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Istambul, Milton, Gil e muito mais
9/08/2008 4:03 am

Caetano escreve:

João Cabral de Mello Neto me disse que podia ler mil textos dizendo que um poema seu era genial ou que ele era o maior poeta brasileiro, mas se lesse um só que dissesse qualquer coisa contra sua poesia, esse não lhe sairia da cabeça. Mesmo que fosse o texto menos inteligente. Lembrei disso ao notar que tendo a responder a quem discorda ou critica. Será a incomensurável vaidade dos artistas (não vou dizer “dos poetas”)? Há quem diga que é a sede de discussão. Também. Quando estou de bom humor, penso que é a vontade de ser compreendido. Mas Björk disse que querer ser entendido é uma forma de arrogância.

Política é o fim? Lembro dessa música do “beijo na boca“. Muito boa. Em parte era uma conversa entre mim e Gil. E ele acabou entrando na política. Agora, acaba de sair do ministério. Minha resenha é mais para positiva. Tivemos grande visibilidade nacional e internacional para o ministério da cultura brasileiro; tivemos a sintonia desse ministério com o que se pensa de mais avançado a respeito de direitos na era da reprodutibilidade digital e da difusão pela internet (com Lessig saudando nominalmente Gil por ser o exemplo de atitude inovadora e libertária por parte de um governo); tivemos os pontos de cultura; tivemos a criação da casa do samba-de-roda, com restauração do solar de Araújo Pinho em Santo Amaro. Tivemos também os problemas: esboços de autoritarismo, como no projeto da Ancinav (que Lula cortou pela goela, que ele não é bobo), por exemplo. Não gosto muito de me imaginar tendo poder oficial. Ouvi o disco novo de Gil que me chegou pela Internet. Fiquei alegre com a animação dele em fazer coisas novas frescas, gostei de “Não gruda” (será isso mesmo?), adorei a menção a meu pai na música sobre minha mãe, chorei com a última estrofe de “Não tenho medo da morte” (aquela em que muda de “mas sim medo de morrer” para “mas medo de morrer, sim” - algo assim). Mas só ouvi uma vez, na viagem, e estou comentando de memória dessa única audição.

MILTON

Vi Milton e os Jobim em Milão. Já tinha visto no Mistura Fina. Mas lá foi ainda mais emocionante. Foi num lugar imenso, ao ar livre, e as pessoas todas ficavam hipnotizadas pela música. Principalmente pela voz de Milton. A musicalidade dele fica mais notável no mundo transparente e econômico dos Jobim. As decisões a respeito das notas de “Chega de Saudade”, em todas as suas passagens polêmicas, aparecem com uma clareza e uma naturalidade sobrehumanas. “Esperança perdida”, com aquela introdução deslumbrante, chega a doer no coração da gente. “Inútil paisagem”, lenta e em registro agudo, parece radiografada. Tudo isso (e tudo o mais) se deve em grande parte às relações peculiares de Milton com a bossa nova. Milton é um não-joãogilbertiano. É um gênio que se formou fora da zona de gravidade de João Gilberto. É como se ele fosse filho de Edu e Elis - e de Agostinho dos Santos - sem ter precisado passar por João. Paulinho da Viola (para citar outro gênio) é menos tributário da bossa nova do que Milton, mas é mais dependente da revolução joãogilbertiana, do minimalismo essencialista do mestre. Milton, ao contrário de Paulinho, tem tudo a ver com as relações da bossa nova com o jazz moderno, com a grande canção americana e com a música clássica impressionista, mas nada a ver com o canto íntimo e o violão enxuto de João. Seu canto pressupõe amplos espaços, cúpulas, céus. Ouvi-lo cantar Jobim com Daniel e Paulinho (e Paulinho Braga) é ser levado a estudar a música que há em Tom e no próprio Milton. A gente estuda sem pensar. E o vento de Caymmi entra como explicação de tudo. É a musicalidade caymmiana, tão amada por João Gilberto, que ressurge em sua grandiosidade e seus luxuosos mistérios, num pólo oposto às versões dos sambas de Caymmi que João apresentou ao longo da vida. Mas é também a única interpretação de um
clássico caymmiano tão adequada e genial quanto as de João Gilberto.

