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TRANSTUDO
22/01/2009 2:00 pm

Indo para Santo Amaro com meus filhos no sábado da festa de Reis, passou por nós um caminhão de transportadora – um desses caminhões imensos – em cuja carroceria metálica e fechada estava escrito em letras grandes: TRANSTUDO. (Será que decidiram se fica “caminhão” ou “camião”? – preciso comprar um desses folhetos que instruem sobre o “acordo”: me vêm muitas perguntas sobre coisas que nunca vejo mencionadas nas reportagens.) Lendo essa palavra pensei em nosso blog aqui e nas canções do Zii e Zie, de que tão pouco falamos. “Já temos um passado”, lembrou um amigo. Gostei de ler isso. E, com mais cuidado do que o que pude ter quando postei comment respondendo a Luedy (quer dizer: sem tantos typos e erros de ortografia) desejei escrever aqui no cabeçalho um texto rapsódico no qual se misturassem a pergunta pelos motivos da ausência de Eloísa (a quem peço desculpas por voltar a pôr acento agudo no nome: volta e meia me vejo escrevendo “Antônio Cícero” em vez de Antonio Cicero, assim como tenho que fazer força para escrever “Candido” – e ouvir “Cândido” com meu ouvido interno – , mas é que imagino sempre como seria absuro escrever Jose em vez de José, ou Josue em vez de Josué, ou Tomas em vez de Tomás – e volto a querer que os nomes próprios sejam acentuados segundo a regra geral de acentuação a que se submetem os nomes comuns – mas é claro que entendo que as pessoas assinam como foram registradas – e que admitimos pronunciar “cândido” ou “Antônio” quando lemos “candido” ou “Antonio” – que, a rigor, assim escritos seriam dois paroxítonos – , mas nunca esperamos que o funcionário responsável pelos resgistros escreva Jose ou Tomas ou Josue), a reiteração do protesto contra a ideia de que estamos proibidos de dizer o que quer que pareça ser contra Lula (é horrível quando se parte do princípio de que um governante não pode ser criticado), as imagens que me ficaram do romance “Under Western Eyes”, de Joseph Conrad, e a importância que teve a leitura de um livro chamado “A vida como performance”, do crítico inglês Kenneth Tynen, presente de Thiago Felix, um novo (e muito jovem) amigo baiano, que está escrevendo ele próprio um livro, e que gosta de citar não-sei-quem que disse que quem só lê clássicos e obras-primas é porque não gosta de literatura. Mas, além de ter que aguentar (sem trema) períodos com maior número de travessões do que um texto de Nietzsche, como o que está entre parêntesis aí acima, o pobre companheiro de obra aqui teria que sofrer mais do que alunos como o Luedy em aulas de análise sintática ou como eu em aulas de matemática. Daí decidi voltar a seguir o conselho de uma sábia amiga nossa e separar o papo em tópicos e os tópicos em parágrafos entremeados de espaços brancos.

A Bahia era parte da região leste quando eu era estudante. Com Rio e Espírito Santo. Passou a ser oficialmente Nordeste durante da ditadura militar, creio. Salvador e o Recôncavo têm cultura e sotaque particulares, diferentes dos do nordeste (embora, com a grande imigração que inchou a cidade, venha soando mais e mais nordestina: os “dis” e os “tis” de Daniela Mercury me soam muito pouco palatalizados, quase como se ela fosse de Serrinha, mas ela é soteropolitana). O estado da Bahia é grande como a França. O sul tem, na zona cacaueira, ecos do sotaque sergipano dos seus primeiros “colonizadores”. Mas para o sudoeste já estamos em ambiente meio mineiro meio capixaba. O oeste e o noroeste têm parentesco com Minas, Goiás e Tocantins. O norte é nordestino.

Joaldo é de Araci. Conversamos em Santo Amaro mas estava muito barulho e não deu para eu medir o grau de palatalização dos seus “dis” e “tis”. Passei um tempo em Serrinha quando criança, no final dos anos 40 (Araci era um distrito de Serrinha): deixei de ver o eclipse total do sol por isso (em Santo Amaro todo mundo viu). Eu vivia com tosse e muito franzino, daí me mandaram para os ares secos do sertão: meu primo Edmundo morava lá – acho que minhas primas Silvinha e Leda ainda moram.

