
| MULATO, MAÇÃ, CANDÉ, 80%, ALEIJÃO, RC E CV CD DVD ACJ |
| 10/11/2008 10:44 pm | Postado por Obra Em Progresso |
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A hipótese de “mulato” vir daquela palavra árabe sempre me convence mais do que a de que vem de “mula”. Mas o Houaiss dá “jumento” como o primeiro significado da palavra. Segue-se “burro pequeno, ainda novo”. O.K. Mais crível que SEJA burrico do que que VENHA DE mula. Para “vir de mula” seria preciso uma formação de palavra italiana (em inglês tem dois tês), como “frutato” (ou será “frutatto”?): era assim que eu pensava até ler o Houaiss. Seja como for - além de jumentos serem bonitos (e jumentinhos novos, lindíssimos, parecidos com Brigitte Bardot) - “mulato” é uma palavra com conotação positiva no português brasileiro que aprendi em casa e na rua. Mais: no segundo verso da canção que é o Hino Nacional Brasileiro não-oficial, “Aquarela do Brasil”, o país é chamado, orgulhosa e carinhosamente, de “meu mulato” (aliás o Houaiss dá “inzoneiro” como sinônimo de “mulato”, quando este tem valor adjetivo). By the way, a “Aquarela do Brasil” foi eleita em votação popular (popular mesmo: a audiência do Fantástico) como a primeira dentre as “maiores músicas brasileiras de todos os tempos”. Seguida, se não me engano, de “Águas de março”, “O bêbado e a equilibrista” e “Carinhoso”.
Glauber, lembro do Stained Glass. Depois eu falo.
Ricardo Pereira, conheço Júpiter Maçã (ou Apple). Depois eu falo.
Gravataí Merengue, concordo totalmente com você: afro-isso, afro-aquilo (e a forma americana “African- American” é ainda pior) é um modo racista de falar. Um egípcio é africano. Um bôer da África do Sul também. O mesmo para tunisinos, marroquinos e argelinos. “Africano” não quer dizer “negro”. Mas mesmo que todos os africanos fossem pretos, seria racismo designar povos tão variados (inclusive fenotipicamente), oriundos do maior continente da Terra, por uma só palavra. Iorubanos não são bantos, malineses não são bundos, haussás não são gege. São povos com histórias diferentes e muitas vezes tingidas de inimizades milenares. Chamar um mulato filho de uma branca americana com um preto do Quênia de “African-American” é uma grosseria histórica. Essas expressões são “muito piores do que qualquer outra adotada espontaneamente pelas pessoas”, como você diz. Usá-las é adotar o olhar do traficante de escravos.
Contei que conheci Portishead há uns dez anos através de um elenco fascinante que entrou na casa de Milton Nascimento, numa festa. Disse que não foi lá que, através de Marininha, Karola, Candé, Luísa e Natália, tomei contato com o grupo inglês. Foi quando, dias depois, liguei para um deles, que ouvi uma gravação fantástica na secretária eletrônica. Perguntando, me informaram que a banda se chamava Portishead. Bem, todos os envolvidos me dizem que escrevo tão mal que ficou parecendo que conheci Portishead ligando pro Milton Nascimento. Se pareceu isso, corrijo: foi ligando para Candé que ouvi Portishead pela primeira vez. Ele (e as meninas bonitas) adoravam esse grupo. Até apelidei Candé de Portishead, já que muitas vezes era a banda que atendia quando eu ligava para ele. E, além de me dizerem que escrevo mal, Candé chiou por ter passado de protagonista a mero figurante na história.
Este blog é da obra em progresso, a feitura do “zii e zie”. Quando o disco estiver pronto para sair, acaba. Mas não se avexem não que vai demorar a sair. Já está todo gravado, embora não todo mixado. Falta também eu ir lá na Universal falar com Gê e Pedro (não Sá) para fazermos a capa (já tenho as fotos e as idéias de tipos). De todo modo, o disco só deve sair no ano que vem: Roberto Carlos e eu lançamos neste fim de ano o CD e o DVD do show com as músicas de Jobim.
Aqui vocês vão ouvir “Incompatibilidade de gênios” nas duas versões para eleger uma. Isso, amanhã ou depois.
Heloísa, você ficou de mal comigo. Minha resposta sobre o “aleijão” foi pura e doce, mesmo que parecesse teimosa e cruel. Justamente por não haver nada mau em mim em relação ao erre retroflexo é que nem lembrei do que você falava quando voltou ao assunto. Sabia que tinha lido algo assim da primeira vez mas, entre tantos comments, não me liguei em “Verdade tropical” (embora ali estivesse explícita a referência). Creio ser o único artista de fora da região do erre líqüido a usá-lo na composição (e gravação) de uma música não cômica nem folclórica, com profundo amor de identificação. Je t’embrasse. Tendrement.
Rafael, prefiro GABEIRA PRESIDENTE do que questionar o resultado da eleição. Embora, é claro, ache erradíssimo o cara que, no Globo, comparou a Zona Sul a um “curral eleitoral”.
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| ELEIÇÕES |
| 10/10/2008 5:47 am | Postado por Obra Em Progresso |
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A votação para escolha da versão de “Incompatibilidade de gênios” que vai para o CD só se dará quando tivermos disponibilizado as duas gravações em MP3 (Hermano, Daniel, Moreno, é mesmo em MP3?) aqui. E isso só acontecerá quando eu tiver posto a voz definitiva. “Voz definitiva” lembra estúdios de gravação de antigamente. Hoje soa gozado. Seja como for, achei bacana que muitos já tenham votado, mesmo sem ouvir. Primeiro pensei que a versão com efeitos e um violão regular ganharia por unanimidade. Agora vejo que há quem vote na versão com solo de guitarra e violão-base correpondendo aos arroubos do solo. Veremos.
