Roberto Carlos não é o primeiro rei brasileiro. Não falo dos de Orleans e Bragança, que foram imperadores. Mas de Francisco Alves, o rei da voz. Luiz Gonzaga, o rei do baião. Sem falar nas rainhas (anuais) do rádio. Carlos Imperial esteve por trás do Roberto bossa nova do primeiro disco e também por perto no início da fase pop rock. Mas os epítetos da Jovem Guarda (Ternurinha, Tremendão e Rei) devem ter sido forjados por Magaldi & Maia, a dupla de publicitários (o segundo, um homem que se notabilizou por suas posições de esquerda) que, se não me engano, orientava a criação da imagem do programa e do grupo. Os da Rádio Nacional eram sempre criados por César Ladeira, se não me falha a memória (e nos últimos anos ela tem falhado à beça): Francisco Alves, o rei da voz; Orlando Silva, o cantor das multidões; Aracy de Almeida, o samba em pessoa… Em todos os casos, tratava-se do embrião do que hoje você chama de marketing. Luiz Gonzaga cantou (e eu me abstive de repetir): “se mereci minha coroa de rei, essa sempre honrei: é a minha obrigação”. De Londres escrevi para o Pasquim que, tal como Gozaga, Roberto merecera sua coroa de rei – e a honrava. Eu estava profundamente emocionado pela audição em primeira mão de “Curvas da Estrada de Santos”, com Roberto sozinho ao violão na sala de minha casa no exílio. Anos depois, quando, no show “Circuladô”, quis contar que ele tinha escrito “Debaixo dos caracóis dos seus cabelos” para mim, como um desagravo por ter percebido que o exílio era um castigo pesado demais, eu frisei que “é bom que a gente saiba quem é que a gente chama de rei”. Os esboços de marketeiros não enfiaram esse título pela goela dos brasileiros abaixo: como nos casos de Chico Alves e Gonzaga, eles captaram o que a voz do povo queria articular. Se não fosse assim, eu não estaria nervoso por dividir o palco com Roberto. E, se parte do meu nervosismo se devia à grandeza de Tom e à musicalidade de Jaquinho e dos músicos com quem eu estava trabalhando, parte maior ainda se devia à importância que dou a Roberto Carlos. Mas devo lembrar que a emoção boa, pura, de estar ouvindo coisas grandiosas – e que estão ligadas a toda a minha vida – na voz de um personagem tão significativo (o que me fez chorar todas as noites em que nos apresentamos) também contribuiu para a impressão de que meu terno estava apertado.
Okay, Exequiela, not ALL but MOST long English vowels are in fact diphthongs. Still I hear two vowels in all those “oos” you mentioned. Well, maybe not in “goose”… A friend of mine told me I sound pedantic when I start talking about all this grammar and phonetics business. I had thought I sounded sexy. It’s because I find theory very sexy. Mostly when it’s obvious I have no scholarship whatsoever in the matters.
Gabeira vai ser o rei do Rio. Vocês vão ver.
Vi o debate entre Biden e Palin (nomes feitos de bons ditongos ingleses). Foi mais agradável do que o de Obama e McCain. Pelo menos eles se olhavam. E dessa vez foi a republicana quem se apressou em pedir permissão para chamar o senador de Joe. A pressa mostrou que isso estava no script com a função de criar a intimidade que Obama, também jovem, não conseguiu com McCain, e de mostrar-se mais educada do que o preto, que acabou sendo tratado como “boy” pelo experiente McCain. Este repetiu mil vezes “senator Obama doesn’t seem to understand”. Biden procurou não dizer coisas semelhantes sobre Palin pois esta já era uma piada mundial com as burrices que disse em entrevistas. Ela se recuperou, vê-se que com o treinamento. Mas as piscadelas de olho, os “Áiracs”, “Áirans” e “Núkelars” que ela emitia com orgulho – além de seus acenos de mão e trejeitos juvenis de eterna cheer-leader – faziam com que seu corpo de gostosa provocasse repulsa em mim. Ela parece essas mães ainda jovens e bonitas que fazem cara de secundaristas e deixam os filhos embaraçados. Eu odiaria ser filho dela. Biden não foi canastrão quando falou sobre a morte da mulher e da filha. Mas ele tem um amendoado irregular nos olhos ou aquilo é uma plástica mal feita?
