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Fui com Tom e Cezar Mendes ao cinema ontem. Tom adora comédia e filmes falados em português (inclusive dublados: aos 8, 9 anos ele perguntava, ao ouvir canções ou diálogos de filmes em inglês: “pai, a gente tem que ouvir essa língua horrorosa?”). Ele queria ver “Se eu fosse você 2″ - tinha visto o 1 comigo e tinha adorado. Adoramos esse 2 também. Mas o importante é que foi no Espaço de Cinema Glauber Rocha, projeto de recuperação do Cine Guarani, sonhado por Cláudio Marques (acho que foi esse o nome que me disseram) e tornado realidade com a participação do Unibanco. Entrar no saguão e ver que os painéis de Carybé estão lá intactos foi comovedor. Quase todos os filmes que mais amo foram vistos pela primeira vez nesse cinema. Ele se chamava Guarani e, quando Glauber morreu, Antônio Carlos Magalhães mudou-lhe o nome para Cine Glauber Rocha - e pôs uma reprodução do grafismo de Rogério Duarte para o cartaz de “Deus e o Diabo na Terra do Sol” na frente. A homenagem era mais do que merecida: quando eu ia às matinais dominicais do Guarani, Glauber excitava a inteligência da cidade para o cinema e desprovincianizava Salvador. Nos artigos do Diário de Notícias, nas palestras pra lá de informais feitas antes de algumas projeções do Clube de Cinema de Walter da Silveira e, finalmente, nos filmes que passou a fazer, Glauber lançou o cinema consciente na Bahia e o cinema brasileiro no mundo. De forma indelével. Vi “Deus e o Diabo” lá. “Rocco e seus irmãos” e “No balanço da horas”. E a Praça Castro Alves é o ponto de vista ideal para a Baía de Todos os Santos e para o Carnaval. O Guarani se transformou agora num Centro Unibanco de Cinema Glauber Rocha com vista para a baía. Tem café, livraria, quatro salas com equipamento de som e imagem de primeiríssima e decoração elegante. Vou voltar lá na primeira semana de 2009, sem Tom, para ver “Gomorra”, que está na sala 1.
Cezar Mendes é um músico de nascença. Sem ter estudado com ninguém, ele ensina a todos. Ouve as harmonias e as reproduz sem nem pensar. Todos o conhecem dos trabalhos com Marisa Monte, sobretudo de sua partcipação nos Tribalistas. Também com Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes em trabalhos fora dessa banda-piada, que é o que, como os Doces Bárbaros, os Tribalistas foram em princípio. Cezar (é assim, com Z, que ele foi registrado) ama bossa nova e as grandes canções americanas dos anos 30. Mas foi ele a anunciar, na cerimônia do Prêmio Multishow no Theatro Municipal do Rio, a força artística de Pitty. Senti emoção muito forte ao ouvir o disco do Portishead com ele. Sem interesse por rock ou música eletrônica, Cezinha foi ficando impressionado com as relações entre as linhas melódicas cantadas pela Gibbons e as ondas de acordes que desenham riffs de gosto expressionista. Ele não perdia nem sequer um lance musicalmente interessante que pintasse. Comentou junto comigo o que havia de notável, surpreendente ou agradável na música desse grupo curioso. Cezinha é de Santo Amaro. Quando eu estava no fim da adolescência ele ainda era menino. Seu irmão, Roberto, é merecidamente famoso pela limpidez cristalina com que aborda (e transforma) todos os toques de chula e samba-de-roda do Recôcavo. Mas Cezar é o cara da sensibilidade harmônica. E do visceral bom-gosto musical. Ele não gosta de carnaval. Mas não deixa de perceber a musicalidade de uma cantora de trio se ela a possui. Ele gostou mais de “Zii e Zie” do que de “Cê”.
Perguntaram o que leio. É sempre sem método. Agora achei um posfácio de Luís Felipe de Alencastro na edição de bolso do “Coração das Trevas” de Conrad e aproveitei para ler a novela na lindíssima tradução de Sergio Flaksman (que, aliás, para meu orgulho, é avô dos meus netos). Por causa disso, peguei o exemplar de “Under Western Eyes”, que me tinha sido dado por Paulo César Sousa (uma das pessoas de quem mais gosto nesse mundo - e que é um grande tradutor de Nietzsche e de Freud, além de Brecht e outros alemães) e estou lendo, assombrado, essa história apaixonante que é, também, uma visão amarga sobre a Rússia - e uma profecia (que soa como uma reflexão a posteriori) sobre o Leninismo-Stalinismo. No meio tempo, olho a história da poesia brasileira de Alexei Bueno. O que ele diz sobre os poetas concretos de São Paulo no paralelo que faz entre estes e os parnasianos é simplesmente abominável. Sob qualquer ponto de vista. Aliás, já na introdução, embirrei com o português desse poeta respeitado e erudito. Sei não. Parece coisa ruim. Falo do que estou lendo esta semana. Não sobre o que li ao longo dos anos. Talvez depois. Feliz Ano Novo.
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