Uma moça
De lá do outro lado da poça
Numa aparição transatlântica
Me encheu de elegante alegria
(Ai, Portygal, ovos moles, Aveiro)
Menina da Ria
Menina da Ria
Menina da Ria

E uma preta
(Parece que eu estou na Bahia)
Tão Linda quanto ela, dizia
No seu português lusitano:
“Pode o Caetano tirar uma foto?”
Menina da Ria
Menina da Ria
Menina da Ria

Arte Nova, um prédio art-nouveau numa margem
Em frente à marina-miragem:
Os barcos na Ria. E depois

Uma taça sobre o pubis glabro, um estudo
Nenhum descalabro se tudo
É sexo sem sexo em nós dois
Menina da Ria
Menina da Ria
Menina da Ria

Sempre hesito ao tentar pontuar uma letra quando a copio (raramente escrevo toda antes de ir cantando). Às vezes desejo fazer como João Cabral, que pontuava seus poemas segundo as regras de pontuação da prosa. Às vezes quero ser como Oswald, que quase não pontuava. Termino na terra-de-ninguém entre o uso de pontuações pesadas no meio do verso e a ausência de pontuação onde a mudança de linha parece fazer as vezes de vírgulas e pontos. Bem, a maluquice acima é a letra de “Menina da Ria”. A música, só depois. Mas não é que as outras letras sejam menos malucas. Se alguém quiser, explico de onde vem e o que significa a expressão “do outro lado da poça”.

“Gomorra” é um Cidade de Deus sem Hollywood. Bem, dito assim parece que não fica nada. Mas fica a magnífica tradição visual do cinema italiano. Os atores são o bicho. O filme é belamente fotografado e dirigido. Os ambientes desolados, o conjunto residencial que parece uma prisão, a feiúra e vulgaridade das pessoas, a amargura da vida humana – tudo captado de modo a resultar num belo filme. A última frase escrita sobre a imagem do trator que, como um carro alegórico (que aqui mereceria o nome), levanta para os céus os corpos dos dois garotos mortos, diz que a Camorra ajudou a financiar a construção das Torres Gêmeas. Informação relevante. Mas me senti mal ao pensar nisso em casa. Quanto ressentimento dos Estados Unidos tem a esquerda européia! Será que é paranóia minha ver aí um desejo de veladamente louvar (ou ao menos justificar) os fanáticos que enfiaram os aviões no World Trade Center?

Luedy, me desagrada muito ver as regras da língua tratadas como se fossem opressão da classe dominante. Nós não temos declinações porque isso se rarefez no latim vulgar e desapareceu na formação das línguas modernas. Não foi uma aristocracia nem uma casta de gramáticos que impôs tais mudanças, mas a força do homem comum, da multidão iletrada. Por que idealizar quem hoje diz “dois pão” ou “nós vai” e demonizar o homem do passado que construiu a língua usando-a? Dentro de cada língua moderna as mudanças foram quase exclusivamente ditadas pelo uso do homem comum, do povo, da multidão. É esse trabalho anônimo e grandioso que é desrespeitado quando vocês dizem que a norma é arma de dominação da elite.

As regras de concordância (e as outras) foram criadas no uso. São os próprios linguistas que o dizem.

O entusiasmo ingênuo com a manipulação política da linguística corre o risco de cevar uma atitude arrogante. Um grupo de linguistas lulistas se sentiria no direito de agredir os humildes professores de gramática e os humílimos curiosos vocacionados para o entendimento da engrenagem da língua (que os há muitos: Luedy tinha horror à análise sintática e eu tinha horror à matemática, mas os cursos não devem ser feitos contemplando preferencialmente os não vocacionados: escola tem de ser chato em algum nível, não acho que ela deva rivalizar com o parque de diversões, o cinema americano e os momentos de dengo com os pais). E vamos deixar Eça em paz e parar de fingir que alguém exige de escritores e jornalistas que evitem a próclise. Me deem um tempo.

Possenti, eu também não acho que Lula deveria necessariamente fazer curso universitário. Quanto à formação básica, acho que ele fala muito mais bonito do que Collor, por exemplo. (E tão feio quanto FH. Este e Lula criam sempre algum constrangimento quando falam de improviso como presidentes. Constrangimento por razões tanto estilísticas quanto temáticas. Mas, que fazer? Demos graças aos deuses por essa dupla da esquerda uspiana – em coligação com a CUT e a Fiesp – ter chegado ao poder no Brasil, antes – ou melhor, logo depois – que algum aventureiro lançasse mão.) E acho que Lula (como ele próprio diz, com mais ou menas graça) ampliou seu repertório, isto é: estudou um tanto. Mas gosto muito mais do português e do jeito de pensar de Marina Silva. Ele pode ter a manha de manutenção do poder (uma virtude em talentos políticos), mas ela tem mais elegância intelectual (isso também pode ser virtude política).

Faço este post-anaconda porque perdi comments bacanérrimos (bem mais soltos – estava num momento jovial) e necessitei responder a vários estímulos. Os dois primeiros parágrafos já estavam prontos faz algum tempo. Depois me enrolei no tempo dos comments perdidos e dos assuntos acumulados. Desisti várias vezes. Recomecei. Não pude cortar (é o mais difícil). E ainda fiquei com pena de não ter espaço para mais do que simplesmente dizer que os pesos e medidas violentamente desproporcionais usados pelo governo Lula nos casos dos atletas cubanos (que pediram asilo e foram mandados de volta em avião venezuelano) e o do guerrilheiro italiano condenado em sua pátria por quatro assassinatos (ou execuções…). Não gosto desse clima. É nessas horas que me sinto um liberal inglês.

