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ZAMBUJO, CICERO, AUGUSTO, ADORNO, PAPO À BEÇA
30/10/2008 7:15 am

ANTÓNIO ZAMBUJO, INDIE ROCK, COOL JAZZ, MINIMAL, BOSSA NOVA, THE NEW YORKER, MICHELANGELO ANTONIONI E MONDRIAN CONTRA AXÉ MUSIC DENTRO DE MIM? NÃ-NÃO. “A COR AMARELA” É BROWN IVETE E DANIELA. É O SAMBA DO RECÔNCAVO EM TRANSE NO PSIRICO, NO HARMONIA, NO TCHAN: É TRANSAMBA JÁ CONSTRUÍDO POR TODOS ESSES BAIANOS GENIAIS.

Gostei muito do CD do Portishead (já de cara, aquela falação em português paulistano sobre a “regra dos três”, em tom a meio caminho entre pastor evangélico e conversador new age): os timbres das programações fazem as modulações insólitas ficarem mais bonitas. A Gibbons é uma chorona cool e a atmosfera sonora parece com a foto da Estação de Rádio de Portishead. Gosto do Portishead há mais de dez anos: entrou com Karola, Candé, Marininha, Luísa Mariani e Natália Lage na casa de Milton numa festa. A “Disneylaândia” da Marilena. Na casa de Bituca não dava pra notar, mas no primeiro telefonema que dei lá estava Portishead na secretária. Achei bonito à pampa. Perguntei.

O disco do Camelo é bom à beça: ele toca violão muito bem naquela faixa de letra curta; a decisão de soar relaxado e livre de tiques reconhecíveis pode virar um novo tique se o ouvinte tiver má vontade – mas é assumida com bravura e realizada com decisão; eu gosto; é carioca num grau Marisa Monte; é um luxo que ele seja a estrela solitária do momento em nossa música inventiva.

Quero ouvir o disco de Arnaldo Antunes logo.

As palavras em caixa alta que foram citadas aqui como parte de artigo meu para o Pasquim eram declaração de Jimi Hendrix traduzida por mim. Foi da última entrevista que ele deu. Mandei pra aqui em cima da hora.

Vou ouvir o disco de David Byrne com Brian Eno na semana que vem.

Já ouvi muito do de Rodrigo Amarante com Fabrício dos Strokes (que trouxe a namorada): os ecos de pop rock do início dos anos 60 – com um toque country – soam com frescor inventivo que descarta ironia ou nostalgia; é música imediata; a gente não pensa em tiques nem em toques – apenas entra em contato com as emoções que motivaram as canções, ou melhor, nas emoções que as canções motivam. Mas a ida à Itália me interrompeu a audição, de modo que comentários mais responsáveis ficam para depois.

Quem vê assim pensa que ouço discos. Eu fazia isso em 1960: João Gilberto, Thelonious Monk, Chet Baker, Miles Davis, Sylvia Telles, Modern Jazz Quartet, Ray Charles, Maysa, Jimmy Giuffre, Dolores Duran, Ella, Sarah, Billie… Hoje ouço o que me mostram – e não ouço repetidas vezes cada coisa, como fazia então. E olha que ouvia esses que citei sem abandonar Caymmi, Chico Alves, Orlando Silva, Eliseth, Silvio Caldas, Aracy de Almeida cantando Noel – além de seguir com atenção irresistível o Nelson Gonçalves da fase Adelino Moreira, Anísio Silva, Paul Anka, The Platters, Pat Boone, The Diamonds e os sambas e marchas de carnaval, tudo pelo rádio. João Gilberto mais que tudo.

Ouço o que me atrai a curiosidade (por ouvir falar, por ler no jornal, por ter ouvido acidentalmente – no radio, em casa de amigo – um trecho que me excitou). Por exemplo: adoro Cornelius, o japonês de sons puríssimos, idéias rigorosas e sensibilidade violentamente delicada (se me é permitido o paradoxo – mas creio que sim, em contexto nipônico). Vou ouvir o novo disco do TV On The Radio, banda que o maluco do Folhateen sugeriu há um par de anos e cujos dois primeiros discos me encantaram (se bem que os ao vivo no Youtube nem tanto). Já disse que adoro Radiohead (a partir de OK Computer, mas com um gosto pelo pouco louvado Pablo Honey – que ouvi depois – e sem nenhuma rejeição a Kid A, ao contrário).

Aprendo algo com essas coisas e não lembro muito depois. Mas ouvir o CD do António Zambujo me prendeu à necessidade de ouvir de novo, de novo e de novo. Esse mesmo desejo senti quando Moreno me mostrou Buika cantando Mi Niña Lola. Quero ouvir muito, mais vezes, mais fundo. No caso do Zambujo, muito mais ainda. É a língua portuguesa. É a história do fado. É o fato de eu ter sempre só gostado de cantoras de fado, nunca verdadeiramente de cantores.

Amália reverbera em cheio em Mariza. Um espetacular virtuosismo vocal faz de Dulce Pontes uma das mais impressionantes cantoras da atualidade – embora sempre na beira do risco de parecer só virtuosística. Uma atenção ao desenvolvimento do fado – e do gosto na história do fado – faz de Mísia uma elegante guardiã da tradição: uma espécie de Nara Leão com mais canto e menos despojamento genuíno (o que não é desmerecer a cantora portuguesa, já que a brasileira é um caso extremo de inteligência crítica espontânea a serviço despretensioso do canto).

Mas há nos pianíssimos com arabesco no fado tosco de Dona Argentina da Parreirinha d’Alfama (e que sempre amei e amarei na Maria da Fé do Senhor Vinho, essa Maria da Fé que parece ter se afastado de mim, do Brasil, de nós, como se tivéssemos prometido algo que não podíamos lhe dar) algo que, para meu espanto, reencontro onde nunca esperei reencontrar: numa voz masculina. Admiro os fadistas homens, mas nunca cheguei a amar-lhes o canto. Fado para mim era cantado por mulher. Desde Ester de Abreu, da minha infância, até Mariza: mulheres, sempre mulheres.

Não é que o Zambujo me pegou de jeito? Há nele dois elementos que – para além do prazer imediato de ouvir-se uma voz naturalmente musical e relaxada – compõem para mim um grande passo: que seja um homem a cantar fado tão lindamente – e que o diálogo com a música brasileira se apresente tão orgânico, já não-pensado, já resultante de forças históricas que vêm se expandindo há décadas. O disco de Teresa Salgueiro é belo e emociona (finalmente com Carlos Lyra no destaque que merece). A atitude programática de Eugénia de Melo e Castro foi e é tocante, além de desbravadora. Mas o que se ouve em Zambujo é algo já que vai mais fundo. É um jovem cantor de fado que, intensificando mais a tradição do que muitos de seus contemporâneos, faz pensar em João Gilberto e em tudo que veio à música brasileira por causa dele.

Quando Zambujo canta “Nem às paredes confesso”, vamos ao fundo do fado e, ao mesmo tempo, sentimos a cultura da bossa nova e da pós-bossa nova já na corrente sangüínea da canção portuguesa. Quando ele canta um Vinicius com Antônio Maria (esse seu xará com acento circunflexo), a composição soa enfaticamente “moderna” e americanizada, embora o tratamento seja de fado. E o mais incrível é que “Lábios que beijei” não soa menos americanizada e “moderna” do que aquela. Não pelo arranjo, que é fadista, mas pelo Brasil que há ali. É de arrepiar e fazer chorar. Sentimos a força da cultura de língua portuguesa – aquela que, afinal de contas, mais me interessa – construindo-se. É que espero, ou melhor, exijo do Brasil a articulação do papo que ele tem de levar com o mundo – saindo de seu chiqueiro de atraso, intrigas e pequenezas.

Eu odeio o fato de o aeroporto de Salvador se chamar Deputado Luís Eduardo Magalhães: nem no “Polígono das Secas” de Diogo Mainardi há uma piada tão sinistra. Odeio a meia-trava que o ideologicamente amorfo PMDB pode significar no progresso politico nacional. Embora nunca se saiba: vai ver é daí que de repente vem algo que contribui para esse progresso. Ele existe: a vitória de honra de Gabeira no Rio, o repúdio à propaganda-perua de Marta insinuando bichice de Kassab, a importância maior dada ao bilhete único e aos CEUs do que à idéia de “a nossa turma tem de ganhar” são provas disso. Mas o chiqueiro ainda é a imagem dominante. Pois o disco do António Zambujo nos faz crer que viraremos esse jogo.

Gozado é que, procurando Zambujo agora no Youtube, achei-o cantando com Roberta Sá. Não sabia que ela o conhecia. Muito bom. Embora os outros vídeos dele que vi não estejam à altura do disco.

Outra que vi no Youtube – e essa me maravilhou – foi a caboverdiana Mayra Andrade cantando “Tunuca”, sentada no chão da rua com Mariana Aydar.

É gozado como em São Paulo existe essa polaridade PT/PSDB. No resto do Brasil não é assim. Em primeiro lugar porque ambos parecem sobretudo paulistas. Para mim, mais ainda, dois raminhos da esquerda da USP. Claro que li aqui gente dizendo que deixou-se de votar em Gabeira por ele “ser PSDB” – e notando que Paes é quem chamou logo um tucano para começar o secretariado. Sei que há petistas com essa onda por toda parte. E afinal o PSDB é “oposição”. Bem, só se for Serra querendo ser presidente contra uma Dilma qualquer de Lula. Mas o que pinta é a disputa dele com Aécio. Serra é feio que dói.

Vídeo sempre divino é o de Hermeto tocando garrafas e flauta com os rapazes dele dentro de uma lagoa (ou rio?: não vi correnteza). Um DJ de música minimal e house etc. foi quem me mostrou.

Depois de contar a história da crise financeira mundial passo a passo, a Economist chega esta semana com a nova de que os “emergentes” – que pareciam livres do contágio de derretimento – e eram a esperança da economia mundial mesmo quando o problema das hipotecas imobiliárias americanas já estava avançado – não parecem mais imunes. A boa notícia (que me fez lembrar o final do livro de Kapuscinski sobre a queda do Império Soviético – livro chamado “Império” de que gosto muito mais do que o homônimo de Toni Negri – e final que eu já citava no meu Verdade Tropical) é que os países grandes se sairão melhor. Grandes territorialmente e possuidores de economia diversificada. O Brasil tá aí. Mas vai atravessar as dificuldades inevitáveis com a mesma euforia de festa de posse do Lula em que já estamos viciados?

