22/01/2009 2:00 pm | Postado por Obra Em Progresso
Indo para Santo Amaro com meus filhos no sábado da festa de Reis, passou por nós um caminhão de transportadora – um desses caminhões imensos – em cuja carroceria metálica e fechada estava escrito em letras grandes: TRANSTUDO. (Será que decidiram se fica “caminhão” ou “camião”? – preciso comprar um desses folhetos que instruem sobre o “acordo”: me vêm muitas perguntas sobre coisas que nunca vejo mencionadas nas reportagens.) Lendo essa palavra pensei em nosso blog aqui e nas canções do Zii e Zie, de que tão pouco falamos. “Já temos um passado”, lembrou um amigo. Gostei de ler isso. E, com mais cuidado do que o que pude ter quando postei comment respondendo a Luedy (quer dizer: sem tantos typos e erros de ortografia) desejei escrever aqui no cabeçalho um texto rapsódico no qual se misturassem a pergunta pelos motivos da ausência de Eloísa (a quem peço desculpas por voltar a pôr acento agudo no nome: volta e meia me vejo escrevendo “Antônio Cícero” em vez de Antonio Cicero, assim como tenho que fazer força para escrever “Candido” – e ouvir “Cândido” com meu ouvido interno – , mas é que imagino sempre como seria absuro escrever Jose em vez de José, ou Josue em vez de Josué, ou Tomas em vez de Tomás – e volto a querer que os nomes próprios sejam acentuados segundo a regra geral de acentuação a que se submetem os nomes comuns – mas é claro que entendo que as pessoas assinam como foram registradas – e que admitimos pronunciar “cândido” ou “Antônio” quando lemos “candido” ou “Antonio” – que, a rigor, assim escritos seriam dois paroxítonos – , mas nunca esperamos que o funcionário responsável pelos resgistros escreva Jose ou Tomas ou Josue), a reiteração do protesto contra a ideia de que estamos proibidos de dizer o que quer que pareça ser contra Lula (é horrível quando se parte do princípio de que um governante não pode ser criticado), as imagens que me ficaram do romance “Under Western Eyes”, de Joseph Conrad, e a importância que teve a leitura de um livro chamado “A vida como performance”, do crítico inglês Kenneth Tynen, presente de Thiago Felix, um novo (e muito jovem) amigo baiano, que está escrevendo ele próprio um livro, e que gosta de citar não-sei-quem que disse que quem só lê clássicos e obras-primas é porque não gosta de literatura. Mas, além de ter que aguentar (sem trema) períodos com maior número de travessões do que um texto de Nietzsche, como o que está entre parêntesis aí acima, o pobre companheiro de obra aqui teria que sofrer mais do que alunos como o Luedy em aulas de análise sintática ou como eu em aulas de matemática. Daí decidi voltar a seguir o conselho de uma sábia amiga nossa e separar o papo em tópicos e os tópicos em parágrafos entremeados de espaços brancos.
A Bahia era parte da região leste quando eu era estudante. Com Rio e Espírito Santo. Passou a ser oficialmente Nordeste durante da ditadura militar, creio. Salvador e o Recôncavo têm cultura e sotaque particulares, diferentes dos do nordeste (embora, com a grande imigração que inchou a cidade, venha soando mais e mais nordestina: os “dis” e os “tis” de Daniela Mercury me soam muito pouco palatalizados, quase como se ela fosse de Serrinha, mas ela é soteropolitana). O estado da Bahia é grande como a França. O sul tem, na zona cacaueira, ecos do sotaque sergipano dos seus primeiros “colonizadores”. Mas para o sudoeste já estamos em ambiente meio mineiro meio capixaba. O oeste e o noroeste têm parentesco com Minas, Goiás e Tocantins. O norte é nordestino.
Joaldo é de Araci. Conversamos em Santo Amaro mas estava muito barulho e não deu para eu medir o grau de palatalização dos seus “dis” e “tis”. Passei um tempo em Serrinha quando criança, no final dos anos 40 (Araci era um distrito de Serrinha): deixei de ver o eclipse total do sol por isso (em Santo Amaro todo mundo viu). Eu vivia com tosse e muito franzino, daí me mandaram para os ares secos do sertão: meu primo Edmundo morava lá – acho que minhas primas Silvinha e Leda ainda moram.
Uma moça
De lá do outro lado da poça
Numa aparição transatlântica
Me encheu de elegante alegria
(Ai, Portygal, ovos moles, Aveiro)
Menina da Ria
Menina da Ria
Menina da Ria
E uma preta
(Parece que eu estou na Bahia)
Tão Linda quanto ela, dizia
No seu português lusitano:
“Pode o Caetano tirar uma foto?”
Menina da Ria
Menina da Ria
Menina da Ria
Arte Nova, um prédio art-nouveau numa margem
Em frente à marina-miragem:
Os barcos na Ria. E depois
Uma taça sobre o pubis glabro, um estudo
Nenhum descalabro se tudo
É sexo sem sexo em nós dois
Menina da Ria
Menina da Ria
Menina da Ria
Sempre hesito ao tentar pontuar uma letra quando a copio (raramente escrevo toda antes de ir cantando). Às vezes desejo fazer como João Cabral, que pontuava seus poemas segundo as regras de pontuação da prosa. Às vezes quero ser como Oswald, que quase não pontuava. Termino na terra-de-ninguém entre o uso de pontuações pesadas no meio do verso e a ausência de pontuação onde a mudança de linha parece fazer as vezes de vírgulas e pontos. Bem, a maluquice acima é a letra de “Menina da Ria”. A música, só depois. Mas não é que as outras letras sejam menos malucas. Se alguém quiser, explico de onde vem e o que significa a expressão “do outro lado da poça”.
“Gomorra” é um Cidade de Deus sem Hollywood. Bem, dito assim parece que não fica nada. Mas fica a magnífica tradição visual do cinema italiano. Os atores são o bicho. O filme é belamente fotografado e dirigido. Os ambientes desolados, o conjunto residencial que parece uma prisão, a feiúra e vulgaridade das pessoas, a amargura da vida humana – tudo captado de modo a resultar num belo filme. A última frase escrita sobre a imagem do trator que, como um carro alegórico (que aqui mereceria o nome), levanta para os céus os corpos dos dois garotos mortos, diz que a Camorra ajudou a financiar a construção das Torres Gêmeas. Informação relevante. Mas me senti mal ao pensar nisso em casa. Quanto ressentimento dos Estados Unidos tem a esquerda européia! Será que é paranóia minha ver aí um desejo de veladamente louvar (ou ao menos justificar) os fanáticos que enfiaram os aviões no World Trade Center?
Luedy, me desagrada muito ver as regras da língua tratadas como se fossem opressão da classe dominante. Nós não temos declinações porque isso se rarefez no latim vulgar e desapareceu na formação das línguas modernas. Não foi uma aristocracia nem uma casta de gramáticos que impôs tais mudanças, mas a força do homem comum, da multidão iletrada. Por que idealizar quem hoje diz “dois pão” ou “nós vai” e demonizar o homem do passado que construiu a língua usando-a? Dentro de cada língua moderna as mudanças foram quase exclusivamente ditadas pelo uso do homem comum, do povo, da multidão. É esse trabalho anônimo e grandioso que é desrespeitado quando vocês dizem que a norma é arma de dominação da elite.
As regras de concordância (e as outras) foram criadas no uso. São os próprios linguistas que o dizem.
O entusiasmo ingênuo com a manipulação política da linguística corre o risco de cevar uma atitude arrogante. Um grupo de linguistas lulistas se sentiria no direito de agredir os humildes professores de gramática e os humílimos curiosos vocacionados para o entendimento da engrenagem da língua (que os há muitos: Luedy tinha horror à análise sintática e eu tinha horror à matemática, mas os cursos não devem ser feitos contemplando preferencialmente os não vocacionados: escola tem de ser chato em algum nível, não acho que ela deva rivalizar com o parque de diversões, o cinema americano e os momentos de dengo com os pais). E vamos deixar Eça em paz e parar de fingir que alguém exige de escritores e jornalistas que evitem a próclise. Me deem um tempo.