GABEIRA GABEIRA GABEIRA GABEIRA GABEIRA GABEIRA. Vamos redobrar o entusiasmo e deixar a onda crescer. Gabeira é uma onda boa. O Rio está tendo coragem de olhar para si mesmo. Acho que estamos bem com Paes e Gabeira para escolher. Não tenho nada contra Paes. Mas Gabeira é muito mais coerente. Desprezemos a mão pesada da grande imprensa em sua tentativa de sufocar a força espontânea que a candidatura de Gabeira desencadeou. Tudo o que ele fez de admirável - respeito aos concorrentes, limpeza na campanha de rua, desprezo pelos “santinhos” - vai ganhar cada vez mais significado. Gabeira se eleger prefeito do Rio é algo bom em si mesmo. Comecemos a pensar em ajudá-lo a governar. E que esse nosso pensamento chegue ao governo do estado e ao planalto. Essa raiva de Dirceu é patética. E a de Vladimir (de quem sempre gosto mais) é apenas para uso de campanha. Depois todos terão de conviver com a retidão e a sensatez que Gabeira nunca abandonou e que há de manter quando for prefeito.
Rei do Rio é uma expressão boa por ser livre do medo de tendências absolutistas ou totalitárias. É uma piada boa e benigna.
Falando em rei, hoje ouvi no rádio do carro a gravação de Bethânia de “Fera ferida”. Como é que Roberto fez essa canção tão extraordinária numa fase em que já não era de se esperar dele algo assim contundente? “Fera ferida” é tão boa quanto “Curvas da Estrada de Santos” e chega a bater lá em cima, em “Se você pensa”. Começa dizendo “acabei com tudo” - e nunca mais a peteca cai, em duas longas estrofes com rimas fortes para idéias fortes, indo desaguar no refrão desafiador “não vou mudar”. Esse refrão soou (e soa) como um paradoxo violento: Roberto dizendo que não muda (e explicando em tom de queixa que “esse caso não tem solução”) justamente quando estava mudando pela primeira vez em muitos anos. Ouvir isso hoje - e na voz de Bethânia - me fez chorar. (Eu também gravei essa canção - do que muito me orgulho - mas é só uma homenagem ao grande acontecimento poético: a gravação não está à altura da música).
Hoje minha irmã mais velha, Nicinha, completa 80 anos. Sinto não poder estar em Santo Amaro: estou preso ao estúdio. Mas transcrevo aqui a letra da música que fiz (e gravei) há alguns anos sobre ela:
NICINHA
Se algum dia eu conseguir cantar bonito
Muito terá sido
Por causa de você
Nicinha
A vida tem uma dívida
Com a música perdida
No silêncio dos seus dedos
E no canto dos meus medos
E no entanto
Você é a alegria da vida.
Não vi o debate dos presidenciáveis americanos: preso ao estúdio. Gosto de Obama por ele mesmo, não tanto pelo que penso que ele pode fazer uma vez que assuma o poder. Mesmo porque agora ninguém sabe que país ele irá governar dentro de alguns meses. Que mundo! Muitos esquerdistas dizem que isso é a prova de que o capitalismo é mau e vai acabar. Hm. Gosto do capítulo de Mangabeira (não no livrinho que recomendei mas num grande, chamado “Política”) sobre como é discutível (e frágil) o conceito de “capitalismo” em Marx. Acho que as dificuldades do mundo são grandes desde sempre. Creio em melhoras e progressos. Os grandes empreendimentos civilizatórios, os impérios, as nações, passaram temas e soluções para a frente. Tem algumas coisas que deveriam ser inegociáveis. Muito do que se chama de “direitos humanos” está entre essas coisas. Por que será que Zizek não inclui a Revolução Americana em sua lista de revoluções exaltadas? O programa da Revolução Americana é ótimo - e não teve terror. Ingleses? Cromwell?
Estou lendo o livro de André Midani, “Música, ídolos e poder“, e estou impressionado. É um livro bom, escrito por um homem incrível, sobre uma vida improvável. Muito bonito o destino desse homem que eu amo tanto e que foi tão importante para mim. Independentemente disso, é um livro para ser lido por quem quer que se interesse por música no Brasil e tenha prazer em ver o assunto olhado de uma perspectiva não provinciana, de uma larga visão histórica. Da chegada dos aliados na Normadia aos downloads e aos piratas, uma personalidade singular, sofrida e curtida (nos dois ou mais sentidos) faz a gente aqui se sentir real, possuidora de um tamanho real.
Não gosto de reeleição. Se algo pode ser chamado, como Zé Dirceu grosseiramente chamou, de “herança maldita” do governo FH, é a instituição da reeleição. Há sempre a força da máquina do estado do lado de quem quer se reeleger. Até que dois mandatos de FH e dois de Lula não foi coisa tão ruim quanto me parecia que fosse ser. Mas os prefeitos todos se reelegerem é demais. E na Bahia a situação é odiosa. O cara que levantou uma favela nas areias da orla e tirou a calçada portuguesa do Porto da Barra não pode ser reeleito. Acorda baianada! Vamos votar no petista e dizer a ele que a condição é repor as pedras portuguesas no Porto. Estive lá e vi que, além da mera burrice de destruir o que é bonito e tem valor histórico, a laje que foi posta como calçada não agüenta um aguaceiro e 15 joggers. Não dá para reeleger esse cara. A não ser que ele se comprometa em refazer a calçada do Porto e, principalmente, tirar as construções de barracas permanentes das praias. Tem que ser como no Rio: monta sua tenda de-manhã e desmonta no por-do-sol. E nada de sombrinhas presas à areia - o que faz com que, de-noite, parte da orla soteropolitana pareça um cemitério. Sei que esta última mosntruosidade já estava lá quando João Henrique chegou. Mas não é a quem faz o que ele faz que se pode pedir pra consertar coisas assim.
