
| TOM ZÉ, MARIANA, BARBARA & DAVID BYRNE |
| 19/11/2008 1:21 am | Postado por Obra Em Progresso |
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Ouvi o disco de Tom Zé. Muito legal. Muito ele mesmo. Quando li que se chamava “estudando a bossa”, ri, gostei do tom de trilogia com os outros dois “estudandos”, e fiquei curiosíssimo para ver como é que ele ia tratar musicalmente o assunto. Diferentemente de mim, de Gil, de Gal e da torcida do Bahia, Tom Zé nunca foi um bossanovista. Comentado o “Estudando o samba” com David Byrne em Nova Iorque, logo que saiu a primeira coletânea de Tom Zé que ele fez, eu disse: “Muito da força desse disco vem de Tom Zé não ser da área do samba: ele não é do Recôncavo, tem sotaque do sertão, não é meio carioca como o povo de Salvador”. Claro que a força maior vinha do espírito experimental de Tom Zé e de suas escolhas no universo da música erudita contemporânea. Mas a distância, o estranhamento que sua origem propiciava contribuía muito para o experimentalismo e as escolhas. Agora, com a bossa nova, o que é que ele faria? Alegra-me muito que, ao fim e ao cabo, isso tenha algo a ver com nosso transamba aqui, nosso trabalhoso progresso. Pelo avesso. Mas tem. É um comentário de comentários sobre os ritmos do samba, as levadas, as batidas - e é o Rio. O Rio como tema permanente. Adorei ouvir Mariana Aydar dizendo “masturbar” com os erres superpaulistanos (não confundir com os retroflexos, que são meus e de Heloísa e de mais ninguém). E a afinação e musicalidade de Mônica Salmaso me impressionou de novo como tinha me impressionado quando cantamos juntos em Parati, com o Uakti. No disco com as músicas de Chico ela não me pareceu à altura sublime do que percebi naquela noite. Mas Zélia Duncan, Fabiana Cozza, todas. E David Byrne - na faixa que, à primeira audição me pareceu a melhor do disco - está divino. Os contrapontos engraçados, os contrapontos inventivos, os contrapontos sofridos, tudo no disco é Tom Zé puro. A explicitude nas várias recontagens da história também.
Barbara,
I liked your explaining why “mulatto” wouldn’t please you. (Here the word MULATO appeared in big letters on the front page of the most important Newspaper, just by Obama’s photograph, when he became President-Elect.) But I’d like to ask you a question: What were the reasons given by your colleague for not feeling that Obama qualified to be called African-American?
I remember having read that for a while, when Obama was still trying to be chosen by the Democratic Party as candidate, many blacks said something like they wouldn’t back him because he was not exactly an African-American, as his ancestors had not faced slavery in the USA nor had he experienced segregation or the struggle to overcome it. If I am not wrong, even Jesse Jackson (who finally cried when Obama won) had expressed himself in similar terms. Would your colleague’s ideas be similar to those? Or she has different reasons to think so?
This is a theme that’s very important to me, as for some decades now it’s been the tendency of people who think about “race” in Brazil to emulate American formulas. Sociologists, both Brazilian and American, have written about the perverse aspects of Brazilian “racial democracy”, stressing that open hostility (as was the case in the USA and South Africa) brought better results than our intense miscegenation and pretended lack of hatred between blacks and whites. I feel differently. But they may have a point. Still what interest me most are the actual differences between your people’s historic experience and our own. Let’s begin by my asking you about your colleague’s reasons.
Congratulations on Obama’s victory. It made me happy too.
Best wishes.
Caetano.
“Incompatibilidade de gênios” amanhã ou depois: agora é pra valer. Depois explico o atraso.
Moreno estava de licença-maternidade até hoje. Meu netinho nasceu. Mas tenho ficado em casa é para estudar com Zeca para as provas (por isso eu lia todos os posts todos os dias mas não escrevia nada). Amanhã voltamos, Moreno, Pedro, Daniel e eu, ao estúdio. Mega. Mix.
Salem,
eu mesmo não sei dizer qual o tom do meu diálogo com Heloísa. Creio que nem mesmo ela saberia, apesar da habitual clareza. Posso apenas rememorar vaga e provisoriamente as sutis diferenças de opinião em relação aos lingüistas que agridem os divulgadores da gramática. Depois meu papo (que eu supus bem-humorado) sobre a afirmação dela de que o sotaque mineiro é o que sofre maior discriminação. Mencionei os nordestinos. Depois tive que me esforçar para desfazer a idéia dela de que minha percepção do erre do interior paulista (e parte de Minas) descrita em “Verdade tropical” não era uma confirmação do primeiro argumento dela sobre quem sofre mais discriminação. No belo comment em que ela responde àquele que Joana achou que escrevi bem, ela diz que às vezes fui ríspido com ela, ou algo assim. Nunca senti que fosse. Mas sou um discutidor apaixonado. Em geral encrespo pela determinação de me fazer entender: o motivo é o argumento, não a pessoa. Nem mesmo desejo convencer o interlocutor de uma opinião fechada: apenas me debato para que se entenda bem o que minha argumentação, sempre parcialidades de um pensamento em progresso, quer instaurar. No caso de Heloísa, a pessoa só me inspira afeição e respeito. Hoje, por exemplo, lembrei-me de falar que estou estudando com meu filho de 16 anos, ajudando-o como posso nos estudos para as provas de português e literatura - mas também ouvindo-o (a pedido dele) sobre biologia e química, coisas de que não entendo, só para animá-lo a articular as idéias - porque me senti bem lendo de Heloísa que ela queria dizer à filha algo gozado que leu sobre armários desarrumados. Suely tem razão quando diz que Heloísa me leva a pensar e escrever coisas. Isso é afeto espontâneo. Creio que não é preciso explicar, já que quase todos aqui já externaram especial carinho por ela. Tomei a história da “neblina” pelo lado amoroso - notando que ela partiu da citação de Rosa. A frase de Riobaldo sobre Diadorim é uma das coisas mais lindas que a palavra humana já me deu. Às vezes a combinação de ironia com apego tenaz à comunicação do argumento pode criar um tom que parece irritação. A “fumaça de diesel” pode sugerir isso. Não sinto assim. Outros podem ver. Para mim, trata-se sempre de pedir “Oh Lord, don’t let me be misunderstood!”. O resto é dengo.
Amiguismo??????? É. É uma.
