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Hurtmold é muito bom. Texturas densas, contrastes bem criados, leveza clara, peso encorpado brilhante. Raramente a gente é levado a pensar tão exclusivamente no som. Contei aqui que gostei do disco de Marcelo Camelo, mas ontem no Canecão, com as muitas meninas bonitas e os alguns caras bacanas cantando tudo com ele – e o som do Hurtmold nunca sendo engolido, nítido que é – fiquei ainda mais bem impressionado do que já estava. Quando o show estreou em Pernambuco, li num jornal de Sampa que devia-se ao Hurtmold a grande diferença entre o disco de Camelo (que, segundo a crítica, era chato) e o show de Camelo (que, segundo a crítica, era bem melhor). Quem lesse aquilo ia pensar que a banda não estava no CD. Mas o fato é que o show é igual ao disco, inclusive pela definidora sonoridade (e competência) do Hurtmold. Claro que ver os caras tirando aquele som na cara da gente produz um impacto maior. Mas isso acontece com qualquer grupo que toca bem ao vivo. Camelo também impressiona muito tocando violão e guitarra. É muito natural o senso de tempo dele, a pegada, a relação entre cantar e tocar. O jeito direto e muito masculino dele se comportar no palco é outro elemento da concentração que o espetáculo impõe. Por um momento, por um período, Marcelo Camelo é a estrela solitária da canção popular brasileira – como no tempo em que uma estrela, para sê-lo, precisava ser solitária.
Ouvi de novo (e melhor) Little Joy – o projeto que Rodrigo Amarante vem tocando com Fabrizio Moretti e acho que aquela bonitinha que estava com eles em Los Angeles quando eu fiz o pior show da temporada do “Cê” – e depois fomos para o mais hilário restaurante “brasileiro” do mundo. O CD é fenomenal. As comparações que vi publicadas entre o trabalho de Amarante e o de Camelo são tão idiotas que a gente tende a querer evitar até pôr os nomes dos dois na mesma página. Mas seria tão artificial fingir não notar que os Hermanos dominantes estão insinuando caminhos próprios ao mesmo tempo que isso não seria menos ridículo do que os disparates das comparações. Resumidamente, o que me parece é que Camelo estruturou um “trabalho solo”, no sentido em que Ney Matogrosso ou Sting o fizeram: exibindo seu gosto pessoal e adensando sua persona autoral. O que traz os riscos conhecidos. A meu ver, ele se pôs logo acima dos piores desses riscos. Mas resta uma gota de expectativa de ser tomado a sério. Uma gota a mais do que a que já havia nos próprios Hermanos pós (e algo anti) “Ana Júlia”. Já Amarante, participando de uma nova banda – e meio estrangeira – , já sai por uma vereda que o liberta dos perigos da super-autoria e do tomar-se a sério demais. Os temas de Little Joy são musicalmente próximos da “música adolescente” da época em que havia música adolescente: fins dos 50, começo dos 60. O capricho e a inspiração são tão evidentes quanto no caso de Camelo, mas essa marca estilística (teen late 50’s e early 60’s) e o fato de passar a ser membro de uma outra banda quebram qualquer empostação. Bem, o show de Camelo conquistou a juventude – e com isso já teve a empostação quebrada. Mas é quase evidente que o oposto não acontecerá com Amarante. O fato é que ambos, para nossa alegria e nosso orgulho, estão enriquecendo suas vidas e a história da música popular no Brasil. Esperemos Little Joy chegar até aqui.
Vi e ouvi, na MTV, Karine Carvalho cantando “Tatuí” com 3 na Massa, banda pernambucana/paulistana, e achei sensacional.
“Zii e Zie” (ou “zii e zie”) ia ficar só com 12 faixas. Mas, pelo poder dos meus filhos Moreno e Tom, voltou a ter 13: ambos querem “Diferentemente” na tracklist (track, sim: faixa: gosto demais dessas palavras para designar as unidades que compõem um LP, um CD, um álbum). Quem acha enjoado disco longo resigne-se. Eu mesmo acho. Embora não ache chato canção (ou faixa) longa.
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