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30/08/2008 5:28 pm

Osias,

Sempre penso em como a crítica de cinema tem sido mais bem servida do que a de música popular. Não quero desmerecer os críticos de música, mas em toda parte há maior seriedade cercando o crítico de cinema. Seriedade editorial, para começar. Embora o cinema seja arte novíssima - e tenha começado como mera atração de feira de novidades - , ele ganhou status de assunto respeitável. Suponho que isso aconteça porque o público de cinema é mais adulto, melhor de vida e mais letrado do que o público da canção. Mas acho gostoso esse desequilíbrio que veio com o upgrade britânico para o rock nos anos 60: os críticos de cinema mantêm seu ambiente tradicionalmente sério, mas os de música misturam ignorância com hiper-erudição e petulância nos julgamentos. Só não deixo passar o uso que se faz disso para manter o mito de que somos cronicamente inviáveis. Acho que se o professor da USP elogia o filme de Sergio Bianchi e desconhece o romance de Diogo Mainardi é só por demarcação de território entre “esquerda” e “direita”. Os dois livros de Mainardi que li (aconselhado por Paulo Francis que dizia, ainda na Folha, que Diogo era o cara) são muito melhor literatura do que “Cronicamente inviável” é bom cinema. O que não é dizer muito. É raro alguém escrever de modo inteligente e equilibrado sobre música popular. Mas a maluquice desproporcional da crítica de rock, feita de elogios extravagantes e desaforos, excita. É sinal de que samba (etc.) não é resguardado, não é coisa de classes dominantes. Me sinto bem nesse lugar. Vai aí abaixo uma leitura/piada do artigo do cara do Estadão. É só para divertimento. Eu mesmo, antes de reler o que escrevi, vi que tinha grafado “trexo” em vez de “trecho” numa das veses em que usei a palavra. Quando, por causa de um bate-boca ridículo sobre um outro show-tributo a Tom Jobim, mandei um texto pro JB chiando com o Xexéo e chamando-o de ignorante, a primeira frase da resposta dele era uma denúncia de que eu escrevera um “z” onde deveria ter escrito um “s”. Sou apaixonado pela língua portuguesa e por gramática (ao contrário de lingüistas e demagogos em geral, acho o sucesso público de figuras como o professor Pasquale um bom sintoma) mas sou muito desarmado em matéria de ortografia. O Jotabê e a Colombo só receberam tanta atenção (de quem não tem tempo para quase nada além da Obra em Progresso para preparar o novo CD) porque sou obsessivo com a afirmação das glórias nacionais (justo eu que escrevi aquele samba para Aracy - e a pedido dela!). Escrevi a “aula” abaixo porque Paulinha adora minhas gramatiquices e só a posto para você ler:

Caetano, o Rei e o show de naftalina

Mais preocupados em lustrar prestígio de Tom Jobim do que em ousar e suplantar-se, totens da MPB fazem noite tediosa

Crítica Jotabê Medeiros

Os melhores momentos do show de Roberto Carlos e Caetano Veloso em homenagem a Tom Jobim acontecem quando o próprio Tom Jobim, no telão, surge cantando suas canções e tocando-as ao piano. É um efeito sintomático: quando a homenagem, ao vivo, é menos vibrante do que a imagem vítrea, a memória, algo vai errado.

Na segunda frase temos logo uma formulação torta: “é um efeito sintomático”. Mas isso é problema de estilo. Já as vírgulas que separam a expressão “ao vivo” são mais do que desnecessárias: constituem erro, uma vez que “ao vivo” tem o mesmo papel de adjetivar “homenagem” que “vítrea” tem de qualificar “imagem”. Trata-se de uma mania de usar vírgulas em excesso, coisa que tem prejudicado tantos textos jornalísticos (e mesmo literários) entre nós. Há também imprecisão (e mau gosto estilístico) em chamar “a memória” de “imagem vítrea” (por quê? porque se tratava de projeção de vídeo? será que alguém pensa que vídeo é vidro? ou apenas quer dizer que imagens na memória são de vidro?).

Roberto e Caetano fizeram de tudo para Tom Jobim: bajularam-no, superlativaram-no, choraram-no.

Como o autor justificaria o uso da preposição “para” com os verbos (seguidos de pronomes átonos) que vêm depois dos dois pontos?

A platéia entendeu, compreendeu, participou, emocionou-se junto - talvez mais pela própria força das canções do que pela grandeza das versões.

“Entendeu, compreendeu” e “participou, emocionou-se junto” formam um par de incômodas redundâncias. E o “talvez mais” diz que a “grandeza das versões” é imensa, já que a “força das canções” em pauta é reconhecidamente extraordinária (apreciação da qual o jornalista nem de longe discorda). Todo o texto (e seu título) gostariam de dizer exatamente o contrário disso.

Mas tudo que Roberto & Caetano não conseguiram foi fazer com que a obra de Tom suplantasse a solenidade, a paródia, o gesto imitador.

Afinal o tom criticado era de solenidade ou de paródia? E “gesto imitador” vem para ilustrar uma ou outra? O período resulta incompreensível.

Aboleraram Tom Jobim, regrediram sua canção à idade da pré-bossa, ao barroquismo da fase Orlando Silva (nem ao menos um Mário Reis pintou ali).