Alguém disse aí (foi Suely?) que as pessoas aprovam ou desaprovam um filme segundo minha veneta. Nada mais injusto e longe da verdade. Nos anos 70 e 80, disse em várias entrevistas que não gostava dos filmes de Woody Allen (ele me parecia aquele cara anti-rock, anti-contracultura, anti-black-is-beautiful, anti-hippie, anti-punk, deslumbrado com “alta cultura” e apês cor de antílope - e roupas cor de antílope - do Upper East Side, anti-sulamericano, com uma mente estreita). Pois bem, a única coisa que consegui com isso foi a discordância de amigos que foram da saudosa Teresa Aragão a Pedro Almodóvar (cujo cinema é o oposto de tudo o que listei sobre Allen). E os cinemas lotavam de cultuadores dele. Ninguém me deu bola. Hoje, que já gosto de Allen (ele merece o prestígio de ter reeguido o cinema independente de Nova Iorque contra Hollywood, tem “final cut”, escreve “oneliners” espetaculares - aquela sobre a masturbação é divina: “por que falar mal da única relação sexual que você tem com quem relamente ama?” - , “Bullets Over Broadway” é uma comédia para ninguém botar defeito, etc.), o público se afastou dele (se bem que ouço palavras animadas sobre o filme em Barcelona: vou ver). Em “O Cinema Falado”, pus na boca de Dedé e de Felipe Murray palavras de gozação ao então idolatrado “Paris Texas” (”‘Paris Texas’ é um dramalhão mexicano filmado como gravuras hiperrealistas americanas, com verniz alemão; e o mais careta e ridículo dos Édipos não deixa de fazer sua aparição presunçosa”): a platéia inteira da pré-estréia (largamente de admiradores meus) vaiou a fala com fúria. Vi “Blade Runner” logo que saiu, em Salvador, com Paulo Cesar Sousa, Gi e Dani Mariani e, creio, sua tia Ângela, a avó dos meus netos. Elas já gostavam do filme. Estavam revendo. Paulo Cesar e eu não gostamos. No início me encantei com a direção de arte e os efeitos. Mas aquele cara com capa de Humphrey Bogart num ambiente degradado cheio de orientais vendendo olhos de peixe sob chuva me entediavam porque pareciam estar dizendo “olha, isto aqui é o futuro, nada de clean 2001-uma-odisséia-no-espaço”. Ah, e aquela música chatíssima feita com sintetizadores. Bem, as mulheres eram lindas (e nunca me conformei com a desaparição da morena de nome inglês - ou irlandês - que parece chinês). Perdi o bonde. Hoje o filme é um clássico, eu próprio dou muito mais valor tanto à percepção de que a tecnologia dispara sem que uma vida mais racional (e limpa) a acompanhe quanto ao esforço de criação de ambientes incríveis com mais forte resultado do que qualquer coisa feita hoje com os recursos de computador que não havia na época. Finalmente, apesar de ter imensas queixas quanto à mixagem da música maravilhosa que compus para o filme, acho “Tieta do Agreste” um grande filme. Só não é genial porque não tem as 3 horas que deveria ter. E essa opinião não só não encontra eco na turma paissandu-estação como provoca a fúria de pessoas íntimas. Tive de implorar a amigos para verem os enquadramentos divinos em preto-e-branco de “Eloge de l’amour”, de Godard. Então não sei de onde Suely (se é que foi Suely) tirou a idéia de que oriento o gosto cinematográfico nacional.
Acabo de assistir a “O poderoso chefão” no TelcineCult (minha TV vive ali) e fiquei abismado: como é divinamente realizado, como tem vida, afeto, tragédia, vigor. Coppola é o cara. Não tem Escorsese certo. Que atuações! E os temas do anjo Nino Rota: que música! (Desculpem os admiradores de Morricone (que merece ser admirado), mas Rota é tocado pela transcendência - e decididamente não merece as críticas grosseiras que Morricone lhe faz.) E no entanto, quando o filme saiu, eu nem fui ver: aquelas filas enormes, a festa do Oscar, as fotos de Brando com a boca cheia de algodão… Eu, que queria opor Blake Edwards a Woodie Allen - e Hollywood a Herzog (detestei “Aguirre” e “Kasper Haus” e aquele do navio na Amazônia), tinha (nesse caso) preguiça de acompanhar o cinemão: achava que não gostava de filme de máfia. Cada vez que vejo o filme de Coppola no Vietnam (incrível!) e os poderosos chefões 1 e 2 na TV (nunca vi no cinema!) fico extasiado.
Gostei de “Linha de passe” e de “Última parada 174″, por razões opostas. Um feito por carioca que vive em Sampa sobre a vida no Rio. O outro feito por cariocas que vivem no Rio sobre a vida em Sampa. Mas as razões opostas são outras.
Bem, vamos deixar pra falar de Sampa e Rio quando eu tiver tempo de escrever direito.
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| MULATO, MAÇÃ, CANDÉ, 80%, ALEIJÃO, RC E CV CD DVD ACJ |
| 10/11/2008 10:44 pm | Postado por Obra Em Progresso |
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A hipótese de “mulato” vir daquela palavra árabe sempre me convence mais do que a de que vem de “mula”. Mas o Houaiss dá “jumento” como o primeiro significado da palavra. Segue-se “burro pequeno, ainda novo”. O.K. Mais crível que SEJA burrico do que que VENHA DE mula. Para “vir de mula” seria preciso uma formação de palavra italiana (em inglês tem dois tês), como “frutato” (ou será “frutatto”?): era assim que eu pensava até ler o Houaiss. Seja como for - além de jumentos serem bonitos (e jumentinhos novos, lindíssimos, parecidos com Brigitte Bardot) - “mulato” é uma palavra com conotação positiva no português brasileiro que aprendi em casa e na rua. Mais: no segundo verso da canção que é o Hino Nacional Brasileiro não-oficial, “Aquarela do Brasil”, o país é chamado, orgulhosa e carinhosamente, de “meu mulato” (aliás o Houaiss dá “inzoneiro” como sinônimo de “mulato”, quando este tem valor adjetivo). By the way, a “Aquarela do Brasil” foi eleita em votação popular (popular mesmo: a audiência do Fantástico) como a primeira dentre as “maiores músicas brasileiras de todos os tempos”. Seguida, se não me engano, de “Águas de março”, “O bêbado e a equilibrista” e “Carinhoso”.
Glauber, lembro do Stained Glass. Depois eu falo.
Ricardo Pereira, conheço Júpiter Maçã (ou Apple). Depois eu falo.