Possenti, eu também não acho que Lula deveria necessariamente fazer curso universitário. Quanto à formação básica, acho que ele fala muito mais bonito do que Collor, por exemplo. (E tão feio quanto FH. Este e Lula criam sempre algum constrangimento quando falam de improviso como presidentes. Constrangimento por razões tanto estilísticas quanto temáticas. Mas, que fazer? Demos graças aos deuses por essa dupla da esquerda uspiana – em coligação com a CUT e a Fiesp – ter chegado ao poder no Brasil, antes – ou melhor, logo depois – que algum aventureiro lançasse mão.) E acho que Lula (como ele próprio diz, com mais ou menas graça) ampliou seu repertório, isto é: estudou um tanto. Mas gosto muito mais do português e do jeito de pensar de Marina Silva. Ele pode ter a manha de manutenção do poder (uma virtude em talentos políticos), mas ela tem mais elegância intelectual (isso também pode ser virtude política).
Faço este post-anaconda porque perdi comments bacanérrimos (bem mais soltos – estava num momento jovial) e necessitei responder a vários estímulos. Os dois primeiros parágrafos já estavam prontos faz algum tempo. Depois me enrolei no tempo dos comments perdidos e dos assuntos acumulados. Desisti várias vezes. Recomecei. Não pude cortar (é o mais difícil). E ainda fiquei com pena de não ter espaço para mais do que simplesmente dizer que os pesos e medidas violentamente desproporcionais usados pelo governo Lula nos casos dos atletas cubanos (que pediram asilo e foram mandados de volta em avião venezuelano) e o do guerrilheiro italiano condenado em sua pátria por quatro assassinatos (ou execuções…). Não gosto desse clima. É nessas horas que me sinto um liberal inglês.
30/10/2008 7:15 am | Postado por Obra Em Progresso
ANTÓNIO ZAMBUJO, INDIE ROCK, COOL JAZZ, MINIMAL, BOSSA NOVA, THE NEW YORKER, MICHELANGELO ANTONIONI E MONDRIAN CONTRA AXÉ MUSIC DENTRO DE MIM? NÃ-NÃO. “A COR AMARELA” É BROWN IVETE E DANIELA. É O SAMBA DO RECÔNCAVO EM TRANSE NO PSIRICO, NO HARMONIA, NO TCHAN: É TRANSAMBA JÁ CONSTRUÍDO POR TODOS ESSES BAIANOS GENIAIS.
Gostei muito do CD do Portishead (já de cara, aquela falação em português paulistano sobre a “regra dos três”, em tom a meio caminho entre pastor evangélico e conversador new age): os timbres das programações fazem as modulações insólitas ficarem mais bonitas. A Gibbons é uma chorona cool e a atmosfera sonora parece com a foto da Estação de Rádio de Portishead. Gosto do Portishead há mais de dez anos: entrou com Karola, Candé, Marininha, Luísa Mariani e Natália Lage na casa de Milton numa festa. A “Disneylaândia” da Marilena. Na casa de Bituca não dava pra notar, mas no primeiro telefonema que dei lá estava Portishead na secretária. Achei bonito à pampa. Perguntei.
O disco do Camelo é bom à beça: ele toca violão muito bem naquela faixa de letra curta; a decisão de soar relaxado e livre de tiques reconhecíveis pode virar um novo tique se o ouvinte tiver má vontade – mas é assumida com bravura e realizada com decisão; eu gosto; é carioca num grau Marisa Monte; é um luxo que ele seja a estrela solitária do momento em nossa música inventiva.
Quero ouvir o disco de Arnaldo Antunes logo.
As palavras em caixa alta que foram citadas aqui como parte de artigo meu para o Pasquim eram declaração de Jimi Hendrix traduzida por mim. Foi da última entrevista que ele deu. Mandei pra aqui em cima da hora.
Já ouvi muito do de Rodrigo Amarante com Fabrício dos Strokes (que trouxe a namorada): os ecos de pop rock do início dos anos 60 – com um toque country – soam com frescor inventivo que descarta ironia ou nostalgia; é música imediata; a gente não pensa em tiques nem em toques – apenas entra em contato com as emoções que motivaram as canções, ou melhor, nas emoções que as canções motivam. Mas a ida à Itália me interrompeu a audição, de modo que comentários mais responsáveis ficam para depois.
Quem vê assim pensa que ouço discos. Eu fazia isso em 1960: João Gilberto, Thelonious Monk, Chet Baker, Miles Davis, Sylvia Telles, Modern Jazz Quartet, Ray Charles, Maysa, Jimmy Giuffre, Dolores Duran, Ella, Sarah, Billie… Hoje ouço o que me mostram – e não ouço repetidas vezes cada coisa, como fazia então. E olha que ouvia esses que citei sem abandonar Caymmi, Chico Alves, Orlando Silva, Eliseth, Silvio Caldas, Aracy de Almeida cantando Noel – além de seguir com atenção irresistível o Nelson Gonçalves da fase Adelino Moreira, Anísio Silva, Paul Anka, The Platters, Pat Boone, The Diamonds e os sambas e marchas de carnaval, tudo pelo rádio. João Gilberto mais que tudo.
Ouço o que me atrai a curiosidade (por ouvir falar, por ler no jornal, por ter ouvido acidentalmente – no radio, em casa de amigo – um trecho que me excitou). Por exemplo: adoro Cornelius, o japonês de sons puríssimos, idéias rigorosas e sensibilidade violentamente delicada (se me é permitido o paradoxo – mas creio que sim, em contexto nipônico). Vou ouvir o novo disco do TV On The Radio, banda que o maluco do Folhateen sugeriu há um par de anos e cujos dois primeiros discos me encantaram (se bem que os ao vivo no Youtube nem tanto). Já disse que adoro Radiohead (a partir de OK Computer, mas com um gosto pelo pouco louvado Pablo Honey – que ouvi depois – e sem nenhuma rejeição a Kid A, ao contrário).
Aprendo algo com essas coisas e não lembro muito depois. Mas ouvir o CD do António Zambujo me prendeu à necessidade de ouvir de novo, de novo e de novo. Esse mesmo desejo senti quando Moreno me mostrou Buika cantando Mi Niña Lola. Quero ouvir muito, mais vezes, mais fundo. No caso do Zambujo, muito mais ainda. É a língua portuguesa. É a história do fado. É o fato de eu ter sempre só gostado de cantoras de fado, nunca verdadeiramente de cantores.
Amália reverbera em cheio em Mariza. Um espetacular virtuosismo vocal faz de Dulce Pontes uma das mais impressionantes cantoras da atualidade – embora sempre na beira do risco de parecer só virtuosística. Uma atenção ao desenvolvimento do fado – e do gosto na história do fado – faz de Mísia uma elegante guardiã da tradição: uma espécie de Nara Leão com mais canto e menos despojamento genuíno (o que não é desmerecer a cantora portuguesa, já que a brasileira é um caso extremo de inteligência crítica espontânea a serviço despretensioso do canto).
Mas há nos pianíssimos com arabesco no fado tosco de Dona Argentina da Parreirinha d’Alfama (e que sempre amei e amarei na Maria da Fé do Senhor Vinho, essa Maria da Fé que parece ter se afastado de mim, do Brasil, de nós, como se tivéssemos prometido algo que não podíamos lhe dar) algo que, para meu espanto, reencontro onde nunca esperei reencontrar: numa voz masculina. Admiro os fadistas homens, mas nunca cheguei a amar-lhes o canto. Fado para mim era cantado por mulher. Desde Ester de Abreu, da minha infância, até Mariza: mulheres, sempre mulheres.
Não é que o Zambujo me pegou de jeito? Há nele dois elementos que – para além do prazer imediato de ouvir-se uma voz naturalmente musical e relaxada – compõem para mim um grande passo: que seja um homem a cantar fado tão lindamente – e que o diálogo com a música brasileira se apresente tão orgânico, já não-pensado, já resultante de forças históricas que vêm se expandindo há décadas. O disco de Teresa Salgueiro é belo e emociona (finalmente com Carlos Lyra no destaque que merece). A atitude programática de Eugénia de Melo e Castro foi e é tocante, além de desbravadora. Mas o que se ouve em Zambujo é algo já que vai mais fundo. É um jovem cantor de fado que, intensificando mais a tradição do que muitos de seus contemporâneos, faz pensar em João Gilberto e em tudo que veio à música brasileira por causa dele.