As letras de Zii e Zie soarão bem datadas quando o disco sair. Digo, aquelas que falam de fatos políticos pontuais, como a Base de Guantánamo (como alguém já notou aqui), assim como aquelas que têm uma versão muito peculiar minha da euforia afirmativa que nasce dessa nossa fase FH-Lula. Lygia Clark dizia que o tropicalismo era romântico: dependia das informações da hora: falar em Coca-Cola, Paulinho da Viola, passeatas, Brigitte Bardot era atrelar-se ao tempo – e preparar a própria obsolecência; enquanto ela, trabalhando na area de decisões formais e expressivas em princípio atemporais, tinha ambição clássica. Ela não o dizia com ar de superioridade sobre nós. Dizia com carinho e com uma rosa de plástico enfiada numa garrafa de Coca-Cola no meio da toalha de mesa que estendeu no chão de sua casa em Paris, para que nosso jantar parecesse um piquenique. Mas a Brigitte e as Cardinales não impedem que “Alegria, alegria” seja ainda minha canção mais querida por brasileiros. E o que é dito em “Diferentemente” sobre Osama e Condoleezza poderá ter uma graça futura que não podemos apreciar hoje. Sem falar nas profecias ultra otimistas que se ouvem em “Falso Leblon” e “Lapa”. Eu, na verdade, acho essas afirmações desaforadas mais interessantes em face da crise do que seriam se soassem meramente como reafirmação de uma aprovação ao governo de 80%.

Não sei o que é Zizi (ou Zie-Zie, ou Zy-Zy) em francês. (Será algum modo infantil de se referir a partes graciosas da anatomia masculina?) Mas vocês todos deviam saber o que é Zii e Zie em italiano. Escolhi o nome pela impressão curiosa (e bela) que essas palavras simples causam quando escritas juntas. As encontrei assim na tradução italiana de Istambul, de Orhan Pamuk, que li na ida à Turquia, presente de uma italiana espectadora assídua dos meus shows. É um modo livre, misterioso e revelador de coisas que não sei, de nomear um disco tão lançado à aventura.

Amo os argumentos de Cicero sobre as vanguardas. Mas entendo que não interessem a Augusto de Campos. Augusto é o autor de “Não” (uma versão encapsulada de muito do que Drummond diz num poema longo sobre o fazer poético, apresentada primeiro como um mini-objeto mimeografado – como os poemas “marginais” que lhe são contemporaneous – que ele distribuía entre amigos e possíveis leitores), um poema que extrai intensa poeticidade do modo como pensa seu próprio lançar-se no mundo, comentando assim a condição mesma da poesia. Ao ler os comentários (justamente) entusiasmados sobre os arrazoados de Cicero, me lembrei de que, ao ler “Dialética do Esclarecimento” (muitas veses atrapalha, em vez de ajudar, a escolha dessa palavra “esclarecimento”: sempre evitando “iluminismo”, “ilustração” ou mesmo “luzes”, o tradutor muitas vezes nos leva a esquecer o quanto é sobre o “esclarecimento” histórico, do século 18, que os autores estão falando), tinha encontrado algo que me fez pensar nos concretos. Sei que Haroldo gostava muito de Benjamin – e que a Escola de Frankfurt foi levada em grande consideração pelo grupo Noigrandres quando foi levado a pensar na dimensão política da aventura em que embarcavam. Augusto não gosta da apreciação que Adorno faz do jazz. Mas nunca desejou descartar os desafios teóricos que Adorno lançava. Fui olhar o livro e achei um dos trechos que me fizeram pensar em Augusto. Eis:

“O sentimento de horror materializado numa imagem sólida torna-se o sinal da dominação consolidada dos privilégiados. Mas isso é o que os conceitos universais continuam a ser mesmo quando se desfizeram de todo aspecto figurativo. A forma dedutiva da ciência reflete ainda a hierarquia e a coerção. Assim como as primeiras categorias representavam a tribo organizada e seu poder sobre os indivíduos, assim também a ordem lógica em seu conjunto – a dependência, o encadeamento, a extensão e união dos conceitos – baseia-se nas relações correspondentes da realidade social, da divisão do trabalho. (…) É essa unidade de coletividade e dominação e não a universalidade imediata, a solidariedade, que se sedimenta nas formas do pensamento”.

Não o cito como resposta argumentativa a Cicero, mas como uma indicação de que, entre outras coisas, o enfrentamento de questões como essa animou a criação da poesia concreta. E que é perfeitamente natural – e até saudável – que um poeta como Augusto olhe de longe (e com desconfiança) argumentos como o de Cicero, vendo pouco neles além do fato de que servem afinal para afrouxar o arco e instruir pensadores criticamente receptivos a uma poesia atada à sintaxe vista pelos concretos como expressão da opressão. Era uma luta que envolvia ambições também nessa área. Sou suspeito porque, dessa luta saiu a sensibilidade que não só entendeu o essencial do que eu pretendia fazer como prefigurou minuciosamente alguns argumentos que os tropicalistas viriam a formular (sem conhecer tais prefigurações), como é o caso da avaliação da Jovem Guarda e do “novo folclore urbano e internacional” que surgia, energético, na música pop de massa feita para a juventude. Mas é que sou ainda mais suspeito em relação a Cicero, que é um amigo íntimo e freqüente, com quem partilho inclusive comentários pouco simpáticos a Adorno e à Escola de Frankfurt.

Postei demais. É que, apesar de cansado da gravação, fui acordado, por ordem minha, para acompanhar a saída de meu querido filho adolescente para a escola: ele tem aula à 7, tem de acordar às 6, entrou o horário de verão e ele tem pena de desperdiçar as noites dormindo (embora, diferentemente de mim, não tenha dificuldade em adormecer). Acordei tendo dormido menos de uma hora – e não consegui dormir de novo. Aí sentei aqui e escrevi. E olha que ainda não saiu o catatau São Paulo/Rio. Mas quando sair, sairá curto: o que faz a gente escrever comprido é falta de tempo para editar os textos (mesmo na cabeça).

Evangelina, leia comment no post da foto do Moreno.

Heloísa, você que está lendo Verdade Tropical: já chegou no final, onde falo em países grandes?

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MARGINAL PINHEIROS
28/08/2008 3:22 am

Estou tão enfronhado no Rio com esse projeto da Obra em Progresso que tenho me sentido longe à beça de São Paulo. Vim aqui fazer o show com o Rei no belo teatrinho do Niemeyer no Ibirapuera e senti o tamanho da saudade que eu estava de Sampa. O teatro é elegante e induz à quietude. Se o show fosse no Ginásio do Ibirapuera, o ruído dos aplausos assustaria a boba da Folha e o burro do Estadão que escreveram sobre o show. Há anos não leio nada tão errado sobre música brasileira - e, mais uma vez, envolvendo Roberto Carlos e este transblogueiro que vos fala. Se eu tivesse direito a convite, teria chamado Augusto de Campos para estar presente ao encontro: foi ele quem escreveu o primeiro texto de apoio crítico à Jovem Guarda, prefigurando o tropicalismo e opondo a energia da turma de Roberto e Erasmo à pretensão da turma de Elis. São Paulo é isso. Quando vi a Ponte Otávio Frias em frente aos prédios pós-modernos da Marginal Pinheiros (prefiro prédios pós-modernos aos chamados modernos que encheram nossas cidades de desarmonia, em nome da racionalidade) me senti esperançoso. Dei entrevista a Jô (onde disse isso) e segui para o lançamento do livro do Mangabeira na Casa das Rosas. Agora (já às duas e meia da manhã) o provincianismo fraco dos articulistas dos dois grandes jornais locais não conseguiu abalar essa sensação. O Brasil de Tom, que é o Brasil que precisa estar à altura da bossa nova, cresce para fora e para longe do Brasil dos débeis de cabeça e de coração.

Escrevo isso só para mostrar aos que comentaram as críticas hilárias da província paulistana que também li e que fiquei com pena dos dois fanfarrões que não sabem nem escrever. O do Estadão então é inacreditável. Como é que qualquer editor deixa sair um texto com tantos erros de português, tantas redundâncias e obscuridades, tamanha incapacidade de articular pensamentos? A da Folha não sabe pensar mas exprime de forma primária esse seu não-saber. O outro, nem isso. O texto dele é tão mal escrito que a gente tem de adivinhar o que ele pensa - e chega à evidência de que pensa errado. Mas de alguma forma o artigo da mulher parece ser mais prejudicial do que o do cara. Não respondo aqui a ela nem a ele. Nada digo aos jornais que os publicaram. Deixo aos leitores paulistanos que viram o show. Eles vão escrever protestando. Os jornais talvez publiquem algumas das cartas.

Chega de verdade. “Lobão tem razão” vai ficando muito bonita dentro de mim. Cada vez que a canto ela parece melhor. Fui cantar um trechinho no Jô e fiquei emocionado. “Lapa” nos pareceu - a mim e aos caras da Banda Cê - boa de cara. “Lobão tem razão” cresce com o tempo (em nós, pelo menos). Agora vamos começar o trabalho de estúdio: três dias de ensaio e, na segunda, começa a gravação do CD. O DVD, feito de números em construção, tirados das apresentações no Vivo Rio e no Oi Casa Grande, vai ser um documento da Obra em Progresso. Mas o CD será a prova dos noves (é dos noves, sim: a gente parece que tem medo de pôr os numerais no plural! - até o Oswald de Andrade, naquela grande frase de um dos seus manifestos, escreveu “a alegria é a prova dos nove”; bem, não está errado, mas a própria prova é sempre feita com o uso da expressão “noves fora…”; e como eu já gosto de nove, essa idéia de noves - muitos, múltiplos noves - me dá enlevo). Muito aprenderemos sobre essas canções e suas concepções sonoras quando as ouvirmos gravadas em estúdio. De minha parte, estou curioso e um tanto impaciente. Suponho que a gente vai lançar o CD ainda este ano. O DVD, como recordação do processo que chegou até ele, fica para um pouco depois. Depois do carnaval?

Acho que todo o mundo devia ler o livro “O Que a Esquerda Deve Propor”, de Roberto Mangabeira Unger. É um livro pequeno, denso mas muito claro, que faz renascer o sentimento de “ser de esquerda” em nós. Há propostas concretas interessantes e sobretudo uma visão do mundo hoje que nos liberta para pensar. De minha parte, vejo ali formuladas muitas das idéias que tentei eu próprio encontrar dentro de mim. O capítulo sobre os Estados Unidos e seu papel no mundo hoje é obrigatório - e independe de você querer ou não apostar nas sugestões de mudanças institucionais que Mangabeira oferece. Leiam e vejam se não está ali tudo o que precisamos saber agora sobre a morte das formas de política de esquerda que conhecíamos - sem que seja necessário passarmos a ser conservadores. Há décadas que venho dizendo que Brasil não pode jogar fora a contribição que nos quer dar esse pensador. Agora vejo que o Brasil não vai fazer isso. Temos um dever de originalidade. Temos algo a dizer ao mundo. Mesmo que nunca o disséssemos - mesmo que nunca o digamos - nós o temos. Mesmo que o calemos ou nos recusemos a articulá-lo, temo-lo (e é com prazer que o digo assim, homenageando o português lusitano, que também é nosso e que não devemos ignorar: um dia desses vou escrever sobre lingüistas que agridem os gramáticos em nome de uma demagógica receptividade ao que às vezes é mera limitação opressora dos falantes - mas não vou voltar aos erros do carinha do Estadão).

Estou escrevendo qualquer coisa hoje porque fiquei muito pegado com os shows de Tom/Roberto e nunca mais tinha escrito nada. Mas voltarei.