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| REI, REIS |
| 4/10/2008 6:57 pm | Postado por Obra Em Progresso |
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Roberto Carlos não é o primeiro rei brasileiro. Não falo dos de Orleans e Bragança, que foram imperadores. Mas de Francisco Alves, o rei da voz. Luiz Gonzaga, o rei do baião. Sem falar nas rainhas (anuais) do rádio. Carlos Imperial esteve por trás do Roberto bossa nova do primeiro disco e também por perto no início da fase pop rock. Mas os epítetos da Jovem Guarda (Ternurinha, Tremendão e Rei) devem ter sido forjados por Magaldi & Maia, a dupla de publicitários (o segundo, um homem que se notabilizou por suas posições de esquerda) que, se não me engano, orientava a criação da imagem do programa e do grupo. Os da Rádio Nacional eram sempre criados por César Ladeira, se não me falha a memória (e nos últimos anos ela tem falhado à beça): Francisco Alves, o rei da voz; Orlando Silva, o cantor das multidões; Aracy de Almeida, o samba em pessoa… Em todos os casos, tratava-se do embrião do que hoje você chama de marketing. Luiz Gonzaga cantou (e eu me abstive de repetir): “se mereci minha coroa de rei, essa sempre honrei: é a minha obrigação”. De Londres escrevi para o Pasquim que, tal como Gozaga, Roberto merecera sua coroa de rei – e a honrava. Eu estava profundamente emocionado pela audição em primeira mão de “Curvas da Estrada de Santos”, com Roberto sozinho ao violão na sala de minha casa no exílio. Anos depois, quando, no show “Circuladô”, quis contar que ele tinha escrito “Debaixo dos caracóis dos seus cabelos” para mim, como um desagravo por ter percebido que o exílio era um castigo pesado demais, eu frisei que “é bom que a gente saiba quem é que a gente chama de rei”. Os esboços de marketeiros não enfiaram esse título pela goela dos brasileiros abaixo: como nos casos de Chico Alves e Gonzaga, eles captaram o que a voz do povo queria articular. Se não fosse assim, eu não estaria nervoso por dividir o palco com Roberto. E, se parte do meu nervosismo se devia à grandeza de Tom e à musicalidade de Jaquinho e dos músicos com quem eu estava trabalhando, parte maior ainda se devia à importância que dou a Roberto Carlos. Mas devo lembrar que a emoção boa, pura, de estar ouvindo coisas grandiosas – e que estão ligadas a toda a minha vida – na voz de um personagem tão significativo (o que me fez chorar todas as noites em que nos apresentamos) também contribuiu para a impressão de que meu terno estava apertado.
Okay, Exequiela, not ALL but MOST long English vowels are in fact diphthongs. Still I hear two vowels in all those “oos” you mentioned. Well, maybe not in “goose”… A friend of mine told me I sound pedantic when I start talking about all this grammar and phonetics business. I had thought I sounded sexy. It’s because I find theory very sexy. Mostly when it’s obvious I have no scholarship whatsoever in the matters.
Gabeira vai ser o rei do Rio. Vocês vão ver.
Vi o debate entre Biden e Palin (nomes feitos de bons ditongos ingleses). Foi mais agradável do que o de Obama e McCain. Pelo menos eles se olhavam. E dessa vez foi a republicana quem se apressou em pedir permissão para chamar o senador de Joe. A pressa mostrou que isso estava no script com a função de criar a intimidade que Obama, também jovem, não conseguiu com McCain, e de mostrar-se mais educada do que o preto, que acabou sendo tratado como “boy” pelo experiente McCain. Este repetiu mil vezes “senator Obama doesn’t seem to understand”. Biden procurou não dizer coisas semelhantes sobre Palin pois esta já era uma piada mundial com as burrices que disse em entrevistas. Ela se recuperou, vê-se que com o treinamento. Mas as piscadelas de olho, os “Áiracs”, “Áirans” e “Núkelars” que ela emitia com orgulho – além de seus acenos de mão e trejeitos juvenis de eterna cheer-leader – faziam com que seu corpo de gostosa provocasse repulsa em mim. Ela parece essas mães ainda jovens e bonitas que fazem cara de secundaristas e deixam os filhos embaraçados. Eu odiaria ser filho dela. Biden não foi canastrão quando falou sobre a morte da mulher e da filha. Mas ele tem um amendoado irregular nos olhos ou aquilo é uma plástica mal feita?
Já estava bom da gripe quando fui gravar e notei que a seqüela do som de nariz tapado só aparecia quando ouvíamos a voz gravada. Adiamos e, em duas noites, botei voz em “A cor amarela”, “Base de Guantánamo”, “Perdeu” e “Tarado ni você”. Pedro Sá levou uma câmera que parecia um objeto soviético. Era. Diz que é máquina vintage russa que dá imagens fantásticas. Tomara que ele apresente fotos boas de nós no estúdio. Gravamos também os coros de “Base de Guantânamo” e as palmas de “A cor amarela”: foi festa no estúdio pois Ricardo e Marcelo vieram para isso. Tony Vanzolini andou filmando umas noites lá (quando gravávamos “Menina da Ria”) mas até hoje não pintou nada aqui no blog. Perguntemos a Hermano.