Quando Zambujo canta “Nem às paredes confesso”, vamos ao fundo do fado e, ao mesmo tempo, sentimos a cultura da bossa nova e da pós-bossa nova já na corrente sangüínea da canção portuguesa. Quando ele canta um Vinicius com Antônio Maria (esse seu xará com acento circunflexo), a composição soa enfaticamente “moderna” e americanizada, embora o tratamento seja de fado. E o mais incrível é que “Lábios que beijei” não soa menos americanizada e “moderna” do que aquela. Não pelo arranjo, que é fadista, mas pelo Brasil que há ali. É de arrepiar e fazer chorar. Sentimos a força da cultura de língua portuguesa – aquela que, afinal de contas, mais me interessa – construindo-se. É que espero, ou melhor, exijo do Brasil a articulação do papo que ele tem de levar com o mundo – saindo de seu chiqueiro de atraso, intrigas e pequenezas.
Eu odeio o fato de o aeroporto de Salvador se chamar Deputado Luís Eduardo Magalhães: nem no “Polígono das Secas” de Diogo Mainardi há uma piada tão sinistra. Odeio a meia-trava que o ideologicamente amorfo PMDB pode significar no progresso politico nacional. Embora nunca se saiba: vai ver é daí que de repente vem algo que contribui para esse progresso. Ele existe: a vitória de honra de Gabeira no Rio, o repúdio à propaganda-perua de Marta insinuando bichice de Kassab, a importância maior dada ao bilhete único e aos CEUs do que à idéia de “a nossa turma tem de ganhar” são provas disso. Mas o chiqueiro ainda é a imagem dominante. Pois o disco do António Zambujo nos faz crer que viraremos esse jogo.
Gozado é que, procurando Zambujo agora no Youtube, achei-o cantando com Roberta Sá. Não sabia que ela o conhecia. Muito bom. Embora os outros vídeos dele que vi não estejam à altura do disco.
Outra que vi no Youtube – e essa me maravilhou – foi a caboverdiana Mayra Andrade cantando “Tunuca”, sentada no chão da rua com Mariana Aydar.
É gozado como em São Paulo existe essa polaridade PT/PSDB. No resto do Brasil não é assim. Em primeiro lugar porque ambos parecem sobretudo paulistas. Para mim, mais ainda, dois raminhos da esquerda da USP. Claro que li aqui gente dizendo que deixou-se de votar em Gabeira por ele “ser PSDB” – e notando que Paes é quem chamou logo um tucano para começar o secretariado. Sei que há petistas com essa onda por toda parte. E afinal o PSDB é “oposição”. Bem, só se for Serra querendo ser presidente contra uma Dilma qualquer de Lula. Mas o que pinta é a disputa dele com Aécio. Serra é feio que dói.
Depois de contar a história da crise financeira mundial passo a passo, a Economist chega esta semana com a nova de que os “emergentes” – que pareciam livres do contágio de derretimento – e eram a esperança da economia mundial mesmo quando o problema das hipotecas imobiliárias americanas já estava avançado – não parecem mais imunes. A boa notícia (que me fez lembrar o final do livro de Kapuscinski sobre a queda do Império Soviético – livro chamado “Império” de que gosto muito mais do que o homônimo de Toni Negri – e final que eu já citava no meu Verdade Tropical) é que os países grandes se sairão melhor. Grandes territorialmente e possuidores de economia diversificada. O Brasil tá aí. Mas vai atravessar as dificuldades inevitáveis com a mesma euforia de festa de posse do Lula em que já estamos viciados?
As letras de Zii e Zie soarão bem datadas quando o disco sair. Digo, aquelas que falam de fatos políticos pontuais, como a Base de Guantánamo (como alguém já notou aqui), assim como aquelas que têm uma versão muito peculiar minha da euforia afirmativa que nasce dessa nossa fase FH-Lula. Lygia Clark dizia que o tropicalismo era romântico: dependia das informações da hora: falar em Coca-Cola, Paulinho da Viola, passeatas, Brigitte Bardot era atrelar-se ao tempo – e preparar a própria obsolecência; enquanto ela, trabalhando na area de decisões formais e expressivas em princípio atemporais, tinha ambição clássica. Ela não o dizia com ar de superioridade sobre nós. Dizia com carinho e com uma rosa de plástico enfiada numa garrafa de Coca-Cola no meio da toalha de mesa que estendeu no chão de sua casa em Paris, para que nosso jantar parecesse um piquenique. Mas a Brigitte e as Cardinales não impedem que “Alegria, alegria” seja ainda minha canção mais querida por brasileiros. E o que é dito em “Diferentemente” sobre Osama e Condoleezza poderá ter uma graça futura que não podemos apreciar hoje. Sem falar nas profecias ultra otimistas que se ouvem em “Falso Leblon” e “Lapa”. Eu, na verdade, acho essas afirmações desaforadas mais interessantes em face da crise do que seriam se soassem meramente como reafirmação de uma aprovação ao governo de 80%.
Não sei o que é Zizi (ou Zie-Zie, ou Zy-Zy) em francês. (Será algum modo infantil de se referir a partes graciosas da anatomia masculina?) Mas vocês todos deviam saber o que é Zii e Zie em italiano. Escolhi o nome pela impressão curiosa (e bela) que essas palavras simples causam quando escritas juntas. As encontrei assim na tradução italiana de Istambul, de Orhan Pamuk, que li na ida à Turquia, presente de uma italiana espectadora assídua dos meus shows. É um modo livre, misterioso e revelador de coisas que não sei, de nomear um disco tão lançado à aventura.
Amo os argumentos de Cicero sobre as vanguardas. Mas entendo que não interessem a Augusto de Campos. Augusto é o autor de “Não” (uma versão encapsulada de muito do que Drummond diz num poema longo sobre o fazer poético, apresentada primeiro como um mini-objeto mimeografado – como os poemas “marginais” que lhe são contemporaneous – que ele distribuía entre amigos e possíveis leitores), um poema que extrai intensa poeticidade do modo como pensa seu próprio lançar-se no mundo, comentando assim a condição mesma da poesia. Ao ler os comentários (justamente) entusiasmados sobre os arrazoados de Cicero, me lembrei de que, ao ler “Dialética do Esclarecimento” (muitas veses atrapalha, em vez de ajudar, a escolha dessa palavra “esclarecimento”: sempre evitando “iluminismo”, “ilustração” ou mesmo “luzes”, o tradutor muitas vezes nos leva a esquecer o quanto é sobre o “esclarecimento” histórico, do século 18, que os autores estão falando), tinha encontrado algo que me fez pensar nos concretos. Sei que Haroldo gostava muito de Benjamin – e que a Escola de Frankfurt foi levada em grande consideração pelo grupo Noigrandres quando foi levado a pensar na dimensão política da aventura em que embarcavam. Augusto não gosta da apreciação que Adorno faz do jazz. Mas nunca desejou descartar os desafios teóricos que Adorno lançava. Fui olhar o livro e achei um dos trechos que me fizeram pensar em Augusto. Eis:
“O sentimento de horror materializado numa imagem sólida torna-se o sinal da dominação consolidada dos privilégiados. Mas isso é o que os conceitos universais continuam a ser mesmo quando se desfizeram de todo aspecto figurativo. A forma dedutiva da ciência reflete ainda a hierarquia e a coerção. Assim como as primeiras categorias representavam a tribo organizada e seu poder sobre os indivíduos, assim também a ordem lógica em seu conjunto – a dependência, o encadeamento, a extensão e união dos conceitos – baseia-se nas relações correspondentes da realidade social, da divisão do trabalho. (…) É essa unidade de coletividade e dominação e não a universalidade imediata, a solidariedade, que se sedimenta nas formas do pensamento”.
Não o cito como resposta argumentativa a Cicero, mas como uma indicação de que, entre outras coisas, o enfrentamento de questões como essa animou a criação da poesia concreta. E que é perfeitamente natural – e até saudável – que um poeta como Augusto olhe de longe (e com desconfiança) argumentos como o de Cicero, vendo pouco neles além do fato de que servem afinal para afrouxar o arco e instruir pensadores criticamente receptivos a uma poesia atada à sintaxe vista pelos concretos como expressão da opressão. Era uma luta que envolvia ambições também nessa área. Sou suspeito porque, dessa luta saiu a sensibilidade que não só entendeu o essencial do que eu pretendia fazer como prefigurou minuciosamente alguns argumentos que os tropicalistas viriam a formular (sem conhecer tais prefigurações), como é o caso da avaliação da Jovem Guarda e do “novo folclore urbano e internacional” que surgia, energético, na música pop de massa feita para a juventude. Mas é que sou ainda mais suspeito em relação a Cicero, que é um amigo íntimo e freqüente, com quem partilho inclusive comentários pouco simpáticos a Adorno e à Escola de Frankfurt.