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Letras da Obra
11/08/2008 6:31 pm

Atendendo a muitos pedidos, finalmente publicamos aqui as letras de todas as canções novas, que serão gravadas no próximo disco de Caetano Veloso. É só clicar em LETRAS, na faixa cinza do cabeçalho do blog, para ler todas elas (publicaremos por lá as próximas letras também). Já dá para todo mundo cantar junto nos shows do Casa Grande!

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O transronco da cuíca, segundo Alberto Mussa
11/08/2008 5:38 pm

Aqui fala o Hermano:

Outro dia, no meio desta Obra em Progresso, recebi email de Alberto Mussa - meu escritor brasileiro contemporâneo favorito (já escrevi sobre os motivos de minha admiração por sua obra neste prefácio), autor de Elegbara, O Trono da Rainha Jinga, O Enigma de Qaf, O Movimento Pendular, além de ser o tradutor/organizador de Os Poemas Suspensos: Al-Muallaqat - anunciando que estava concorrendo com samba enredo para o desfile de 2009 da escola de samba Salgueiro. A letra diz assim:

GRES Acadêmicos do Salgueiro - Carnaval 2009
TAMBOR

Presidente: Regina Duran
Carnavalesco: Renato Lage
Autores: Edgar Filho, Simas, Beto Mussa, Gari Sorriso, Bené do Salgueiro Intérprete: Rhichahs

Canto uma herança
da humanidade primordial
de árvores tombadas um tom grave
deu a cadência original
a idéia de um gênio anônimo
meu ancestral
caçador que na mata uma fera enfrentou
quando sua vitória quis anunciar
pôs o couro esticado, bateu, repicou
ôô ôô, ôô ôô

Festa na aldeia
lua cheia, um clarão
tem batuque a noite inteira
é magia, adoração

De ocidente a oriente
em diferentes formas se multiplicou

Qual é o povo
que não bate o seu tambor

Quem cruzou o mar
encontrou um som guerreiro
e desde então o baticum não quer parar
zambê, zabumba, ilu-abá
angoma, tumba, candongueiro
batá-cotô no meu terreiro
põe na roda o tambozeiro
o Brasil nasceu de mim
inclusão, cidadania
furiosa bateria
coração que bate assim

Menina, quem foi teu mestre?
um batuqueiro
que arrastava
o povo do Salgueiro

Não me lembrava de que Mussa era também compositor de samba. Fiquei alegre com a redescoberta e, como ele é um transescritor (e conhecedor admirável da história da cultura africana no Rio de Janeiro), achei bacana sugerir que lesse o nosso blog e publicasse por aqui suas reflexões sobre samba e transamba. Hoje ele me mandou o seguinte texto:

“Meus amigos, atendendo a um gentil convite do meu querido Hermano, deixo aqui umas reflexões, um tanto incipientes, sobre o conceito de transamba.

Em primeiro lugar, é importante tentar definir samba. Em termos musicais, a coisa parece simples: todo mundo reconhece a batida que define o gênero, criada nos arredores do Estácio, no princípio do século 20.

Historicamente, no entanto, há um pequeno problema: antes de surgir o samba do Estácio – do samba que a gente hoje reconhece como samba –, havia outras batidas, outras formas rítmicas também chamadas de samba, como o samba de caboclo (versão profana do cabula, batida característica dos candomblés de angola); ou o “maxixe” gravado por Donga, o famoso “Pelo telefone” (que os especialistas não classificam como samba propriamente dito).

Pode ter sido uma mera questão de evolução lexical; mas acho que há algo mais profundo nisso: os que chamaram de samba a forma rítmica surgida no Estácio queriam dizer alguma coisa.

Talvez uma história diga mais que reflexões abstratas. Um dos instrumentos de percussão de origem africana que logo foram introduzidos na execução do samba do Estácio foi a cuíca. Na África, a cuíca era um tambor sagrado, representava a misteriosa voz dos mortos. Poucos iniciados no culto dos antepassados podiam assistir à sua execução, os demais ficavam respeitosamente escondidos em suas respectivas casas, apenas ouvindo, aterrorizados.

Os sambistas do Estácio profanaram a cuíca, fizeram dela um tambor carnavalesco. De voz dos antepassados, passou a ser a gargalhada que se intromete de repente, no meio da percussão. Reparem que a maioria dos grandes cuiqueiros (isso pode ser visto, por exemplo, nas baterias das escolas de samba) toca de boca aberta, rindo, gargalhando – postura rara num tocador de surdo ou de repique.

É curioso que se fale normalmente em “choro” da cuíca, como se o riso embutisse ou fosse a mesma coisa que um lamento. Aliás, em “Pintura sem arte”, Candeia define o que é samba pra ele, e fala que o samba é esse lamento, não se reduz à música ou a ritmo. Mas esse já é um outro assunto.

O samba, portanto, é uma “profanação”. Entendo esse termo como uma espécie de radicalização da alegria, da irreverência, da liberdade. No samba de caboclo, profanavam-se as antigas danças de umbigada, a semba, ligadas a ritos de fertilidade e de fecundação; no “Pelo telefone”, o maxixe dos salões foi ainda mais carnavalizado, arrastado pelas ruas e levado aos morros.

Foi esse conceito que os velhos do Estácio quiseram traduzir quando importaram a palavra.

O samba, portanto, já nasceu trans. Não é apenas um gênero musical, definido por uma batida particular. É uma atitude existencial, nasceu como atitude existencial, uma atitude de radicalização da irreverência num contexto histórico de extrema opressão (talvez o Candeia entre aí: samba é lamento porque guarda a memória de suas origens trágicas, quando era perseguido, quando era crime cantar samba).

Não é o samba, evidentemente, o único gênero de música que expressa alegria e irreverência. A diferença é que no samba essas coisas são estruturais. Sem essa atitude, não existe samba.

Precisamente por ser mais uma atitude que uma forma musical, tão logo surgiu se ramificou em diversos subgêneros: passou a ser também samba-choro, samba de partido-alto, samba de enredo.

Por não estar reduzido a um mero padrão rítmico, o samba sempre teve capacidade de se adaptar e de se inserir em novos contextos e ambientes. Por exemplo, a famosa polêmica entre Noel Rosa e Wilson Batista não foi mais que uma discussão teórica sobre o samba como atitude. Wilson era partidário do samba-quilombo; Noel achava que, para que o samba continuasse a ser samba, tinha que ser samba-cidade.

E o samba se transformou com Noel, se transformou com Paulo da Portela, Cartola e Silas de Oliveira. Virou samba-canção e sincopado; ganhou até uma bossa nova. É um gênero em transcurso.

Me parece que o transamba é um ponto desse transcurso, mais um galho dessa grande árvore. Mas vai continuar a ser samba se mantiver a atitude existencial primitiva, que eu não consigo ainda definir muito objetivamente, mas que a gente sente o que é.

abraço forte,

alberto mussa”

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Istambul, Milton, Gil e muito mais
9/08/2008 4:03 am

Caetano escreve:

João Cabral de Mello Neto me disse que podia ler mil textos dizendo que um poema seu era genial ou que ele era o maior poeta brasileiro, mas se lesse um só que dissesse qualquer coisa contra sua poesia, esse não lhe sairia da cabeça. Mesmo que fosse o texto menos inteligente. Lembrei disso ao notar que tendo a responder a quem discorda ou critica. Será a incomensurável vaidade dos artistas (não vou dizer “dos poetas”)? Há quem diga que é a sede de discussão. Também. Quando estou de bom humor, penso que é a vontade de ser compreendido. Mas Björk disse que querer ser entendido é uma forma de arrogância.

Política é o fim? Lembro dessa música do “beijo na boca“. Muito boa. Em parte era uma conversa entre mim e Gil. E ele acabou entrando na política. Agora, acaba de sair do ministério. Minha resenha é mais para positiva. Tivemos grande visibilidade nacional e internacional para o ministério da cultura brasileiro; tivemos a sintonia desse ministério com o que se pensa de mais avançado a respeito de direitos na era da reprodutibilidade digital e da difusão pela internet (com Lessig saudando nominalmente Gil por ser o exemplo de atitude inovadora e libertária por parte de um governo); tivemos os pontos de cultura; tivemos a criação da casa do samba-de-roda, com restauração do solar de Araújo Pinho em Santo Amaro. Tivemos também os problemas: esboços de autoritarismo, como no projeto da Ancinav (que Lula cortou pela goela, que ele não é bobo), por exemplo. Não gosto muito de me imaginar tendo poder oficial. Ouvi o disco novo de Gil que me chegou pela Internet. Fiquei alegre com a animação dele em fazer coisas novas frescas, gostei de “Não gruda” (será isso mesmo?), adorei a menção a meu pai na música sobre minha mãe, chorei com a última estrofe de “Não tenho medo da morte” (aquela em que muda de “mas sim medo de morrer” para “mas medo de morrer, sim” - algo assim). Mas só ouvi uma vez, na viagem, e estou comentando de memória dessa única audição.

MILTON

Vi Milton e os Jobim em Milão. Já tinha visto no Mistura Fina. Mas lá foi ainda mais emocionante. Foi num lugar imenso, ao ar livre, e as pessoas todas ficavam hipnotizadas pela música. Principalmente pela voz de Milton. A musicalidade dele fica mais notável no mundo transparente e econômico dos Jobim. As decisões a respeito das notas de “Chega de Saudade”, em todas as suas passagens polêmicas, aparecem com uma clareza e uma naturalidade sobrehumanas. “Esperança perdida”, com aquela introdução deslumbrante, chega a doer no coração da gente. “Inútil paisagem”, lenta e em registro agudo, parece radiografada. Tudo isso (e tudo o mais) se deve em grande parte às relações peculiares de Milton com a bossa nova. Milton é um não-joãogilbertiano. É um gênio que se formou fora da zona de gravidade de João Gilberto. É como se ele fosse filho de Edu e Elis - e de Agostinho dos Santos - sem ter precisado passar por João. Paulinho da Viola (para citar outro gênio) é menos tributário da bossa nova do que Milton, mas é mais dependente da revolução joãogilbertiana, do minimalismo essencialista do mestre. Milton, ao contrário de Paulinho, tem tudo a ver com as relações da bossa nova com o jazz moderno, com a grande canção americana e com a música clássica impressionista, mas nada a ver com o canto íntimo e o violão enxuto de João. Seu canto pressupõe amplos espaços, cúpulas, céus. Ouvi-lo cantar Jobim com Daniel e Paulinho (e Paulinho Braga) é ser levado a estudar a música que há em Tom e no próprio Milton. A gente estuda sem pensar. E o vento de Caymmi entra como explicação de tudo. É a musicalidade caymmiana, tão amada por João Gilberto, que ressurge em sua grandiosidade e seus luxuosos mistérios, num pólo oposto às versões dos sambas de Caymmi que João apresentou ao longo da vida. Mas é também a única interpretação de um
clássico caymmiano tão adequada e genial quanto as de João Gilberto.