Mas afinal os cantores não conseguiram sair da solenidade ou “aboleraram Tom Jobim”? Sem querer entrar muito nas questões de conteúdo, não se pode deixar aqui de notar que foram cantadas muitas canções do Tom da fase pré-bossa nova, período em que o samba-canção era tido como “abolerado”, com o qual Orlando Silva nada tinha a ver. Orlando Silva, um estilista típico dos anos 30, é o cantor que mais influenciou João Gilberto (João não se cansa de dizer que Orlando era “o maior cantor do mundo”). Com todo o respeito por Mário Reis (e o reconhecimento das afinidades superficiais entre seu canto e o de João), sempre senti que João é mais Ciro Monteiro e Orlando Silva filtrados por Chet Baker do que Mário. Para piorar a confusão, o jornalista qualifica como “barroquismo” as características do canto de Orlando, que nada tem a ver com o sambolero pré-bossa nova, com o qual Tom, sim, tem tudo a ver. E o verbo “regredir” - é transitivo direto?

Naftalínico, o concerto cedeu à nostalgia, à vontade de que o tempo fique congelado, que as coisas sejam imutáveis e polidas ad infinitum.

Que miséria redacional! “Naftalínico”, esse horrendo neologismo (o adjetivo existente é “naftalênico”, referente ao naftaleno, de que “naftalina” é um nome comercial) abre o período, que é confuso em si mesmo e incongruente com o aparente argumento central do artigo. Além de o abandono da preposição “de” na última frase deixar o trecho capenga, surge a pergunta: cedeu-se à vontade de que “o tempo fique congelado” e as coisas sejam “imutáveis” ou que elas sejam polidas “ad infinitum”? Digamos que o jornalista creia que “imutáveis” e “polidas ad infinitum” sejam expressões sinônimas: como ele concilia isso com a afirmação de que se “abolerou” Jobim?

O pianista Daniel Jobim, neto de Tom, usava o chapéu característico do avô, como que para reiterar a onipresença do compositor. Um gesto dispensável, já que o próprio repertório tinha essa função.

Deus do céu! O repertório tinha a função de reiterar a onipresença do compositor? E o chapéu de Daniel (que é um dos elementos constantes na maneira poética e desconcertante de ele incorporar a persona do avô - traço de sua própria personalidade que se salva da estreiteza pelo modo espontâneo com que sua musicalidade abissal se expressa) foi usado “como que” para reiterar essa reiteração?

Foi como num jogral escolar em homenagem ao Duque de Caxias ou coisa parecida, em que as qualidades do homenageado são discorridas de forma artificial, mal ensaiada. Um lustro tedioso num monolito de ouro.

“Um lustro tedioso” faz pensar num qüinqüênio sem novidades. Mas será que o jornalista crê que essa imagem do monolito de ouro (supostamente a obra de Jobim, que, em outros lugares do texto, ele lamenta que se tenha deixado “congelada”) a que se dá um “lustro tedioso” é uma boa imagem literária? E as qualidades do homenageado “são discorridas”? O verbo “dicorrer” aí pode ser tomado como transitivo direto? E o Duque de Caxias, como pôde o autor colocá-lo tão perto desse monolito? É isso que se aprende nos manuais de redação? Jesus de Nazaré!

Caetano (animado com suas sambadinhas à Rubens Barrichello) mostra que é mais eficiente nas versões de clássicos da chamada música brega brasileira (como fez em Moça, de Wando, ou Sozinho, de Peninha). Aí, ele consegue “emprestar” elegância e prestígio à canção e, em contrapartida, revestir-se de sua “sinceridade”. Mas, confrontado com a fineza de Jobim, parece diluir-se, perder lastro ou, então, é apenas reiterativo, com reverência exagerada.

Nunca soube que Rubens Barrichello sambasse. Tenho horror a corridas de automóveis. Comento esse trecho pessoalmente, não como professor. Está mal escrito mas parece conter crítica justa a minhas limitações. Mas o fato é que para mim não há como exagerar a reverência a Tom Jobim.

Há pouca ousadia no repertório: Garota de Ipanema, Samba do Avião, duas vezes Chega de Saudade. Um dos momentos é quando Caetano, em seu set solo, canta Caminho de Pedra. “Essa é uma canção não muito conhecida de Tom Jobim. No disco de Elizeth, que ouvi com Bethânia em Salvador, nos anos 60. Fico feliz em ter a chance de cantá-la aqui, com orquestra. Muito modestamente e muito inseguramente, mas com coração”, avisou, ao finalizar com um “peeeeedra” de doer os ouvidos.

A gente se pergunta: a que exatamente se refere a frase “um dos momentos é quando…”. Aí voltamos e relemos lá em cima que “há pouca ousadia no repertório”. Ah!, um dos momentos em que há alguma ousadia é quando… Ter de fazer força para adivinhar o que um jornalista quer dizer (ou ter que, mentalmente, redigir por ele) - sobretudo sendo algo afinal tão simples - é de lascar.

E a voz de Roberto é tamanha que às vezes ela precisa de controle. Sim, nós já sabemos da extensão de sua voz, ele não precisava exibir-se tanto. E ele ousa muito pouco também, porque não é do seu feitio -mas bem que podia ter algum ás na manga. Apenas um número poderia dizer-se que é surpreendente: Por Causa de Você. Roberto lembra da forma como foi composta - Jobim a deu a Dolores Duran, que a levou ao camarim e fez uma letra para ela escrevendo com “lápis de sobrancelha”.

