
| ELEIÇÕES |
| 10/10/2008 5:47 am | Postado por Obra Em Progresso |
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A votação para escolha da versão de “Incompatibilidade de gênios” que vai para o CD só se dará quando tivermos disponibilizado as duas gravações em MP3 (Hermano, Daniel, Moreno, é mesmo em MP3?) aqui. E isso só acontecerá quando eu tiver posto a voz definitiva. “Voz definitiva” lembra estúdios de gravação de antigamente. Hoje soa gozado. Seja como for, achei bacana que muitos já tenham votado, mesmo sem ouvir. Primeiro pensei que a versão com efeitos e um violão regular ganharia por unanimidade. Agora vejo que há quem vote na versão com solo de guitarra e violão-base correpondendo aos arroubos do solo. Veremos.
GABEIRA GABEIRA GABEIRA GABEIRA GABEIRA GABEIRA. Vamos redobrar o entusiasmo e deixar a onda crescer. Gabeira é uma onda boa. O Rio está tendo coragem de olhar para si mesmo. Acho que estamos bem com Paes e Gabeira para escolher. Não tenho nada contra Paes. Mas Gabeira é muito mais coerente. Desprezemos a mão pesada da grande imprensa em sua tentativa de sufocar a força espontânea que a candidatura de Gabeira desencadeou. Tudo o que ele fez de admirável - respeito aos concorrentes, limpeza na campanha de rua, desprezo pelos “santinhos” - vai ganhar cada vez mais significado. Gabeira se eleger prefeito do Rio é algo bom em si mesmo. Comecemos a pensar em ajudá-lo a governar. E que esse nosso pensamento chegue ao governo do estado e ao planalto. Essa raiva de Dirceu é patética. E a de Vladimir (de quem sempre gosto mais) é apenas para uso de campanha. Depois todos terão de conviver com a retidão e a sensatez que Gabeira nunca abandonou e que há de manter quando for prefeito.
Rei do Rio é uma expressão boa por ser livre do medo de tendências absolutistas ou totalitárias. É uma piada boa e benigna.
Falando em rei, hoje ouvi no rádio do carro a gravação de Bethânia de “Fera ferida”. Como é que Roberto fez essa canção tão extraordinária numa fase em que já não era de se esperar dele algo assim contundente? “Fera ferida” é tão boa quanto “Curvas da Estrada de Santos” e chega a bater lá em cima, em “Se você pensa”. Começa dizendo “acabei com tudo” - e nunca mais a peteca cai, em duas longas estrofes com rimas fortes para idéias fortes, indo desaguar no refrão desafiador “não vou mudar”. Esse refrão soou (e soa) como um paradoxo violento: Roberto dizendo que não muda (e explicando em tom de queixa que “esse caso não tem solução”) justamente quando estava mudando pela primeira vez em muitos anos. Ouvir isso hoje - e na voz de Bethânia - me fez chorar. (Eu também gravei essa canção - do que muito me orgulho - mas é só uma homenagem ao grande acontecimento poético: a gravação não está à altura da música).
Hoje minha irmã mais velha, Nicinha, completa 80 anos. Sinto não poder estar em Santo Amaro: estou preso ao estúdio. Mas transcrevo aqui a letra da música que fiz (e gravei) há alguns anos sobre ela:
NICINHA
Se algum dia eu conseguir cantar bonito
Muito terá sido
Por causa de você
Nicinha
A vida tem uma dívida
Com a música perdida
No silêncio dos seus dedos
E no canto dos meus medos
E no entanto
Você é a alegria da vida.
Não vi o debate dos presidenciáveis americanos: preso ao estúdio. Gosto de Obama por ele mesmo, não tanto pelo que penso que ele pode fazer uma vez que assuma o poder. Mesmo porque agora ninguém sabe que país ele irá governar dentro de alguns meses. Que mundo! Muitos esquerdistas dizem que isso é a prova de que o capitalismo é mau e vai acabar. Hm. Gosto do capítulo de Mangabeira (não no livrinho que recomendei mas num grande, chamado “Política”) sobre como é discutível (e frágil) o conceito de “capitalismo” em Marx. Acho que as dificuldades do mundo são grandes desde sempre. Creio em melhoras e progressos. Os grandes empreendimentos civilizatórios, os impérios, as nações, passaram temas e soluções para a frente. Tem algumas coisas que deveriam ser inegociáveis. Muito do que se chama de “direitos humanos” está entre essas coisas. Por que será que Zizek não inclui a Revolução Americana em sua lista de revoluções exaltadas? O programa da Revolução Americana é ótimo - e não teve terror. Ingleses? Cromwell?