ISTAMBUL

Comecei a ler o livro de Pamuk antes de sair da Itália. Chegamos a Istambul de noite. Um rapaz gentil e suave nos recebeu e outro nos acompanhou no carro. Falava inglês. O motorista, não. Era bom ver a estrada perto do mar, palmeiras, ciprestes, árvores altas. O asfalto era todo bom e a iluminação forte e sem falhas. Passamos por ruinas romanas: colunas, paredes, um aqüeduto. Logo a polícia nos parou. O motorista mostrou documentos. Dialogaram (quase discutiram) em turco. Giovana e eu ficamos quietos. Quando liberaram o carro, o rapaz que nos acompanhava nos disse que o país estava passando por um momento delicado. Ele se referia à tentativa dos secularistas de derrubarem judicialmente o governo e cassar o partido do primeiro ministro. A acusação era de terem agido em desacordo com o princípio de total separação entre religião e Estado, peça central da constituição republicana instaurada por Atatürk no início do Século 20. O atual presidente é religioso, sua mulher usa véu, e o governo conseguiu mudar uma lei que proibia as moças de usarem véu nas universidades. Sinam, o rapaz que falava inglês, completou dizendo que a tendência fundamentalista cresce na Turquia. Eu tinha lido na The Economist sobre isso (eu não disse que leio The Economist?) e, como um liberal inglês, concordava com a tese da revista de que não seria bom se se derrubasse esse governo religioso mas liberal. Sinam discordava docemente: um infiel, descrente e moderno, ele achava que os secularistas tinham razão. Eu não entendia bem o inglês dele (não entendo bem inglês) mas acho que, em suma, ele dizia que mais vale lutar diretamente pelas coisas que você acha certas do que buscar muita sutileza estratégica. Ele também dizia que a Turquia vai entrar na União Européia e que tanto os secularistas quanto o governo querem isso. Não insisti com a pergunta “e os fundamentalistas?”. Aprendi muito pouco sobre tudo isso com Sinam. Mas estávamos já no apartamento grande e luxuoso de um hotel com bossas orientais e visão ampla para o Bósforo. Ah, o Bósforo! Tínhamos atravessado uma ponte sobre o Chifre de Ouro. Perguntei a Sinam se tínhamos cruzado o Bósforo. Não. Era só o Chifre. Ele me disse que talvez do banheiro eu visse a ponte sobre o Bósforo. Fui ao banheiro e vi, através de uma parede-janela de vidro (que tentei abrir, iludido pelo reflexo do piso, pensando que ela dava para uma varanda, mas descobri no dia seguinte que ela dava para uma praça asfaltada 18 andares abaixo), o Bósforo. De noite, as luzes das margens, as embarcações iluminadas, a ponte. De dia, o azul profundo, as diferentes formas de a superfície da água se encrespar (segundo os ventos por cima e as correntes por baixo), as torres finas das mesquitas. É extraordinariamente bonito e também é emocionante pensar que esse estreito separa a Europa da Ásia, que Constatino quis chamar a cidade de Nova Roma, que os otomanos a tomaram e dali comandaram o mundo muçulmano por séculos. Lembrei de ter lido, há muitos anos, um livro sobre o Islã, escrito por um árabe, em que os turcos aparecem como um povo opressivo que desfigurou o espírito essencialmente tolerante dos muçulmanos, criando uma imagem que era o oposto do que ocorrera no Califado de Córdoba, quando cristãos e judeus viviam em paz num mundo islâmico. É um livro cujo título e autor gostaria de lembrar agora, pois foi escrito muito antes do Taliban e do 11 de setembro.

A noite de Istambul é animada como a de Buenos Aires ou de Madri. Muita gente nas ruas pela madrugada. Nas praças, nos bares, nas calçadas. Muitos táxis. No dia da nossa chegada, alguns generais foram presos supostamente por planejarem um golpe contra o governo. Muitos militares são secularistas. Mas The Economist insinua que eles não são mais liberais do que o atual primeiro ministro. A equipe técnica e de produção do meu show saiu para passear enquanto eu dormia de manhã. Ao voltarem, Giovana estava nervosa porque, ao tirar fotos no Grand Bazaar, foi ameaçada por uma senhora de roupa preta e só com os olhos à mostra. Ela gritava e queria tomar a câmera da mão de Giovana. Giovana ficou em pânico, quis correr, foi difícil. André Botto, o nosso iluminador, tentou socorrê-la. Mas havia o risco de os homens que a cercavam reagirem e criar-se uma briga perigosa. Bahar, uma das moças da produção local, chegou a tempo de esclarecer para a mulher de véu negro que a foto podia ser apagada. No dia seguinte o consulado americano sofreu um ataque no qual 6 pessoas morreram. Mas nossos acompanhantes turcos estavam calmos e nos transmitiam calma. À noite, ouvi uma explosão que fez tremer o hotel. Fui olhar pela janela. Em pouco tempo vários carros de polícia evacuaram a imensa praça asfaltada em frente do hotel. Uma voz se ouvia por auto-falante. Um grupo de fotógrafos obteve permissão para entrar na àrea isolada e flashes explodiam, com as câmeras todas apontadas para um lugar no chão da praça. Do décimo oitavo andar não dava para eu ver nada. Parece que os policiais acharam outro explosivo ali e o desativaram. Liguei a televisão em busca de notícias mas só vi um programa de variedades em que se apresentava um rapper turco, com todos os trejeitos dos rappers americanos (e dos seus imitadores franceses, espanhóis, ingleses, italianos, portugueses…). A apresentadora super perua reproduzia os movimentos dos braços que todo rapper faz, e chamou alguém da platéia que soubesse a a letra toda. Veio um rapaz magro e feio, e, tal como se vê crianças brasileiras dizendo as rimas do “Diário de um detento”, repetiu toda aquela cascata de palavras em turco, para gargalhadas da apresentadora e de seus convidados - e ovação da platéia. O refrão com melodia era bem árabe (bem uma variante turca do canto melismático árabe), o que dava o tom local, mas, curiosamente, remetia a muitos raps americanos que fazem refrães com melodia árabe clichê. As voltas que o mundo dá. Voltei à janela e a praça ainda estava deserta e cercada de carros de polícia.

O show em Istambul foi numa concha acústica parecida com a do Teatro Castro Alves em Salvador. Muito bom. Platéia turca. Reação admirada e quente. No quarto do hotel, segui lendo Orhan Pamuk e sua Istambul em preto e branco, triste de saudade do império otomano. Mas ao olhar pela janela ou ao andar pela praça em frente à Mesquita Azul, ao olhar incrédulo para a cúpula sobrenatural dentro de Santa Sofia (que foi catedral bizantina mas virou mesquita e hoje é museu), Istambul sempre se reafirmava intensamente colorida. Senti uma certa sensação de opressão em Moscou e mesmo um quase medo. Em Istambul, com toda essa tensão política, medo nenhum.

Tenho de corrigir: o melhor show da turnê foi em Viena. Na Ópera de Viena. Não só a acústica era no mínimo tão boa quanto a de Luxemburgo: o espaço, a inteligência natural da platéia, o ar culto da sala - tudo fez com que eu cantasse melhor do que posso. Trouxe um taco do chão do palco: presente do diretor da instituição.”

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Preparando o retorno ao Brasil e ao canteiro da Obra
27/07/2008 5:45 pm

Caetano, em comunicado provavelmente final desta turnê européia, sintetiza parte do que aconteceu por lá, por aqui (neste blog) e do primeiro show do Vivo Rio até aqui (nesta Obra, limpando o terreno para sua continuidade):

“Transamba é transcriação do samba em chave nova. Bossa nova, esquema novo, novos baianos. Marcos Moran e o Samba Som 7 já tinham o mais transamba dos sambas do Chico, o mais do Paulinho, Antonio Carlos e Jocafi, “O Lado Direito da Rua Direita” e Novos Baianos. Além de guitarra no samba (Novos Baianos já eram isso). Haroldo de Campos chamou de “transblanco” a tradução (”transcriação“) que fez do “Blanco” de Octavio Paz. Pedro Sá vive lendo Octavio Paz. Está apaixonado. Terá lido esse “Transblanco”? Vamos tocar aí no Rio na segunda quinzena de agosto.

Como tudo o que faço em música, a inspiração prática, técnica, tangível, material do meu “transamba” veio de Gilberto Gil. A batida que fiz tocando “Minha flor, meu bebê” - e que está em “Perdeu” e é a base por trás do tratamento das outras canções, inclusive a de Bosco/Blanc - vem de um jeito que Gil inventou para estilizar o samba no violão, nos anos 70. Não sei se há gravações profissionais dele tocando assim (Gil muito freqüentemente fazia coisas em casa que sumiam nos arranjos de estúdio). Mas seguramente foi imitando (limitadamente) o que ouvia Gil fazer que construí a versão de “Madrugada e amor”, acho que do disco “Qualquer Coisa”, e mesmo minha versão de “Eleanor Rigby”, que eu acho linda, com Perinho Albuquerque fazendo guitarra solo sobre meu violão gilbertogilesco e eu cantando um pouco como Amália Rodrigues (mas em que os ingleses e os americanos não viram graça, que eu saiba, assim como não vêem em nada do “A Foreign Sound”).

A catedral de São Basílio é linda como um sorvete; os lutadores da porta do hotel de Caserta são grande cena homoerótica masculina; Noel não é racista nem misógino (essa racialização e sexualização dos argumentos políticos é algo que desejei desde antes do tropicalismo mas hoje tenho de reconhecer quanto pode - como uma vez me disse João Gilberto - atrapalhar o processo: eu disse aquilo sobre o “Feitiço da Vila” porque quero lutar contra esses engessamentos, como quem diz: então vamos fazer exigências politicamente corretas incômodas pra ver se agüentamos); Os “Três travestis” ressuscitaram graças ao caso Ronaldo (que não merecia ter a vida invadida por ameaças que usam o “jornalismo-fofoca-de-celebridades” como arma): o bom disso é a canção - e a oportunidade de sugerir: Jô, meu querido Jô Soares, faz uma entrevista com a Keila Simpson, a principal informante do trabalho feito sobre o travestismo no Brasil pelo antropólogo americano Don Kulick; ela, Keyla, é uma pessoa incrivelmente articulada e tem muito a contar sobre a realidade da vida dos travestis brasileiros (vive em Salvador mas já viveu em Milão e sabe de tudo: está ligada a organizações de humanização da condição das travestis)! - e o livro “Travesti” acaba de sair traduzido em português; amigos americanos liberais (isso lá quer dizer “de esquerda”, ao contrário do Brasil) me dizem que votaram em Obama e gostam dele mas já sabem que ele vai decepcioná-los: bem, eu não me decepcionei com Lula porque não esperava coisa muito diferente do que há - e não votei em Obama; a fantástica frase “prefiro Obama a Hillary porque gosto muito mais de preto do que de mulher” foi outra provocação com a racialização e sexualização da política, mas também, e principalmente, uma homenagem à memória de Pierre Verger:

Tendo Verger ido a minha casa na Bahia com umas moças que fizeram um documentário sobre ele, e vendo que o VHS não reproduzia as cores, me segredou: “assim é melhor, tudo em preto e branco; pra ficar perfeito só falta parar a imagem”. Perguntei porque ele não gostava da imagem em movimento. Ele disse que nunca gostara de cinema porque “em movimento você não consegue uma composição realmente bonita”. Assistimos ao documentário em preto e branco. Depois que acabou, voltei à conversa com ele: - “você me explicou por que não gosta da imagem em movimeno; mas e as cores, qual o problema com as cores?” Ele respondeu: “ah, cores não, cores são uma vulgaridade”. Achei a resposta insatisfatória, embora compreensível: era um lugar comum que ele repetia com a alegria de quem nem precisa elaborar. Adotei esse tom menos responsável e disse: “você gosta mesmo é de preto-e-branco”. Ele, com maior alegria (e maior originalidade do que na resposta elaborada), contestou: “gosto muito mais de preto do que de preto-e-branco”.