O número era surpreendente porque Roberto contou que Dolores usou o lápis de sobrancelha? É um tanto ridículo, mas tomara que seja isso que o jornalista quis dizer. De outro modo, o que há de surpreendente em Roberto cantar “Por causa de você”? A identificação dele com Dolores é antiga (e registrada). A história da letra dessa música é folclore conhecidíssimo. Consta que Vinicius já tinha escrito uma letra (ou que Tom já lhe havia entregue a música para que ele o fizesse) mas que, ao ouvi-la ao piano, Dolores escreveu imediatamente as palavras que ficaram coladas para sempre a ela. Teria sido tanta a urgência em fazê-lo que Dolores, sem uma caneta por perto, usou o lápis de maquiagem. Seja como for, Roberto não tem voz muito potente. Tem é musicalidade e naturalidade de emissão, relaxamento no ataque das notas. O “português ruim” do jornalista não dá conta da poesia contida no reinado e na modéstia do autor de Detalhes. O que me soou mais surpreendente na voz de Roberto (embora não necessariamente mais emocionante) foi o “Samba do avião”.

As duas orquestras seguiam caminhos diametralmente opostos. Em Roberto Carlos, sob a regência de Eduardo Lages, a big band servia à música romântica de salão, marca do ?Rei? nas últimas décadas. Com Jaques Morelenbaum, sideman de Caetano, ela ia ao ponto extremo de sofisticação, mas as idas e vindas sugeriam alguma esquizofrenia aos ouvidos.

“Sugeriam alguma esquizofrenia aos ouvidos”????? O que uma frase dessas nos sugere aos ouvidos então? Paranóia? Pânico?

Claro, não seria honesto dizer que foi tudo um porre. Houve bons momentos, especialmente nos números menos solenes, como em Tereza da Praia, que Caetano e Roberto trataram como uma espécie de embolada.

Embolada? Não! Será que ele estava pensando em “desafio” nordestino? Embolada? Muito difícil de entender. Não seria honesto usar a palavra “porre”, nesse sentido, nesse lugar. Mas “Tereza da praia”, da fase do sambolero, foi a única canção tratada de forma abolerada.

A cenografia e a direção do show eram de bom-gosto, com intervenções precisas, procedentes, sem exageros rocambolescos.

Puxa, Felipe Hirsch, Daniela Thomas e Monique Gardenberg adorariam poder dizer algo semelhante do texto do Jotabê, mas é duro ler “intervenções precisas, procedentes, sem exageros rocambolescos”. Rocambolescos? - perguntam-se os pobres Felipe, Daniela e Monique. E: intervenções?

Houve dois concertos cruciais das homenagens à bossa nova nesses últimos dias, os dois do projeto Itaú Brasil: o de João Gilberto, mestre do estilo, e o de Caetano e Roberto, epígonos de João. Por que o de João é mais moderno, menos necrófilo? Talvez porque João é a criatura que se confunde com sua criação - ele parece ter sido engolido pela música, está em uma simbiose doida e sonha com o desaparecimento em pleno palco. Essa condição o salva da armadilha de ser cover de si mesmo.

Aqui, apesar da “simbiose doida” (que diabo é isso?), o escritor do Estadão parece discordar de sua colega da Folha, embora ambos estivessem animados pelo mesmo desejo proviciano da imprensa paulista quando se trata de música popular: soar como os tablóides de rock’n'roll inglês. A Colombo da Folha falou abertamente mal do show de João: ela queria desqualificar a empreitada do Itaú e mostrar que não gosta de bossa nova (então, era o caso de se perguntar, por que a escolheram para escrever sobre o evento?). O Jotabê chama os dois concertos de “cruciais” e parece querer dizer que o de João era bom e o nosso não (o que já cria um problema para a escolha da palavra “crucial”). Mas termina dizendo que o dele era apenas “menos necrófilo” do que o nosso. Que belo elogio! Menos necrófilo! João ia adorar. É no que dá a pessoa não aprender a escrever.

A bossa de Caetano e Roberto, ao menos nesse show, está doente e chamaram dois totens da MPB para fazer a necrópsia.

Suponho que “necropsia” seja uma palavra paroxítona. O acento agudo no “o” que o jornalista pôs não procede. Mas, necrópsia ou necropsia, isso se faz em doentes. E o autor quis florar seu estilo com essa dupla jogada de passar da doença à morte e de separar “Caetano e Roberto” de “dois totens da MPB” numa mesma frase? Seria horrível, mas, dada a debilidade do resto do texto, nem isso parece ser o que está aí. Parece confusão mental e incapacidade redacional a serviço do velho hábito de não permitir que nada brasileiro se afirme. Nos Estados Unidos um texto semelhante poderia significar a perda do emprego por parte de seu autor. Na Inglaterra também - a menos que fosse no New Musical Express ou na revista Mojo (se bem que, do ponto de vista da língua, nem mesmo nessas publicações um artigo desse nível seria admissível).