Gravataí Merengue, concordo totalmente com você: afro-isso, afro-aquilo (e a forma americana “African- American” é ainda pior) é um modo racista de falar. Um egípcio é africano. Um bôer da África do Sul também. O mesmo para tunisinos, marroquinos e argelinos. “Africano” não quer dizer “negro”. Mas mesmo que todos os africanos fossem pretos, seria racismo designar povos tão variados (inclusive fenotipicamente), oriundos do maior continente da Terra, por uma só palavra. Iorubanos não são bantos, malineses não são bundos, haussás não são gege. São povos com histórias diferentes e muitas vezes tingidas de inimizades milenares. Chamar um mulato filho de uma branca americana com um preto do Quênia de “African-American” é uma grosseria histórica. Essas expressões são “muito piores do que qualquer outra adotada espontaneamente pelas pessoas”, como você diz. Usá-las é adotar o olhar do traficante de escravos.
Contei que conheci Portishead há uns dez anos através de um elenco fascinante que entrou na casa de Milton Nascimento, numa festa. Disse que não foi lá que, através de Marininha, Karola, Candé, Luísa e Natália, tomei contato com o grupo inglês. Foi quando, dias depois, liguei para um deles, que ouvi uma gravação fantástica na secretária eletrônica. Perguntando, me informaram que a banda se chamava Portishead. Bem, todos os envolvidos me dizem que escrevo tão mal que ficou parecendo que conheci Portishead ligando pro Milton Nascimento. Se pareceu isso, corrijo: foi ligando para Candé que ouvi Portishead pela primeira vez. Ele (e as meninas bonitas) adoravam esse grupo. Até apelidei Candé de Portishead, já que muitas vezes era a banda que atendia quando eu ligava para ele. E, além de me dizerem que escrevo mal, Candé chiou por ter passado de protagonista a mero figurante na história.
Este blog é da obra em progresso, a feitura do “zii e zie”. Quando o disco estiver pronto para sair, acaba. Mas não se avexem não que vai demorar a sair. Já está todo gravado, embora não todo mixado. Falta também eu ir lá na Universal falar com Gê e Pedro (não Sá) para fazermos a capa (já tenho as fotos e as idéias de tipos). De todo modo, o disco só deve sair no ano que vem: Roberto Carlos e eu lançamos neste fim de ano o CD e o DVD do show com as músicas de Jobim.
Aqui vocês vão ouvir “Incompatibilidade de gênios” nas duas versões para eleger uma. Isso, amanhã ou depois.
Heloísa, você ficou de mal comigo. Minha resposta sobre o “aleijão” foi pura e doce, mesmo que parecesse teimosa e cruel. Justamente por não haver nada mau em mim em relação ao erre retroflexo é que nem lembrei do que você falava quando voltou ao assunto. Sabia que tinha lido algo assim da primeira vez mas, entre tantos comments, não me liguei em “Verdade tropical” (embora ali estivesse explícita a referência). Creio ser o único artista de fora da região do erre líqüido a usá-lo na composição (e gravação) de uma música não cômica nem folclórica, com profundo amor de identificação. Je t’embrasse. Tendrement.
Rafael, prefiro GABEIRA PRESIDENTE do que questionar o resultado da eleição. Embora, é claro, ache erradíssimo o cara que, no Globo, comparou a Zona Sul a um “curral eleitoral”.
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| 448 comentários » | Assuntos: Gabeira, mulato, Portishead — |
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| 23/10/2008 1:08 am | Postado por Hermano Vianna |
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Moreno
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| 131 comentários » | Assuntos: estúdio, Moreno Veloso — |
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| 21/10/2008 10:28 am | Postado por Obra Em Progresso |
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Daniel, Ricardo, eu, Moreno, Marcelo: os Velosos escondidos: Moreno de costas e eu com a cara no escuro.
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| 100 comentários » | Assuntos: estúdio, fotografia — |
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| ERASMO, GLAUCO, ÁLVARO GUIMARÃES |
| 18/10/2008 6:42 am | Postado por Obra Em Progresso |
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Álvaro Guimarães foi uma pessoa determinante na minha formação. Foi mesmo mais do que isso: foi um anjo do Destino. Bethânia e eu fazemos música por causa dele. Ele me apresentou à primeira mulher que conheci. Depois me apresentou a Duda Machado, uma das maiores influências que, com prazer e deslumbramento, sofri. Alvinho me apresentou ao Brizolismo, a Roberto Pinho e ao professor Agostinho da Silva. Ele inventou o nome Baby Consuelo (e deu esse nome para Bernadete Cidade usar publicamente como vocalista dos Novos Baianos). Ele era amigo de Glauber antes de eu conhecer qualquer dos dois pessoalmente.
Foi assim: conheci Alvinho através de Sônia Castro e Lena Coelho (mãe de Laís Bodanski). Ele era um jovem diretor de teatro. Todos eram de esquerda e estavam próximos ao CPC da UNE. Mas Sônia me disse que Alvinho era crítico do panfletarismo do CPC. Logo Alvinho conversava comigo e, sem sequer ter me ouvido cantar, me chamou para fazer a trilha sonora do filme dele: confiava nas minhas conversas sobre João Gilberto, Miles Davis e Caymmi. Depois me fez compor trilhas para as peças “O primo da Califórnia” e “A exceção e a regra”. Fiz tudo, embora protestando. Isso mudou minha vida. Alvinho montou “O Boca de Ouro” e chamou Bethânia para cantar “Na batida do samba”, no escuro, na abertura do espetáculo. Só a voz. Ninguém nunca mais esqueceu aquela voz e ela virou uma figura de culto entre a turma de teatro de Salvador. Anos depois Alvinho brilhou atuando na peça de Fausi Arap “O amor do não”, em Sampa e no Rio. Recentemente, ele tinha um programa de TV, onde apareci falando sobre o carnaval. E Alvinho desapareceu. Fui reecontrá-lo no sul da Bahia, vivendo no Arraial da Ajuda. Foi um reencontro muito amoroso e comovente para nós dois. Hoje choro com saudade dele e com fascínio diante do mistério das amizades que desenham a vida da gente.