Os shows solo aqui foram muito bons. Eu não esperava. Os melhores foram o de Luxemburgo (a acústica do teatro!), o de Viena, o de Roma e o de Oeiras (nos jardins do palácio do Marquês de Pombal). Houve duetos memoráveis com Stefano Bollani em Perugia e Cagliari. Mas nessas outras cidades foi tudo ainda mais bonito. Bollani é um jovem gênio do piano de jazz que gravou um disco chamado “Carioca” com músicos brasileiros (inclusive meus amados Marçalzinho e Jorge Élder), onde ele mostra uma clareza incrível na compreensão do espírito do choro. Mas nesses dias não cantei “Minha voz, minha vida” como em Viena ou Oeiras. Sobretudo não cantei “Odeio” e “Homem” em versões eficientes para violão solo que me surgiram aqui (nada mudou, mas é diferente). O pior show foi em Moscou: não tinha público propriamente, era um show fechado para empreendedores imobiliários russos. Muito charuto. Tenho horror a charuto. Eram jovens com terninhos new wave fumando charuto. O lugar tinha decoração yuppie também. Mas encontrei Tânia Maria e tocamos juntos, o que foi uma grande alegria. Fizemos “Manhã de carnaval” para nós mesmos e ficamos felizes com isso. “Manhã de carnaval” é a canção de Bonfá para o “Orfeu” que Tom Jobim chamava “aquela música russa” (e cuja coda ouço sempre por trás de “Stairway to Heaven“). Fiquei surpreso com vienenses me esperando à porta do hotel para pedir autógrafo e fazer fotografia. Uma gente de todas as idades, com jeito de solitária, sem falar português, falando inglês com sotaque forte e exibindo CDs antigos e novos meus, além de capas de discos de vinil. Jorge Mautner não saía da minha cabeça. Queria que ele visse os austríacos em plena brasilificação. Talvez eles saibam quão perto estão da outra opção. Istambul: o show lá foi lindo mas a cidade merece texto à parte.”

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Transorvetão - de Ferrara a Istambul
9/07/2008 8:03 pm

De seu giro pela Europa e pelas bordas da Europa, Caetano manda mais notícias:

“Há quem diga aí que gostaria que eu escrevesse sobre os outros lugares por onde passo nesta turnê que interrompeu a Obra em Progresso ao vivo no Rio. Afinal, só a Rússia? Digo que os dois motivos que me levaram a comentar Moscou estão ausentes aqui: dias de folga (lá, tive quatro dias; aqui, nenhum ainda) e a novidade e relativo exotismo do lugar (aqui é Europa ocidental, Itália agora, lugares onde já vim dezenas de vezes). Embora esteja em Ferrara (a terra de Antonioni) pela primeira vez, vejo uma cidade italiana, com suas belezas particulares, é claro, mas dentro de um estilo conhecido. E não tenho tempo. Escrevo sem cuidado porque espero o avião para Istambul. Bem, vou ter um dia de folga lá ­ e Istambul é grande novidade em minha vida.

Mando duas fotos da única peça arquitetônica que encontrei em Ferrara capaz de rivalizar com a Catedral de São Basílio:

Eu próprio tirei as fotografias (assim como aquela do monumento a Pedro, o Grande, o Navegador etc.). Mas todas as outras fotos de Moscou (as melhores) foram tiradas por Giovana Chanley. Eu nunca tive uma câmera e quase nunca tiro fotografias. Lembro do tempo em que só os japoneses tiravam fotografia de tudo o tempo todo­ e nós achávamos engraçado. Bepe, nosso guia sardo na Itália, contou que os japoeneses da equipe que rodava um documentário sobre a Sardenha tiravam fotos de todos os pratos que iam comer nos restaurantes. Eu, que queria ser cineasta, acho chato quando se tira muita foto da gente nas praias, no carnaval, nas celebrações, porque parece que tudo perde o gosto. Não me vejo tirando foto do meu almoço. De fato, a interrupção do ritmo de uma situação pelos constantes arranjos para fotografar enche o saco. Há décadas que vejo coisas incríveis no carnaval da Bahia e me prometo levar uma câmera para registrar. Mas sempre deixo para o próximo ano pois não quero perder o carnaval. Fotografar ou filmar é como sair dali e olhar de fora. E parar para ser fotografado atrapalha.

***

Mas será que visões de Moscou, de Luxemburgo, de Istambul - ou a volta à Itália, à Áustria, à Espanha ou a Portugal - contribuirão com alguma coisa para as canções que tento continuar compondo para o repertório de “transambas”? Não sei. Sinto saudades dos shows no Vivo Rio. Hermano e Paulinha me contam que provavelmente, na minha volta, teremos muita atividade neste blog (acompanhamento dos ensaios e das gravações do disco) mas nada de show mais. A não ser que a gente tivesse deixado o CD para o ano que vem. Não era meu plano.

Como ouvi dizer que vamos também dar notícias da gênese de novas canções, conto agora que comecei uma que deve se chamar “Lobão tem razão” ou “Chega de verdade”. Já existe em parte, é transamba, e já contém as duas frases que lancei aí acima como candidatas a título.

***

Estou em Istambul - e foi aqui, num quarto enorme de hotel, todo envidraçado, de onde se vê o Bósforo (de onde virá o Pavel turco para dizer que está tudo errado?) e, naturalmente, o extremo oeste da Ásia. Aliás, voar de Roma a Constantinopla foi como reler o livro de Gibbon em menos de duas horas. Foi rever o que aconteceu nesta parte nuclear do nosso mundo desde Augustus até Maomé. E passando pelas guerras entre as facções do cristianismo, com Jorge de Capadócia odiado pelo autor (talvez por ser inglês ele teve mais gosto em desancar o padroeiro da Inglaterra), e, antes, pelas barganhas entre Roma e os bárbaros. Adoro os “alamanos” terem sido uma tribo germânica que se autodenominava assim, significando que eram “todos os homens”. E outra, da Gália, cujos indivíduos se chamavam de “francos”, significando que eram “livres”. Mas eu olhava pela janela do avião, emocionado, e pensava que o mais bonito é o estilo de Gibbon.

Mas Istambul não é só “Lobão tem razão” não. Depois, quando eu estiver de volta à Itália (ou quando eu já estiver na Espanha), eu conto.

***

De uma vez por todas: apesar da gracinha das fotos do sorvetão na Gelateria de la Luna, eu não acho a catedral de São Basílio cafona nem brega nem kitsch. Discordo de Gullar nesse ponto. Acho que disse tudo quando a chamei de transbrega. Mas não disse não. Ela é linda.”

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Recados de Caetano, agora em Luxemburgo
29/06/2008 12:05 pm

Caetano manda outros comentarios e uma foto do meio de sua turnê solo na Europa:

“Postei conversa fiada sobre Moscou e, como não mandei foto da catedral de São Basílio, o comentário sobre esta apareceu perto da foto de uma das catedrais de dentro do Kremlin, com elegantes cúpulas douradas. Esta aqui é que é a foto da São Basílio, com suas cúpulas transbrega:

Há uma blasfêmia aí: “brega” originalmente quer dizer “puteiro” e, se a palavra ainda tivesse essa conotação, seria escândalo usá-la para caracterizar uma catedral ortodoxa. Aliás, que choque a palavra “ortodoxa” ser usada para descrever uma peça de arquitetura como essa. Mas transbrega pode ser bom mote para um transamba.

Para Sandroni:

Só quero te lembrar que minha fala no show é entretenimento, comédia (um jovem espectador disse a um jornalista que Obra em Progresso era legal porque, além de cantar, eu fazia “stand up comedy”). Como um comediante, além de divertir posso querer provocar discussão em outros níveis, mas ali é um número, espetáculo. Não se pode perder isso de vista. Foi preciso fazer isso para chegar a dizer que eu estava sendo “miolo duro”, quer dizer, expressão séria intelectual apresentada como tal. Mas valeu a pena. A parte final do seu argumento vai fundo no assunto. Me fez também pensar mais sobre a canção de Noel.”

PS DE CAETANO, 18/07/2008:

“Voar da Russia ao Luxemburgo é sair de um dos maiores para um dos menores países do mundo. É também sair das ruínas monumentais do comunismo - com avenidas de oito pistas engarrafadas, prédios que se parecem com o antigo Ministério da Guerra no Rio, onde Gil e eu ficamos inicialmente presos durante o período militar, e onde hoje fica o Comando Militar do Leste, tão próximo ao Morro da Providência, de onde onze soldados levaram três rapazes e os entregaram à tortura e ao assassinato no Morro da Mineira, sendo que os prédios de Moscou não me contam nenhuma história clara, metrô superlotado, olhos de um azul estranhamente intenso - para a urbanidade equilibrada e minuciosamente higienizada, quase esterilizada, das bolhas de perfeição do ocidente moderno - com moças de cabelo curto louro e olhos azul-cinza claro, quase sem cor, andando de bicicleta pelo asfalto impecável, prédios em proporção com o tamanho das elevações, carros caros e sóbrios, estátuas pequenas e com certa estilização modernista (a da grã-duquesa Charlotte fica entre personagem de conto-de-fada, mendiga e modelo; o monumento aos comediantes na Praça do Teatro parece cena européia vista por desenhista de Walt Disney), enfim, para um mundo que é como que o núcleo do que é real hoje mas que transpira irrealidade. Moscou, em comparação, é, ao menos aos olhos de um brasileiro, muito mais real. Luxemburgo, um grão-ducado parlamentarista, tem muitos bancos. Mais sigilosos, me diz o motorista português, do que os suíços. Paraíso? Bem, o vale que corta a cidade é deslumbrantemente profundo e é misterioso sem ser ameaçador. Luxemburgo é tudo o que desejamos em matéria de civilidade, é o que amamos no legado de Jaime Lerner em Curitiba, é o céu dos pedestres. Muitos portugueses e um bom número de brasileiros (os portugueses são 16% da população do país). O show foi num teatro esplêndido - feito pelo mesmo arquiteto que está fazendo a Cidade da Música no Rio (coisa de que os luxemburguenses me falaram com muito orgulho) - com uma acústica perfeita. Os protugueses e brasileiros na platéia cantaram “Terra”, “Desde que o samba é samba” e “O Leãozinho”, o que ajudou os luxemburguenses (sempre quero escrever “luxemburgueses”, mesclando uma ponta de crítica ao relativo tédio local e de elogio da classe vitoriosa na Revolução Francesa), mas o silêncio profundo e o som bonito é que fizeram do show em Luxemburgo um dos mais bonitos que já fiz. A sala me induzia à concentração. Até o violão saiu bem tocado. Quer dizer, dentro das minhas imensas limitações consegui só fazer interveções adequadas, sentidas, sinceras - e todo ornamentozinho que me ocorria era equilibrado e mesmo bonito. Fiquei emocionado. Escrevi para um amigo dizendo que tinha sentido alívio por sair de Moscou e alegria ao chegar ao Luxemburgo, à sociedade ocidental moderna, liberal, mas que no segundo dia já sentia saudades de Moscou, já que o ar de fim-de-linha de Luxemburgo me exasperava. Mas o teatro (meu show!) e o vale ficaram fora de toda crítica, de todo esboço de crítica.

