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CHELPA FERRO E AVA ROCHA
27/12/2008 3:16 am

O par de dissílabos era irresistível. É fato que fui ver Chelpa Ferro no Casa Grande e Ava Rocha na Cinemathèque. Mas vou começar comentando o show do Do Amor. Também na Cinemathèque, o Do Amor fez um show animadaço. Além de grandes covers do Devo, do Ween e de Pinduca, a banda tocou seu repertório próprio, sempre muito bem, e trocou de figurino três vezes. Eu ia escrever que, para quem pensa que em banda “indie” os caras ficam parados e sérios (aquela marra de “indie”), o Do Amor era um desmentido, mas vi hoje no Youtube uma sátira de Hermes e Renato (muito boa) sobre bandas indies que cantam em inglês e tocam carimbó: deixei pra lá. Mas “Pepeu baixou em mim”, a versão de “Lindo lago do amor” e a “Bicha” de Pinduca seriam exemplos perfeitos. Compadrio e amiguismo à parte, Benjão, Ricardo, Marcelo e Bubu tocam muito. Marcelo estava pra lá de Marraquexe. Ricardo lançou uma voz de criança estrangulada que arrasou. As guitarras eram extremamente precisas. Em meio a uma confusão dos diabos, os caras tocavam com rigor.

Tudo era para parecer travessura de garotos mas o show super bem preparado do Chelpa Ferro tinha mais o espírito de molequeira do que a bagunça do Do Amor. A primeira parte, com Jaques Morelenbaum regendo a colagem de trechos de peças clássicas feita pelos Chelpa não poderia ter parecido molecagem, mas quando os três componentes entraram, por trás de uma tela sobre a qual era projetado um vídeo de visual concretista, a decisão noise se explicitou. Os timbres, seus controles e a relação entre isso e as imagens de detalhes dos aparelhos eram chiques e bem combinados. O volume às vezes passava do suportável, sem nunca fazer dos ruídos musicais meros barulhos desprovidos de discernibilidade. Havia texturas ricas e intrigantes. Mas a reiterada repetição de uma estrutura que consistia em partir do quase vazio até chegar a clímaxes ensurdecedores desanimava o ouvinte de esperar surpresas maiores. Numa terceira ou quarta volta desse esquema, Barrão, Luiz e Serginho pareciam três meninos aprontando. Mas dava gosto ver o acabamento do espetáculo. A colaboração de dois artistas plásticos e um editor de cinema em favor da música tem resultado em arte livre e intensa, sem deixar de parecer a bricadeira de meninos que a deve ter inspirado.

Ava tem uma voz grave. Não de timbre cúprico como a de Bethânia. Nem de timbre limpo e nítido como a de Simone. Nem de timbre cavernoso como a de Ângela Ro Ro. A voz de Ava tem muito ar. Tem grave mais doce do que todas as citadas. Ava apresenta composições suas com parceiros diversos. São canções originais, com letras de beleza difícil. A banda que a acompanha soa bem e os arranjos têm inventividade e equilíbrio. A violoncelista canta com musicalidade mais segura do que a cantora. Isso acontece quando – num número a que a platéia reagiu como a um hit cult – eles apresentam “Pra dizer adeus”, de Edu Lobo e Torquato Neto, em ritmo de marcha-rancho. Ava parece muito amável para ser uma nova moça de voz grave a virar mito na noite. Mas carisma para isso ela tem.

Sou louco pelo Cascadura há anos. Chamava-se Dr. Cascadura. No CD mais recente, “Bogary”, a banda mantém o charme Rolling Stones dos primeiros discos, mas a sonoridade pesada tem textura de Queens of the Stone Age. É muito bem feito. Cascadura é uma banda baiana (merecedora da tradição soteropolitana que vai de Raul Seixas a Pitty) que já existe há anos e que leva quem a ouve a se perguntar por que é que ela não se tornou conhecida como deveria. Fábio canta de um jeito de causar inveja a cantores de rock brasileiros (e latinos em geral): emite a voz como se fosse alguém de língua inglesa e ainda pronuncia as palavras de modo a nos levar a crer tratar-se de um cantor americano. Seu timbre e seu fraseado são tão diferentes dos de Mick Jagger que no tempo em que a banda soava mais como os Stones isso conferia grande originalidade ao som, produzindo uma combinação de base keithrichardiana com canto mais melódico e de sonoridade quase R’n'B. Sob certo ponto de vista, ele é mais musical do que Jagger. Não sei se nos discos antigos eles já usavam auto-tuning como fazem agora. Creio que não. (Estou na Bahia e não sei se deixei o outro disco deles no Rio – quando estava lá não sabia se o tinha deixado aqui.) De todo modo, funciona muito bem com o jeito de Fábio cantar. O produtor andré t (que eu conhecia do disco de Rebeca Matta) participa como músico e deve ter contribuído muito para a criação do som massudo de “Bogary”.

Aqui, embora essa gente toda seja baiana, não há compadrio nem amiguismo: não conheço pessoalmente nenhum deles. Suponho até que seja gente que nem liga para o que eu faço (o que, em muitos casos, é simplesmente ótimo). Fico feliz de poder mencionar esses grandes merecedores de atenção porque assim Glauber Guimarães vê que eu sei que a Bahia não pode nem parecer ser só música de carnaval. Não posso deixar de dizer a Glauber que a partir da faixa “Elnora” comecei a pensar em quão injusto é fingir-se que Lulu Santos é “pop” e que o “verdadeiro” rock brasileiro não lhe deve muito.

Há um erro de português (desses que me incomodam) logo no título de primeira canção do CD do Cascadura: “Se alguém o ver parado” em vez de “Se alguém o vir parado” (ou, em outra aceitável hipótese, “Se alguém o vê parado” – mas a letra da música não autoriza esta última). Não vou encher o saco com meu nhem-nhem-nhem detalhista sobre por que é errado e por que me incomoda. Outro dia. Por ora, basta dizer que há coisas bem bonitas nas letras do Cascadura: “Juntos somos nós // Sós não somos não” (de uma canção que, aliás, eles dedicam a um casal de Porto Alegre, provando que a verdadeira Bahia – do rock – é o Rio Grande do Sul); “Em tua forma sadia escondes de modo eficaz // A fisgada da ferida que me é tão familiar” – este par de versos são da canção “Caim”, que começa assim: “Vou te pôr no meu lugar pra ver como você se sai”.

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