Postei demais. É que, apesar de cansado da gravação, fui acordado, por ordem minha, para acompanhar a saída de meu querido filho adolescente para a escola: ele tem aula à 7, tem de acordar às 6, entrou o horário de verão e ele tem pena de desperdiçar as noites dormindo (embora, diferentemente de mim, não tenha dificuldade em adormecer). Acordei tendo dormido menos de uma hora – e não consegui dormir de novo. Aí sentei aqui e escrevi. E olha que ainda não saiu o catatau São Paulo/Rio. Mas quando sair, sairá curto: o que faz a gente escrever comprido é falta de tempo para editar os textos (mesmo na cabeça).
Evangelina, leia comment no post da foto do Moreno.
Heloísa, você que está lendo Verdade Tropical: já chegou no final, onde falo em países grandes?
Roberto Carlos não é o primeiro rei brasileiro. Não falo dos de Orleans e Bragança, que foram imperadores. Mas de Francisco Alves, o rei da voz. Luiz Gonzaga, o rei do baião. Sem falar nas rainhas (anuais) do rádio. Carlos Imperial esteve por trás do Roberto bossa nova do primeiro disco e também por perto no início da fase pop rock. Mas os epítetos da Jovem Guarda (Ternurinha, Tremendão e Rei) devem ter sido forjados por Magaldi & Maia, a dupla de publicitários (o segundo, um homem que se notabilizou por suas posições de esquerda) que, se não me engano, orientava a criação da imagem do programa e do grupo. Os da Rádio Nacional eram sempre criados por César Ladeira, se não me falha a memória (e nos últimos anos ela tem falhado à beça): Francisco Alves, o rei da voz; Orlando Silva, o cantor das multidões; Aracy de Almeida, o samba em pessoa… Em todos os casos, tratava-se do embrião do que hoje você chama de marketing. Luiz Gonzaga cantou (e eu me abstive de repetir): “se mereci minha coroa de rei, essa sempre honrei: é a minha obrigação”. De Londres escrevi para o Pasquim que, tal como Gozaga, Roberto merecera sua coroa de rei – e a honrava. Eu estava profundamente emocionado pela audição em primeira mão de “Curvas da Estrada de Santos”, com Roberto sozinho ao violão na sala de minha casa no exílio. Anos depois, quando, no show “Circuladô”, quis contar que ele tinha escrito “Debaixo dos caracóis dos seus cabelos” para mim, como um desagravo por ter percebido que o exílio era um castigo pesado demais, eu frisei que “é bom que a gente saiba quem é que a gente chama de rei”. Os esboços de marketeiros não enfiaram esse título pela goela dos brasileiros abaixo: como nos casos de Chico Alves e Gonzaga, eles captaram o que a voz do povo queria articular. Se não fosse assim, eu não estaria nervoso por dividir o palco com Roberto. E, se parte do meu nervosismo se devia à grandeza de Tom e à musicalidade de Jaquinho e dos músicos com quem eu estava trabalhando, parte maior ainda se devia à importância que dou a Roberto Carlos. Mas devo lembrar que a emoção boa, pura, de estar ouvindo coisas grandiosas – e que estão ligadas a toda a minha vida – na voz de um personagem tão significativo (o que me fez chorar todas as noites em que nos apresentamos) também contribuiu para a impressão de que meu terno estava apertado.
Okay, Exequiela, not ALL but MOST long English vowels are in fact diphthongs. Still I hear two vowels in all those “oos” you mentioned. Well, maybe not in “goose”… A friend of mine told me I sound pedantic when I start talking about all this grammar and phonetics business. I had thought I sounded sexy. It’s because I find theory very sexy. Mostly when it’s obvious I have no scholarship whatsoever in the matters.
Gabeira vai ser o rei do Rio. Vocês vão ver.
Vi o debate entre Biden e Palin (nomes feitos de bons ditongos ingleses). Foi mais agradável do que o de Obama e McCain. Pelo menos eles se olhavam. E dessa vez foi a republicana quem se apressou em pedir permissão para chamar o senador de Joe. A pressa mostrou que isso estava no script com a função de criar a intimidade que Obama, também jovem, não conseguiu com McCain, e de mostrar-se mais educada do que o preto, que acabou sendo tratado como “boy” pelo experiente McCain. Este repetiu mil vezes “senator Obama doesn’t seem to understand”. Biden procurou não dizer coisas semelhantes sobre Palin pois esta já era uma piada mundial com as burrices que disse em entrevistas. Ela se recuperou, vê-se que com o treinamento. Mas as piscadelas de olho, os “Áiracs”, “Áirans” e “Núkelars” que ela emitia com orgulho – além de seus acenos de mão e trejeitos juvenis de eterna cheer-leader – faziam com que seu corpo de gostosa provocasse repulsa em mim. Ela parece essas mães ainda jovens e bonitas que fazem cara de secundaristas e deixam os filhos embaraçados. Eu odiaria ser filho dela. Biden não foi canastrão quando falou sobre a morte da mulher e da filha. Mas ele tem um amendoado irregular nos olhos ou aquilo é uma plástica mal feita?
Já estava bom da gripe quando fui gravar e notei que a seqüela do som de nariz tapado só aparecia quando ouvíamos a voz gravada. Adiamos e, em duas noites, botei voz em “A cor amarela”, “Base de Guantánamo”, “Perdeu” e “Tarado ni você”. Pedro Sá levou uma câmera que parecia um objeto soviético. Era. Diz que é máquina vintage russa que dá imagens fantásticas. Tomara que ele apresente fotos boas de nós no estúdio. Gravamos também os coros de “Base de Guantânamo” e as palmas de “A cor amarela”: foi festa no estúdio pois Ricardo e Marcelo vieram para isso. Tony Vanzolini andou filmando umas noites lá (quando gravávamos “Menina da Ria”) mas até hoje não pintou nada aqui no blog. Perguntemos a Hermano.
Também não depende de mim o tamanho das letras. Perguntemos a Hermano. Li a palavra “blogosfera” justamente em Portugal (aqui também se usa), quando visitei um blog muito legal de um português que alguém me indicou em Lisboa. Mas não sou muito de ler blogs (leio pouco mais do que e-mails na internet). Então nem sei se o tamanho das letras aqui está longe do padrão, se é que há um padrão. Só tenho é a idéia de lançar aqui duas versões da gravação de “Incompatibilidade de gênios” que fizemos. Uma com um solo de guitarra e um violão base que corresponde às intenções do solo, outra com uns efeitos de guitarra com um violão regular. Ambas são lindas e escolhemos provisoriamente a dos efeitos. Mas eu queria ouvir a opinião (e contar os votos) dos visitantes aqui do obraemprogresso.
30/09/2008 6:58 am | Postado por Obra Em Progresso
Mas será que tem gente que pensa que o que todo o mundo quer é se drogar? Todo o mundo ou pelo menos todos os brasileiros? Tem gente que pensa que todo o mundo não se droga só porque há a proibição? Estou com Salem. Não devemos esperar que os poderes públicos nos tratem como crianças. E depois, por que será que a maioria da população não é alccoólatra? Nem mesmo tabagista? Mesmo sendo legais e glamurizadas por décadas de filmes de Hollywood (onde a primeira fala de personagens entrando numa casa era sempre “I need a drink”, a primeira idéia de um personagem em apuros era “I need a drink”, a primeira proviedência para consolar um doente na cama era “take a cigarette”) o tabaco e o álcool nunca viraram a obsessão das populações humanas. Agora, sempre houve (e haverá?) bêbados e drogados. Não há nenhuma indicação segura de que os haja menos hoje por algumas drogas serem proibidas. A certeza disso é tão idiota quanto a certeza de que as drogas ilegais só fascinam por significar transgressão. Não é só por serem proibidas que elas atraem, nem o desinteresse por elas decorre da sua proibição. Só pensando direito se pode discutir, discordar, concordar, dialogar. Vamos tentando.
Gabeira está virando o jogo.