Também não depende de mim o tamanho das letras. Perguntemos a Hermano. Li a palavra “blogosfera” justamente em Portugal (aqui também se usa), quando visitei um blog muito legal de um português que alguém me indicou em Lisboa. Mas não sou muito de ler blogs (leio pouco mais do que e-mails na internet). Então nem sei se o tamanho das letras aqui está longe do padrão, se é que há um padrão. Só tenho é a idéia de lançar aqui duas versões da gravação de “Incompatibilidade de gênios” que fizemos. Uma com um solo de guitarra e um violão base que corresponde às intenções do solo, outra com uns efeitos de guitarra com um violão regular. Ambas são lindas e escolhemos provisoriamente a dos efeitos. Mas eu queria ouvir a opinião (e contar os votos) dos visitantes aqui do obraemprogresso.
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| 163 comentários » | Assuntos: Gabeira, Jovem Guarda, língua inglesa, Obama, Roberto Carlos — |
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| GABEIRA E GABEIRA |
| 1/10/2008 3:13 am | Postado por Obra Em Progresso |
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Não voto em Crivella nem que vaca tussa. Meu candidato é Gabeira e sempre disse isso. Não sei por que a dúvida. Conheço as opiniões de Crivella (e da turma da IURD) sobre os homossexuais. Mas todos hão de convir que eles são muito mais abertos em relação ao aborto e ao uso de camisinha do que a Igreja Católica. Eles também (até naqueles mini-tele-dramas sobre casais que sofrem porque o cara bebe ou é infiel) não mostram ter muito problema com pessoas amigadas ou namorados que vivem juntos. Agora, hipocrisia, extorsão doce, disputa de clientela - tudo isso é das religiões em geral. Vá lá, falo sobretudo do ambiente católico em que cresci. Respeito o mundo cultural de minha mãe. Mas nunca me ceguei para as evidências de fraude permanente. Religião é coisa difícil. Não existe sem essas coisas. E parece que a humanidade não existe sem religião. As opiniões de Mangabeira se originam em posição filosófica muito séria a esse respeito. Não compartilho. Admiro. São dele. Não são minhas. Mas devem ser conhecidas para ser criticadas. Continuo dizendo que - seja por Crivella, seja por Daniel Dantas (agora, pois há anos não havia essas pessoas e a reação a Mangabeira era a mesma) - não podemos desprezar sumariamente a contribuição que Mangabeira quer dar ao país. O que não é aceitável é o que nunca aceitei: agressões às religiões afro-brasileiras. E a mera idéia de hostilidades religiosas se dando abertamente no Brasil me horroriza. Mas não é com descartar Crivella por ser da IURD que neutralizaremos essas tendências. Deixa ele disputar. E perder. Gabeira ainda vai ganhar. É só a gente deixar de ser bobo.
Sempre tenho interesse em política e sempre me posiciono de modo claro. Tenho sempre candidatos. Não participo da onda de desqualificação da dimensão política. Felizmente. Agora é Gabeira. E Aspásia?
The joke about English vowels was very amusing to me. Not so to Eloisa, or Heloisa. She didn’t say a word. Exequiela came with some corrections. Hm. I take the long “oos” (like in “fool” or “goose”, “loose” etc.) as mainly a hidden diphthong of the same vowel repeated in two different intensities: the “ea” in “repeat”, for example, sounds to me like Spanish “íi”. And in “fool” the double O sounds like “úu” (or even “úo”): you don’t say “ful”, but “fúul” or “fúol”. And yes, there are lots of vocalic sounds in different languages that are not recognizable from the “outside”: a Spanish-speaking person is not spontaneously able to tell the difference between “Ô” and “Ó”, or “É” and “Ê”. The same way we are not able to easily tell “sheet” from “shit”. Y por aqui quedemos con eso de inglés. Es una bella lengua pero tenemos otros asuntos.
Os republicanos não deixaram passar o “bail-out” de Paulson. Bem, sobretudo os republicanos. Mas faz sentido. Eles em princípio defendem o mercado desregulado. O problemão veio daí, mas nem por isso eles iriam querer mudar agora, quando se trata de uma tentativa de salvação coletiva. Essa coerência parece digna. Mas nos indigna de alguma forma.
Continuo sem poder pôr as vozes nas faixas do disco. Fui lá ontem, pensando que, por estar me sentindo bem (relativamente: é sempre assim) eu ia poder gravar voz. Ledo engano. O som de nariz tapado ficou horrível nos auto-falantes. Hoje fui cantar com Milton e os Jobim no Jardim Botânico mas voltei pra casa pra descansar e tentar gravar amanhã.
Falando em Milton e os Jobim, concordo com uma moça que disse que Milton cantando Tom é muito superior a Roberto e eu fazendo a mesma coisa. E mais ainda com a outra que disse que me achou preso, inibido, sei lá, com o terno apertado (não estava apertado, mas parecia), com a voz tensa. Era isso mesmo. Mas discordo da opinião de que Roberto não cantou divinamente bem. Eu estava ali com minha confusão, tenho meu valor histórico e simpatia pessoal, mas não fiz nada artisticamente que merecesse celebrações especiais. Mas Roberto… ah, Roberto, como canta! Que relaxamento, que naturalidade na emissão, que musicalidade espontânea! Não tente se iludir, cara comentarista, não foi a “mídia” (o que quer que signifique esse plural masculino latino transformado, através da vulgarização do inglês, em feminino no singular português brasileiro) que deu a Roberto o título de Rei. Ao contrário: a grande imprensa (e a nanica também) esnobava solenemente Roberto, Erasmo e a Jovem Guarda. Quem o chamou de Rei foi o povo brasileiro, a começar pelas garotas suburbanas que assistiam ao programa nas tardes de domingo. E, com o passar dos anos - e a resistência do estilo dele ao tempo - , a “mídia” teve de ir atrás.