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IMPRENSA
30/08/2008 6:52 am

Não, Leonardo, uma crítica negativa não é inaceitável. Essas de Sampaulo agora não tiveram peso dentro de mim. Não do ponto de vista da minha necessidade de ser aprovado. Nem sequer da de não ser injustiçado. Foi só minha vontade de ensinar. Quando moço, quis ser professor. Achei os textos da Colombo e do Jotabê tão ruins que quis alertá-los. “Boba” e “burro” são puxões de orelha. Achei a edição dos dois segundos-cadernos tão suspeita que quis mostrar aos responsáveis que eu tinha detectado algo. Isso me basta. Nelson Motta (antigo amigo de tudo o que é bom no Brasil - talvez o único jornalista a fazer carreira falando mais bem do que mal das pessoas) e o de Bárbara Gância (talvez um extremo oposto a Motta) já provaram que eu estava certo. Estou ensaiando e compondo para o disco. Começo a gravar na segunda-feira. Não tenho tempo para explicar. O português de Jotabê é muito feio e a Colombo ter falado mal de João Gilberto dá a medida da nocividade da empreitada conjunta (e desconjuntada) dos diários de S. Paulo. Acho gozadíssimo ler-se “S. Paulo” e não “São Paulo” no cabeçalho da Folha. Não lembro se no Estado é igual. Acho que é, mas não assino esse jornal, embora o respeite muito - de longe. Menos quando pede a quem escreve sobre música popular (o lixão da imprensa) para fingir que sabe ser tão mau quanto um jornalista da Folha (embora, é claro, ninguém saiba, nem de longe, ser tão mau quanto um jornalista da Veja).

Minha opinião: Roberto Carlos canta extraordinariamente bem. Muito melhor do que eu. Mas sei disso desde 1966. Ao menos. Ele é mais bossa nova. Mais músico. Mais cantor. Eu apresentei um repertório que não é todo muito conhecido dentre as músicas de Tom. “O que tinha de ser”, “Caminho de pedra”, “Por toda minha vida”. Tanto no caso dele quanto no meu, eram escolhas naturais: ele cantou o que sempre ouviu muito. Eu, o que ouço desde a adolescência. O show ficou equilibrado e elegante. Claro que a impressão de upgrade das canções ditas bregas que canto não se repete nas minhas versões de Jobim. Roberto as elevou mais. Eu estava nu, com todo o reverente medo que tenho da música. Mesmo assim, não errei nem emudeci. De espécies muito diversas, Tom, Roberto e eu somos medalhões. Eles dois - merecidamente - muito mais do que eu. Mas o fato de eu ser um medalhão transviado confere um caráter particular aos meus eventuais brilhos e também aos pontos cegos. Visto do palco, o show me parecia bonito o tempo todo (mesmo quando eu sofria por minhas insuficiências). E muito emocionante em vários momentos. Cantar “O que tinha de ser”, com aquele arranjo, me enchia o peito de pranto - pranto que desatava quando eu me sentava na coxia e ouvia Roberto cantar de “Por causa de você” a “Samba do avião”.

Pedro Sá, Ricardo Dias Gomes e Marcelo Callado: eis em quem penso agora. Começaremos as gravações por “Perdeu”, a primeira que fizemos no início da obra, ou por “Lobão tem razão”, a última? Hoje ensaiamos “Diferentemente” (com aquelas referências políticas algo datadas agora, o que lhe dá uma graça estranha) e revimos “Por quem?”. O resto foi tentar fazer um plano de gravação. Nenhum de nós tem paciência mais para esperar até entrar no estúdio.

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MARGINAL PINHEIROS
28/08/2008 3:22 am

Estou tão enfronhado no Rio com esse projeto da Obra em Progresso que tenho me sentido longe à beça de São Paulo. Vim aqui fazer o show com o Rei no belo teatrinho do Niemeyer no Ibirapuera e senti o tamanho da saudade que eu estava de Sampa. O teatro é elegante e induz à quietude. Se o show fosse no Ginásio do Ibirapuera, o ruído dos aplausos assustaria a boba da Folha e o burro do Estadão que escreveram sobre o show. Há anos não leio nada tão errado sobre música brasileira - e, mais uma vez, envolvendo Roberto Carlos e este transblogueiro que vos fala. Se eu tivesse direito a convite, teria chamado Augusto de Campos para estar presente ao encontro: foi ele quem escreveu o primeiro texto de apoio crítico à Jovem Guarda, prefigurando o tropicalismo e opondo a energia da turma de Roberto e Erasmo à pretensão da turma de Elis. São Paulo é isso. Quando vi a Ponte Otávio Frias em frente aos prédios pós-modernos da Marginal Pinheiros (prefiro prédios pós-modernos aos chamados modernos que encheram nossas cidades de desarmonia, em nome da racionalidade) me senti esperançoso. Dei entrevista a Jô (onde disse isso) e segui para o lançamento do livro do Mangabeira na Casa das Rosas. Agora (já às duas e meia da manhã) o provincianismo fraco dos articulistas dos dois grandes jornais locais não conseguiu abalar essa sensação. O Brasil de Tom, que é o Brasil que precisa estar à altura da bossa nova, cresce para fora e para longe do Brasil dos débeis de cabeça e de coração.

Escrevo isso só para mostrar aos que comentaram as críticas hilárias da província paulistana que também li e que fiquei com pena dos dois fanfarrões que não sabem nem escrever. O do Estadão então é inacreditável. Como é que qualquer editor deixa sair um texto com tantos erros de português, tantas redundâncias e obscuridades, tamanha incapacidade de articular pensamentos? A da Folha não sabe pensar mas exprime de forma primária esse seu não-saber. O outro, nem isso. O texto dele é tão mal escrito que a gente tem de adivinhar o que ele pensa - e chega à evidência de que pensa errado. Mas de alguma forma o artigo da mulher parece ser mais prejudicial do que o do cara. Não respondo aqui a ela nem a ele. Nada digo aos jornais que os publicaram. Deixo aos leitores paulistanos que viram o show. Eles vão escrever protestando. Os jornais talvez publiquem algumas das cartas.