Mangabeira apoiar Crivella não é surpresa nem mau sinal para mim. Primeiro porque Crivella é do partido dele: o PR foi criado por José Alencar (o vice de Lula), Mangabeira e Crivella. Desde a criação do partido que na imprensa se diz que ele é um partido da Igreja Universal, ou do Bispo Macedo. Não creio que seja isso. O trecho que a moça que postou comentário reproduziu do discurso de Mangabeira na reunião de apoio a Crivella é excelente. E corretíssimo. De fato é horrível querer-se usar o princípio do estado laico para discriminar uma corrente religiosa. Sendo que os cultos evangélicos têm, há muito tempo, recebido de Mangabeira atenção especial. No livro “Política” (o mesmo onde há a crítica do conceito marxista de “capitalismo”) ele contrapõe a importância política da teologia da libertação (católica) ao surgimento das igrejas evangélicas - e vê maior energia liberadora nestas do que naquela. Eu venho de um mixto de ateísmo com politeísmo e, embora veja programas evangélicos na TV desde os anos 90, sempre odiei a campanha que eles fazem contra o candomblé. Sem falar no cara que chutou a santa (se bem que o Bispo Macedo - cuja biografia li com grande interesse - disse ter errado e atrasado em décadas a obra da Universal). Mas se esses programas (e suas igrejas) me atraíram por serem fenômeno popular, eles me mantiveram atento por estarem trazendo para grupos de brasileiros a idéia de que prosperar é bom - coisa que a Igreja Católica estava longe de sequer admitir. Concordo com Mangabeira em que o crescimento das igrejas evangélicas é um dos acontecimentos mais importantes da história brasileira recente. Não estou dizendo que isso é necessariamente bom, apenas que é indiscutivelmente importante. Nunca tive nem tenho preconceito contra o televangelismo americanizado.
And, Heloisa (for some reason I think that’s the right spelling of your name: with an H; maybe I’m wrong but as I always post without going back to read…), I certainly don’t have a good ear for foreign languages, but I don’t have much of a hard time reproducing the pronunciation of their vowels or consonants. I remember the short “u” used to be pronounced as a Portuguese “a” by Brazilians when I was young. Then people realized it was not that opened and tried to imitate the original English “non-vowel” - and ended up pronouncing something like a Portuguese “ô”, which sounds horrible. For example: people used to say “blash” (with a Portuguese “a”) for “blush”; now they say “blôsh” - and it makes me sick. Maybe that’s why you think I pronounce “a” instead of “â” in such cases. Yes, “â” is the closest to it. But we don’t have that in Brazil really - not with a differential value. In Portugal they have (that’s why there it is not hard to tell the difference between an “à” and an “a”, since the simple “a” sounds “â”; in Brazil we don’t have that, and we either write “à” when it’s only an “a” or pronounce “áa” to make sure we know there is a “crase”, i.e., a contraction of the preposition “a” and the definite article in its feminine form, “a”). To be sure, we have always pronounced “blêfe” and “flêrte” - in Bahia, “bléfe” and “flérte” - for “bluff” and “flirt” (and we kind of hear too open an “a” when the word “bluff” is pronounced in a movie). But we used to say “blash” when the word used here to refer to the stuff was “rouge” (a much better word), that we pronounced, effortlessly, à la française. That all means that we were always looking for a real vowel to put there, where there was no vowel proper. Well, of course THERE ALWAYS IS a vowel when you produce a vocal sound. But if it’s not “a”, “e”, “ê”, “i”, “o”, “ô” or “u”, it’s a non-vowel. Are you thinking I say this because I am Brazilian and my ear is used to just those vowels? No. Of course I know about the French “u”, which is half “u” half “i” - as is the German “ü”. Or the German “ö” or “oe” - there are lots of different vowels in different languages. But they demand a minimum of definition. It was my English teacher in London who explained to me that the short “u”’s pronunciation (as opposed to the long “u”, that’s pronounced “iú” - for, as you must have noticed, all long vowels in English are not real vowels but diphthongs: ei, íi, ou, iú…) is just the animal releasing of vocal indistinct sound. Well, you have something like it everywhere, like in the final “as” in Portugal, the final “es” in Catalan (and French, and Neapolitan, and…)… But in English it’s a very frequent sound entity. And often it’s the main vowel in a word. The other “short” vowels are always something in-between defined vowels: the “a” in “cat” is something between (Portuguese-Spanish-Italian-French…) “a” and “é”; the “o” in “pop”, something between “ó” and “a”; the “i” in “fitness”, something between “i” and “ê”, and so on and so forth. As for “far” or “car” (I don’t remember your example): it is not the same case as “dirt” or “Curt”. I must have had it wrong, saying all vowels followed by an “r” sounds undefined. What I meant was that MOST do. Especially if it’s followed not only by an “r” but by an “r” and another consonant. In fact, the “i” in “stir” sounds more like in “dirt”. But it’s for sure that it does in words like “curl”, “curse”, “verse”, etc. The vowel “a” doesn’t behave the same way. The “as” in “start”, “fart”, “lark”, don’t sound like a non-vowel. Rather, like a slightly O-ish A.
Sorry for the long gramatiquice in English. I was really trying to explain what I had meant. But I don’t know anything about English grammar theory. Or theoretical English grammar. Or English theoretical grammar. I really did it just to amuse you. And myself.
24/09/2008 11:53 pm | Postado por Obra Em Progresso
GABEIRA GABEIRA GABEIRA GABEIRA GABEIRA GABEIRA GABEIRA GABEIRA GABEIRA GABEIRA GABEIR
Que diabo é isso de dizer que Gabeira é “Zona Sul”? Gabeira é mineiro, jornalista, foi revolucionário exilado, trabalhou como motorneiro de metrô em Estocolmo. E é o homem que representa o que o Rio deve dizer que quer agora: dignidade. Ele tem a ver com um futuro bacana que os cariocas não podem jogar fora. Tudo a ver com a coragem de enfrentar os corruptos do Planalto – no legislativo e no executivo – e nada a ver com esse folclore de drogas: eu odeio maconha e vou votar nele.
Um tal Alain escreveu que só quem é de direita diz que “esquerda” e “direita” não existem. Acho que isso é um papo do século 19. Eu próprio muitas vezes, se for assim, sou de direita. Mas será assim? Bem, o fato é que essa tirada tem um fundo de verdade - que pode ser verificada cotidianamente. Mas “fundo de verdade” é um papo frouxo.
No Brasil um cara como Fernando Henrique Cardoso é chamado de direitista. Mas não há quem não saiba que se José Serra tivesse vencido as eleições para presidente tocaria uma política econômica bem à esquerda da de Lula. E todos os petistas diriam que era uma política de direita. Meu problema é: estaríamos em melhor situação? Não creio. Talvez o caminho do país em direção à riqueza e à menor desigualdade social não tivesse andado tanto. É melhor assim: com os banqueiros felizes com um presidente a quem a esquerda não faz oposição.
Teve um Encarnação aí que chiou de minha ignorância mas o que ele propôs é muito do que eu quero: “Para a nossa alegria, o Brasil está se tornando a primeira potência mundial em várias áreas, seguido pela China. Para alegria dos baianos, Salvador vai se tornar a capital mundial da cultura, asim como Atenas em V a.c. e Viena e Paris no fim do século XVIII e início do séc. XIX”.
Paulo Francis dizia que quem escreve cartas à redação é maluco. Vejo que a Interenet é o paraíso desses malucos e os blogs são os jardins do paraíso. Mas como sou maluco também, cortei fora os faniquitos contra os Estados Unidos e São Paulo (por que será que é justamente contra os bem-sucedidos que esses ataques surgem?) e encarnei no Encarnação.
Gaúcho querido, eu NUNCA diria que Veríssimo ia ficar do lado das bichas!!!!! EU é que ficaria do lado delas. Aliás, já estou. Sempre estive. Mas lembre-se de que não creio (nem creio que Veríssimo creia, a sério) que a luta futura será essa. Tá doido?
Não toleraria sequer a hipótese de Lula pensar em terceiro mandato. Minha aprovação à figura dele tem como condição seu total repúdio a essa idéia horrorosa. Na verdade eu votei em Lula emocionado mas antes disso já dizia a um jornalista: “desejo que Lula se eleja, tome posse, cumpra o mandato até o fim e passe a faixa presidencial para outro”. Reeleição já me parecia demais desde FH: não votei nem num nem noutro para segundo mandato.
Lula disse, no discurso da posse de Juca Ferreira no Ministério da Cultura, que eu ficaria “mais chato” se entrasse para o PSDB. E que Chico ficaria “mais chato” se entrasse para o PT. Então eu sou PSDB, uai? Será que é isso que ele está sugerindo? Quando o PT foi fundado andei com uma estrelinha na camisa por alguns dias. Mas tenho problemas com a esquerda desde o tropicalismo. E talvez mesmo antes. E, sem dúvida, depois.