Já estava bom da gripe quando fui gravar e notei que a seqüela do som de nariz tapado só aparecia quando ouvíamos a voz gravada. Adiamos e, em duas noites, botei voz em “A cor amarela”, “Base de Guantánamo”, “Perdeu” e “Tarado ni você”. Pedro Sá levou uma câmera que parecia um objeto soviético. Era. Diz que é máquina vintage russa que dá imagens fantásticas. Tomara que ele apresente fotos boas de nós no estúdio. Gravamos também os coros de “Base de Guantânamo” e as palmas de “A cor amarela”: foi festa no estúdio pois Ricardo e Marcelo vieram para isso. Tony Vanzolini andou filmando umas noites lá (quando gravávamos “Menina da Ria”) mas até hoje não pintou nada aqui no blog. Perguntemos a Hermano.
Também não depende de mim o tamanho das letras. Perguntemos a Hermano. Li a palavra “blogosfera” justamente em Portugal (aqui também se usa), quando visitei um blog muito legal de um português que alguém me indicou em Lisboa. Mas não sou muito de ler blogs (leio pouco mais do que e-mails na internet). Então nem sei se o tamanho das letras aqui está longe do padrão, se é que há um padrão. Só tenho é a idéia de lançar aqui duas versões da gravação de “Incompatibilidade de gênios” que fizemos. Uma com um solo de guitarra e um violão base que corresponde às intenções do solo, outra com uns efeitos de guitarra com um violão regular. Ambas são lindas e escolhemos provisoriamente a dos efeitos. Mas eu queria ouvir a opinião (e contar os votos) dos visitantes aqui do obraemprogresso.
27/09/2008 1:52 am | Postado por Obra Em Progresso
O New York Times de 25 de setembro publicou artigo sobre show de Gil no Joe’s Pub em que se faz justiça à grandeza dele. Quem quiser ler um texto bom de crítica musical e aprender em que reside a superioridade de Gil, procure essa resenha escrita por Jon Pareles. É de desintegrar a pretensão iconoclasta brasileira de criticá-lo sem reconhecer seu peso.
Sobre drogas proibidas penso exatamente como Chico Buarque: deviam ser legalizadas. Sem sombra de dúvida. Tenho idéias íntimas sobre por que o álcool é livre (pelo menos em países não-teocráticos) mas não vejo argumentos fortes sobre isso em parte alguma. Aceito dicas. Drogas proibidas estimulam o nascimento de uma economia paralela monstra. Só não temos uma decisão adulta a esse respeito porque os americanos não querem. Mas um país declarar “guerra contra as drogas” é a idéia mais idiota que se pode conceber. A “guerra contra o terrorismo” (declarada por um país) é uma idéia até menos idiota.
Esse lance de todo o mundo queimar um baseado ao mesmo tempo não me sugere paz de jeito nenhum: eu também teria de fumar e, pelo menos dentro da minha cabeça, não haveria paz. Quando Gabeira falou sobre drogas, disse coisas certas. Apenas isso não é tema da alçada de prefeituras. Nem deve pesar na escolha de um candidato a prefeito. Eu odeio maconha pessoalmente. Digo: assim como odeio pepino. Mas odeio a cocaína com mais furor: ela trouxe pessoas excitadas e chatas para perto de mim. Foi ela (e não Brizola), ela, a cocaína, que decidiu a virada do crime no Rio.
Gabeira é bom e é forte porque ele tem valor simbólico coincidente com o do Rio. Ele está crescendo porque coisa simplesmente pequena não pode sair de sua decisão em aceitar a candidatura. Veremos.
teteco dos anjos, que comment maravilhoso o seu! Você é dos anjos mesmo. Genny Marcondes e Monteiro Lobato! Sim, o presidente negro e o petróleo. Quando eu era menino, antes de ler os livros de Lobato (que li ainda menino mas não tão menino), ouvia meu pai dizer que admirava Lobato por sua coragem de desmentir os técnicos americanos que diziam não haver petróleo no Brasil. A vitória empresarial da Petrobrás (não consigo escrever esse nome sem o acento agudo), a descoberta de Tupi, talvez mais no pré-sal, tudo o que acontece nesse setor me vem com um sabor afetivo ligado ao respeito de meu pai pelo nome de Lobato. O Sítio (encenado por Adroaldo Ribeiro Costa na Salvador do final dos anos 40) veio depois. Taubaté. E Genny, que beleza! Ela radiografou “Alegria, alegria”. Pode pôr flores aos pés da torre na Rua do Petróleo. E, se puder, diga a Geny que eu a adoro.
Suíços? Hmmmmm. As mulheres só ganharam o direito de votar na Suíça em 1972!!!!! Eu já estava exilado na Inglaterra. Nos EUA foi nos anos 20. Na França foi em 1945 (!!!!!). Na Suíça só em 1972. Melhor não contar muito com suíços quando se trata de eleições. Ou será que não permitir o voto às mulheres foi uma demonstração de sabedoria suíça que resistiu o quanto pôde à decadência do ocidente?