“Fera ferida” é muito Roberto na minha cabeça. Não gosto de me intrometer na questão do que é mesmo de Roberto e Erasmo (ou de Lennon e McCartney). Mas tenho curiosidade e alguma idéia sobre as individualidades envolvidas. Há coisas de rima em “Fera ferida” que eu atribuiria a Erasmo (com seu talento para os versos rimados e seu amor por essa forma, como atestam o uso que ele fez do poeminha de Ghiaroni e as letras do disco do “Coqueiro verde” - sem falar em “Sentado à beira do caminho”, um esplendor de clareza e precisão), mas o tema de “Fera ferida” é Roberto puro. O que impacta nessa canção é o tom de confissão íntima de Roberto, tom que fica reforçado pelo fato de a música ter sido lançada em sua voz. Mas Erasmo é tudo o que eu disse em “Verdade tropical” e muito mais. Lendo o livro de Midani (que tem algumas lembranças que não coincidem com as minhas mas é mesmo um ótimo livro), vi voltar a imagem forte de Erasmo, sua personalidade rock. José Agrippino de Paula também gostava mais de Erasmo do que de Roberto (como Midani) e eu sempre entendi por quê.
Recebi vários livros de Glauco Mattoso: ele me mandou aqui pra casa essa semana, dizendo que afinal lhe tinham dado meu endereço. Fiquei feliz. Faz tempo que não tenho notícias dele. Li algumas coisas de Glauco na Caros Amigos (quando estava viajando muito com o “Cê” pelo Brasil, comprava Veja e Caros Amigos para ler no avião: era sempre gozado; à vezes comprava também a Carta Capital, que eu chamava de “a Veja do Lula”). Quem me apresentou a poesia do Glauco foi Augusto de Campos. Nesse tempo Glauco tinha um jornalzinho poético (todo escrito por ele) de que Augusto gostava muito. Fiquei interessado. Depois, livros. E a revelação de que esse não era o nome dele: era um trocadilho com “glaucomatoso”, pois ele sofria de galucoma. O que o levou à cegueira total. Ele é o poeta cego, Homero, um arquétipo, um poema de Antonio Cicero, uma Idéia com i maiúsculo. Vou ler todos os livros e já já volto a falar nele.
Prometo para breve escrever sobre a palestra de Zizek (por ora, só digo que não foi tão divertida assim, não me fez rir; adianto a Roberto Joaldo de Carvalho que reconheci o primeiro artigo de Terry Eagleton: acho que Hermano tinha me mandado faz um tempo; comecei a ler o segundo – também muito bom – mas cheguei do estúdio tarde e me obriguei a parar.)
O texto sobre Rio e Sampa está esperando moderação (minha não do Hermano). Por ora, basta celebrar a próxima vitória de Gabeira e dizer que, sem candidato em São Paulo, fiquei triste com a mancada da campanha de Marta. Sempre levo em consideração o fato de um candidato “de esquerda” ser o favorito dos mais pobres. Não é populismo. É uma antiga ligação com a esquerda universitária, que sempre pus em questão mas que sempre me comove quando cria um laço com as populações carentes, pra lá do apelo de time de futebol que ela tem para pessoas de classe média que querem parecer inteligentes, cultas ou bondosas. Mas não dá pra perdoar Marta nem João Santana (que é conhecido meu da Bahia e que ela responsabilizou pela patada) nessa história de perguntar se o eleitor sabe se Kassab é casado e se tem filhos. O velho Suplicy reagiu com dignidade. Se eu fosse o Kassab, eu teria respondido ao indiscreto que, na sabatina da Folha, perguntou “você é homossexual”?, assim: “sou”. Pra cortar o papo. Entre outras coisas, porque nem sei o que possa significar “não ser homossexual.” Eu não daria para ser político (com trocadilho, por favor, como diz o Agamenon).
Tomei as notas acima desde ontem à noite. Mas o Salem tem razão (isso é freqüente nele): voltei ao estúdio e estou pondo voz. Antes estava rouco. Agora, gravando de novo, não tive tempo de reler os textos – e não postei. Mas tenho escrito muito nos comments.
Heloisa, é duro para um baiano, vizinho dos nordestinos (e nordestino na denominação oficial de hoje em dia), ler que o preconceito contra sotaques e “tendências” lingüísticas regionais se volta sempre para os mineiros. Você, tão cosmopolita, nessa hora soa ilhada pelas alterosas. O erre “líqüido” e sonoro (algo inglês, sobretudo inglês americano) da região de Alfenas e Três Pontas (e do interior de São Paulo – além de parte de Goiás) é peculiar e soa cômico aos ouvidos dos demais brasileiros (assim como é curiosa a onda de não conjugar os verbos pronominais como tais). Mas a caricatura do nordestino ganha de longe como tipificação depreciativa (com agressões à vezes explícitas em cartas à redação de jornais paulistanos). O mineiro – como o gaúcho – pode ser freqüentemente imitado com exagero, mas não é tão facilmente discriminado quanto o “baiano” ou o “paraíba.” (“Baiano” aqui no sentido que o paulistano comum dá à palavra; “paraíba”, no que o carioca comum lhe dá.) De resto, adorei sua tradução da frase francesa que você me mandou. Ficou mais concisa em português. No seu português. Embora eu não esteja seguro de que tenha sido justa comigo.
E vou parar pois está longo à beça esse post.
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| 219 comentários » | Assuntos: Alvinho Guimarães, Erasmo Carlos, Glauco Mattoso, Marta, Roberto Carlos, Zizek — |
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| ELEIÇÕES |
| 10/10/2008 5:47 am | Postado por Obra Em Progresso |
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A votação para escolha da versão de “Incompatibilidade de gênios” que vai para o CD só se dará quando tivermos disponibilizado as duas gravações em MP3 (Hermano, Daniel, Moreno, é mesmo em MP3?) aqui. E isso só acontecerá quando eu tiver posto a voz definitiva. “Voz definitiva” lembra estúdios de gravação de antigamente. Hoje soa gozado. Seja como for, achei bacana que muitos já tenham votado, mesmo sem ouvir. Primeiro pensei que a versão com efeitos e um violão regular ganharia por unanimidade. Agora vejo que há quem vote na versão com solo de guitarra e violão-base correpondendo aos arroubos do solo. Veremos.
GABEIRA GABEIRA GABEIRA GABEIRA GABEIRA GABEIRA. Vamos redobrar o entusiasmo e deixar a onda crescer. Gabeira é uma onda boa. O Rio está tendo coragem de olhar para si mesmo. Acho que estamos bem com Paes e Gabeira para escolher. Não tenho nada contra Paes. Mas Gabeira é muito mais coerente. Desprezemos a mão pesada da grande imprensa em sua tentativa de sufocar a força espontânea que a candidatura de Gabeira desencadeou. Tudo o que ele fez de admirável - respeito aos concorrentes, limpeza na campanha de rua, desprezo pelos “santinhos” - vai ganhar cada vez mais significado. Gabeira se eleger prefeito do Rio é algo bom em si mesmo. Comecemos a pensar em ajudá-lo a governar. E que esse nosso pensamento chegue ao governo do estado e ao planalto. Essa raiva de Dirceu é patética. E a de Vladimir (de quem sempre gosto mais) é apenas para uso de campanha. Depois todos terão de conviver com a retidão e a sensatez que Gabeira nunca abandonou e que há de manter quando for prefeito.
