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Cordão é sinônimo de bloco. Só quem saía sem corda eram os trios elétricos. Das grandes sociedades às escolas de samba (como lembro dos Diplomatas de Amaralina!), dos Filhos de Gandhi aos Internacionais, do Crocodilo ao Ilê Aiyê - todos sempre saíram com cordão de isolamento. Isso nunca impediu os foliões de brincarem carnavais inteiros de graça. Ainda hoje é assim. Moreno, meu sábio filho, nunca entrou num camarote ou num cordão - nunca deixou de brincar mais do que eu, nunca reclamou. Quando nossa maior paixão era o Olodum, eu subia no caminhão com Paulinha Lavigne (Aloísio Mercadante era companheiro querido e animado), usava fantasia e dançava dentro da corda, Moreno brincava a noite toda na pipoca.
A primeira vez que vi as escolas de samba do Rio foi na Avenida Presidente Vargas, com Dedé. Choramos de emoção: era 1965, o ano em que a Império Serrano saiu com os “Cinco bailes na história do Rio”. Estávamos na arquibancada. Naquele tempo havia uma arquibancada longa de um lado só da avenida: do outro lado era uma corda guardada pela polícia. Quem não tinha dinheiro para comprar lugar na arquibancada ficava de pé na rua, sambandinho, colado na corda. Os foliões que tentaram seguir as escolas foram repelidos a cacetetaas pela polícia montada. Dedé e eu ficamos chocados, mas ninguém sequer reclamava. Nem uma palavra nos jornais. Nós próprios terminávamos sempre sendo retomados pela beleza do espetáculo e desistíamos de implicar com a dureza da polícia..
Depois o Darcy Ribeiro construiu o Sambódromo. Paulinho da Viola era contra - acho que ainda hoje não se conforma com a ideia de “praça da apoteose”, muito menos com a exclusão do folião pobre, que olha por frestas, do alto de viadutos, pouco pode ver.
Quero citar a obra-prima que é “Invocação”, do Quanta Ladeira, esse bloco recifense que canta espetaculares paródias obscenas de canções conhecidas. Nesse caso, a graça vem da ironia com o Recifolia, um carnaval pop abaianado (”resto de janta abaianada”) que se serviu ao povo daquela cidade por alguns anos. A última frase diz: “ai que saudade do cordão de isolamento”. Uma reação a essa intervenção no carnaval pernambucano fez muito bem à cidade: o carnaval de lá tem tanta força na tradição que pode viver quase só dela. O carnaval baiano que me apaixonou em 1960, quando fui de Santo Amaro pra Salvador, se pautou, desde 1950 pelo menos, pela invenção novidadeira. O trio elétrico serviu, antes, de inspiração e, depois, de argumento para os tropicalistas. Não tinha corda. Num frevo que escrevi sobre o assunto (”Um frevo novo”) digo “Todo mundo na praça e manda gente sem graça pro salão”. Só parte da juventude de alta classe média ia às ruas: ou eram comunistas, ou eram boêmios, ou eram veados, ou eram dos Internacionais. Minto: os velhos ainda saíam nas “grandes sociedades”.
Na Avenida Sete, as famílias punham cadeiras na beira da calçada para assistir ao que passasse. Logo estavam cobrando para alugá-las. As cadeiras ficavam amarradas em cordas que iam de árvore a árvore e roubavam toda a calçada aos foliões. Bem, faz uns bons anos que os camarotes que avançavam sobre o espaço do folião em Ondina foram proibidos (no período Imbassahy?). No ano passado, acompanhei Brown e o Camarote Andante, a pé, da Barra a Ondina. Neste ano, fiz o mesmo percurso em cima do trio do Psirico. A generosidade dos espaços - e o aproveitamento que as multidões fazem deles - é empolgante.
Daniela Mercury há anos não aluga seu trio a blocos: sai sem corda. Não é a única. Brown também. E há vários trios financiados pela prefeitura que saem sem corda. Feitas as contas, não houve piora, talvez tenha havido melhora na configuração topográfica do carnaval da Bahia.
Antes de ver o de Salvador, já tinha, aos 13 anos, passado o carnaval no Rio. Ver a Avenida Rio Branco vazia e sem animação me cortou o coração nos anos 90. Estava tudo reduzido aos desfiles das escolas. Há 4 anos, passei os dias de carnaval no Rio, sem ir ao carnaval. Estava sofrendo, de luto por dentro, não queria ir ao Sambódromo. Fui com Antonio Cicero e Marcelo Pies ver uma exposição no CCBB. Isso fica no centro, perto da Candelária, que é onde a Rio Branco desagua na Presidente Vargas. Para minha surpresa, vi muita gente fantasiada por ali. Pedi licença a Cicero e Marcelo e fui olhar a avenida. Chorei de emoção: estava como quando eu tinha 13 anos: cheia de “clóvis”, blocos, famílias fantasiadas, tudo. No dia seguinte Hermano Vianna me chamou para ver um mini-bloco que Kassin tocava na Avenida Atlântica (eu estava num apart-hotel entre Copa e Ipanema). A Atlântica estava vazia. Mas, voltando de lá, vi burburinho no Arpoador. Fomos olhar e Ipanema estava apinhada de gente. Nos disseram que o Monobloco tinha passado horas antes. A turba remanecente estava pronta para um carnaval pernambucano, baiano, pronta para tudo. Não havia mais blocos. Sobretudo me impressionou a ausência total dos poderes públicos: os vendedores improvisados paravam no meio do safalto, em qualquer lugar. Lembrei-me de quanta coisa se fez na Bahia e no Recife nestes anos. Há regras para a distribuição dos vendedores. Há proibições, planejamento. O Rio oficial porta-se como se nada houvesse além do Sambódromo. Ouço que o número de blocos cresceu enormemente. Que o folião pipoca é multitudinário outra vez no meu Rio. Fico tão feliz que nem dá para explicar. E espero que surja o que surgiu na Bahia: repertório novo e forte - e presença da prefeitura.
Todas essas coisas - e tantas mais - tomaram minha cabeça (além do que é mais forte: o samba do Psirico, a “viola” do Fantasmão, Daniela com o trio caprichadaço puxando milhares e milhares de pessoas, Ivete deixando o pano branco voar, Preta cantando bem um repertório massa na varanda do Camarote 2222, Xande cantando super bem, o Ilê em sua majestade, Armandinho agora com multidão atrás outra vez, Retrofoguetes homenageando Armandinho, Lucas Santana, Trio eletrônico arrebentando…) que não sobra muito espaço para reclamar do que nem tem modelo melhor no passado para comparação.
Bem, eu teria muito do que reclamar - mas não seria de nada do que o pessoal reclama. Talvez começasse, como Zizek, a reclamar contra a existência do carnaval. Mas não penso como Zizek mesmo! Paro em constatar que, nos blocos convencionais (mas nunca no Chiclete), quem brinca mais é quem fica fora da corda: quem está dentro leva aquele “sem graça” do salão de que falava minha música. As roupas uniformes ficam muito feias quando essas pessoas estão cansadas e sem nenhuma outra emoção positiva além da certeza de que está dentro do bloco. Mas já falei demais sobre o mau gosto carnavalesco da classe média provinciana em Verdade Tropical.
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