Exequiela, no Brasil usamos a palavra “negócio” num amplo e sugestivo espectro semântico. Me dou conta de que isso não acontece em espanhol (será que ajuda ou atrapalha no caso de Espanha ser muito mais rica que Portugal - e mais afeita aos grandes negócios?). No Brasil usamos a palavra negócio como sinônimo de “coisa”: - “Menina, pegue esse negócio aí em cima da cômoda pra mim, por favor”. Mas há sempre um certo pendor semântico para coisas de mais importância: - “Eu tinha um negócio para te contar mas agora não lembro o que é”. A letra de “Chega de Saudade”, a canção nave-mãe da bossa nova, termina repetindo muitas vezes a palavra: “Vamos deixar desse negócio de você viver sem mim/ Não quero mais esse negócio de você tão longe assim/ Não quero mais esse negócio de você longe de mim”… E, last but not least, é um dos modos de mencionar o órgão genital masculino: - “Ele botou o negócio dele pra fora e mostrou à moça”. Ou: “Deixa eu pegar no seu negócio?” Bem, pelo menos era assim que se dizia quando as moças ainda não falavam palavrão.
Acabei de ver o debate Obama/ McCain. Acho difícil entender inglês falado. A parte dita “passiva” da apreensão de uma língua estrangeira é sempre um problema para mim. Já pensei que se tratasse de eu querer falar e não ouvir, ou que fosse conseqüência do zumbido eterno que levo no lado direito da cabeça desde os 13 anos, nunca cheguei a uma conclusão que me desinibisse os ouvidos e deixasse entrar o que é dito em língua que minha mãe não fala. Inglês então, com aquele monte de monossílabos, aquelas vogais sempre indefinidas (sem falar no “u” breve, como em “blush”, que é um som sem vogal, o qual, aliás, se assemelha ao que se ouve em palavras em que qualquer das vogais é seguida de um “r”, como “skirt” ou “Burt”, ou “jerk”), aquela tendência a fazer da frase uma palavra, me deixa perdidaço. Uma vez liguei a TV na Europa e vi um cara falando de algum desatre, ferimentos, e julguei ter entendido o nome de Madonna: era McDonald’s: tinha havido um protesto não sei onde e tinham tocado fogo num Mc Donald’s. Só depois de ouvir umas 4 ou 5 vezes a palavra é que percebi o “l” e o “s”. Mas já tinha perdido mil coisas que o cara dizia. Assim perco a piada nos filmes sem legenda, nas conversas com mais de uma pessoa de língua inglesa etc. Pois bem. Ouvi o que pude do debate. Fiquei até surpreso por entender tanto. Achei que os dois tentaram não falar muito diretamente sobre a crise financeira. Obama gaguejava um pouco. Não senti aquela naturalidade pretendida quando ele chamava McCain de “John”. Este não olhava para ele. A maneira de pronunciar as palavras e entoar as frases é sempre muito mais bonita em Obama. McCain tem sotaque de pig. Ele não olhar para Obama me deu uma má impressão do ponto de vista racial. Eu pensei que fosse esquecer totalmente esse quesito. McCain não deixou. O “John” de Obama não ajudava muito. Talvez a americanos, a mim, não. Foi bacana quando Obama mencionou o vice dele. Sentiu-se a crítica calada à mulher do Alasca, aquela que vê a Rússia da janela. Depois os comentaristas da CNN (uns muito louros e um moreno com um sotaque inglês muito forte - ou será australiano e eu sou mesmo surdo?) disseram coisas sensatas e variadas, à espera das primeiras pesquisas (além da leitura daquelas linhas que sinalizavam a “reação” de democratas, republicanos e independentes). Quando as primeiras pesquisas saíram, Obama ganhava. Aí eu vim pro computador ler e postar. Vamos ver o que os próximos dias dizem sobre quem venceu o debate (ouvi que quem vence ganha logo uns bons 3 pontos nas pesquisas).
Escrevi um texto sobre Rio/ São Paulo. Mas estava quase do tamanho de “Verdade Tropical”. Guardei para resumir e postar. E quero contar coisas da gravação. Mas agora vou dormir porque tenho de curar a gripe.
9/06/2008 10:54 pm | Postado por Obra Em Progresso
Durante seu comentário sobre Feitiço da Vila, Caetano volta a se referir à indicação de Barack Obama como candidato democrata à presidência dos Estados Unidos da América. E se pergunta: o Brasil já teve um presidente branco?
Caetano saúda a indicação de Barack Obama como candidato democrata à presidência dos Estados Unidos da América cantando trecho de Sugar Cane Fields Forever (”Sou um mulato nato / No sentido lato / Mulato democrático do litoral”) e aproveita para comentar/comparar o estado das relações raciais brasileira e americanas: Obama parece mesmo brasileiro?