Rei do Rio é uma expressão boa por ser livre do medo de tendências absolutistas ou totalitárias. É uma piada boa e benigna.
Falando em rei, hoje ouvi no rádio do carro a gravação de Bethânia de “Fera ferida”. Como é que Roberto fez essa canção tão extraordinária numa fase em que já não era de se esperar dele algo assim contundente? “Fera ferida” é tão boa quanto “Curvas da Estrada de Santos” e chega a bater lá em cima, em “Se você pensa”. Começa dizendo “acabei com tudo” - e nunca mais a peteca cai, em duas longas estrofes com rimas fortes para idéias fortes, indo desaguar no refrão desafiador “não vou mudar”. Esse refrão soou (e soa) como um paradoxo violento: Roberto dizendo que não muda (e explicando em tom de queixa que “esse caso não tem solução”) justamente quando estava mudando pela primeira vez em muitos anos. Ouvir isso hoje - e na voz de Bethânia - me fez chorar. (Eu também gravei essa canção - do que muito me orgulho - mas é só uma homenagem ao grande acontecimento poético: a gravação não está à altura da música).
Hoje minha irmã mais velha, Nicinha, completa 80 anos. Sinto não poder estar em Santo Amaro: estou preso ao estúdio. Mas transcrevo aqui a letra da música que fiz (e gravei) há alguns anos sobre ela:
NICINHA
Se algum dia eu conseguir cantar bonito
Muito terá sido
Por causa de você
Nicinha
A vida tem uma dívida
Com a música perdida
No silêncio dos seus dedos
E no canto dos meus medos
E no entanto
Você é a alegria da vida.
Não vi o debate dos presidenciáveis americanos: preso ao estúdio. Gosto de Obama por ele mesmo, não tanto pelo que penso que ele pode fazer uma vez que assuma o poder. Mesmo porque agora ninguém sabe que país ele irá governar dentro de alguns meses. Que mundo! Muitos esquerdistas dizem que isso é a prova de que o capitalismo é mau e vai acabar. Hm. Gosto do capítulo de Mangabeira (não no livrinho que recomendei mas num grande, chamado “Política”) sobre como é discutível (e frágil) o conceito de “capitalismo” em Marx. Acho que as dificuldades do mundo são grandes desde sempre. Creio em melhoras e progressos. Os grandes empreendimentos civilizatórios, os impérios, as nações, passaram temas e soluções para a frente. Tem algumas coisas que deveriam ser inegociáveis. Muito do que se chama de “direitos humanos” está entre essas coisas. Por que será que Zizek não inclui a Revolução Americana em sua lista de revoluções exaltadas? O programa da Revolução Americana é ótimo - e não teve terror. Ingleses? Cromwell?
Estou lendo o livro de André Midani, “Música, ídolos e poder“, e estou impressionado. É um livro bom, escrito por um homem incrível, sobre uma vida improvável. Muito bonito o destino desse homem que eu amo tanto e que foi tão importante para mim. Independentemente disso, é um livro para ser lido por quem quer que se interesse por música no Brasil e tenha prazer em ver o assunto olhado de uma perspectiva não provinciana, de uma larga visão histórica. Da chegada dos aliados na Normadia aos downloads e aos piratas, uma personalidade singular, sofrida e curtida (nos dois ou mais sentidos) faz a gente aqui se sentir real, possuidora de um tamanho real.
Não gosto de reeleição. Se algo pode ser chamado, como Zé Dirceu grosseiramente chamou, de “herança maldita” do governo FH, é a instituição da reeleição. Há sempre a força da máquina do estado do lado de quem quer se reeleger. Até que dois mandatos de FH e dois de Lula não foi coisa tão ruim quanto me parecia que fosse ser. Mas os prefeitos todos se reelegerem é demais. E na Bahia a situação é odiosa. O cara que levantou uma favela nas areias da orla e tirou a calçada portuguesa do Porto da Barra não pode ser reeleito. Acorda baianada! Vamos votar no petista e dizer a ele que a condição é repor as pedras portuguesas no Porto. Estive lá e vi que, além da mera burrice de destruir o que é bonito e tem valor histórico, a laje que foi posta como calçada não agüenta um aguaceiro e 15 joggers. Não dá para reeleger esse cara. A não ser que ele se comprometa em refazer a calçada do Porto e, principalmente, tirar as construções de barracas permanentes das praias. Tem que ser como no Rio: monta sua tenda de-manhã e desmonta no por-do-sol. E nada de sombrinhas presas à areia - o que faz com que, de-noite, parte da orla soteropolitana pareça um cemitério. Sei que esta última mosntruosidade já estava lá quando João Henrique chegou. Mas não é a quem faz o que ele faz que se pode pedir pra consertar coisas assim.
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| 214 comentários » | Assuntos: Gabeira, Maria Bethânia, Nicinha, pedras portuguesas, Roberto Carlos, Salvador — |
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| REI, REIS |
| 4/10/2008 6:57 pm | Postado por Obra Em Progresso |
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Roberto Carlos não é o primeiro rei brasileiro. Não falo dos de Orleans e Bragança, que foram imperadores. Mas de Francisco Alves, o rei da voz. Luiz Gonzaga, o rei do baião. Sem falar nas rainhas (anuais) do rádio. Carlos Imperial esteve por trás do Roberto bossa nova do primeiro disco e também por perto no início da fase pop rock. Mas os epítetos da Jovem Guarda (Ternurinha, Tremendão e Rei) devem ter sido forjados por Magaldi & Maia, a dupla de publicitários (o segundo, um homem que se notabilizou por suas posições de esquerda) que, se não me engano, orientava a criação da imagem do programa e do grupo. Os da Rádio Nacional eram sempre criados por César Ladeira, se não me falha a memória (e nos últimos anos ela tem falhado à beça): Francisco Alves, o rei da voz; Orlando Silva, o cantor das multidões; Aracy de Almeida, o samba em pessoa… Em todos os casos, tratava-se do embrião do que hoje você chama de marketing. Luiz Gonzaga cantou (e eu me abstive de repetir): “se mereci minha coroa de rei, essa sempre honrei: é a minha obrigação”. De Londres escrevi para o Pasquim que, tal como Gozaga, Roberto merecera sua coroa de rei – e a honrava. Eu estava profundamente emocionado pela audição em primeira mão de “Curvas da Estrada de Santos”, com Roberto sozinho ao violão na sala de minha casa no exílio. Anos depois, quando, no show “Circuladô”, quis contar que ele tinha escrito “Debaixo dos caracóis dos seus cabelos” para mim, como um desagravo por ter percebido que o exílio era um castigo pesado demais, eu frisei que “é bom que a gente saiba quem é que a gente chama de rei”. Os esboços de marketeiros não enfiaram esse título pela goela dos brasileiros abaixo: como nos casos de Chico Alves e Gonzaga, eles captaram o que a voz do povo queria articular. Se não fosse assim, eu não estaria nervoso por dividir o palco com Roberto. E, se parte do meu nervosismo se devia à grandeza de Tom e à musicalidade de Jaquinho e dos músicos com quem eu estava trabalhando, parte maior ainda se devia à importância que dou a Roberto Carlos. Mas devo lembrar que a emoção boa, pura, de estar ouvindo coisas grandiosas – e que estão ligadas a toda a minha vida – na voz de um personagem tão significativo (o que me fez chorar todas as noites em que nos apresentamos) também contribuiu para a impressão de que meu terno estava apertado.