Chega de verdade. “Lobão tem razão” vai ficando muito bonita dentro de mim. Cada vez que a canto ela parece melhor. Fui cantar um trechinho no Jô e fiquei emocionado. “Lapa” nos pareceu - a mim e aos caras da Banda Cê - boa de cara. “Lobão tem razão” cresce com o tempo (em nós, pelo menos). Agora vamos começar o trabalho de estúdio: três dias de ensaio e, na segunda, começa a gravação do CD. O DVD, feito de números em construção, tirados das apresentações no Vivo Rio e no Oi Casa Grande, vai ser um documento da Obra em Progresso. Mas o CD será a prova dos noves (é dos noves, sim: a gente parece que tem medo de pôr os numerais no plural! - até o Oswald de Andrade, naquela grande frase de um dos seus manifestos, escreveu “a alegria é a prova dos nove”; bem, não está errado, mas a própria prova é sempre feita com o uso da expressão “noves fora…”; e como eu já gosto de nove, essa idéia de noves - muitos, múltiplos noves - me dá enlevo). Muito aprenderemos sobre essas canções e suas concepções sonoras quando as ouvirmos gravadas em estúdio. De minha parte, estou curioso e um tanto impaciente. Suponho que a gente vai lançar o CD ainda este ano. O DVD, como recordação do processo que chegou até ele, fica para um pouco depois. Depois do carnaval?

Acho que todo o mundo devia ler o livro “O Que a Esquerda Deve Propor”, de Roberto Mangabeira Unger. É um livro pequeno, denso mas muito claro, que faz renascer o sentimento de “ser de esquerda” em nós. Há propostas concretas interessantes e sobretudo uma visão do mundo hoje que nos liberta para pensar. De minha parte, vejo ali formuladas muitas das idéias que tentei eu próprio encontrar dentro de mim. O capítulo sobre os Estados Unidos e seu papel no mundo hoje é obrigatório - e independe de você querer ou não apostar nas sugestões de mudanças institucionais que Mangabeira oferece. Leiam e vejam se não está ali tudo o que precisamos saber agora sobre a morte das formas de política de esquerda que conhecíamos - sem que seja necessário passarmos a ser conservadores. Há décadas que venho dizendo que Brasil não pode jogar fora a contribição que nos quer dar esse pensador. Agora vejo que o Brasil não vai fazer isso. Temos um dever de originalidade. Temos algo a dizer ao mundo. Mesmo que nunca o disséssemos - mesmo que nunca o digamos - nós o temos. Mesmo que o calemos ou nos recusemos a articulá-lo, temo-lo (e é com prazer que o digo assim, homenageando o português lusitano, que também é nosso e que não devemos ignorar: um dia desses vou escrever sobre lingüistas que agridem os gramáticos em nome de uma demagógica receptividade ao que às vezes é mera limitação opressora dos falantes - mas não vou voltar aos erros do carinha do Estadão).

Estou escrevendo qualquer coisa hoje porque fiquei muito pegado com os shows de Tom/Roberto e nunca mais tinha escrito nada. Mas voltarei.

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Istambul, Milton, Gil e muito mais
9/08/2008 4:03 am

Caetano escreve:

João Cabral de Mello Neto me disse que podia ler mil textos dizendo que um poema seu era genial ou que ele era o maior poeta brasileiro, mas se lesse um só que dissesse qualquer coisa contra sua poesia, esse não lhe sairia da cabeça. Mesmo que fosse o texto menos inteligente. Lembrei disso ao notar que tendo a responder a quem discorda ou critica. Será a incomensurável vaidade dos artistas (não vou dizer “dos poetas”)? Há quem diga que é a sede de discussão. Também. Quando estou de bom humor, penso que é a vontade de ser compreendido. Mas Björk disse que querer ser entendido é uma forma de arrogância.

Política é o fim? Lembro dessa música do “beijo na boca“. Muito boa. Em parte era uma conversa entre mim e Gil. E ele acabou entrando na política. Agora, acaba de sair do ministério. Minha resenha é mais para positiva. Tivemos grande visibilidade nacional e internacional para o ministério da cultura brasileiro; tivemos a sintonia desse ministério com o que se pensa de mais avançado a respeito de direitos na era da reprodutibilidade digital e da difusão pela internet (com Lessig saudando nominalmente Gil por ser o exemplo de atitude inovadora e libertária por parte de um governo); tivemos os pontos de cultura; tivemos a criação da casa do samba-de-roda, com restauração do solar de Araújo Pinho em Santo Amaro. Tivemos também os problemas: esboços de autoritarismo, como no projeto da Ancinav (que Lula cortou pela goela, que ele não é bobo), por exemplo. Não gosto muito de me imaginar tendo poder oficial. Ouvi o disco novo de Gil que me chegou pela Internet. Fiquei alegre com a animação dele em fazer coisas novas frescas, gostei de “Não gruda” (será isso mesmo?), adorei a menção a meu pai na música sobre minha mãe, chorei com a última estrofe de “Não tenho medo da morte” (aquela em que muda de “mas sim medo de morrer” para “mas medo de morrer, sim” - algo assim). Mas só ouvi uma vez, na viagem, e estou comentando de memória dessa única audição.