Estou lendo o livro de André Midani, “Música, ídolos e poder“, e estou impressionado. É um livro bom, escrito por um homem incrível, sobre uma vida improvável. Muito bonito o destino desse homem que eu amo tanto e que foi tão importante para mim. Independentemente disso, é um livro para ser lido por quem quer que se interesse por música no Brasil e tenha prazer em ver o assunto olhado de uma perspectiva não provinciana, de uma larga visão histórica. Da chegada dos aliados na Normadia aos downloads e aos piratas, uma personalidade singular, sofrida e curtida (nos dois ou mais sentidos) faz a gente aqui se sentir real, possuidora de um tamanho real.
Não gosto de reeleição. Se algo pode ser chamado, como Zé Dirceu grosseiramente chamou, de “herança maldita” do governo FH, é a instituição da reeleição. Há sempre a força da máquina do estado do lado de quem quer se reeleger. Até que dois mandatos de FH e dois de Lula não foi coisa tão ruim quanto me parecia que fosse ser. Mas os prefeitos todos se reelegerem é demais. E na Bahia a situação é odiosa. O cara que levantou uma favela nas areias da orla e tirou a calçada portuguesa do Porto da Barra não pode ser reeleito. Acorda baianada! Vamos votar no petista e dizer a ele que a condição é repor as pedras portuguesas no Porto. Estive lá e vi que, além da mera burrice de destruir o que é bonito e tem valor histórico, a laje que foi posta como calçada não agüenta um aguaceiro e 15 joggers. Não dá para reeleger esse cara. A não ser que ele se comprometa em refazer a calçada do Porto e, principalmente, tirar as construções de barracas permanentes das praias. Tem que ser como no Rio: monta sua tenda de-manhã e desmonta no por-do-sol. E nada de sombrinhas presas à areia - o que faz com que, de-noite, parte da orla soteropolitana pareça um cemitério. Sei que esta última mosntruosidade já estava lá quando João Henrique chegou. Mas não é a quem faz o que ele faz que se pode pedir pra consertar coisas assim.
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| P.S.: |
| 18/08/2008 12:34 am | Postado por Obra Em Progresso |
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Lembro da ameaça de derrubarem a balaustrada do Porto e fazerem o passeio avançar sobre a areia. Era no tempo de Imbassay. Nessa altura, falei diretamente com ele (não sem antes me associar aos protestos públicos) e ele me assegurou tratar-se um plano que ele próprio não aprovava e que não iria sair. E não saiu. Imbassay é civilizado e bom de diálogo. No caso atual, da remoção da calçada portuguesa, quando fui informado o estrago já estava feito. Mas, como eu disse, não creio em regressão agora. Soube que Ordep Serra (que escreveu um texto perfeito sobre o assunto) está organizando o que talvez venha a ser um seminário anual sobre preservação da beleza urbana de Salvador (luta contra sua destruição). Teremos uma comissão para acompanhar essas coisas. Tô dentro.
Caymmi escreveu o texto definitivo sobre sua própria morte (e que revela como era vivido por dentro o processo de fazer o que “não parece coisa feita por gente”): “Sargaço mar”. Trata-se de uma obra-prima tardia, em que aparecem as liberdades fulgurantes que ele tomava, sem fazer força, ao transitar entre harmonias impressionistas e crueza rude. Ouçam. De todo modo, aqui vai a letra:
Quando se for esse fim de som
Doida canção
Que não fui eu que fiz
Verde luz, verde cor de arrebentação
Sargaço mar, sargaço ar
Deusa do amor, deusa do mar
Vou me atirar, beber o mar
Alucinar, desesperar
Querer morrer para vier com Iemanjá.