Quando diziam que os tucanos ficavam “em cima do muro”, disseram isso de mim também. Respondi que o artista tem de ficar é ACIMA do muro. Foi um ataquezinho de romantismo pró-arte. Que, aliás, foi o que Lula teve no dia daquele discurso.
Meu interesse por Mangabeira vem de longe (como diria o grande Brizola, no tempo em que o próprio Mangabeira era do PDT). Nos anos 80 li, por sugestão de José Almino, um artigo de Mangabeira na Folha e nunca mais o quis perder de vista. Eu não sabia nada sobre ele. Mas gostei. Desde então falei muito dele em entrevistas. Por cerca de 10 anos todos os jornais e jornalistas cortavam essas referências. Coincidiu de ele unir-se a Ciro Gomes quando eu o tinha escolhido como meu candidato à presidência (e de ele se afastar de Ciro quando me desanimei com a campanha deste). Li alguns livros de Mangabeira. São de grande interesse. Fiquei irado com o boicote sistemático que seu nome sofria na imprensa (falo só de minhas entrevistas!). Aí decidi insistir. Acho que o Brasil não está na posição de jogar fora uma contribuição como a dele. Não sou tão maluco assim: também não gosto da frase que propõe serviço humanitário obrigatório. (Será que Nelson leu a resenha de Eduardo Giannetti?) O texto do Giannetti é ótimo. Mas resulta redundante na página de um órgão dessa imprensa que tem sido sistematicamente hostil a Mangabeira. A indignação com a ausência do tema “aquecimento global” também é pertinente. Mas seria novidade se a parte inicial do artigo sobressaísse.
O que eu gosto em Mangabeira (além da grande energia mental) é que ele pensa o Brasil como uma tarefa de primeira grandeza. Não faz por menos. Eu sempre pensei assim. Por isso gostava do professor Agostinho da Silva. Talvez a rejeição a Mangabeira seja saúde, auto-defesa instintiva contra possíveis situações autoritárias. Mas alguém disse aí que ele quase desconhece a língua portuguesa. Isso é absurdo. Mangabeira fala português de modo virtuosístico. Não apenas correto: dá show de bola. Se a pressa em se descartar dele é tão grande, é sinal de que ainda é dever nosso insistir na afirmação de sua presença.
Li o link de Lula sobre união civil dos homossexuais. Bem legal. Será que minha maior aprovação a ele se deve à combinação disso com a escolha de Mangabeira para ministro? Não. Mas, a posteriori, tem a ver.
“Perdeu” é muito mais a cara musical do disco novo do que “A cor amarela” ou “Sem cais”. Adoro estas duas, mas “redondo” é tudo o que procurei evitar quando trabalhei nas novas composições. Confesso que tenho de fazer esforço para não me entregar a soluções composicionais que fazem a peça parecer “redonda”. Se me entregar à mera preguiça, é o que acontece. Mas tenho coisas a dizer (poética e musicalmente) que exigem que não me entregue a isso. “Redondo” é tudo o que adoro em Carlos Lyra, em Rodgers and Hart, em Donato e Berlin. Mas não quero fazer um “redondo“ menor. João Gilberto, o transredondo, me agrada mais do que todos por ser punk. Ele é o cara da Rolleyflex (que levou o “Desafinado” a sério – thanks, Rui Castro), o cara que gravou “Presente de Natal”, que leva anos para cantar no Rio e, quando pinta, exige um som baixo demais até pra mim – e toca com o violão desafinado. Ele não é perfeccionista. Ele é abusado como um verdadeiro artista deve ser. Mas as seqüências de acordes em “Samba do avião” são transcelestiais. “Perdeu”, “Lobão tem razão”, “Falso Leblon”, “Menina da Ria” – essas são as canções que iluminam a lembrança de “Incompatibilidade de gênios” – e põem em perspectiva a “redondeza” de “Sem cais” e que tais.
A todos os que escreveram aqui exibindo histeria anti-americana recomendo a leitura do capítulo sobre os Estados Unidos no livro “O que a esquerda deve propor”, de Mangabeira. Aliás, mangaba é fruta bem baiana, Mangabeira é família baiana (o nosso Unger é neto de Otávio Mangabeira, de quem Jorge Amado contou que, ao passar o cargo a seu sucessor, ouviu de um operário: “Doutor Mangabeira, o senhor governou o nosso estado com muita delicadeza.”)
Zizek menciona Mangabeira no livrão dele. E ressalta exatamente uma de suas idéias que o Gianetti bem que poderia ter aprovado de público: a sugestão de criar-se uma herança social, em vez de se manter a instituição da herança familiar. Mas Zizek lista Unger entre os que propõem mudanças pragmáticas “modestas”: ele quer “revolução com revolução”, sem esse medo tão pequeno-burguês do terror. Nem uma palavra ainda sobre a Revolução Americana (que precedeu a francesa e não teve terror). Mas estou perto do fim do livro, não acabei ainda.
Escrevi essas coisas ontem à noite mas não tinha aprovado: achei muito texto. Não tive tempo de compactar: só voltei do estúdio agora porque estou febril, uma gripe. Toquei violão em “Base de Guantánamo” e “Diferentemente”. Legal. Vou dormir. Li o comment longo da moça que se zangou com o Encarnação e o Salem pensou que o tom irado era com ele (se bem que Salem tem razão – hm… - nas observações exigentes; mas como a moça veio em minha defesa, estou gostando dela; gosto mais do Salem há mais tempo mas não queria que ele brigasse com ela nem ela com o Encarnação – o Encarnação é tão engraçado!). Desculpem a confusão. Mas houve gente perguntando por mim. E, sim, a manutenção de muito do governo FH é parte crucial do sucesso de Lula: do Real ao Bolsa Família, do tom civilizado ao desembaraço para dizer bobagem em público, muito veio do que Zé Dirceu quis chamar de “herança maldita”. O Bolsa: homenagem póstuma a Ruth Cardoso, que começou esse negócio. Lula pôs fermento onde devia (não vamos lembrar agora do “onde não devia”).
10/09/2008 3:33 am | Postado por Obra Em Progresso
Quero contar tudo sobre as gravações. Mas não entendo muito sobre a parte técnica. Houve aí quem peguntasse se fizemos muitos overdubs. Bem, isso eu posso responder. Não fizemos muitos overdubs. Quase não fizemos overdub nenhum. Pedro Sá gravou detalhes rítmicos de guitarra sobre uma das bases que fizemos para “A cor amarela” (fizemos duas). Gravamos doze bases (a última a ser gravada até agora foi a de “Ingenuidade”, samba que nem tinha pensado em gravar mas que a batida trans de Marcelo puxou para dentro do disco). Talvez hoje à noite (quarta) gravemos outra (uma canção nova, que nem acabei de fazer ainda, sobre Aveiro, cidade querida de Portugal).