Botei uma voz em “Menina da Ria” que ficou quase boa. Digo: quase boa para ir pro disco. Amanhã confiro e conto mais.
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| 77 comentários » | Assuntos: Crivella, Gabeira, Igreja Católica, Igreja Universal, Mangabeira, Menina da Ria, política, religião — |
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| GABEIRA E MANGABEIRA 2 |
| 30/09/2008 6:58 am | Postado por Obra Em Progresso |
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Mas será que tem gente que pensa que o que todo o mundo quer é se drogar? Todo o mundo ou pelo menos todos os brasileiros? Tem gente que pensa que todo o mundo não se droga só porque há a proibição? Estou com Salem. Não devemos esperar que os poderes públicos nos tratem como crianças. E depois, por que será que a maioria da população não é alccoólatra? Nem mesmo tabagista? Mesmo sendo legais e glamurizadas por décadas de filmes de Hollywood (onde a primeira fala de personagens entrando numa casa era sempre “I need a drink”, a primeira idéia de um personagem em apuros era “I need a drink”, a primeira proviedência para consolar um doente na cama era “take a cigarette”) o tabaco e o álcool nunca viraram a obsessão das populações humanas. Agora, sempre houve (e haverá?) bêbados e drogados. Não há nenhuma indicação segura de que os haja menos hoje por algumas drogas serem proibidas. A certeza disso é tão idiota quanto a certeza de que as drogas ilegais só fascinam por significar transgressão. Não é só por serem proibidas que elas atraem, nem o desinteresse por elas decorre da sua proibição. Só pensando direito se pode discutir, discordar, concordar, dialogar. Vamos tentando.
Gabeira está virando o jogo.
Mangabeira apoiar Crivella não é surpresa nem mau sinal para mim. Primeiro porque Crivella é do partido dele: o PR foi criado por José Alencar (o vice de Lula), Mangabeira e Crivella. Desde a criação do partido que na imprensa se diz que ele é um partido da Igreja Universal, ou do Bispo Macedo. Não creio que seja isso. O trecho que a moça que postou comentário reproduziu do discurso de Mangabeira na reunião de apoio a Crivella é excelente. E corretíssimo. De fato é horrível querer-se usar o princípio do estado laico para discriminar uma corrente religiosa. Sendo que os cultos evangélicos têm, há muito tempo, recebido de Mangabeira atenção especial. No livro “Política” (o mesmo onde há a crítica do conceito marxista de “capitalismo”) ele contrapõe a importância política da teologia da libertação (católica) ao surgimento das igrejas evangélicas - e vê maior energia liberadora nestas do que naquela. Eu venho de um mixto de ateísmo com politeísmo e, embora veja programas evangélicos na TV desde os anos 90, sempre odiei a campanha que eles fazem contra o candomblé. Sem falar no cara que chutou a santa (se bem que o Bispo Macedo - cuja biografia li com grande interesse - disse ter errado e atrasado em décadas a obra da Universal). Mas se esses programas (e suas igrejas) me atraíram por serem fenômeno popular, eles me mantiveram atento por estarem trazendo para grupos de brasileiros a idéia de que prosperar é bom - coisa que a Igreja Católica estava longe de sequer admitir. Concordo com Mangabeira em que o crescimento das igrejas evangélicas é um dos acontecimentos mais importantes da história brasileira recente. Não estou dizendo que isso é necessariamente bom, apenas que é indiscutivelmente importante. Nunca tive nem tenho preconceito contra o televangelismo americanizado.