Okay, Exequiela, not ALL but MOST long English vowels are in fact diphthongs. Still I hear two vowels in all those “oos” you mentioned. Well, maybe not in “goose”… A friend of mine told me I sound pedantic when I start talking about all this grammar and phonetics business. I had thought I sounded sexy. It’s because I find theory very sexy. Mostly when it’s obvious I have no scholarship whatsoever in the matters.
Gabeira vai ser o rei do Rio. Vocês vão ver.
Vi o debate entre Biden e Palin (nomes feitos de bons ditongos ingleses). Foi mais agradável do que o de Obama e McCain. Pelo menos eles se olhavam. E dessa vez foi a republicana quem se apressou em pedir permissão para chamar o senador de Joe. A pressa mostrou que isso estava no script com a função de criar a intimidade que Obama, também jovem, não conseguiu com McCain, e de mostrar-se mais educada do que o preto, que acabou sendo tratado como “boy” pelo experiente McCain. Este repetiu mil vezes “senator Obama doesn’t seem to understand”. Biden procurou não dizer coisas semelhantes sobre Palin pois esta já era uma piada mundial com as burrices que disse em entrevistas. Ela se recuperou, vê-se que com o treinamento. Mas as piscadelas de olho, os “Áiracs”, “Áirans” e “Núkelars” que ela emitia com orgulho – além de seus acenos de mão e trejeitos juvenis de eterna cheer-leader – faziam com que seu corpo de gostosa provocasse repulsa em mim. Ela parece essas mães ainda jovens e bonitas que fazem cara de secundaristas e deixam os filhos embaraçados. Eu odiaria ser filho dela. Biden não foi canastrão quando falou sobre a morte da mulher e da filha. Mas ele tem um amendoado irregular nos olhos ou aquilo é uma plástica mal feita?
Já estava bom da gripe quando fui gravar e notei que a seqüela do som de nariz tapado só aparecia quando ouvíamos a voz gravada. Adiamos e, em duas noites, botei voz em “A cor amarela”, “Base de Guantánamo”, “Perdeu” e “Tarado ni você”. Pedro Sá levou uma câmera que parecia um objeto soviético. Era. Diz que é máquina vintage russa que dá imagens fantásticas. Tomara que ele apresente fotos boas de nós no estúdio. Gravamos também os coros de “Base de Guantânamo” e as palmas de “A cor amarela”: foi festa no estúdio pois Ricardo e Marcelo vieram para isso. Tony Vanzolini andou filmando umas noites lá (quando gravávamos “Menina da Ria”) mas até hoje não pintou nada aqui no blog. Perguntemos a Hermano.
Também não depende de mim o tamanho das letras. Perguntemos a Hermano. Li a palavra “blogosfera” justamente em Portugal (aqui também se usa), quando visitei um blog muito legal de um português que alguém me indicou em Lisboa. Mas não sou muito de ler blogs (leio pouco mais do que e-mails na internet). Então nem sei se o tamanho das letras aqui está longe do padrão, se é que há um padrão. Só tenho é a idéia de lançar aqui duas versões da gravação de “Incompatibilidade de gênios” que fizemos. Uma com um solo de guitarra e um violão base que corresponde às intenções do solo, outra com uns efeitos de guitarra com um violão regular. Ambas são lindas e escolhemos provisoriamente a dos efeitos. Mas eu queria ouvir a opinião (e contar os votos) dos visitantes aqui do obraemprogresso.
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| GABEIRA E GABEIRA |
| 1/10/2008 3:13 am | Postado por Obra Em Progresso |
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Não voto em Crivella nem que vaca tussa. Meu candidato é Gabeira e sempre disse isso. Não sei por que a dúvida. Conheço as opiniões de Crivella (e da turma da IURD) sobre os homossexuais. Mas todos hão de convir que eles são muito mais abertos em relação ao aborto e ao uso de camisinha do que a Igreja Católica. Eles também (até naqueles mini-tele-dramas sobre casais que sofrem porque o cara bebe ou é infiel) não mostram ter muito problema com pessoas amigadas ou namorados que vivem juntos. Agora, hipocrisia, extorsão doce, disputa de clientela - tudo isso é das religiões em geral. Vá lá, falo sobretudo do ambiente católico em que cresci. Respeito o mundo cultural de minha mãe. Mas nunca me ceguei para as evidências de fraude permanente. Religião é coisa difícil. Não existe sem essas coisas. E parece que a humanidade não existe sem religião. As opiniões de Mangabeira se originam em posição filosófica muito séria a esse respeito. Não compartilho. Admiro. São dele. Não são minhas. Mas devem ser conhecidas para ser criticadas. Continuo dizendo que - seja por Crivella, seja por Daniel Dantas (agora, pois há anos não havia essas pessoas e a reação a Mangabeira era a mesma) - não podemos desprezar sumariamente a contribuição que Mangabeira quer dar ao país. O que não é aceitável é o que nunca aceitei: agressões às religiões afro-brasileiras. E a mera idéia de hostilidades religiosas se dando abertamente no Brasil me horroriza. Mas não é com descartar Crivella por ser da IURD que neutralizaremos essas tendências. Deixa ele disputar. E perder. Gabeira ainda vai ganhar. É só a gente deixar de ser bobo.