Pedi a Moreno e Daniel que escrevessem sobre a parte técnica. Eles estão muito ocupados, todos os dias armando o set de gravação - além dos outros trabalhos que têm (Moreno me fez chorar com uma gravação que trouxe dele cantando, com arranjo de Jaquinho Morelenbaum, da canção americana “How Deep Is The Ocean”, em versão para o português brasileiro feita por Carlinhos Rennó, para um disco de obras-primas de compositores judeus americanos; ele e Daniel estavam acompanhando a mixagem do pocket-show do “A Foreign Sound” que fizemos no Baretto, no Fasano de São Paulo, para o DVD do filme “Coração Vagabundo”, de Fernando Andrade). No nosso disco, eles estão usando uma mesa EMI que era novidade na segunda metade dos anos 60 e hoje é tecnologia “vintage”. Contaram que “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” foi o primeiro disco gravado em uma dessas. Depois era numa igual que Jimi Hendrix trabalhava no Electric Ladyland. A daqui veio para o estúdio da Odeon, em Botafogo, depois ficou esquecida em algum lugar aonde fora para ser consertada. O dono do Estúdio AR, onde estamos gravando, a resgatou mas não a usou logo: precisava ainda de reparos. Ficou num depósito até não faz muito tempo. Parece que o grande produtor Mário Caldato fez nela o disco da adolescente paulista que ficou famosa pela internet (estou velho e os nomes próprios não vêm à memória com facilidade - sobretudo às quase 4 da manhã, depois de gravar e compor: com o nome do Bagno foi assim; não era desejo de mostrar desprezo). Bem, agora, depois de escrever esse parêntese todo, lembrei: Mallu Magalhães. A mesa parece feita de manches de avião. Tomara que Moreno esteja tirando fotos dela (vejo-o às vezes com uma camerinha digital na mão). Tudo está sendo gravado através dessa mesa, em fitas daquelas largas e de dorso preto que se usava antigamente (hoje em dia é quase sempre tudo no ProTools, tudo digital). A gravação (e a reprodução) analógica soam mais nuançadas e têm os graves profundos e os agudos macios. Moreno, Pedro e Daniel me disseram muitas coisas sobre a técnica de gravação que estamos usando. Mas vou esperar que eles escrevam para a gente postar aqui. Overdubs quem vai fazer sou eu: toda a voz e o violão serão gravados depois. Por enquanto só posso fazer guias de violão e voz. Não que a gente não quisesse gravar algumas coisas junto. Mas é que no estúdio, do modo como se pôde dispor as coisas, não dá para gravar essas coisas frágeis sem que haja vazamento. Mas o que temos sem mim é muito bonito (sinceramente acho que, na maior parte dos casos, ficaria mais bonito assim mesmo, sem mim, mas não sou insuspeito para opinar - nem posso dizer que abrimos mão do cantor cujo nome vai na capa do disco). Pedro Sá é o Pedro Sá. Mas noto que Ricardo Dias Gomes tem criado verdadeiras peças com o baixo: ele não apenas pontua e sustenta a harmonia: ele compõe estruturas riquíssimas, que a gente entende como arquitetadas mas percebe que foram espontâneas - é muito emocionante. E esse mote de “transamba” estimulou Marcelo a glosar de mil modos surpreendentes e intrigantes: seu som divino de roqueiro elegante vai aqui ao encontro da história do samba em sua vida.
O parêntesis (viram que escrevi essa palavra de duas maneiras?) do parágrafo acima contém afirmação que pode levar as pessoas a crerem que sou modesto (ou que quero parecer modesto). Não sou modesto. Desconfio sinceramente que o que ouvi hoje, sem minha voz e sem meu violão, vai ser um pouco estragado quando eu entrar. Mas talvez só para mim. Tem pessoas que me acham chato, atrasado, devagar, por fora, inautêntico, subdesenvolvido - no fundo concordo com essas pessoas. Não totalmente. Mas tem um lugar central em mim que vê tudo o que faço e sou como desagradável. Talvez seja um aspecto do narcisismo, uma dor vaidosa, a mesma coisa que fazia João Cabral lembrar sempre mais de quem falou mal dele. Na história de Bukowski que contaram aí, eu li pensado que o cara ia dizer que me achou parecido com Bukowski, não com a mulher que chiou por ele não gostar de Shakespeare (na verdade às vezes fico de saco cheio com a shakespearemania, tipo Harold Bloom, e adorei saber que Bukowski - escritor por quem não me interesso muito - disse que o detestava). Na verdade me identifiquei duplamente com ele nesse lance. Pelo dito sobre Shakespeare (embora eu acredite que Shakespeare seja mesmo genial) e pela obsessão por quem o reprovou por isso. Acho que Sylvia Colombo e Jotabê Medeiros sabem que minha reação foi política e nada pessoal (se é que é com esse caso que o comentarista está fazendo o paralelo). Eu próprio não mereceria um elogio especial por meu trabalho no show sobre Jobim. Mas Roberto cantando Jobim é, em si mesmo, um acontecimento tão importante que não pode ser desmerecido sem criar revolta. Minha presença lá também dava valor histórico ao lance: fomos Gilberto Gil e eu a chamar a atenção da crítica séria para a importância da Jovem Guarda. Filhos rebeldes da bossa nova, os tropicalistas fizemos o curto-circuito entre o fino e o brega - e dissemos que Roberto estava, desde sempre, acima de classificações. Seria preciso um show escandalosamente desastroso para justificar a má-vontade dos críticos de Sampa.
Gosto mais de São Paulo do que do Rio por mil razões. Até as que resultam em erros canhestros de perspectiva como o do caso acima. Ontem revi “Daunbailó” na TV e lembrei dos tempos heróicos da Ilustrada, com Matinas (de quem tenho tanta saudade - pessoal, não necessariamente profissional) e a abertura para um gosto internacional, uma reação saudável contra o ensimesmamento do Brasil. Mas as mil razões para amar Sampa ficam para ser desfiadas depois. Agora é dormir para gravar. Ah. Li todos os comments. Tive vontade de responder a vários trechos de vários. Mas agora não dá.
Waldick Soriano morreu. “Eu não sou cachorro, não” é um clássico da cultura brasileira. Tenho orgulho desse grande baiano das nossas letras e músicas. Elite? Se há uma elite para mim, é a elite dos que têm ou tiveram grande intuição artística. Waldick era um desses. Que bom que nossa deslumbrante Patrícia Pillar fez um filme sobre ele a tempo.
Uma amiga americana reclamou por eu não ter incluído “transexual” entre as palavras que citei ao escrever sobre “transamba”. Ela disse que o prefixo “trans”, nos Estados Unidos de hoje, lembram antes de tudo “transexual”. Pois bem, aqui está: hoje estávamos gravando “Base de Guantánamo” e, num tempo de espera para Moreno e Daniel acertarem alguma coisa na máquina, Pedro Sá começou a tocar “Outra vez”, de Jobim, eu, cá do meu canto, comecei a cantar e aí, numa reação imediata e miraculosa, Marcelo inventou uma levada circular na bateria que fazia o samba daquela canção ser mais samba e, ao mesmo tempo, o levava para outra dimensão. Era um samba transexual. Quer dizer: ia além do sexo (que, como todos sabem, é a instância máxima da realidade).
Gravamos dez bases (nove além da base da “Base de Guantânamo” - e oscilo entre grafar assim, à portuguesa ou, como antes, à espanhola, respeitando a origem cubana do nome, como aliás, fazem os americanos - ou estadunidenses, como quer Exequiela, embora eu me recuse a escrever “estadounidense”, já que esse “ou”, em português, se impõe como um ditongo pesado, um incômodo a mais nessa palavra mal inventada). Quase tudo foi saindo de primeira. Muito rápido. Só as mais fáceis tomaram mais tempo. Mas nada está pronto ainda. Só as bases (quer dizer, baixo, bateria e guitarra - minha voz e meu violão servindo apenas de guia). É bonito. É igual ao que se ouve nos shows e não é igual ao que se ouve nos shows. Precisamos completar os arranjos e ouvir mais para saber um pouco melhor. Às vezes nos emocionamos. Em geral quando ouvimos algo gravado na véspera e que não nos pareceu suficientemente bom na hora.
Além dessas 10 músicas, talvez eu faça uma outra (ou duas outras) que tenho no coração mas ainda não na cabeça. Talvez decidamos incluir coisas como “Incompatibilidade de gênios” e mesmo “Outra vez”, de Tom, ou algo de Carlos Lyra. Por enquanto o disco terá apenas canções minhas (sendo que “Sem cais” é em parceria com Pedrinho). Com esses transportes transexuais pode ser que o certo seja mesmo manter o repertório próprio, novo. Isso dará talvez mais nitidez ao projeto.
Mas não esqueci os papos de lingüística etc. Adoraria responder com vagar a Lucas (que começou a conversa): adorei o post dele.
A Ricardo Tabone: Pasquale nunca ensinou - muito menos impôs - a norma lusitana aos leitores brasileiros (eu adorei o lance sobre “deletar” - palavra que uso muito e a que pensei que “deletério” também se aparentava: olhei no dicionário e vi que não).
A Rogério: obrigado pela lembrança do inteligentíssimo (e, como sempre, meio suspeito) texto de Adorno - como ele consegue encantar a esquerda pondo-se à direita da direita!
A Edmilson: que saudade! E: sempre ouvi e ouço “num” e “numa”, mas “dum” e “duma” já estava antiquado desde a minha infância; será que “num” vai cair, puxado pelos jornais?????