MILTON

Vi Milton e os Jobim em Milão. Já tinha visto no Mistura Fina. Mas lá foi ainda mais emocionante. Foi num lugar imenso, ao ar livre, e as pessoas todas ficavam hipnotizadas pela música. Principalmente pela voz de Milton. A musicalidade dele fica mais notável no mundo transparente e econômico dos Jobim. As decisões a respeito das notas de “Chega de Saudade”, em todas as suas passagens polêmicas, aparecem com uma clareza e uma naturalidade sobrehumanas. “Esperança perdida”, com aquela introdução deslumbrante, chega a doer no coração da gente. “Inútil paisagem”, lenta e em registro agudo, parece radiografada. Tudo isso (e tudo o mais) se deve em grande parte às relações peculiares de Milton com a bossa nova. Milton é um não-joãogilbertiano. É um gênio que se formou fora da zona de gravidade de João Gilberto. É como se ele fosse filho de Edu e Elis - e de Agostinho dos Santos - sem ter precisado passar por João. Paulinho da Viola (para citar outro gênio) é menos tributário da bossa nova do que Milton, mas é mais dependente da revolução joãogilbertiana, do minimalismo essencialista do mestre. Milton, ao contrário de Paulinho, tem tudo a ver com as relações da bossa nova com o jazz moderno, com a grande canção americana e com a música clássica impressionista, mas nada a ver com o canto íntimo e o violão enxuto de João. Seu canto pressupõe amplos espaços, cúpulas, céus. Ouvi-lo cantar Jobim com Daniel e Paulinho (e Paulinho Braga) é ser levado a estudar a música que há em Tom e no próprio Milton. A gente estuda sem pensar. E o vento de Caymmi entra como explicação de tudo. É a musicalidade caymmiana, tão amada por João Gilberto, que ressurge em sua grandiosidade e seus luxuosos mistérios, num pólo oposto às versões dos sambas de Caymmi que João apresentou ao longo da vida. Mas é também a única interpretação de um
clássico caymmiano tão adequada e genial quanto as de João Gilberto.

ISTAMBUL

Comecei a ler o livro de Pamuk antes de sair da Itália. Chegamos a Istambul de noite. Um rapaz gentil e suave nos recebeu e outro nos acompanhou no carro. Falava inglês. O motorista, não. Era bom ver a estrada perto do mar, palmeiras, ciprestes, árvores altas. O asfalto era todo bom e a iluminação forte e sem falhas. Passamos por ruinas romanas: colunas, paredes, um aqüeduto. Logo a polícia nos parou. O motorista mostrou documentos. Dialogaram (quase discutiram) em turco. Giovana e eu ficamos quietos. Quando liberaram o carro, o rapaz que nos acompanhava nos disse que o país estava passando por um momento delicado. Ele se referia à tentativa dos secularistas de derrubarem judicialmente o governo e cassar o partido do primeiro ministro. A acusação era de terem agido em desacordo com o princípio de total separação entre religião e Estado, peça central da constituição republicana instaurada por Atatürk no início do Século 20. O atual presidente é religioso, sua mulher usa véu, e o governo conseguiu mudar uma lei que proibia as moças de usarem véu nas universidades. Sinam, o rapaz que falava inglês, completou dizendo que a tendência fundamentalista cresce na Turquia. Eu tinha lido na The Economist sobre isso (eu não disse que leio The Economist?) e, como um liberal inglês, concordava com a tese da revista de que não seria bom se se derrubasse esse governo religioso mas liberal. Sinam discordava docemente: um infiel, descrente e moderno, ele achava que os secularistas tinham razão. Eu não entendia bem o inglês dele (não entendo bem inglês) mas acho que, em suma, ele dizia que mais vale lutar diretamente pelas coisas que você acha certas do que buscar muita sutileza estratégica. Ele também dizia que a Turquia vai entrar na União Européia e que tanto os secularistas quanto o governo querem isso. Não insisti com a pergunta “e os fundamentalistas?”. Aprendi muito pouco sobre tudo isso com Sinam. Mas estávamos já no apartamento grande e luxuoso de um hotel com bossas orientais e visão ampla para o Bósforo. Ah, o Bósforo! Tínhamos atravessado uma ponte sobre o Chifre de Ouro. Perguntei a Sinam se tínhamos cruzado o Bósforo. Não. Era só o Chifre. Ele me disse que talvez do banheiro eu visse a ponte sobre o Bósforo. Fui ao banheiro e vi, através de uma parede-janela de vidro (que tentei abrir, iludido pelo reflexo do piso, pensando que ela dava para uma varanda, mas descobri no dia seguinte que ela dava para uma praça asfaltada 18 andares abaixo), o Bósforo. De noite, as luzes das margens, as embarcações iluminadas, a ponte. De dia, o azul profundo, as diferentes formas de a superfície da água se encrespar (segundo os ventos por cima e as correntes por baixo), as torres finas das mesquitas. É extraordinariamente bonito e também é emocionante pensar que esse estreito separa a Europa da Ásia, que Constatino quis chamar a cidade de Nova Roma, que os otomanos a tomaram e dali comandaram o mundo muçulmano por séculos. Lembrei de ter lido, há muitos anos, um livro sobre o Islã, escrito por um árabe, em que os turcos aparecem como um povo opressivo que desfigurou o espírito essencialmente tolerante dos muçulmanos, criando uma imagem que era o oposto do que ocorrera no Califado de Córdoba, quando cristãos e judeus viviam em paz num mundo islâmico. É um livro cujo título e autor gostaria de lembrar agora, pois foi escrito muito antes do Taliban e do 11 de setembro.