Um garoto que vi todas as noites na platéia do Obra em Progresso me contou que Arenas, o escritor cubano, disse serem o comunismo e o capitalismo equivalentes, uma vez que ambos nos dão com o pé na bunda, mas que no comunismo você leva o pé na bunda e é obrigado a aplaudir, no capitalismo você pode gritar - e Arenas, que tinha “fugido” de Cuba para os Estados Unidos, concluiu: “eu vim aqui para gritar”. Não lembro de ter ouvido isso no filme de Julian Schnabel adaptado do livro dele. Mas a história é boa. O Brasil não tem um capitalismo plenamente desenvolvido. Isso é insatisfatório. Mas, já que também não se pode mais dizer que não temos uma economia capitalista consistente, vemos uma oportunidade de experimentar algo novo com a combinação capitalismo/democracia/liberalismo. Algo novo incluiria algum socialismo? Talvez algo além disso.”

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Caetano responde a Carlos Sandroni: ainda o Feitiço
28/06/2008 2:55 pm

Caetano mandou esta resposta de Moscou:

“Adorei ver que o Sandroni pensou mais sobre o assunto. Foi para isso que levantei a questão em Santo Amaro. Claro que “Feitiço” não se propõe como superação de “Feitiço da Vila” assim como “Dom de iludir” não pode ser tomada como superação de “Pra que mentir”. Em nenhum nível. De cara, “Feitiço da Vila” não deixa de ser uma obra-prima por conter trecho ostensivamente contra a cultura afro-brasileira. Nunca imaginei Noel Rosa como sendo racista. E nem resquícios vejo nele de homofobia. Quando caracterizei Wilson como preto, macumbeiro e veado, fiz caricatura dos preconceitos da classe média - e tinha na cabeça as histórias sobre Ismael Silva e o samba gay de Noel (que planejo cantar na seqüência do “Obra em Progresso”), de que tomei conhecimento no livro de Didier e Máximo. O livro deles é muito bom e rico mas às vezes me parece um pouco idealizador da figura de Noel. O livro e o estilo de Sandroni me convencem sempre mais.

É um prazer ler esse texto que ele nos mandou agora. Mas o erro dele foi tomar essa grande cena de sub-intelectual de miolo mole que fiz numa das noites do projeto “Obra em Progresso” como sendo expressão de miolo duro. Como ele mesmo notou, nem sequer apurei o status dos versos que ali apareceram como sendo os finais. Sei que não estão na gravação de Aracy dos anos 50. Suponho tê-los ouvido num disco tardio de Sílvio Caldas. Lembrava do cadeado e do ladrão mas nada do chorar pra mamar em ritmo de samba. Esses dois versos que precedem o do cadeado me foram apresentados por Jorge Mautner e eu os somei aos dois “últimos” para ter uma estrofe inteira e dar graça ao comentário que, sem ter planejado previamente, decidi incluir a respeito da parte problemática da letra.

O feitiço sem farofa, sem vela e sem vintém, que nos faz bem é que é a parte dura, com a indicação de que o outro, que seguramente nos faz mal, não é decente. Não há nada de comparável a isso na “Lenda do Abaeté” de Caymmi. Nesta, o medo do sobrenatural é apresentado como prova de que a lagoa é sagrada. Diz-se que um pai até castiga o filho se ele se aproximar dela porque se tem orgulho da carga sacra que ela contém. É, como tudo em Caymmi, algo próximo da mera propaganda turísitca da Cidade do Salvador.

Nunca li o livro de Yvonne Maggie. Apenas assinei com ela o documento contra a instituição de cotas raciais que enviamos ao Supremo Tribunal. Mas sei que “feitiço” não é uma palavra em geral tomada como positiva. Por causa de ter assinado com Yvonne aquela carta, recebi cartas magoadas - às vezes iradas. No mesmo show em que comentei “Feitiço da Vila” respondi, com carinho, a uma delas. Abri o show cantando o mantra do “mulato nato” de “Sugar Cane Fields Forever”, do Araçá Azul, e argumentei docemente contra a recusa do termo “mulato” por parte do cineasta Joel Zito, que foi um dos que me escrveram. O comentário ao samba de Noel veio, em parte, como complemento dessa discussão. Era, num show, fazer um largo número sugestivo em que justapunha Noel e Joel.

E a exposição dessa imensa pulga que está atrás da minha orelha desde pelo menos 1965 (quando escrevi artigo contra o livro de Tinhorão, que era adorado por parte da esquerda da época) foi, como a própria assinatura do manifesto contra as cotas, um modo de complexificar a discussão. E sua parte mais agressiva não vai contra Noel mas contra a tradição crítica iniciada por Tinhorão e que, se foi às vezes hostilizada e mesmo ridicularizada, nunca foi suficientemente enfrentada em alguns dos pontos mais graves - e a avaliação de Noel como classe-média com a autorização para fazer samba que é negada a Carlos Lyra é um desses.

O problema não é se Noel era racista mas se Tom Jobim é um usurpador. Pois Noel, autor desse verdadeiro manifesto da entrada da classe média no samba (o bacharel, o feitiço decente, que nos faz bem) é sempre apresentado como “o amigo de Cartola”. Sem dúvida “Palpite infeliz” (samba talvez ainda mais belo do que “Feitiço da Vila”) traz a palavra final: “Estácio, Salgueiro e Mangueira… sempre souberam muito bem que a Vila não quer abafar ninguém, só quer mostrar que faz samba também”. Mas os versos que contêm tal argumentação são prova de que não passou em tão brancas nuvens a agressão contida em “Feitiço da Vila”. Sobretudo na cabeça do próprio Noel.

Zabé come Zumbi, Zumbi come Zabé. Essa é minha fórmula definitiva. Amo a Princesa Isabel. Joaquim Nabuco conta, em “Minha Formação”, que André Rebouças lhe escreveu dizendo: “a República foi proclamada CONTRA o 13 de Maio”. Conheço a informação de que Isabel planejava indenizar os ex-escravos. Ressaltei que Noel frisou a origem do nome do bairro porque ouço ecos da frase: “a culpa é da Princesa Isabel”, um refrão racista à brasileira, isto é, bem relaxado e com toque de humor, usado com freqüência na minha infância quando alguém queria se queixar de algum prejuízo que lhe tinha sido causado por alguém que fosse negro. A Princesa Isabel, no meu ambiente de festejos anuais do 13 de Maio, foi sempre, no meu coração, a figura mais amável da história brasileira.”

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Carlos Sandroni responde a Caetano sobre o Feitiço de Noel
28/06/2008 2:54 pm

Vídeo infeliz

Carlos Sandroni - Junho de 2008.

Minha admiração por Caetano Veloso é enorme. Ela começou quando eu tinha uns nove anos de idade e acompanhava na televisão o programa “Esta noite se improvisa”, comandado por Blota Júnior, do qual ele era participante habitual. Continuou depois, quando fui assistir, com treze ou quatorze anos, o show “Transa”, que marcou a sua volta do exílio. E de lá pra cá só fez aumentar ao longo dos anos, LPs, filme, CDs e livros. Por causa disso, preferiria estar sempre de acordo com Caetano - na verdade, isso é freqüente. Ou quem sabe, ficar, em relação ao que diz, naquele estado meio bestificado (ou talvez hiperinteligente) de quem canta uma boa canção, quando carece totalmente de sentido saber se há ou não “acordo” com o conteúdo da letra.

Apesar disso, precisei me manifestar em desacordo com Caetano Veloso em setembro de 2007, por ocasião do Seminário sobre samba de roda organizado pelo MinC e pelo Iphan em Santo Amaro, no Teatro Dona Canô. O tema era a canção “Feitiço da Vila” de Noel Rosa, já então por ele acusada de racismo, e em especial sua parte central, que canta:

“A Vila tem
Um feitiço sem farofa,
Sem vela e sem vintém
Que nos faz bem
Tendo nome de princesa,
Transformou o samba
Num feitiço decente, que prende a gente”

Acontece que esta canção foi analisada por mim no livro Feitiço decente - transformações do samba carioca, 1917-33 (Rio de Janeiro: UFRJ/Jorge Zahar, 2001, p.169-85); ocasião em que não só não achei nela o menor traço de racismo, como ao contrário, pretendi considerá-la um marco no processo de aceitação, pela sociedade envolvente, das manifestações musicais dos negros e mestiços pobres do Rio de Janeiro - em outras palavras, à sua maneira uma canção anti-racista! Daí a escolha do título do meu livro: “um feitiço decente, que prende a gente”, é a própria definição do samba proposta por Noel Rosa na sua letra.

Em 2007 eu já conhecia a canção “Feitiço”, incluída por Caetano em seu CD Eu não peço desculpa (com Jorge Mautner):

“Nosso samba
Tem feitiço,
Tem farofa,
Tem vela e tem vintém,
E tem também
Guitarra de rock’n'roll, batuque de candomblé
Zabé come Zumbi
Zumbi come Zabé
(…)
Tem funk, o feitiço indecente
Que solta a gente
Aquele abraço…”

É uma excelente canção e uma “resposta” a Noel Rosa, no nível em que “Dom de iludir” é uma resposta a “Pra que mentir”, e em que, falando de maneira mais geral, a geração musical de Caetano, e ele muito em especial, tem estado num diálogo permanente com toda a canção brasileira que a precedeu. Tal diálogo é amiúde “crítico”, e é em parte graças a ele que a música brasileira é cada vez mais tradicional e cada vez mais renovada. Neste contexto, a referência a “Aquele abraço” vem muito a propósito, pois a canção de Gilberto Gil foi vista por alguns como uma reconciliação pós-tropicalista com a MPB mais tradicional, tendo talvez por isso recebido, em 1969, o prêmio Golfinho de Ouro, outorgado pelo Conselho de Música Popular Brasileira do Museu da Imagem e do Som. Este Conselho, composto pela nata da época dos pesquisadores de MPB (sem contar Augusto de Campos, é claro), incluía alguns bastante avessos ao tropicalismo, e todo este contexto levou Gil a recusar o prêmio. Ele fez isso através de um artigo enviado de Londres ao Pasquim, a que deu o título: “Recuso+Aceito=Receito” . Estávamos em 1969, e hoje Gil é Ministro da Cultura; mas a relação de Caetano com “Feitiço da Vila”, tal como vem sendo exposta em intervenções públicas, parece retomar aquele velho desentendimento (na minha opinião, ultrapassado), para repaginá-lo como “Aceito+Recuso=Acuso”.