And, Heloisa (for some reason I think that’s the right spelling of your name: with an H; maybe I’m wrong but as I always post without going back to read…), I certainly don’t have a good ear for foreign languages, but I don’t have much of a hard time reproducing the pronunciation of their vowels or consonants. I remember the short “u” used to be pronounced as a Portuguese “a” by Brazilians when I was young. Then people realized it was not that opened and tried to imitate the original English “non-vowel” - and ended up pronouncing something like a Portuguese “ô”, which sounds horrible. For example: people used to say “blash” (with a Portuguese “a”) for “blush”; now they say “blôsh” - and it makes me sick. Maybe that’s why you think I pronounce “a” instead of “â” in such cases. Yes, “â” is the closest to it. But we don’t have that in Brazil really - not with a differential value. In Portugal they have (that’s why there it is not hard to tell the difference between an “à” and an “a”, since the simple “a” sounds “â”; in Brazil we don’t have that, and we either write “à” when it’s only an “a” or pronounce “áa” to make sure we know there is a “crase”, i.e., a contraction of the preposition “a” and the definite article in its feminine form, “a”). To be sure, we have always pronounced “blêfe” and “flêrte” - in Bahia, “bléfe” and “flérte” - for “bluff” and “flirt” (and we kind of hear too open an “a” when the word “bluff” is pronounced in a movie). But we used to say “blash” when the word used here to refer to the stuff was “rouge” (a much better word), that we pronounced, effortlessly, à la française. That all means that we were always looking for a real vowel to put there, where there was no vowel proper. Well, of course THERE ALWAYS IS a vowel when you produce a vocal sound. But if it’s not “a”, “e”, “ê”, “i”, “o”, “ô” or “u”, it’s a non-vowel. Are you thinking I say this because I am Brazilian and my ear is used to just those vowels? No. Of course I know about the French “u”, which is half “u” half “i” - as is the German “ü”. Or the German “ö” or “oe” - there are lots of different vowels in different languages. But they demand a minimum of definition. It was my English teacher in London who explained to me that the short “u”’s pronunciation (as opposed to the long “u”, that’s pronounced “iú” - for, as you must have noticed, all long vowels in English are not real vowels but diphthongs: ei, íi, ou, iú…) is just the animal releasing of vocal indistinct sound. Well, you have something like it everywhere, like in the final “as” in Portugal, the final “es” in Catalan (and French, and Neapolitan, and…)… But in English it’s a very frequent sound entity. And often it’s the main vowel in a word. The other “short” vowels are always something in-between defined vowels: the “a” in “cat” is something between (Portuguese-Spanish-Italian-French…) “a” and “é”; the “o” in “pop”, something between “ó” and “a”; the “i” in “fitness”, something between “i” and “ê”, and so on and so forth. As for “far” or “car” (I don’t remember your example): it is not the same case as “dirt” or “Curt”. I must have had it wrong, saying all vowels followed by an “r” sounds undefined. What I meant was that MOST do. Especially if it’s followed not only by an “r” but by an “r” and another consonant. In fact, the “i” in “stir” sounds more like in “dirt”. But it’s for sure that it does in words like “curl”, “curse”, “verse”, etc. The vowel “a” doesn’t behave the same way. The “as” in “start”, “fart”, “lark”, don’t sound like a non-vowel. Rather, like a slightly O-ish A.
Sorry for the long gramatiquice in English. I was really trying to explain what I had meant. But I don’t know anything about English grammar theory. Or theoretical English grammar. Or English theoretical grammar. I really did it just to amuse you. And myself.
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| GABEIRA E MANGABEIRA |
| 24/09/2008 11:53 pm | Postado por Obra Em Progresso |
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GABEIRA GABEIRA GABEIRA GABEIRA GABEIRA GABEIRA GABEIRA GABEIRA GABEIRA GABEIRA GABEIR
Que diabo é isso de dizer que Gabeira é “Zona Sul”? Gabeira é mineiro, jornalista, foi revolucionário exilado, trabalhou como motorneiro de metrô em Estocolmo. E é o homem que representa o que o Rio deve dizer que quer agora: dignidade. Ele tem a ver com um futuro bacana que os cariocas não podem jogar fora. Tudo a ver com a coragem de enfrentar os corruptos do Planalto – no legislativo e no executivo – e nada a ver com esse folclore de drogas: eu odeio maconha e vou votar nele.
Um tal Alain escreveu que só quem é de direita diz que “esquerda” e “direita” não existem. Acho que isso é um papo do século 19. Eu próprio muitas vezes, se for assim, sou de direita. Mas será assim? Bem, o fato é que essa tirada tem um fundo de verdade - que pode ser verificada cotidianamente. Mas “fundo de verdade” é um papo frouxo.
No Brasil um cara como Fernando Henrique Cardoso é chamado de direitista. Mas não há quem não saiba que se José Serra tivesse vencido as eleições para presidente tocaria uma política econômica bem à esquerda da de Lula. E todos os petistas diriam que era uma política de direita. Meu problema é: estaríamos em melhor situação? Não creio. Talvez o caminho do país em direção à riqueza e à menor desigualdade social não tivesse andado tanto. É melhor assim: com os banqueiros felizes com um presidente a quem a esquerda não faz oposição.
Teve um Encarnação aí que chiou de minha ignorância mas o que ele propôs é muito do que eu quero: “Para a nossa alegria, o Brasil está se tornando a primeira potência mundial em várias áreas, seguido pela China. Para alegria dos baianos, Salvador vai se tornar a capital mundial da cultura, asim como Atenas em V a.c. e Viena e Paris no fim do século XVIII e início do séc. XIX”.
Paulo Francis dizia que quem escreve cartas à redação é maluco. Vejo que a Interenet é o paraíso desses malucos e os blogs são os jardins do paraíso. Mas como sou maluco também, cortei fora os faniquitos contra os Estados Unidos e São Paulo (por que será que é justamente contra os bem-sucedidos que esses ataques surgem?) e encarnei no Encarnação.
Gaúcho querido, eu NUNCA diria que Veríssimo ia ficar do lado das bichas!!!!! EU é que ficaria do lado delas. Aliás, já estou. Sempre estive. Mas lembre-se de que não creio (nem creio que Veríssimo creia, a sério) que a luta futura será essa. Tá doido?
Dei uma olhada no site das “crianças índigo”. Hm.
Não toleraria sequer a hipótese de Lula pensar em terceiro mandato. Minha aprovação à figura dele tem como condição seu total repúdio a essa idéia horrorosa. Na verdade eu votei em Lula emocionado mas antes disso já dizia a um jornalista: “desejo que Lula se eleja, tome posse, cumpra o mandato até o fim e passe a faixa presidencial para outro”. Reeleição já me parecia demais desde FH: não votei nem num nem noutro para segundo mandato.
Lula disse, no discurso da posse de Juca Ferreira no Ministério da Cultura, que eu ficaria “mais chato” se entrasse para o PSDB. E que Chico ficaria “mais chato” se entrasse para o PT. Então eu sou PSDB, uai? Será que é isso que ele está sugerindo? Quando o PT foi fundado andei com uma estrelinha na camisa por alguns dias. Mas tenho problemas com a esquerda desde o tropicalismo. E talvez mesmo antes. E, sem dúvida, depois.