A Emanuel: a resposta racional é que se conjugo o verbo sempre na terceira perco o direito de prescindir do pronome sujeito; ouço com prazer os “tu é” dos cariocas e os “tu vai” dos gaúchos, mas sei que há um empobrecimento de possibilidades do uso da língua; de todo modo, não há porque não ensinar às pessoas como funcionam as conjugações, tendo em vista o pronome pessoal escolhido; invejo meus amigos de língua espanhola quando, escrevendo a eles em sua língua, me sinto muito mais à vontade para dizer “sua” sem que haja dúvida de que me refiro a uma terceira pessoa - além de o “L” do artigo definido feminino os livrar dos dilemas da crase: “a la” é o feminino de “al”, ninguém erra; em português “à” é o feminino de “ao”, nada mais, mas as pessoas se enrolam com a crase - e ainda há essa onda de escrever-se “à mão” (embora não digamos “ao lápis”), quando “à mão” quer dizer outra coisa: quer dizer que algo está ao alcance da mão. Aliás, amei ler no texto “medieval” de Maira “aa” em lugar de “à”. Isso porque há anos digo que seria legal se escrevêssemos “aa”, como feminino de “ao”: ficaria bonito e não teríamos esse rolo da crase (que adoro mas vejo que é um sofrimento para muitos). Na entrevista de Bagno (eu não lembrava que era esse seu nome - e olha que o Lucas o cita no primeiro texto), ele diz que deveríamos pôr acento grave na preposição “a” e pronto, deixar esse negócio de crase pra lá. Como no cartaz de rua (oficial): “túnel à 500 metros”. Isso é copiado do francês. Em francês é que a preposição tem sempre acento grave. Mas como faríamos quando fôssemos traduzir “a la”? Prefiro “aa”: é bonito, parece umas coisas que se lêem em holandês, adoro vogais repetidas. Somos brasileiros, somos livres para propor uma coisa assim. Essas coisas me interessam mais do que a reforma ortográfica que vem aí. Pelo que li a respeito, ela me pareceu idiota. Desculpem meu jeito. Mas é o que me pareceu.
A JSR: admitir a norma culta e festejar a mutação! Eis aí uma boa fórmula.
Enfim, a todos eu gostaria de dizer muito mais, me exlicar mais, dizer que sei muito bem que lingüistas estudam o fato “língua”, como apreendemos relações tão complexas aos 2 anos de idade, em que medida há uma gramática pre-existente em nós, como se dão as mudanças na história das línguas etc. - e que as convenções gramaticais são o que são: convenções, regras aceitas por coletividades organizadas (nações) - além de repetir que Pasquale não faz nada que desminta isso (e muito menos ergue a voz para chamar qualquer lingüista de “pseudo-lingüista”) - mas estou cansado, cheguei do estúdio, tenho as canções na cabeça, preciso dormir pra saber amanhã se faço música nova ou não, se meu filho Tom vai ao cinema ver “Linha de passe” comigo (o futebol é a alegria dele).
A primeira cancão que gravamos foi “Lobão tem razão“. Depois, “Tarado ni você“, “Sem cais“, “Perdeu“, “Por quem“, “Lapa“, e seguimos nessa ordem. Mas no disco a ordem, é claro, será outra. Bem outra. Ainda não sabemos qual. Bom dia.
28/08/2008 3:22 am | Postado por Obra Em Progresso
Estou tão enfronhado no Rio com esse projeto da Obra em Progresso que tenho me sentido longe à beça de São Paulo. Vim aqui fazer o show com o Rei no belo teatrinho do Niemeyer no Ibirapuera e senti o tamanho da saudade que eu estava de Sampa. O teatro é elegante e induz à quietude. Se o show fosse no Ginásio do Ibirapuera, o ruído dos aplausos assustaria a boba da Folha e o burro do Estadão que escreveram sobre o show. Há anos não leio nada tão errado sobre música brasileira - e, mais uma vez, envolvendo Roberto Carlos e este transblogueiro que vos fala. Se eu tivesse direito a convite, teria chamado Augusto de Campos para estar presente ao encontro: foi ele quem escreveu o primeiro texto de apoio crítico à Jovem Guarda, prefigurando o tropicalismo e opondo a energia da turma de Roberto e Erasmo à pretensão da turma de Elis. São Paulo é isso. Quando vi a Ponte Otávio Frias em frente aos prédios pós-modernos da Marginal Pinheiros (prefiro prédios pós-modernos aos chamados modernos que encheram nossas cidades de desarmonia, em nome da racionalidade) me senti esperançoso. Dei entrevista a Jô (onde disse isso) e segui para o lançamento do livro do Mangabeira na Casa das Rosas. Agora (já às duas e meia da manhã) o provincianismo fraco dos articulistas dos dois grandes jornais locais não conseguiu abalar essa sensação. O Brasil de Tom, que é o Brasil que precisa estar à altura da bossa nova, cresce para fora e para longe do Brasil dos débeis de cabeça e de coração.
Escrevo isso só para mostrar aos que comentaram as críticas hilárias da província paulistana que também li e que fiquei com pena dos dois fanfarrões que não sabem nem escrever. O do Estadão então é inacreditável. Como é que qualquer editor deixa sair um texto com tantos erros de português, tantas redundâncias e obscuridades, tamanha incapacidade de articular pensamentos? A da Folha não sabe pensar mas exprime de forma primária esse seu não-saber. O outro, nem isso. O texto dele é tão mal escrito que a gente tem de adivinhar o que ele pensa - e chega à evidência de que pensa errado. Mas de alguma forma o artigo da mulher parece ser mais prejudicial do que o do cara. Não respondo aqui a ela nem a ele. Nada digo aos jornais que os publicaram. Deixo aos leitores paulistanos que viram o show. Eles vão escrever protestando. Os jornais talvez publiquem algumas das cartas.
Chega de verdade. “Lobão tem razão” vai ficando muito bonita dentro de mim. Cada vez que a canto ela parece melhor. Fui cantar um trechinho no Jô e fiquei emocionado. “Lapa” nos pareceu - a mim e aos caras da Banda Cê - boa de cara. “Lobão tem razão” cresce com o tempo (em nós, pelo menos). Agora vamos começar o trabalho de estúdio: três dias de ensaio e, na segunda, começa a gravação do CD. O DVD, feito de números em construção, tirados das apresentações no Vivo Rio e no Oi Casa Grande, vai ser um documento da Obra em Progresso. Mas o CD será a prova dos noves (é dos noves, sim: a gente parece que tem medo de pôr os numerais no plural! - até o Oswald de Andrade, naquela grande frase de um dos seus manifestos, escreveu “a alegria é a prova dos nove”; bem, não está errado, mas a própria prova é sempre feita com o uso da expressão “noves fora…”; e como eu já gosto de nove, essa idéia de noves - muitos, múltiplos noves - me dá enlevo). Muito aprenderemos sobre essas canções e suas concepções sonoras quando as ouvirmos gravadas em estúdio. De minha parte, estou curioso e um tanto impaciente. Suponho que a gente vai lançar o CD ainda este ano. O DVD, como recordação do processo que chegou até ele, fica para um pouco depois. Depois do carnaval?
Acho que todo o mundo devia ler o livro “O Que a Esquerda Deve Propor”, de Roberto Mangabeira Unger. É um livro pequeno, denso mas muito claro, que faz renascer o sentimento de “ser de esquerda” em nós. Há propostas concretas interessantes e sobretudo uma visão do mundo hoje que nos liberta para pensar. De minha parte, vejo ali formuladas muitas das idéias que tentei eu próprio encontrar dentro de mim. O capítulo sobre os Estados Unidos e seu papel no mundo hoje é obrigatório - e independe de você querer ou não apostar nas sugestões de mudanças institucionais que Mangabeira oferece. Leiam e vejam se não está ali tudo o que precisamos saber agora sobre a morte das formas de política de esquerda que conhecíamos - sem que seja necessário passarmos a ser conservadores. Há décadas que venho dizendo que Brasil não pode jogar fora a contribição que nos quer dar esse pensador. Agora vejo que o Brasil não vai fazer isso. Temos um dever de originalidade. Temos algo a dizer ao mundo. Mesmo que nunca o disséssemos - mesmo que nunca o digamos - nós o temos. Mesmo que o calemos ou nos recusemos a articulá-lo, temo-lo (e é com prazer que o digo assim, homenageando o português lusitano, que também é nosso e que não devemos ignorar: um dia desses vou escrever sobre lingüistas que agridem os gramáticos em nome de uma demagógica receptividade ao que às vezes é mera limitação opressora dos falantes - mas não vou voltar aos erros do carinha do Estadão).
Estou escrevendo qualquer coisa hoje porque fiquei muito pegado com os shows de Tom/Roberto e nunca mais tinha escrito nada. Mas voltarei.