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GABEIRA E GABEIRA
1/10/2008 3:13 am

Não voto em Crivella nem que vaca tussa. Meu candidato é Gabeira e sempre disse isso. Não sei por que a dúvida. Conheço as opiniões de Crivella (e da turma da IURD) sobre os homossexuais. Mas todos hão de convir que eles são muito mais abertos em relação ao aborto e ao uso de camisinha do que a Igreja Católica. Eles também (até naqueles mini-tele-dramas sobre casais que sofrem porque o cara bebe ou é infiel) não mostram ter muito problema com pessoas amigadas ou namorados que vivem juntos. Agora, hipocrisia, extorsão doce, disputa de clientela - tudo isso é das religiões em geral. Vá lá, falo sobretudo do ambiente católico em que cresci. Respeito o mundo cultural de minha mãe. Mas nunca me ceguei para as evidências de fraude permanente. Religião é coisa difícil. Não existe sem essas coisas. E parece que a humanidade não existe sem religião. As opiniões de Mangabeira se originam em posição filosófica muito séria a esse respeito. Não compartilho. Admiro. São dele. Não são minhas. Mas devem ser conhecidas para ser criticadas. Continuo dizendo que - seja por Crivella, seja por Daniel Dantas (agora, pois há anos não havia essas pessoas e a reação a Mangabeira era a mesma) - não podemos desprezar sumariamente a contribuição que Mangabeira quer dar ao país. O que não é aceitável é o que nunca aceitei: agressões às religiões afro-brasileiras. E a mera idéia de hostilidades religiosas se dando abertamente no Brasil me horroriza. Mas não é com descartar Crivella por ser da IURD que neutralizaremos essas tendências. Deixa ele disputar. E perder. Gabeira ainda vai ganhar. É só a gente deixar de ser bobo.

Sempre tenho interesse em política e sempre me posiciono de modo claro. Tenho sempre candidatos. Não participo da onda de desqualificação da dimensão política. Felizmente. Agora é Gabeira. E Aspásia?

The joke about English vowels was very amusing to me. Not so to Eloisa, or Heloisa. She didn’t say a word. Exequiela came with some corrections. Hm. I take the long “oos” (like in “fool” or “goose”, “loose” etc.) as mainly a hidden diphthong of the same vowel repeated in two different intensities: the “ea” in “repeat”, for example, sounds to me like Spanish “íi”. And in “fool” the double O sounds like “úu” (or even “úo”): you don’t say “ful”, but “fúul” or “fúol”. And yes, there are lots of vocalic sounds in different languages that are not recognizable from the “outside”: a Spanish-speaking person is not spontaneously able to tell the difference between “Ô” and “Ó”, or “É” and “Ê”. The same way we are not able to easily tell “sheet” from “shit”. Y por aqui quedemos con eso de inglés. Es una bella lengua pero tenemos otros asuntos.

Os republicanos não deixaram passar o “bail-out” de Paulson. Bem, sobretudo os republicanos. Mas faz sentido. Eles em princípio defendem o mercado desregulado. O problemão veio daí, mas nem por isso eles iriam querer mudar agora, quando se trata de uma tentativa de salvação coletiva. Essa coerência parece digna. Mas nos indigna de alguma forma.

Continuo sem poder pôr as vozes nas faixas do disco. Fui lá ontem, pensando que, por estar me sentindo bem (relativamente: é sempre assim) eu ia poder gravar voz. Ledo engano. O som de nariz tapado ficou horrível nos auto-falantes. Hoje fui cantar com Milton e os Jobim no Jardim Botânico mas voltei pra casa pra descansar e tentar gravar amanhã.

Falando em Milton e os Jobim, concordo com uma moça que disse que Milton cantando Tom é muito superior a Roberto e eu fazendo a mesma coisa. E mais ainda com a outra que disse que me achou preso, inibido, sei lá, com o terno apertado (não estava apertado, mas parecia), com a voz tensa. Era isso mesmo. Mas discordo da opinião de que Roberto não cantou divinamente bem. Eu estava ali com minha confusão, tenho meu valor histórico e simpatia pessoal, mas não fiz nada artisticamente que merecesse celebrações especiais. Mas Roberto… ah, Roberto, como canta! Que relaxamento, que naturalidade na emissão, que musicalidade espontânea! Não tente se iludir, cara comentarista, não foi a “mídia” (o que quer que signifique esse plural masculino latino transformado, através da vulgarização do inglês, em feminino no singular português brasileiro) que deu a Roberto o título de Rei. Ao contrário: a grande imprensa (e a nanica também) esnobava solenemente Roberto, Erasmo e a Jovem Guarda. Quem o chamou de Rei foi o povo brasileiro, a começar pelas garotas suburbanas que assistiam ao programa nas tardes de domingo. E, com o passar dos anos - e a resistência do estilo dele ao tempo - , a “mídia” teve de ir atrás.

Botei uma voz em “Menina da Ria” que ficou quase boa. Digo: quase boa para ir pro disco. Amanhã confiro e conto mais.

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