A noite de Istambul é animada como a de Buenos Aires ou de Madri. Muita gente nas ruas pela madrugada. Nas praças, nos bares, nas calçadas. Muitos táxis. No dia da nossa chegada, alguns generais foram presos supostamente por planejarem um golpe contra o governo. Muitos militares são secularistas. Mas The Economist insinua que eles não são mais liberais do que o atual primeiro ministro. A equipe técnica e de produção do meu show saiu para passear enquanto eu dormia de manhã. Ao voltarem, Giovana estava nervosa porque, ao tirar fotos no Grand Bazaar, foi ameaçada por uma senhora de roupa preta e só com os olhos à mostra. Ela gritava e queria tomar a câmera da mão de Giovana. Giovana ficou em pânico, quis correr, foi difícil. André Botto, o nosso iluminador, tentou socorrê-la. Mas havia o risco de os homens que a cercavam reagirem e criar-se uma briga perigosa. Bahar, uma das moças da produção local, chegou a tempo de esclarecer para a mulher de véu negro que a foto podia ser apagada. No dia seguinte o consulado americano sofreu um ataque no qual 6 pessoas morreram. Mas nossos acompanhantes turcos estavam calmos e nos transmitiam calma. À noite, ouvi uma explosão que fez tremer o hotel. Fui olhar pela janela. Em pouco tempo vários carros de polícia evacuaram a imensa praça asfaltada em frente do hotel. Uma voz se ouvia por auto-falante. Um grupo de fotógrafos obteve permissão para entrar na àrea isolada e flashes explodiam, com as câmeras todas apontadas para um lugar no chão da praça. Do décimo oitavo andar não dava para eu ver nada. Parece que os policiais acharam outro explosivo ali e o desativaram. Liguei a televisão em busca de notícias mas só vi um programa de variedades em que se apresentava um rapper turco, com todos os trejeitos dos rappers americanos (e dos seus imitadores franceses, espanhóis, ingleses, italianos, portugueses…). A apresentadora super perua reproduzia os movimentos dos braços que todo rapper faz, e chamou alguém da platéia que soubesse a a letra toda. Veio um rapaz magro e feio, e, tal como se vê crianças brasileiras dizendo as rimas do “Diário de um detento”, repetiu toda aquela cascata de palavras em turco, para gargalhadas da apresentadora e de seus convidados - e ovação da platéia. O refrão com melodia era bem árabe (bem uma variante turca do canto melismático árabe), o que dava o tom local, mas, curiosamente, remetia a muitos raps americanos que fazem refrães com melodia árabe clichê. As voltas que o mundo dá. Voltei à janela e a praça ainda estava deserta e cercada de carros de polícia.

O show em Istambul foi numa concha acústica parecida com a do Teatro Castro Alves em Salvador. Muito bom. Platéia turca. Reação admirada e quente. No quarto do hotel, segui lendo Orhan Pamuk e sua Istambul em preto e branco, triste de saudade do império otomano. Mas ao olhar pela janela ou ao andar pela praça em frente à Mesquita Azul, ao olhar incrédulo para a cúpula sobrenatural dentro de Santa Sofia (que foi catedral bizantina mas virou mesquita e hoje é museu), Istambul sempre se reafirmava intensamente colorida. Senti uma certa sensação de opressão em Moscou e mesmo um quase medo. Em Istambul, com toda essa tensão política, medo nenhum.

Tenho de corrigir: o melhor show da turnê foi em Viena. Na Ópera de Viena. Não só a acústica era no mínimo tão boa quanto a de Luxemburgo: o espaço, a inteligência natural da platéia, o ar culto da sala - tudo fez com que eu cantasse melhor do que posso. Trouxe um taco do chão do palco: presente do diretor da instituição.”

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Preparando o retorno ao Brasil e ao canteiro da Obra
27/07/2008 5:45 pm

Caetano, em comunicado provavelmente final desta turnê européia, sintetiza parte do que aconteceu por lá, por aqui (neste blog) e do primeiro show do Vivo Rio até aqui (nesta Obra, limpando o terreno para sua continuidade):

“Transamba é transcriação do samba em chave nova. Bossa nova, esquema novo, novos baianos. Marcos Moran e o Samba Som 7 já tinham o mais transamba dos sambas do Chico, o mais do Paulinho, Antonio Carlos e Jocafi, “O Lado Direito da Rua Direita” e Novos Baianos. Além de guitarra no samba (Novos Baianos já eram isso). Haroldo de Campos chamou de “transblanco” a tradução (”transcriação“) que fez do “Blanco” de Octavio Paz. Pedro Sá vive lendo Octavio Paz. Está apaixonado. Terá lido esse “Transblanco”? Vamos tocar aí no Rio na segunda quinzena de agosto.

