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19/09/2008 12:43 am

No dia em que acordei com a notícia de que as bolsas caíram depois de o governo americano ter injetado 85 bilhões de dólares na seguradora AIG, quero falar rápido sobre dois livros que estou lendo. “O que a esquerda deve propor”, de Roberto Mangabeira Unger, e “In Defense of Lost Causes” (“Em defesa de causas perdidas”), de Slavoj Zizek. Ambos ousam ir além do impasse da esquerda. Zizek, na mesma linha em que protesta contra o café descafeinado, ressuscita os terrores de Robespierre e Stalin para desqualificar toda a ênfase nos direitos humanos como desejo de “fazer a revolução sem revolução”. Mangabeira aconselha, detalhadamente, que façamos exatamente isso.

Proponho que quem me lê aqui leia “O que a esquerda deve propor”. É um livro pequeno mas muito denso (embora claro) e intenso (embora sensato).

O livro de Zizek ainda não foi traduzido em português. Há exemplares em inglês nas livrarias boas do Rio e de Sampa. É longo e intenso. Às vezes não tão claro, embora seja muito mais pop do que o de Mangabeira, que tem, apesar de tudo, recato acadêmico.

Mangabeira é um basileiro inteligentíssimo que fala excelente português com sotaque americano e teve o livro traduzido por Antônio Risério, pois o escreveu em inglês. Zizek é um esloveno inteligentíssimo que fala inglês com um sotaque jupteriano mas escreveu seu livrão em inglês mesmo.

Sou muito mais Mangabeira. Zizek, que é tão heterodoxo nas citações e referências (vão de Spielberg a Heidegger, de Hegel a Mel Gibson, de Walter Salles a Jidanov), é 100% ortodoxo em relação aos conceitos marxistas de “proletariado”, “capitalismo”, “luta de classes” etc. – e dos dogmas da psicanálise, tal como foram reenergizados por Lacan. Mangabeira, que não menciona Monty Python, já escreveu a crítica mais contundente que já li sobre o conceito marxista de “capitalismo”. Enquanto Zizek parece ter em mente as filas de operários de fábrica que salvariam o futuro da humanidade, Mangabeira diz que a esquerda errou estrategicamente ao desprezar a bequena burguesia. E a crítica feita por Mangabeira à produção intlectual recente (que parece se comprazer numa montanha russa de idéias chocantes) se aplica justamente a Zizek.

Mas o livro de Zizek é excitante. Ele não defende o terror sem nos ilustrar sobre meandros incríveis do stalinismo. E sua erudição (cinematográfica, filosófica, musical) é gigantesca e desembaraçada.

Seja como for, esses livros de recuperação do projeto da esquerda me atraem. Pois o que me atrai no projeto liberal é que ele tem se mostrado à esquerda da esquerda tradicional. Tenho horror ao conservadorismo estreito. E não sinto que o mundo em que vivemos está belamente organizado. Odeio o lucro levando monstros a contaminarem o rio Subaé com chumbo e mercúrio. Detestei cada passo da política de Bush e acho que já devemos há um bom tempo pensar nos Estados Unidos em termos realistas mas nunca submisso. Mangabeira: a hegemonia americana deve ser admitida de fato mas não de direito.

O grande escritor Luís Fernando Veríssimo disse uma vez que no futuro a briga vai ser entre os comunistas e as bichas. É apenas uma piada boa e errada (piadas não precisam ser corretas). Mas se fosse mais do que isso, Veríssimo talvez já saiba de que lado ele ficaria. Tenho certeza de que eu estaria com as bichas.

Digo sempre que sou melhor do que Gil, Chico e Milton a jornalistas que pensam que é modéstia minha (falsa ou verdadeira) dizer que não me acho um bom músico. É uma piada absurda para que eles percam o direito de pensar assim. Mas há algumas coisinhas que me fazem às vezes crer que sou mesmo superior a todos eles. Por exemplo: sou irmão de Maria Bethânia. O texto de Zuenir sobre “o primeiro a gente nunca esquece” diz o que se deve sobre o surgimento e a trajetória luminosa de minha irmãzinha.

Não tenho nenhuma rotina. Esqueci os poucos exercícios vocais que fonoaudiólogas me ensinaram quando tive uma rouquidão renitente, faz uns anos. Mas lembro de um som que parece arroto que relaxa as cordas vocais e/ou limpa pigarros.

Apesar da dolorosa visão de “Perdeu” – e do protesto explícito de “Base de Guantánamo” – grande parte das canções do disco que está saindo desta “obraemprogresso” é animada por um sentimento otimista a respeito da vida brasileira. Com as notícias de hoje e as leituras de que falei, minha desconfiança na economia de mercado está abaixo de minha crítica esquerdizante. “Lobão tem razão” é a canção mais à esquerda, dentre as politicamente “irresponsáveis”.

Li na semana passada que Lula tem o mais alto nível de aprovação até hoje registrado. Me senti em sintonia com o povo brasileiro. Eu também venho sentindo mais aprovação interna à figura de Lula do que antes. Mesmo quando votei nele, votei sem esperar chegar a gostar tanto. E olha que até chorei na cabine. Mas a sorte dele – um dos elementos mais fortes de sua personalidade pública – precisa chegar a superar o baque que Brasil e Rússia sofreram com a crise (de raiz americana) do mercado globalizado.

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