Quando diziam que os tucanos ficavam “em cima do muro”, disseram isso de mim também. Respondi que o artista tem de ficar é ACIMA do muro. Foi um ataquezinho de romantismo pró-arte. Que, aliás, foi o que Lula teve no dia daquele discurso.
Meu interesse por Mangabeira vem de longe (como diria o grande Brizola, no tempo em que o próprio Mangabeira era do PDT). Nos anos 80 li, por sugestão de José Almino, um artigo de Mangabeira na Folha e nunca mais o quis perder de vista. Eu não sabia nada sobre ele. Mas gostei. Desde então falei muito dele em entrevistas. Por cerca de 10 anos todos os jornais e jornalistas cortavam essas referências. Coincidiu de ele unir-se a Ciro Gomes quando eu o tinha escolhido como meu candidato à presidência (e de ele se afastar de Ciro quando me desanimei com a campanha deste). Li alguns livros de Mangabeira. São de grande interesse. Fiquei irado com o boicote sistemático que seu nome sofria na imprensa (falo só de minhas entrevistas!). Aí decidi insistir. Acho que o Brasil não está na posição de jogar fora uma contribuição como a dele. Não sou tão maluco assim: também não gosto da frase que propõe serviço humanitário obrigatório. (Será que Nelson leu a resenha de Eduardo Giannetti?) O texto do Giannetti é ótimo. Mas resulta redundante na página de um órgão dessa imprensa que tem sido sistematicamente hostil a Mangabeira. A indignação com a ausência do tema “aquecimento global” também é pertinente. Mas seria novidade se a parte inicial do artigo sobressaísse.
O que eu gosto em Mangabeira (além da grande energia mental) é que ele pensa o Brasil como uma tarefa de primeira grandeza. Não faz por menos. Eu sempre pensei assim. Por isso gostava do professor Agostinho da Silva. Talvez a rejeição a Mangabeira seja saúde, auto-defesa instintiva contra possíveis situações autoritárias. Mas alguém disse aí que ele quase desconhece a língua portuguesa. Isso é absurdo. Mangabeira fala português de modo virtuosístico. Não apenas correto: dá show de bola. Se a pressa em se descartar dele é tão grande, é sinal de que ainda é dever nosso insistir na afirmação de sua presença.
Li o link de Lula sobre união civil dos homossexuais. Bem legal. Será que minha maior aprovação a ele se deve à combinação disso com a escolha de Mangabeira para ministro? Não. Mas, a posteriori, tem a ver.
“Perdeu” é muito mais a cara musical do disco novo do que “A cor amarela” ou “Sem cais”. Adoro estas duas, mas “redondo” é tudo o que procurei evitar quando trabalhei nas novas composições. Confesso que tenho de fazer esforço para não me entregar a soluções composicionais que fazem a peça parecer “redonda”. Se me entregar à mera preguiça, é o que acontece. Mas tenho coisas a dizer (poética e musicalmente) que exigem que não me entregue a isso. “Redondo” é tudo o que adoro em Carlos Lyra, em Rodgers and Hart, em Donato e Berlin. Mas não quero fazer um “redondo“ menor. João Gilberto, o transredondo, me agrada mais do que todos por ser punk. Ele é o cara da Rolleyflex (que levou o “Desafinado” a sério – thanks, Rui Castro), o cara que gravou “Presente de Natal”, que leva anos para cantar no Rio e, quando pinta, exige um som baixo demais até pra mim – e toca com o violão desafinado. Ele não é perfeccionista. Ele é abusado como um verdadeiro artista deve ser. Mas as seqüências de acordes em “Samba do avião” são transcelestiais. “Perdeu”, “Lobão tem razão”, “Falso Leblon”, “Menina da Ria” – essas são as canções que iluminam a lembrança de “Incompatibilidade de gênios” – e põem em perspectiva a “redondeza” de “Sem cais” e que tais.
A todos os que escreveram aqui exibindo histeria anti-americana recomendo a leitura do capítulo sobre os Estados Unidos no livro “O que a esquerda deve propor”, de Mangabeira. Aliás, mangaba é fruta bem baiana, Mangabeira é família baiana (o nosso Unger é neto de Otávio Mangabeira, de quem Jorge Amado contou que, ao passar o cargo a seu sucessor, ouviu de um operário: “Doutor Mangabeira, o senhor governou o nosso estado com muita delicadeza.”)
Zizek menciona Mangabeira no livrão dele. E ressalta exatamente uma de suas idéias que o Gianetti bem que poderia ter aprovado de público: a sugestão de criar-se uma herança social, em vez de se manter a instituição da herança familiar. Mas Zizek lista Unger entre os que propõem mudanças pragmáticas “modestas”: ele quer “revolução com revolução”, sem esse medo tão pequeno-burguês do terror. Nem uma palavra ainda sobre a Revolução Americana (que precedeu a francesa e não teve terror). Mas estou perto do fim do livro, não acabei ainda.