Em todo caso, o hábito de “responder” às canções, de tomar canções ou peças musicais anteriores como pretexto para a criação de novas, vem, no Brasil, pelo menos desde o século XIX (como mostrei também no livro citado), mas tem um resultado cumulativo e não dialético. Ou seja, “Feitiço” ou “Dom de iludir” serão canções bem sucedidas, não na medida em que pretendam substituir ou superar “Feitiço da Vila” ou “Pra que mentir”, mas na medida em que consigam reunir-se a elas - afinal, esta reunião só faz acrescentar ao proveito que tiramos delas todas. Assim também a canção “Saudosismo”, de Caetano, não se pode compreender plenamente sem “Chega de saudade” e mais outras tantas canções de bossa-nova que ela cita e critica; e eu próprio compus uma canção, “Desanimado” (gravada por Clara Sandroni em seu CD de 2007), que é à sua maneira um comentário a “Desafinado” e a “Saudosismo”.

Outra coisa, no entanto, é desenvolver uma argumentação em prosa de seminário, interpretando uma canção não como um cantor interpreta, mas como um intelectual interpreta; e sobretudo quando se é um intelectual de miolo mole, coisa muito melhor que ser de miolo duro (caso mais comum). Era isso que Caetano Veloso estava fazendo naquele sábado à tarde em Santo Amaro, e eu estava ali na platéia, discordando dele. Precisei, morto de vergonha, pedir a palavra e dizer que discordava. Quisera naquele momento que se abrisse a terra de massapê do Recôncavo, e me engolisse, mas enquanto tal graça não me era dada, lá estava eu, e discordava. Não tive outro remédio senão dizê-lo publicamente.

Caetano Veloso respondeu que eu estava sendo benevolente para com Noel Rosa e reforçou seus argumentos, em termos que me escapam à memória, talvez por força da comoção (quem me conhece sabe que isso não é ironia). No final do seminário, aproximei-me dele e disse-lhe que nunca tinha visto as coisas deste jeito e que iria pensar seriamente no assunto, estando pronto a rever minha posição.

De fato pensei no assunto de lá pra cá. Mas qual não foi minha surpresa - estando posto em sossego no meio de um pós-doutorado, nos píncaros das últimas teorias etnomusicológicas francesas - ao receber pelo correio um recorte de jornal, contendo artigo de Ali Kamel, onde aprendo que Caetano voltou à carga contra “Feitiço da Vila”, em show realizado no Rio de Janeiro no mês de junho. Segundo Kamel, “Caetano (…) demonstrou que a canção quis livrar o samba da sua negritude, transformando-o num feitiço do bem, feito por bacharéis brancos, longe, portanto, da macumba dos negros do morro, que faz, por oposição, o mal, coisa de bamba” (Kamel, “Caetano e Obama”, O Globo, 10/6/08, p.7). Este resumo piorava bastante o que eu havia escutado em Santo Amaro. Mas a surpresa não diminuiu após uma visita ao blogue do compositor, www.obraemprogresso.com.br, quando, clicando no link “Noel Rosa”, assisti ao vídeo “Feitiço da Vila é uma canção racista?”.

As discussões sobre racismo estão acesas no Brasil, em grande parte por causa da Lei de Cotas. Isso me parece muito bom, mas está também gerando um efeito colateral que, este, me parece nocivo. É a total banalização da acusação de racismo! Com excessiva freqüência encontramos adeptos da Lei acusando de racismo os que se opõe a ela, e a situação oposta não é menos freqüente. Como no caso de “pequeno-burguês” algumas décadas atrás, caminha-se perigosamente para um momento em que a melhor maneira de não ser considerado racista, seria encontrar alguém a quem re-encaminhar a acusação! (Não acho que seja o caso de Caetano Veloso, que não precisaria disso). Neste quadro, a acusação de racismo corre o risco de ficar cada vez mais fraca. Racismo é crime, mas se uns e outros são racistas, e até Noel Rosa é racista (sem falar dos outros sambistas que falaram mal do feitiço), pode se difundir o sentimento de que o tal racismo não deve ser coisa tão grave assim. (Dizendo isto arrisco-me, é claro, a ser chamado de racista). É certo que, como apenas 120 anos nos separam do regime escravista, ainda existe na sociedade brasileira um racismo estrutural, do qual, em alguma medida, creio que todos podemos ser “acusados”. Mas neste ponto acusações e mea culpa são ineficazes: precisamos, isso sim, de ações afirmativas, entre as quais a Lei de Cotas em sua forma atual representa uma opção. (Aqui talvez eu tenha me livrado de algumas acusações de racismo, expondo-me no mesmo gesto a elas, pelo outro flanco).

Mas vamos ao conteúdo do vídeo, e gostaria de começar pelo seu trecho final, onde inexatidões e injustiças se somam. Talvez o problema mais surpreendente deste final, e sintomático, seja o da letra. Caetano misturou duas estrofes diferentes, que aliás nunca foram gravadas em vida de Noel Rosa, e que foram perpetuadas no Rio de Janeiro, salvo engano, por tradição oral (não sei se Araci de Almeida as teria incluído em suas regravações feitas nos anos 50). Elas teriam sido improvisadas por Noel num programa de rádio, e considerá-las como parte integrante da canção ignora o fato de que o “modéstia à parte, eu sou da Vila”, evidentemente, é o encerramento da música. Em todo caso, se o leitor procurar pela letra de “Feitiço da Vila” na internete não vai encontrar estas duas estrofes facilmente, nem elas foram incluídas nas suas mais conhecidas gravações, incluindo recente regravação por Martinho da Vila. Eis sua versão correta, que pode ser conferidas em Noel Rosa, uma biografia (Brasília: UnB, 1992), de João Máximo e Carlos Didier - pra mim o melhor livro jamais escrito sobre samba, incluindo o meu:

Quem nasce pra sambar,
chora pra mamar em ritmo de samba
Eu fui sair de casa olhando a lua
E até hoje ainda estou na rua

A zona mais tranquila
É a nossa Vila, o berço dos folgados
Lá não tem cadeado no portão
Porque na Vila não tem ladrão

No vídeo, Caetano canta os dois primeiros versos da primeira estrofe com os dois últimos versos da segunda estrofe. Corta assim a alusão ao “berço dos folgados”, o que, parece-me, tem implicações para a interpretação do todo. Digo que este é o problema mais surpreendente, porque Caetano deu muitas provas em sua carreira, desde “Esta noite se improvisa”, de conhecer de sobra a importância de atribuir aos letristas as letras que a eles se pode atribuir com segurança.

O segundo problema é dar a entender que Noel Rosa era homófobo. Ora, podemos acusar Noel Rosa de misógino, mas não de homófobo (como podemos acusá-lo de racista por anti-semitismo, mas não por preconceito de cor.) Não só não conheço um traço de homofobia em suas letras e em sua biografia, como ele foi, até onde sei, o primeiro na música brasileira a descrever com acentuada simpatia um sambista homossexual, em “Mulato Bamba”.

O terceiro problema: insinuar que Noel estava, com seu verso sobre o cadeado no portão, chamando Wilson Batista ou quem quer que fosse, de ladrão. Aqui a gente toca em uma das minhas discordâncias centrais com a interpretação de “Feitiço da Vila” por Caetano Veloso. Ela diz respeito à idéia de que a Vila de Noel Rosa, sendo um bairro de classe média, estaria contraposto aos morros e aos subúrbios mais pobres. Como se a Vila fosse uma espécie de Barra da Tijuca do seu tempo - e mais ainda, como se assim a visse e quisesse Noel… Não tenho estatísticas, mas até onde posso julgar pelo livro de Máximo e Didier, pelos desfiles da escola de samba Unidos da Vila Isabel e pelas, infelizmente, poucas vezes em que fui lá, a Vila era, e é, um bairro tão misturado quanto possa ser um bairro brasileiro de uma grande cidade.

Não nego, é claro, que a Vila tivesse mais características de classe média que os morros cariocas. Não é a sociologia que está em causa aqui - e muito menos uma sociologia de miolo duro, como a que é proposta no vídeo (”tal compositor, movimento ou obra musical representa a classe média, tal outro, as favelas”…). O ponto que quero enfatizar é que a defesa da Vila por Noel não visa acentuar suas diferenças em relação à Mangueira, da qual Noel era freqüentador, nem ao Estácio ou à Penha, aos quais ele também dedicou canções extraordinárias. Ao contrário, visa inseri-la no mesmo contexto de disputas “bairristas” que, justamente, era tão típico do samba daqueles anos. “Andando pela batucada/Onde eu vi gente levada/Foi lá em Vila Isabel”, escreveu ele em “Eu vou pra Vila”. A alusão ao “berço dos folgados”, na estrofe escangalhada no vídeo em questão, também não me deixa mentir. “Folgado” é um outro nome para “malandro”, como afirma Noel no samba “Rapaz Folgado”, aliás também parte da polêmica com Wilson Batista. Ou seja, a afirmação de que na Vila “não tem ladrão” não implica que lá não haja samba, bamba, batucada e gente levada. Ao contrário, quer dizer justamente que “bamba” e “ladrão” não são sinônimos.

Mas a evidência máxima de que a defesa da Vila por Noel não tem a conotação “mauricinha” que Caetano lhe quer imputar, está em “Palpite infeliz”, que arrematou a polêmica com Wilson Batista:

Salve Estácio, Salgueiro
Mangueira, Oswaldo Cruz e Matriz
Que sempre souberam muito bem
Que a Vila não quer abafar ninguém
Só quer mostrar que faz samba também

Em resumo, a louvação da Vila, em Noel, não visa demarcá-la dos morros, mas ao contrário, uni-la a eles mais intimamente, através da participação no jogo comum da disputa bairrista em torno do samba. Ao que tudo indica, mesmo do ponto de vista sociológico tal projeto não era uma simples idiossincrasia, sendo a Vila Isabel dos anos 1930 um bairro muito mais misturado socialmente do que vieram a ser os bairros ditos “emergentes” cariocas a partir do final do século XX. Que bacharel elitista (como seria o personagem de Noel, segundo a caracterização de Caetano) poderia dizer do seu bairro, “lá não tem cadeado no portão”?

O segundo ponto geral de discordância diz respeito ao suposto racismo da canção. Ele estaria por exemplo na alusão ao “nome de princesa”, e não de qualquer princesa, mas da Princesa Isabel. Quanto a princesas em geral, seria então necessário classificar como racistas todos os integrantes de escolas de samba e maracatus que se vestem à maneira de princesas, príncipes, reis e rainhas europeus, a cada carnaval. Mas e esta particular princesa, a Isabel, a que assinou uma lei, como sabemos, demasiado tardia e incapaz de garantir real igualdade de oportunidades entre negros e brancos? Ora, não faz sentido cobrar da Princesa Isabel o que ela não conseguiu fazer, sobretudo se nós, 120 anos depois, ainda não conseguimos tampouco fazer. Mesmo antes de conhecermos a carta ao Visconde de Santa Vitória, onde ela defende a indenização aos ex-escravos, o historiador Eduardo Silva havia demonstrando que ela abrigava escravos fugidos e incentivava fugas, no que caracterizou como um verdadeiro quilombo abolicionista em Petrópolis (As camélias do Leblon e a Abolição da escravatura: Uma investigação de história cultural, São Paulo: Companhia das Letras, 2003). Na mesma canção “Feitiço”, não se disse: “Zumbi come Zabé, Zabé come Zumbi”? De fato, um se nutre do outro, e vê-los como incompatíveis é um erro de alguns bem intencionados lutadores anti-racistas. Os pretos de Santo Amaro, sábios que são, assim como os de outros lugares do Brasil, não precisaram esperar pelos historiadores, pois eles

[No] dia 13 de maio (…) celebravam
(Talvez hoje inda o façam)
O fim da escravidão (…)
Foguetes no ar
Pra saudar Isabel
Ô Isabé
Pra saudar Isabé
(Caetano Veloso, “13 de Maio”)

Pois a Vila Isabel e Noel Rosa também não esperaram pelos historiadores para saudar a Princesa Isabel e seu quilombo! Será que é tão chocante falar do “quilombo de Zabé” quanto chamar “Feitiço da Vila” de racista? Não sei, mas pelo menos a primeira expressão me parece, até agora, melhor fundamentada. Continuemos discutindo a segunda.