Sempre tenho interesse em política e sempre me posiciono de modo claro. Tenho sempre candidatos. Não participo da onda de desqualificação da dimensão política. Felizmente. Agora é Gabeira. E Aspásia?
The joke about English vowels was very amusing to me. Not so to Eloisa, or Heloisa. She didn’t say a word. Exequiela came with some corrections. Hm. I take the long “oos” (like in “fool” or “goose”, “loose” etc.) as mainly a hidden diphthong of the same vowel repeated in two different intensities: the “ea” in “repeat”, for example, sounds to me like Spanish “íi”. And in “fool” the double O sounds like “úu” (or even “úo”): you don’t say “ful”, but “fúul” or “fúol”. And yes, there are lots of vocalic sounds in different languages that are not recognizable from the “outside”: a Spanish-speaking person is not spontaneously able to tell the difference between “Ô” and “Ó”, or “É” and “Ê”. The same way we are not able to easily tell “sheet” from “shit”. Y por aqui quedemos con eso de inglés. Es una bella lengua pero tenemos otros asuntos.
Os republicanos não deixaram passar o “bail-out” de Paulson. Bem, sobretudo os republicanos. Mas faz sentido. Eles em princípio defendem o mercado desregulado. O problemão veio daí, mas nem por isso eles iriam querer mudar agora, quando se trata de uma tentativa de salvação coletiva. Essa coerência parece digna. Mas nos indigna de alguma forma.
Continuo sem poder pôr as vozes nas faixas do disco. Fui lá ontem, pensando que, por estar me sentindo bem (relativamente: é sempre assim) eu ia poder gravar voz. Ledo engano. O som de nariz tapado ficou horrível nos auto-falantes. Hoje fui cantar com Milton e os Jobim no Jardim Botânico mas voltei pra casa pra descansar e tentar gravar amanhã.
Falando em Milton e os Jobim, concordo com uma moça que disse que Milton cantando Tom é muito superior a Roberto e eu fazendo a mesma coisa. E mais ainda com a outra que disse que me achou preso, inibido, sei lá, com o terno apertado (não estava apertado, mas parecia), com a voz tensa. Era isso mesmo. Mas discordo da opinião de que Roberto não cantou divinamente bem. Eu estava ali com minha confusão, tenho meu valor histórico e simpatia pessoal, mas não fiz nada artisticamente que merecesse celebrações especiais. Mas Roberto… ah, Roberto, como canta! Que relaxamento, que naturalidade na emissão, que musicalidade espontânea! Não tente se iludir, cara comentarista, não foi a “mídia” (o que quer que signifique esse plural masculino latino transformado, através da vulgarização do inglês, em feminino no singular português brasileiro) que deu a Roberto o título de Rei. Ao contrário: a grande imprensa (e a nanica também) esnobava solenemente Roberto, Erasmo e a Jovem Guarda. Quem o chamou de Rei foi o povo brasileiro, a começar pelas garotas suburbanas que assistiam ao programa nas tardes de domingo. E, com o passar dos anos - e a resistência do estilo dele ao tempo - , a “mídia” teve de ir atrás.
Botei uma voz em “Menina da Ria” que ficou quase boa. Digo: quase boa para ir pro disco. Amanhã confiro e conto mais.
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| GABEIRA E MANGABEIRA |
| 24/09/2008 11:53 pm | Postado por Obra Em Progresso |
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GABEIRA GABEIRA GABEIRA GABEIRA GABEIRA GABEIRA GABEIRA GABEIRA GABEIRA GABEIRA GABEIR
Que diabo é isso de dizer que Gabeira é “Zona Sul”? Gabeira é mineiro, jornalista, foi revolucionário exilado, trabalhou como motorneiro de metrô em Estocolmo. E é o homem que representa o que o Rio deve dizer que quer agora: dignidade. Ele tem a ver com um futuro bacana que os cariocas não podem jogar fora. Tudo a ver com a coragem de enfrentar os corruptos do Planalto – no legislativo e no executivo – e nada a ver com esse folclore de drogas: eu odeio maconha e vou votar nele.
Um tal Alain escreveu que só quem é de direita diz que “esquerda” e “direita” não existem. Acho que isso é um papo do século 19. Eu próprio muitas vezes, se for assim, sou de direita. Mas será assim? Bem, o fato é que essa tirada tem um fundo de verdade - que pode ser verificada cotidianamente. Mas “fundo de verdade” é um papo frouxo.
No Brasil um cara como Fernando Henrique Cardoso é chamado de direitista. Mas não há quem não saiba que se José Serra tivesse vencido as eleições para presidente tocaria uma política econômica bem à esquerda da de Lula. E todos os petistas diriam que era uma política de direita. Meu problema é: estaríamos em melhor situação? Não creio. Talvez o caminho do país em direção à riqueza e à menor desigualdade social não tivesse andado tanto. É melhor assim: com os banqueiros felizes com um presidente a quem a esquerda não faz oposição.
Teve um Encarnação aí que chiou de minha ignorância mas o que ele propôs é muito do que eu quero: “Para a nossa alegria, o Brasil está se tornando a primeira potência mundial em várias áreas, seguido pela China. Para alegria dos baianos, Salvador vai se tornar a capital mundial da cultura, asim como Atenas em V a.c. e Viena e Paris no fim do século XVIII e início do séc. XIX”.
Paulo Francis dizia que quem escreve cartas à redação é maluco. Vejo que a Interenet é o paraíso desses malucos e os blogs são os jardins do paraíso. Mas como sou maluco também, cortei fora os faniquitos contra os Estados Unidos e São Paulo (por que será que é justamente contra os bem-sucedidos que esses ataques surgem?) e encarnei no Encarnação.
Gaúcho querido, eu NUNCA diria que Veríssimo ia ficar do lado das bichas!!!!! EU é que ficaria do lado delas. Aliás, já estou. Sempre estive. Mas lembre-se de que não creio (nem creio que Veríssimo creia, a sério) que a luta futura será essa. Tá doido?
Dei uma olhada no site das “crianças índigo”. Hm.
Não toleraria sequer a hipótese de Lula pensar em terceiro mandato. Minha aprovação à figura dele tem como condição seu total repúdio a essa idéia horrorosa. Na verdade eu votei em Lula emocionado mas antes disso já dizia a um jornalista: “desejo que Lula se eleja, tome posse, cumpra o mandato até o fim e passe a faixa presidencial para outro”. Reeleição já me parecia demais desde FH: não votei nem num nem noutro para segundo mandato.