ISTAMBUL

Comecei a ler o livro de Pamuk antes de sair da Itália. Chegamos a Istambul de noite. Um rapaz gentil e suave nos recebeu e outro nos acompanhou no carro. Falava inglês. O motorista, não. Era bom ver a estrada perto do mar, palmeiras, ciprestes, árvores altas. O asfalto era todo bom e a iluminação forte e sem falhas. Passamos por ruinas romanas: colunas, paredes, um aqüeduto. Logo a polícia nos parou. O motorista mostrou documentos. Dialogaram (quase discutiram) em turco. Giovana e eu ficamos quietos. Quando liberaram o carro, o rapaz que nos acompanhava nos disse que o país estava passando por um momento delicado. Ele se referia à tentativa dos secularistas de derrubarem judicialmente o governo e cassar o partido do primeiro ministro. A acusação era de terem agido em desacordo com o princípio de total separação entre religião e Estado, peça central da constituição republicana instaurada por Atatürk no início do Século 20. O atual presidente é religioso, sua mulher usa véu, e o governo conseguiu mudar uma lei que proibia as moças de usarem véu nas universidades. Sinam, o rapaz que falava inglês, completou dizendo que a tendência fundamentalista cresce na Turquia. Eu tinha lido na The Economist sobre isso (eu não disse que leio The Economist?) e, como um liberal inglês, concordava com a tese da revista de que não seria bom se se derrubasse esse governo religioso mas liberal. Sinam discordava docemente: um infiel, descrente e moderno, ele achava que os secularistas tinham razão. Eu não entendia bem o inglês dele (não entendo bem inglês) mas acho que, em suma, ele dizia que mais vale lutar diretamente pelas coisas que você acha certas do que buscar muita sutileza estratégica. Ele também dizia que a Turquia vai entrar na União Européia e que tanto os secularistas quanto o governo querem isso. Não insisti com a pergunta “e os fundamentalistas?”. Aprendi muito pouco sobre tudo isso com Sinam. Mas estávamos já no apartamento grande e luxuoso de um hotel com bossas orientais e visão ampla para o Bósforo. Ah, o Bósforo! Tínhamos atravessado uma ponte sobre o Chifre de Ouro. Perguntei a Sinam se tínhamos cruzado o Bósforo. Não. Era só o Chifre. Ele me disse que talvez do banheiro eu visse a ponte sobre o Bósforo. Fui ao banheiro e vi, através de uma parede-janela de vidro (que tentei abrir, iludido pelo reflexo do piso, pensando que ela dava para uma varanda, mas descobri no dia seguinte que ela dava para uma praça asfaltada 18 andares abaixo), o Bósforo. De noite, as luzes das margens, as embarcações iluminadas, a ponte. De dia, o azul profundo, as diferentes formas de a superfície da água se encrespar (segundo os ventos por cima e as correntes por baixo), as torres finas das mesquitas. É extraordinariamente bonito e também é emocionante pensar que esse estreito separa a Europa da Ásia, que Constatino quis chamar a cidade de Nova Roma, que os otomanos a tomaram e dali comandaram o mundo muçulmano por séculos. Lembrei de ter lido, há muitos anos, um livro sobre o Islã, escrito por um árabe, em que os turcos aparecem como um povo opressivo que desfigurou o espírito essencialmente tolerante dos muçulmanos, criando uma imagem que era o oposto do que ocorrera no Califado de Córdoba, quando cristãos e judeus viviam em paz num mundo islâmico. É um livro cujo título e autor gostaria de lembrar agora, pois foi escrito muito antes do Taliban e do 11 de setembro.

A noite de Istambul é animada como a de Buenos Aires ou de Madri. Muita gente nas ruas pela madrugada. Nas praças, nos bares, nas calçadas. Muitos táxis. No dia da nossa chegada, alguns generais foram presos supostamente por planejarem um golpe contra o governo. Muitos militares são secularistas. Mas The Economist insinua que eles não são mais liberais do que o atual primeiro ministro. A equipe técnica e de produção do meu show saiu para passear enquanto eu dormia de manhã. Ao voltarem, Giovana estava nervosa porque, ao tirar fotos no Grand Bazaar, foi ameaçada por uma senhora de roupa preta e só com os olhos à mostra. Ela gritava e queria tomar a câmera da mão de Giovana. Giovana ficou em pânico, quis correr, foi difícil. André Botto, o nosso iluminador, tentou socorrê-la. Mas havia o risco de os homens que a cercavam reagirem e criar-se uma briga perigosa. Bahar, uma das moças da produção local, chegou a tempo de esclarecer para a mulher de véu negro que a foto podia ser apagada. No dia seguinte o consulado americano sofreu um ataque no qual 6 pessoas morreram. Mas nossos acompanhantes turcos estavam calmos e nos transmitiam calma. À noite, ouvi uma explosão que fez tremer o hotel. Fui olhar pela janela. Em pouco tempo vários carros de polícia evacuaram a imensa praça asfaltada em frente do hotel. Uma voz se ouvia por auto-falante. Um grupo de fotógrafos obteve permissão para entrar na àrea isolada e flashes explodiam, com as câmeras todas apontadas para um lugar no chão da praça. Do décimo oitavo andar não dava para eu ver nada. Parece que os policiais acharam outro explosivo ali e o desativaram. Liguei a televisão em busca de notícias mas só vi um programa de variedades em que se apresentava um rapper turco, com todos os trejeitos dos rappers americanos (e dos seus imitadores franceses, espanhóis, ingleses, italianos, portugueses…). A apresentadora super perua reproduzia os movimentos dos braços que todo rapper faz, e chamou alguém da platéia que soubesse a a letra toda. Veio um rapaz magro e feio, e, tal como se vê crianças brasileiras dizendo as rimas do “Diário de um detento”, repetiu toda aquela cascata de palavras em turco, para gargalhadas da apresentadora e de seus convidados - e ovação da platéia. O refrão com melodia era bem árabe (bem uma variante turca do canto melismático árabe), o que dava o tom local, mas, curiosamente, remetia a muitos raps americanos que fazem refrães com melodia árabe clichê. As voltas que o mundo dá. Voltei à janela e a praça ainda estava deserta e cercada de carros de polícia.

O show em Istambul foi numa concha acústica parecida com a do Teatro Castro Alves em Salvador. Muito bom. Platéia turca. Reação admirada e quente. No quarto do hotel, segui lendo Orhan Pamuk e sua Istambul em preto e branco, triste de saudade do império otomano. Mas ao olhar pela janela ou ao andar pela praça em frente à Mesquita Azul, ao olhar incrédulo para a cúpula sobrenatural dentro de Santa Sofia (que foi catedral bizantina mas virou mesquita e hoje é museu), Istambul sempre se reafirmava intensamente colorida. Senti uma certa sensação de opressão em Moscou e mesmo um quase medo. Em Istambul, com toda essa tensão política, medo nenhum.

Tenho de corrigir: o melhor show da turnê foi em Viena. Na Ópera de Viena. Não só a acústica era no mínimo tão boa quanto a de Luxemburgo: o espaço, a inteligência natural da platéia, o ar culto da sala - tudo fez com que eu cantasse melhor do que posso. Trouxe um taco do chão do palco: presente do diretor da instituição.”

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