Sim, a farofa, a vela e o vintém: aí, reconheço, é onde Caetano tem um argumento interessante. Mas acho que é possível discuti-lo seriamente, em duas versões, uma que chamarei “fraca”, e outra “forte”. A versão “fraca” foi adiantada pelo historiador Bryan McCann (autor do excelente Hello, hello Brazil: popular music in the making of modern Brazil, Duke University Press, 2005.) Ei-la (a tradução é minha):

“Dadas as referências negativas às religiões afro-brasileiras e a alusão favorável à aristocracia, certamente seria possível interpretar ‘Feitiço da Vila’ como uma apologia do samba branco, de classe média, às custas do samba dos pobres e dos negros. Mas se levarmos em conta o resto da obra de Noel, e os detalhes da sua carreira, tal interpretação revela-se pouco convincente. Dos sambistas brancos de sua geração, ele foi o que colaborou de maneira mais assídua com compositores da favela (e um dos poucos que não explorou financeiramente tal colaboração). E sua música permaneceu mais perto do ’som do Estácio’ que a da maioria de seus pares”. (No artigo “Noel Rosa’s nationalistic logic”, Luso-Brazilian Review, Vol. 38, No. 1, 2001, p.1-16.)

Nesta linha de argumentação, a vida e a música de Noel Rosa desautorizam a idéia de que ele tenha sido racista. Certo, ele não era, como Sinhô ou João da Baiana, um sambista ativamente envolvido com o candomblé. Mas conviveu intensamente com o meio cultural afro-carioca (do qual a religião é parte integrante), e dele foi, na melhor expressão da palavra, um parceiro.

Poderíamos ir mais longe e lembrar do enorme sucesso de “Feitiço da Vila” junto ao público e aos prórios sambistas, muitos dos quais praticantes ou simpatizantes de umbanda, macumba e candomblé. Grandes obras geram múltiplas interpretações, mas se nem Noel Rosa se pretendeu ali racista, nem o público a quem a questão toca mais diretemente o viu como tal, que ganharíamos hoje ao adotar semelhante releitura? Ou será que o autor e o público eram racistas e não sabiam? Acreditariam eles na democracia racial, já enceguecidos pela recém-publicada ideologia freyreana, e Caetano com sua interpretação viria adicionar mais uma pedrinha à desconstrução deste mito, revelando-nos a todos como os racistas que não sabíamos que éramos? É um ponto de vista, é só posso congratular Ali Kamel por ter se mostrado sensível a ele. Pessoalmente, acredito que o povo do samba e do candomblé sempre soube muito bem que há preconceito de cor no Brasil, assim como sempre soube distinguir, com alguma margem de erro, quem tem preconceito - como a “madame” do samba de Janet de Almeida evocado também naquela tarde em Santo Amaro - de quem não tem. É de uns anos para cá que a confusão no que se refere a isso parece estar aumentando.

Porque então chamar de “fraca” esta versão do argumento em defesa de Noel, apresentada por Bryan McCann (com apoio, não custa repetir, na biografia escrita por Máximo e Didier)? É porque Caetano não disse com todas as letras que Noel Rosa era racista: disse que “Feitiço da Vila” era. Alguém negaria que, neste Brasil ainda tão perto do escravismo, mesmo os maiores lutadores anti-racistas possam ter seus maus momentos? Talvez ninguém negasse, mas há certamente quem se deleite com isso. Não estou entre estes últimos.

Então, os versos de “Feitiço da Vila” - o “samba sem farofa, sem vela e sem vintém”, o “feitiço decente” - teriam sido maus momentos do bravo Noel Rosa? “Referências negativas à religião afro-brasileira”, mas incidentais no contexto de sua obra? Aí, talvez estivéssemos sendo “benevolentes”, como disse Caetano em Santo Amaro. (Uma benevolência, de resto, muito bem fundamentada.) Mas minha intenção com este arrazoado não é salvar um ícone da cultura brasileira, do samba ou de quem quer que seja (embora eu ache que nossa iconoclastia ganharia com ajustes de mira). Nem é esta a intenção de McCann, que em seu artigo aponta, com muito mais evidência, para misoginia, anti-semitismo e xenofobia nas letras de Noel.

Gostaria, por isso, de ir mais longe e apresentar uma versão “forte” do argumento contrário a ver racismo em “Feitiço da Vila”. Ela diz respeito ao estatuto do feitiço na cultura brasileira. O nome do samba estampa o feitiço como um valor positivo (mesmo se depois irá especificá-lo como “decente”). Só por fazê-lo, a canção já está à frente de muitos sambas, anteriores e posteriores, para os quais o feitiço é negativo. Donga, por exemplo, carioca filho de baiana, e pioneiro do samba, no seu “Pelo telefone”, tido como a primeira peça do gênero a fazer amplo sucesso popular, ameaça bater em quem “faz feitiço”:

Tomara que tu apanhes
Pra não tornar fazer isso
Tomar amores dos outros
Depois fazer teu feitiço
(”Pelo telefone”, 1917)

E o próprio pescador de Dorival Caymmi, o mesmo pescador que ainda nos anos 1950 cantava em língua africana na puxada de rede do xaréu (conforme o magnífico disco gravado pela antropóloga Simone Dreyfus-Gamelon), o emblemático pescador das canções praieiras - pode acabar acusado de racista também:

O pescador deixa que seu filhinho
Tome jangada, faça o que quiser
Mas dá pancada se o filhinho brinca
Perto da lagoa do Abaeté
(”A lenda do Abaeté”, 1948)

No Abaeté, conta-nos Caymmi, ouve-se “a zoada do batucajé” - e, como a canção deixa claro na letra e na música, não é por outra razão que o filho leva pancada se chegar perto de lá. Aliás, é por isso também que a “lavadeira” (branca? negra? alguém se importa?) “vai se benzendo” no caminho.

Mas atenção, Donga e o pescador de Caymmi não reprimem o feitiço por considerá-lo falso, e sim, justamente, por acreditar nele. Como aprendi com Yvonne Maggie no livro Medo do feitiço - relações entre magia e poder no Brasil (Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1992), os que não acreditam em feitiço, não reprimem feiticeiros, mas acusadores de feiticeiros.

Assim, não é só o “Feitiço da Vila” e as canções citadas que querem distância da farofa, da vela e do vintém. “Feitiço” e “feiticeiro”, no Brasil como alhures, são categorias de acusação - de novo, é Maggie quem ensina (alguns vão achar que a estou citando demais; mas não divido o mundo em quem é favor de cotas e quem é contra!). Diremos que nossos inimigos são feiticeiros, mas não diremos que nós mesmos somos feiticeiros, nem que isso, aliás, é uma coisa muito boa. E se assim agimos, não é por racismo, mas por causa do modo de funcionamento do sistema da feitiçaria, não só no Brasil pós-escravocrata, mas na África também, como mostrou Evans-Pritchard em seu livro clássico (Bruxaria, oráculos e magia entre os Azande, Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004) .

Noel Rosa também disse: “samba tem feitiço, todo mundo sabe disso” (em “Na Bahia”). A letra de “Feitiço da Vila” é testemunha desta intimidade com o mundo do feitiço, aliás compartilhada por seus ouvintes, que sempre a entenderam muito bem. Todos sabemos que esta farofa não se deve comer, que esta vela não é de aniversário, que este vintém não se deve botar no bolso. E o emprego dos verbos “fazer” e “prender” aqui é perfeitamente vernacular. Falar mal do feitiço é a maior prova de que estamos metidos nele até a raiz dos cabelos. O merecido, e duramente conquistado, crescimento em prestígio do candomblé do tempo de Noel Rosa para cá, não se fez com base na idéia de que candomblé é sinônimo de feitiço, bem ao contrário.

Isto nos leva a um último ponto. O problema não seria então, falar do feitiço, dizendo que um é decente, e implicando a existência de outro, indecente. Seria antes a própria associação entre feitiço e farofa, vela, vintém. Como estes objetos podem integrar os rituais do candomblé, chamá-los de “feitiço” já seria, por si só, manifestação de preconceito contra esta religião.

Ora, o problema posto por esta última objeção é, na verdade, o mesmo problema abordado pela canção de Noel Rosa: como demarcar algo que seria “decente” (ou que nome se queira dar para denotar algo que é sentido como “do bem”), como a religião e o samba, de algo que seria “indecente” (ou “do mal”) - o feitiço? Este é um problema que, em nossa sociedade, se coloca mesmo para uma religião cuja distinção entre “bem” e “mal” seja muito diferente da judaico-cristã. No caso do samba, a distinção é facilitada pelo fato de que os objetos do ritual ficam transfigurados (sem deixar de estar, em algum nível, “presentes”) em objetos musicais: a cuíca, o surdo e o tamborim (Feitiço decente, p. 179-82). No caso da religião, a distinção é dificultada pelo fato de que uma vela tanto pode representar uma oferenda a um orixá, quanto uma ação mágica dirigida contra terceiros. Em outras palavras, bem gerais agora, o problema da demarcação entre “religião” e “magia” não é tão simples como desejariam certa antropologia (aludida por Stefania Capone, A busca da África no candomblé, Rio de Janeiro: Contracapa/Pallas, 2004) e certa teologia (não só do candomblé!). Talvez fosse demais pedir a um samba, mesmo a um samba tão especial, que o resolvesse. (Muitos sambas juntos talvez um dia o resolvam).

Mas se “Feitiço da Vila” não resolve este problema, parece-me claro que o impulsiona para a frente. Assim, duvido que houvesse, nos Brasil dos anos 1930, melhor modo de trazer o feitiço à tona, de botá-lo na boca do povo, que através desta espécie de koan zen. Pois o “feitiço decente” de Noel Rosa é um paradoxo, uma coisa impossível, um curto-circuito lógico (como o que Caetano tão bem soube ver em “É proibido proibir”). Justamente aí é que está a genialidade dele (e a de Caetano Veloso também, embora não neste vídeo infeliz): a de criar objetos impossíveis, quimeras, utopias, coisas feitas, capazes de transformar nossas vidas. Ou, nas palavras de Caetano: de “soltar a gente”.

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