Lula disse, no discurso da posse de Juca Ferreira no Ministério da Cultura, que eu ficaria “mais chato” se entrasse para o PSDB. E que Chico ficaria “mais chato” se entrasse para o PT. Então eu sou PSDB, uai? Será que é isso que ele está sugerindo? Quando o PT foi fundado andei com uma estrelinha na camisa por alguns dias. Mas tenho problemas com a esquerda desde o tropicalismo. E talvez mesmo antes. E, sem dúvida, depois.
Quando diziam que os tucanos ficavam “em cima do muro”, disseram isso de mim também. Respondi que o artista tem de ficar é ACIMA do muro. Foi um ataquezinho de romantismo pró-arte. Que, aliás, foi o que Lula teve no dia daquele discurso.
Meu interesse por Mangabeira vem de longe (como diria o grande Brizola, no tempo em que o próprio Mangabeira era do PDT). Nos anos 80 li, por sugestão de José Almino, um artigo de Mangabeira na Folha e nunca mais o quis perder de vista. Eu não sabia nada sobre ele. Mas gostei. Desde então falei muito dele em entrevistas. Por cerca de 10 anos todos os jornais e jornalistas cortavam essas referências. Coincidiu de ele unir-se a Ciro Gomes quando eu o tinha escolhido como meu candidato à presidência (e de ele se afastar de Ciro quando me desanimei com a campanha deste). Li alguns livros de Mangabeira. São de grande interesse. Fiquei irado com o boicote sistemático que seu nome sofria na imprensa (falo só de minhas entrevistas!). Aí decidi insistir. Acho que o Brasil não está na posição de jogar fora uma contribuição como a dele. Não sou tão maluco assim: também não gosto da frase que propõe serviço humanitário obrigatório. (Será que Nelson leu a resenha de Eduardo Giannetti?) O texto do Giannetti é ótimo. Mas resulta redundante na página de um órgão dessa imprensa que tem sido sistematicamente hostil a Mangabeira. A indignação com a ausência do tema “aquecimento global” também é pertinente. Mas seria novidade se a parte inicial do artigo sobressaísse.
O que eu gosto em Mangabeira (além da grande energia mental) é que ele pensa o Brasil como uma tarefa de primeira grandeza. Não faz por menos. Eu sempre pensei assim. Por isso gostava do professor Agostinho da Silva. Talvez a rejeição a Mangabeira seja saúde, auto-defesa instintiva contra possíveis situações autoritárias. Mas alguém disse aí que ele quase desconhece a língua portuguesa. Isso é absurdo. Mangabeira fala português de modo virtuosístico. Não apenas correto: dá show de bola. Se a pressa em se descartar dele é tão grande, é sinal de que ainda é dever nosso insistir na afirmação de sua presença.
Li o link de Lula sobre união civil dos homossexuais. Bem legal. Será que minha maior aprovação a ele se deve à combinação disso com a escolha de Mangabeira para ministro? Não. Mas, a posteriori, tem a ver.
“Perdeu” é muito mais a cara musical do disco novo do que “A cor amarela” ou “Sem cais”. Adoro estas duas, mas “redondo” é tudo o que procurei evitar quando trabalhei nas novas composições. Confesso que tenho de fazer esforço para não me entregar a soluções composicionais que fazem a peça parecer “redonda”. Se me entregar à mera preguiça, é o que acontece. Mas tenho coisas a dizer (poética e musicalmente) que exigem que não me entregue a isso. “Redondo” é tudo o que adoro em Carlos Lyra, em Rodgers and Hart, em Donato e Berlin. Mas não quero fazer um “redondo“ menor. João Gilberto, o transredondo, me agrada mais do que todos por ser punk. Ele é o cara da Rolleyflex (que levou o “Desafinado” a sério – thanks, Rui Castro), o cara que gravou “Presente de Natal”, que leva anos para cantar no Rio e, quando pinta, exige um som baixo demais até pra mim – e toca com o violão desafinado. Ele não é perfeccionista. Ele é abusado como um verdadeiro artista deve ser. Mas as seqüências de acordes em “Samba do avião” são transcelestiais. “Perdeu”, “Lobão tem razão”, “Falso Leblon”, “Menina da Ria” – essas são as canções que iluminam a lembrança de “Incompatibilidade de gênios” – e põem em perspectiva a “redondeza” de “Sem cais” e que tais.
A todos os que escreveram aqui exibindo histeria anti-americana recomendo a leitura do capítulo sobre os Estados Unidos no livro “O que a esquerda deve propor”, de Mangabeira. Aliás, mangaba é fruta bem baiana, Mangabeira é família baiana (o nosso Unger é neto de Otávio Mangabeira, de quem Jorge Amado contou que, ao passar o cargo a seu sucessor, ouviu de um operário: “Doutor Mangabeira, o senhor governou o nosso estado com muita delicadeza.”)
Zizek menciona Mangabeira no livrão dele. E ressalta exatamente uma de suas idéias que o Gianetti bem que poderia ter aprovado de público: a sugestão de criar-se uma herança social, em vez de se manter a instituição da herança familiar. Mas Zizek lista Unger entre os que propõem mudanças pragmáticas “modestas”: ele quer “revolução com revolução”, sem esse medo tão pequeno-burguês do terror. Nem uma palavra ainda sobre a Revolução Americana (que precedeu a francesa e não teve terror). Mas estou perto do fim do livro, não acabei ainda.
Escrevi essas coisas ontem à noite mas não tinha aprovado: achei muito texto. Não tive tempo de compactar: só voltei do estúdio agora porque estou febril, uma gripe. Toquei violão em “Base de Guantánamo” e “Diferentemente”. Legal. Vou dormir. Li o comment longo da moça que se zangou com o Encarnação e o Salem pensou que o tom irado era com ele (se bem que Salem tem razão – hm… - nas observações exigentes; mas como a moça veio em minha defesa, estou gostando dela; gosto mais do Salem há mais tempo mas não queria que ele brigasse com ela nem ela com o Encarnação – o Encarnação é tão engraçado!). Desculpem a confusão. Mas houve gente perguntando por mim. E, sim, a manutenção de muito do governo FH é parte crucial do sucesso de Lula: do Real ao Bolsa Família, do tom civilizado ao desembaraço para dizer bobagem em público, muito veio do que Zé Dirceu quis chamar de “herança maldita”. O Bolsa: homenagem póstuma a Ruth Cardoso, que começou esse negócio. Lula pôs fermento onde devia (não vamos lembrar agora do “onde não devia”).
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