Escrevi essas coisas ontem à noite mas não tinha aprovado: achei muito texto. Não tive tempo de compactar: só voltei do estúdio agora porque estou febril, uma gripe. Toquei violão em “Base de Guantánamo” e “Diferentemente”. Legal. Vou dormir. Li o comment longo da moça que se zangou com o Encarnação e o Salem pensou que o tom irado era com ele (se bem que Salem tem razão – hm… - nas observações exigentes; mas como a moça veio em minha defesa, estou gostando dela; gosto mais do Salem há mais tempo mas não queria que ele brigasse com ela nem ela com o Encarnação – o Encarnação é tão engraçado!). Desculpem a confusão. Mas houve gente perguntando por mim. E, sim, a manutenção de muito do governo FH é parte crucial do sucesso de Lula: do Real ao Bolsa Família, do tom civilizado ao desembaraço para dizer bobagem em público, muito veio do que Zé Dirceu quis chamar de “herança maldita”. O Bolsa: homenagem póstuma a Ruth Cardoso, que começou esse negócio. Lula pôs fermento onde devia (não vamos lembrar agora do “onde não devia”).
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| De volta ao Rio |
| 5/08/2008 6:12 pm | Postado por Caetano Veloso |
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GABEIRA, gente! Quando Nelson diz que não vai votar em GABEIRA porque a democracia representativa faliu, o que quer dizer? GABEIRA é uma das poucas provas de que a democracia representativa não faliu. Ele não entrou no Congresso e para lá levou modernidade e honradez? Afinal, Nelson, o que foi que deu certo? A ditadura do proletariado? Acorda! GABEIRA é uma das provas (mas não a única) de que a democracia representativa não faliu. Temos os exemplos de Jefferson Peres e Pedro Simon. Temos Marina Silva. Mesmo parlamentares menos impolutos contribuem para o equilíbrio de forças dentro da sociedade. GABEIRA mostrou, além da coragem e firmeza na resistência contra a corrupção, visão aguda de fatos importantes: ele soube, por exemplo, medir o peso da presença do Exército Brasileiro no Haiti - e tirar as conclusões (ou as perguntas) pertinentes relativas à ação do exército na luta de superação do poder paralelo do crime. Enquanto outros queriam esconder os escândalos por quererem livrar a cara de Lula, ele enfrentou a questão (e sem destruir o que Lula significa). No caso da presença no Haiti, em vez de descartar a colaboração brasileira (decidida por Lula) com as forças da ONU, viu ali um dos aspectos positivos do governo. Ele estava certo nos dois casos. Muita gente não quer gostar de GABEIRA porque ele torna complicada (rica) a aprovação de Lula. Em geral é a mesma gente que despreza o que o Exército Brasileiro fez (e faz) no Haiti. Fingem que isso não é Lula. Isso é que é o bom Lula. GABEIRA representa tudo o que o Rio tem deixado de lado para cultivar Chagas Freitas, Garotinhos, Rosinhas e Crivelas.
Claro que na Rodada de Doha os países mais poderosos se fecharam de modo algo cínico, uma vez que os emergentes tiveram antes que aceitar tantas pressões para abrirem sua barreiras. Mas os ricos também perdem com isso. Eles vão ver. Eles não perdem é por esperar. Leio o Veríssimo mas também leio The Economist. Muitas vezes me sinto um liberal inglês. Estranhamente, no entanto, a referência feita pelo chanceler Amorim ao 11 de setembro em tom de ameaça me causou muito menos indignação do que em princípio me causaria. É que os resultados de Doha são tristes. E Amorim não estava simplesmente ameaçando, já que é fato que o 11 de setembro teve também como resultado um esboço de revisão de posições por parte dos super-poderosos. Escrevo tudo isso que me vem à mente - a respeito de tema tão complicado - em homenagem a Carolina (sei mai stata a Ferrara?) que lebrou que, na Itália, fazendo o “Cê” no ano passado, eu dizia: “in Brasile dicono que io parlo troppo”. Non è forse, bella. È senza dubio. Io parlo troppo. In Francia io dicieva: “dans le Brésil tout le monde dit que je parle trop”. In Estati Uniti: “I am famous in Brazil for speaking too much”. In Portogalo: “no Brasil eu tenho a fama de falar demais”. É isso aí. Mas adorei saber que você também é, apesar de toda essa falação, tarada ni mim.
Cheguei ao Rio. Vou me virar em cinco para ensaiar as músicas novas, reensaiar as velhas novas e as velhas velhas, e compor outras que vêm se esboçando.
No Teatro Casa Grande não haverá convidados, nem no palco nem na platéia. Já tinha falado com Arto Lindsay, com Jonas Sá e ia falar com Gil. Mas não há possibilidade de ensaiarmos com eles e fazermos o que temos de fazer. Só o Mautner vai continuar fazendo os bis, já que os números dele estão ensaiados (não precisa nem repassar). Quanto à platéia, o teatro é menor, são só 3 dias e tenho milhões de amigos (ou pelo menos quero ter, como Roberto Carlos) no Rio de Janeiro.
Encontrei Teresa Cristina no aeroporto de Paris. Que alegria! Ela e eu ainda celebrávamos nosso encontro no Obra em Progresso. Nunca esquecerei de Teresa cantando “Nu com a minha música”.
Vou me esforçar para postar textos curtos, viu Carolina? (Se bem que seu comentário veio justo quando consegui os textos mais concisos.) E os próximos serão sobre as novas novas e os ensaios.
Lucas, é transrock, Lucas. Não precisa ser transamba. Transamba é o disco do Marcos Moran. Eu gosto quando os defensores do samba dizem que nem “Desde que o samba é samba” é samba. E quando os defensores do rock dizem que nem “Rocks” é rock. Eu sou o Falanjo e estou num lugar, meio incômodo, meio sublime, de onde se olha essas eleições de gênero com certa distância. E, ah, para Paulo Henrique: nem Comte nem Cristo: progresso como em James Joyce.
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