Iemanjá, odoiá…
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| 11 comentários » | Assuntos: Caymmi, pedras portuguesas, Porto da Barra, Salvador — |
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| BAHIA |
| 17/08/2008 1:43 am | Postado por Obra Em Progresso |
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Caymmi completou sua vida luminosa. Saí do ensaio das músicas de Jobim com Roberto Carlos e fui à Câmara Municipal ver a cara dele pela última vez. Beijei Nana. Rimos. Não pode haver um jingle turístico mais perfeito do que “Você já foi à Bahia?”. E nenhum seria assim puro de toda ansiedade comercial. É que não é para “turistas”. Não tem desprezo nem raiva dos turistas, mas é para quem quer que seja uma “nêga” que mereça ser chamada assim (claro que isso pode ser mulher ou homem: estou falando de algo essencial numa alma humana). Caymmi trouxe a coloquialidade mais natural para os versos e as notas das canções. A melodia inicial de “Você já foi à Bahia?” tem as interrogações no lugar certo, a vírgula no lugar certo, o ponto final no lugar certo. “Você já foi à Bahia, nêga, não? - então vá.” vem em frase melódica que canta a nossa fala natural. E segue assim, na entonação de “Quem vai ao Bonfim, minha nêga”, onde a vírgula entre “Bonfim” e “minha nêga” cai certinho, e esse “minha nêga” vem em notas mais baixas (e ainda descendentes), exatamente como quando alguém (sobretudo um baiano) fala. E a gradação virgulada de “muita sorte teve, muita sorte tem, muita sorte terá”, seguida da volta da pergunta inicial, agora com o ponto final mais definitivo, incidindo sobre a fundamental! E - depois do refrão “então vá” repetir-se ritmicamente seguindo a série “lá tem caruru”, “vatapá”, “mungunzá” - abre-se aquele largo das “sacadas dos sobrados da velha São Salvador…” que eu repeti quase todo (menos o último verso) em “Terra”. Há aí bandeira de que se trata de obra de extração popular, quase iletrada, nas inadeqüações prosódicas de “velha” (que, por força da melodia torna-se - ou tornar-se-ia - “velhá”) e de “tempo” (que vira “tempu” - ou, se você for gaúcho ou paranaense, “tempô”)? Há. É feio? Não. Fica pior quando se tenta “corrigir”? Nem assim. Não fica menos rica essa canção por alguém mudar um pouco a melodia para forçar uma adeqüação prosódica. Nem por alguém entregar-se à deformação popular dos paroxítonos em oxítonos. “Você já foi à Bahia?” é uma jóia perfeita. E, além de ser uma banalidade, é um retrato passadista da cidade. Mas será? Na verdade é um retrato atemporal, um retrato essencial, o retrato de algo que dura mais do que as mudanças que surgem e morrem em pouco tempo. Esse mundo (de aparência passadista mas referido a durações mais profundas - e de extrema naturalidade de dicção) reencontra-se nos sambas todos que Caymmi fez e cantou: “Lá vem a baiana”, “Requebre que eu dou um doce”, “A vizinha do lado”, “Vatapá”, “Vestido de bolero”, “Rosa morena”, tantos. Em todos - e muito claramente na parte repetitiva de “Você já foi à Bahia?” - a exposião consciente do parentesco entre o Brasil e Cuba, a Bahia e Cuba. Jorge Luis Borges, num texto em que lista a contribuição dos negros às culturas americanas - fato que ele credita ao padre Bartolomé de las Casas, por este ter sugerido, por pena dos índios, a importação de escravos africanos - , deplora a existência da “insuportável rumba ‘El Manicero‘”. Nesse texto, típica mas chocantemente, Borges nem sequer alude ao Brasil (imagine alguém escrever um texto sobre a contribuição dos negros na construção das nações americanas e nem citar o Brasil, o maior e mais miscigenado de todos os países da América, o que abriga a maior população negra fora do continente africano!). E justamente o samba que fez Caymmi famoso no Brasil - e o Brasil famoso no mundo, através de Carmen Miranda - é, em larga medida, uma variação sobre “El Manicero”: “O que é que a baiana tem?”. Eu credito à força da língua espanhola a visão desproporcionada de Borges. E Carmen adaptou-se a muitas submissões da música brasileira aos estilos cubanos, mais conhecidos dos norte-americanos (aliás, Exequiela, são poucos no Brasil que, poucas vezes, usam o termo “estadunidense”, e eu entendo: é feia essa palavra: o sumiço do plural de “estados” me causa desconforto, para só dizer o mínimo; e na verdade “americano” quer, no mais das vezes, dizer “relativo aos Estados Unidos da América”, que, indo mais longe do que no caso da África do Sul, é o único país cujos colonizadores não sentiram necessidade de nomear, tomando o nome do continente para si, como se dissessem: “América é onde chegamos, o resto é nada” - e é a partir disso que se comporta a língua ao redor desse conceito; acho natural e saudável que tentemos reagir a isso, mas “estadunidense” não é uma boa solução - nem “estados unidos” é propriamente um nome: o nome é América, “estados unidos” equivale a “república federativa” ou a qualquer outra designação genérica - e, de fato, o México é Estados Unidos do México e o Brasil foi, até pouco tempo, Estados Unidos do Brasil; quando aceitamos o equívoco termo “americano” como significando “dos Estados Unidos”, ou mesmo “norte-americano” (já que este se aplicaria igualmente ao México e ao Canadá), estamos apenas usando uma palavra pelo que ela mais freqüentemente significa: resistirmos a isso não mostra mais nossas forças do que nossas fraquezas). Mas “O que é que a baiana tem?” não ecoa submissão nem humilhação diante da América hispânica: transpira sabedoria no generoso reconhecimento de parentesco. Caymmi surge aqui muito mais alto do que Borges. Mas essa minha volta rebuscada e petulante não deve nos afastar de considerações menos discutíveis. Por exemplo: a combinação reveladora de sutilezas impressionistas com rudeza, tal como se ouve nas “canções praieiras”. A previsão da bossa nova no casamento do coloquialismo natural com a sofisticação composicional, como perceptível nos sambas-canções dos anos 40 e 50. A mescla de canto operístico com intimidade. A contribuição para a criação do autor-cantor (que em língua espanhola e italiana se chama de “cantautor”): Caymmi é o único que conheço que foi, ao mesmo tempo, o Gershwin e o Bing Crosby (ou Al Johlson), uma prefiguração do que seríamos os autores-cantores dos anos 60 em diante, Gilberto Gil, Bob Dylan, João Bosco… Há o caso dos bluesmen, como Robert Johnson, ou dos trovadores franceses, como George Brassens. Mas, sem entrar no mérito da qualidade artística intrínseca de nenhum deles, Caymmi foi algo que eles não foram: um autor como Cole Porter ou Ary Barroso, abrangente, variegado. E foi o que nem Barroso nem Porter puderam ser: o melhor intérprete de suas próprias canções, sobretudo quando sozinho com seu violão. E aquela voz de Caymmi, aquela voz de caverna (que seus três filhos herdaram), voz de caverna marítima, como aquela que, ecoando o ronco das ondas, soa como um rugido de leão, na costa da ilha de Fernando de Noronha, Gruta Azul. A voz de Caymmi é uma Gruta Azul com cantos napolitanos de barqueiros dentro, barqueiros que pensam que enganam os turistas. Caymmi era uma rocha e um anjo. Demasiado material, demasiado espiritual. Caymmi é um núcleo do Brasil. Caymmi será o Mundo. Quem disse melhor sobre suas canções foi Arnaldo Antunes: Não parece coisa feita por gente.
O prefeito de Salvador cometeu um crime ao substituir a calçada portuguesa do Porto da Barra por cimento e granito polido. Aliás, está cometendo. Obra em preogresso. Estamos em posição de apanhá-lo em flagrante e impedir o assassinato. O estilo cafona deve ser semelhante ao do que foi feito na Praça da Sé pelo governo municipal anterior. E o prefeito então era Imabssahy, que é, até segunda ordem, meu candidato para as eleições que vêm aí. Mas a Praça da Sé era, havia muito, um lugar destruído. Talvez tivesse sido desmoralizada quando se derrubou a Sé para facilitar o trânsito dos bondes, bem antes de eu nascer. O que ficou tinha se transformado num terminal de linhas de ônibus muito feio. A arrumação luzidia que Imbassahy admitiu que lhe dessem é vulgar e perua, mas sobressai a impressão de que alguém limpou a sala. Foi uma madame tola e inculta, mas cuidou. No Porto da Barra, pode ser que qualquer trato dê a impressão de ser melhor do que nada a algum comerciante austríaco que tenha um barzinho lá. Mas o Porto da Barra é um ponto nobre do urbanismo de Salvador. Precisa ser cuidado. Jamais desfigurado. A calçada portuguesa é tesouro nosso, de povos que falam português: são parte de nossa estrutura anímica. Em São Luís se mostrou que a recuperação de calçamentos com pedras portuguesas (que não precisam ser portuguesas, como o desvisado prefeito chegou a julgar) pode ser feito com firmeza e precisão. No Rossio, em Lisboa, também. Sei que em Copacabana (não na praia, claro, porque aí até a Dysney ia protestar) mas na Nossa Senhora) fez-se algo parecido. Resolveram atribuir ao tipo de calçamento os desconfortos que advêm de descuido e maus tratos. Rua com chão que parece shopping center também esburaca se não há cuidado. O Porto da Barra é uma enseada pequena e parece um anfiteatro perfeito para se ver o pôr do sol, ladeada pelos fortes de Santa Maria e de São Diogo. A balaustrada e as pedras portuguesas (ensombradas por árvores) complementam o equlíbrio estético de um lugar que é a praia do povo da Bahia. Um luxo cool e popular. Pois o prefeito está retirando as pedras portuguesas e já derrubou oito árvores! No dia em que morreu Dorival Caymmi, protesto (e conclamo baianos natos e opcionais a protestarem) contra essa ação estúpida. Vamos repor as pedras portuguesas.
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