dele. Não são minhas. Mas devem ser conhecidas para ser criticadas. Continuo dizendo que - seja por Crivella, seja por Daniel Dantas (agora, pois há anos não havia essas pessoas e a reação a Mangabeira era a mesma) - não podemos desprezar sumariamente a contribuição que Mangabeira quer dar ao país. O que não é aceitável é o que nunca aceitei: agressões às religiões afro-brasileiras. E a mera idéia de hostilidades religiosas se dando abertamente no Brasil me horroriza. Mas não é com descartar Crivella por ser da IURD que neutralizaremos essas tendências. Deixa ele disputar. E perder. Gabeira ainda vai ganhar. É só a gente deixar de ser bobo.

Sempre tenho interesse em política e sempre me posiciono de modo claro. Tenho sempre candidatos. Não participo da onda de desqualificação da dimensão política. Felizmente. Agora é Gabeira. E Aspásia?

The joke about English vowels was very amusing to me. Not so to Eloisa, or Heloisa. She didn’t say a word. Exequiela came with some corrections. Hm. I take the long “oos” (like in “fool” or “goose”, “loose” etc.) as mainly a hidden diphthong of the same vowel repeated in two different intensities: the “ea” in “repeat”, for example, sounds to me like Spanish “íi”. And in “fool” the double O sounds like “úu” (or even “úo”): you don’t say “ful”, but “fúul” or “fúol”. And yes, there are lots of vocalic sounds in different languages that are not recognizable from the “outside”: a Spanish-speaking person is not spontaneously able to tell the difference between “Ô” and “Ó”, or “É” and “Ê”. The same way we are not able to easily tell “sheet” from “shit”. Y por aqui quedemos con eso de inglés. Es una bella lengua pero tenemos otros asuntos.

Os republicanos não deixaram passar o “bail-out” de Paulson. Bem, sobretudo os republicanos. Mas faz sentido. Eles em princípio defendem o mercado desregulado. O problemão veio daí, mas nem por isso eles iriam querer mudar agora, quando se trata de uma tentativa de salvação coletiva. Essa coerência parece digna. Mas nos indigna de alguma forma.

Continuo sem poder pôr as vozes nas faixas do disco. Fui lá ontem, pensando que, por estar me sentindo bem (relativamente: é sempre assim) eu ia poder gravar voz. Ledo engano. O som de nariz tapado ficou horrível nos auto-falantes. Hoje fui cantar com Milton e os Jobim no Jardim Botânico mas voltei pra casa pra descansar e tentar gravar amanhã.

Falando em Milton e os Jobim, concordo com uma moça que disse que Milton cantando Tom é muito superior a Roberto e eu fazendo a mesma coisa. E mais ainda com a outra que disse que me achou preso, inibido, sei lá, com o terno apertado (não estava apertado, mas parecia), com a voz tensa. Era isso mesmo. Mas discordo da opinião de que Roberto não cantou divinamente bem. Eu estava ali com minha confusão, tenho meu valor histórico e simpatia pessoal, mas não fiz nada artisticamente que merecesse celebrações especiais. Mas Roberto… ah, Roberto, como canta! Que relaxamento, que naturalidade na emissão, que musicalidade espontânea! Não tente se iludir, cara comentarista, não foi a “mídia” (o que quer que signifique esse plural masculino latino transformado, através da vulgarização do inglês, em feminino no singular português brasileiro) que deu a Roberto o título de Rei. Ao contrário: a grande imprensa (e a nanica também) esnobava solenemente Roberto, Erasmo e a Jovem Guarda. Quem o chamou de Rei foi o povo brasileiro, a começar pelas garotas suburbanas que assistiam ao programa nas tardes de domingo. E, com o passar dos anos - e a resistência do estilo dele ao tempo - , a “mídia” teve de ir atrás.

Botei uma voz em “Menina da Ria” que ficou quase boa. Digo: quase boa para ir pro disco. Amanhã confiro e conto mais.

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GABEIRA E MANGABEIRA 2
30/09/2008 6:58 am

Mas será que tem gente que pensa que o que todo o mundo quer é se drogar? Todo o mundo ou pelo menos todos os brasileiros? Tem gente que pensa que todo o mundo não se droga só porque há a proibição? Estou com Salem. Não devemos esperar que os poderes públicos nos tratem como crianças. E depois, por que será que a maioria da população não é alccoólatra? Nem mesmo tabagista? Mesmo sendo legais e glamurizadas por décadas de filmes de Hollywood (onde a primeira fala de personagens entrando numa casa era sempre “I need a drink”, a primeira idéia de um personagem em apuros era “I need a drink”, a primeira proviedência para consolar um doente na cama era “take a cigarette”) o tabaco e o álcool nunca viraram a obsessão das populações humanas. Agora, sempre houve (e haverá?) bêbados e drogados. Não há nenhuma indicação segura de que os haja menos hoje por algumas drogas serem proibidas. A certeza disso é tão idiota quanto a certeza de que as drogas ilegais só fascinam por significar transgressão. Não é só por serem proibidas que elas atraem, nem o desinteresse por elas decorre da sua proibição. Só pensando direito se pode discutir, discordar, concordar, dialogar. Vamos tentando.

Gabeira está virando o jogo.