Como tudo o que faço em música, a inspiração prática, técnica, tangível, material do meu “transamba” veio de Gilberto Gil. A batida que fiz tocando “Minha flor, meu bebê” - e que está em “Perdeu” e é a base por trás do tratamento das outras canções, inclusive a de Bosco/Blanc - vem de um jeito que Gil inventou para estilizar o samba no violão, nos anos 70. Não sei se há gravações profissionais dele tocando assim (Gil muito freqüentemente fazia coisas em casa que sumiam nos arranjos de estúdio). Mas seguramente foi imitando (limitadamente) o que ouvia Gil fazer que construí a versão de “Madrugada e amor”, acho que do disco “Qualquer Coisa”, e mesmo minha versão de “Eleanor Rigby”, que eu acho linda, com Perinho Albuquerque fazendo guitarra solo sobre meu violão gilbertogilesco e eu cantando um pouco como Amália Rodrigues (mas em que os ingleses e os americanos não viram graça, que eu saiba, assim como não vêem em nada do “A Foreign Sound”).

A catedral de São Basílio é linda como um sorvete; os lutadores da porta do hotel de Caserta são grande cena homoerótica masculina; Noel não é racista nem misógino (essa racialização e sexualização dos argumentos políticos é algo que desejei desde antes do tropicalismo mas hoje tenho de reconhecer quanto pode - como uma vez me disse João Gilberto - atrapalhar o processo: eu disse aquilo sobre o “Feitiço da Vila” porque quero lutar contra esses engessamentos, como quem diz: então vamos fazer exigências politicamente corretas incômodas pra ver se agüentamos); Os “Três travestis” ressuscitaram graças ao caso Ronaldo (que não merecia ter a vida invadida por ameaças que usam o “jornalismo-fofoca-de-celebridades” como arma): o bom disso é a canção - e a oportunidade de sugerir: Jô, meu querido Jô Soares, faz uma entrevista com a Keila Simpson, a principal informante do trabalho feito sobre o travestismo no Brasil pelo antropólogo americano Don Kulick; ela, Keyla, é uma pessoa incrivelmente articulada e tem muito a contar sobre a realidade da vida dos travestis brasileiros (vive em Salvador mas já viveu em Milão e sabe de tudo: está ligada a organizações de humanização da condição das travestis)! - e o livro “Travesti” acaba de sair traduzido em português; amigos americanos liberais (isso lá quer dizer “de esquerda”, ao contrário do Brasil) me dizem que votaram em Obama e gostam dele mas já sabem que ele vai decepcioná-los: bem, eu não me decepcionei com Lula porque não esperava coisa muito diferente do que há - e não votei em Obama; a fantástica frase “prefiro Obama a Hillary porque gosto muito mais de preto do que de mulher” foi outra provocação com a racialização e sexualização da política, mas também, e principalmente, uma homenagem à memória de Pierre Verger:

Tendo Verger ido a minha casa na Bahia com umas moças que fizeram um documentário sobre ele, e vendo que o VHS não reproduzia as cores, me segredou: “assim é melhor, tudo em preto e branco; pra ficar perfeito só falta parar a imagem”. Perguntei porque ele não gostava da imagem em movimento. Ele disse que nunca gostara de cinema porque “em movimento você não consegue uma composição realmente bonita”. Assistimos ao documentário em preto e branco. Depois que acabou, voltei à conversa com ele: - “você me explicou por que não gosta da imagem em movimeno; mas e as cores, qual o problema com as cores?” Ele respondeu: “ah, cores não, cores são uma vulgaridade”. Achei a resposta insatisfatória, embora compreensível: era um lugar comum que ele repetia com a alegria de quem nem precisa elaborar. Adotei esse tom menos responsável e disse: “você gosta mesmo é de preto-e-branco”. Ele, com maior alegria (e maior originalidade do que na resposta elaborada), contestou: “gosto muito mais de preto do que de preto-e-branco”.

Os shows solo aqui foram muito bons. Eu não esperava. Os melhores foram o de Luxemburgo (a acústica do teatro!), o de Viena, o de Roma e o de Oeiras (nos jardins do palácio do Marquês de Pombal). Houve duetos memoráveis com Stefano Bollani em Perugia e Cagliari. Mas nessas outras cidades foi tudo ainda mais bonito. Bollani é um jovem gênio do piano de jazz que gravou um disco chamado “Carioca” com músicos brasileiros (inclusive meus amados Marçalzinho e Jorge Élder), onde ele mostra uma clareza incrível na compreensão do espírito do choro. Mas nesses dias não cantei “Minha voz, minha vida” como em Viena ou Oeiras. Sobretudo não cantei “Odeio” e “Homem” em versões eficientes para violão solo que me surgiram aqui (nada mudou, mas é diferente). O pior show foi em Moscou: não tinha público propriamente, era um show fechado para empreendedores imobiliários russos. Muito charuto. Tenho horror a charuto. Eram jovens com terninhos new wave fumando charuto. O lugar tinha decoração yuppie também. Mas encontrei Tânia Maria e tocamos juntos, o que foi uma grande alegria. Fizemos “Manhã de carnaval” para nós mesmos e ficamos felizes com isso. “Manhã de carnaval” é a canção de Bonfá para o “Orfeu” que Tom Jobim chamava “aquela música russa” (e cuja coda ouço sempre por trás de “Stairway to Heaven“). Fiquei surpreso com vienenses me esperando à porta do hotel para pedir autógrafo e fazer fotografia. Uma gente de todas as idades, com jeito de solitária, sem falar português, falando inglês com sotaque forte e exibindo CDs antigos e novos meus, além de capas de discos de vinil. Jorge Mautner não saía da minha cabeça. Queria que ele visse os austríacos em plena brasilificação. Talvez eles saibam quão perto estão da outra opção. Istambul: o show lá foi lindo mas a cidade merece texto à parte.”

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