Mangabeira apoiar Crivella não é surpresa nem mau sinal para mim. Primeiro porque Crivella é do partido dele: o PR foi criado por José Alencar (o vice de Lula), Mangabeira e Crivella. Desde a criação do partido que na imprensa se diz que ele é um partido da Igreja Universal, ou do Bispo Macedo. Não creio que seja isso. O trecho que a moça que postou comentário reproduziu do discurso de Mangabeira na reunião de apoio a Crivella é excelente. E corretíssimo. De fato é horrível querer-se usar o princípio do estado laico para discriminar uma corrente religiosa. Sendo que os cultos evangélicos têm, há muito tempo, recebido de Mangabeira atenção especial. No livro “Política” (o mesmo onde há a crítica do conceito marxista de “capitalismo”) ele contrapõe a importância política da teologia da libertação (católica) ao surgimento das igrejas evangélicas - e vê maior energia liberadora nestas do que naquela. Eu venho de um mixto de ateísmo com politeísmo e, embora veja programas evangélicos na TV desde os anos 90, sempre odiei a campanha que eles fazem contra o candomblé. Sem falar no cara que chutou a santa (se bem que o Bispo Macedo - cuja biografia li com grande interesse - disse ter errado e atrasado em décadas a obra da Universal). Mas se esses programas (e suas igrejas) me atraíram por serem fenômeno popular, eles me mantiveram atento por estarem trazendo para grupos de brasileiros a idéia de que prosperar é bom - coisa que a Igreja Católica estava longe de sequer admitir. Concordo com Mangabeira em que o crescimento das igrejas evangélicas é um dos acontecimentos mais importantes da história brasileira recente. Não estou dizendo que isso é necessariamente bom, apenas que é indiscutivelmente importante. Nunca tive nem tenho preconceito contra o televangelismo americanizado.

And, Heloisa (for some reason I think that’s the right spelling of your name: with an H; maybe I’m wrong but as I always post without going back to read…), I certainly don’t have a good ear for foreign languages, but I don’t have much of a hard time reproducing the pronunciation of their vowels or consonants. I remember the short “u” used to be pronounced as a Portuguese “a” by Brazilians when I was young. Then people realized it was not that opened and tried to imitate the original English “non-vowel” - and ended up pronouncing something like a Portuguese “ô”, which sounds horrible. For example: people used to say “blash” (with a Portuguese “a”) for “blush”; now they say “blôsh” - and it makes me sick. Maybe that’s why you think I pronounce “a” instead of “â” in such cases. Yes, “â” is the closest to it. But we don’t have that in Brazil really - not with a differential value. In Portugal they have (that’s why there it is not hard to tell the difference between an “à” and an “a”, since the simple “a” sounds “â”; in Brazil we don’t have that, and we either write “à” when it’s only an “a” or pronounce “áa” to make sure we know there is a “crase”, i.e., a contraction of the preposition “a” and the definite article in its feminine form, “a”). To be sure, we have always pronounced “blêfe” and “flêrte” - in Bahia, “bléfe” and “flérte” - for “bluff” and “flirt” (and we kind of hear too open an “a” when the word “bluff” is pronounced in a movie). But we used to say “blash” when the word used here to refer to the stuff was “rouge” (a much better word), that we pronounced, effortlessly, à la française. That all means that we were always looking for a real vowel to put there, where there was no vowel proper. Well, of course THERE ALWAYS IS a vowel when you produce a vocal sound. But if it’s not “a”, “e”, “ê”, “i”, “o”, “ô” or “u”, it’s a non-vowel. Are you thinking I say this because I am Brazilian and my ear is used to just those vowels? No. Of course I know about the French “u”, which is half “u” half “i” - as is the German “ü”. Or the German “ö” or “oe” - there are lots of different vowels in different languages. But they demand a minimum of definition. It was my English teacher in London who explained to me that the short “u”’s pronunciation (as opposed to the long “u”, that’s pronounced “iú” - for, as you must have noticed, all long vowels in English are not real vowels but diphthongs: ei, íi, ou, iú…) is just the animal releasing of vocal indistinct sound. Well, you have something like it everywhere, like in the final “as” in Portugal, the final “es” in Catalan (and French, and Neapolitan, and…)… But in English it’s a very frequent sound entity. And often it’s the main vowel in a word. The other “short” vowels are always something in-between defined vowels: the “a” in “cat” is something between (Portuguese-Spanish-Italian-French…) “a” and “é”; the “o” in “pop”, something between “ó” and “a”; the “i” in “fitness”, something between “i” and “ê”, and so on and so forth. As for “far” or “car” (I don’t remember your example): it is not the same case as “dirt” or “Curt”. I must have had it wrong, saying all vowels followed by an “r” sounds undefined. What I meant was that MOST do. Especially if it’s followed not only by an “r” but by an “r” and another consonant. In fact, the “i” in “stir” sounds more like in “dirt”. But it’s for sure that it does in words like “curl”, “curse”, “verse”, etc. The vowel “a” doesn’t behave the same way. The “as” in “start”, “fart”, “lark”, don’t sound like a non-vowel. Rather, like a slightly O-ish A.

Sorry for the long gramatiquice in English. I was really trying to explain what I had meant. But I don’t know anything about English grammar theory. Or theoretical English grammar. Or English theoretical grammar. I really did it just to amuse you. And myself.

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