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PAPO COM PEDRO
4/04/2009 9:14 pm

C – Mostrando “Zii e Zie” a andré t, em Salvador,…

P – Cê mostrou a ele?

C – Mostrei.

P – Que legal.

C - …ele estava conversando conosco muito relaxado, rindo etc. Quando botei o disco ele ficou sério e calado ouvindo. Permaneceu sério quando acabou de ouvir. Perguntei se não tinha gostado. Ele disse logo que esse disco era melhor do que o “Cê”. Eu ri e perguntei se isso era bom ou ruim. Ele disse: “o ‘Cê’ eu só ouvi até a metade”…

P – Caramba!

C – Como é que você sente “Zii e Zie” em relação a “Cê”?

P – São muito diferentes. Quando eu estava fazendo o “Zii e zie”, eu achava que ele é melhor. Mas outro dia alguém pôs alguma coisa do “Cê” e eu achei o “Cê” do caralho. Então ficou mais difícil. Agora, tem uma coisa assim: o trabalho de Marcelo e Ricardo amadureceu muito e isso dá uma maturidade à banda, à gente tocando, que aparece no “Zii e Zie”.

C – Eu vejo tudo o que houve de desenvolvimento, mas acho o “Cê” mais conciso. Você sabe que não estava só o andré t: tinha uma turma do rock de Salvador. Tava o Glauber Guimarães, o Fábio Cascadura, estava também o baterista do Cascadura, era uma turma assim. Numa coisa eles concordavam: achavam que esse disco tem muito mais unidade do que o “Cê”…

P – Ah, e’? Engraçado.

C – …o que pra mim é muito surpreendente…

P – Mas ao mesmo tempo isso quer dizer alguma coisa.

C – É. Todos não podiam se enganar da mesma maneira.

P – E é o pessoal do rock. Mas é engraçado. Porque eu ouço o “Cê” como muito mais conciso no conceito.

C – É. Ele se ateve ao que ele é. Quase não tem nuances pra fora. Mesmo “Musa híbrida” não vai muito longe. E eu lembro que muito dessa concisão se deveu a você ter me chamado a atenção para o disco dos Pixies na BBC de Londres.

P – “The BBC Sessions”.

C – Que é uma coisa incrível. Lembro de você falar que é João Gilberto – e é. E o “Cê” sempre me pareceu ser fiel a isso. A primeira faixa ser “Outro”, tão concentrada e original, com uma linha melódica radical, em três mas com a melodia em relação estranha com esse três, e a bateria dobrada em cima, tocando reto e rápido. E essa peteca não cai ao longo do disco. Eu não vejo isso no “zii e zie”. Eu vejo que o “zii e zie” tem mais densidade no som da banda mas não tem a mesma unidade do “Cê”. Eu disse isso a eles e eles até ficaram um tanto surpresos. E essa redução ao mínimo do “Cê” eu atribuo muito àquele disco do Pixies. Lembro que fiquei tão maravilhado que fui ouvir os discos de carreira do Pixies, que são bonitos mas nenhum é como aquele.

P – Não. Nenhum.

C – Nenhum é realmente tão bom. Pensando em tudo isso, eu queria te perguntar sobre uma conversa que nós tivemos sobre Iggy Pop, que eu tinha visto aqui no Canecão e que tinha achado bacana, que ele velho no palco fazendo aquelas coisas resultava melhor do que Mick Jagger nesse filme novo sobre os Rolling Stones. Você concordou e, quando eu disse que na época em que eram jovens, Iggy Pop não chegava aos pés de Mick Jagger, você fez uma cara de quem diz “sei não…” e falou do quanto Iggy Pop e Stooges são importantes pra você. Queria que você falasse disso.

P – Eu acho que o Stooges é uma banda pedra-bruta. É meio tipo um Jorge Ben do rock’n’roll. Eu acho que é seminal aquilo, é muito verdadeiro e muito justo. E o Iggy Pop, ele é aquilo ali. Ele não poderia ser outra coisa. Ele não é falso. Ele não é hipócrita, artisticamente falando. Eu acho que isso é uma coisa do rock’n’roll. É o que se diz do rock’n’roll. É também o que a gente curte no rock’n’roll. É dionisíaco. É bruto. E aquilo ali foi dar no punk rock. Foi a senha pro punk rock. Foi uma linha muito importante que eles deram. Por exemplo, Velvet Underground, acho que está nessa linha também.

C – Mas você acha Velvet Underground tão coesamente autêntico no sentimento quanto o Stooges?

P – Não, eu acho que não.

C – Eu também não acho. Velvet é divino, mas às vezes uma coisa é divina sem ser… Entendo quando você diz que Stooges é como Jorge Ben, mas Velvet Underground não é como Jorge Ben.

P -  Não. Mas o Velvet, logo depois do comecinho já é influenciado pelo Stooges. O Stooges foi uma banda muito influente.

C – Engraçado, você diz que Stooges foi a senha pro punk, mas eles também foram para David Bowie, que não era punk.

P – Ele ficou encantado com Iggy Pop. Ele passou ao largo do punk – e os punks até se opunham a ele em certa medida, mas ele ficou encantado com Iggy Pop e produziu um disco do Iggy Pop.

C – É. Ele produziu Lou Reed também.

P – Produziu o “Transformer” que é um grande disco.

C – É um espetáculo. Eu acho que o melhor trabalho de David Bowie foi produzir o Lou Reed.

P – Ha-ha-ha-ha-ha!

C – Ha-ha-ha-ha-ha! Mas eu gosto mais de David Bowie hoje do que gostava antes.

P – Eu acho que David Bowie se junta sempre com as pessoas certas. Ele sabe com quem se juntar.

C – É, você falou isso naquela nossa conversa. Uma coisa que apareceu ali foi que eu contei que Ralph Mace queria que eu trabalhasse com David Bowie, ele me levou para assistir ao show dele na Round House, dizendo que eu ia me identificar muito com Bowie e ele ressaltava que eu adoraria Angela e que ela me adoraria também. Eu nem cheguei a conhecê-la pois eu não gostei do show de David Bowie e, embora fosse apresentado a ele por Mace no camarim, disse a Mace que não tinha vontade de trabalhar com aquele cara. Mace queria que eu fosse passar um tempo na casa que Angela e David tinham nos arredores de Londres. Eu não quis. Eu estava te contando que quando li na imprensa brasileira que Angela tinha dado entrevista à TV Americana dizendo que tinha pego Bowie e Mick Jagger na cama – eu pensei que se tratasse de uma ex-mulher ressentida querendo detonar o ex-marido – e  quando eu te disse que eu tinha escapado de boa, você me cortou dizendo que tinha lido em “Mate-me por favor” uma entrevista de Angela em que ela parece não só ser mais inteligente do que Bowie como não ter nenhum ranço em relação à riqueza da vida sexual que eles levavam.

P – É. Angela aparece muito bem no livro. Bowie diz coisas muito legais também, mas ela me pareceu superior a ele. Acho até que coisas como Iggy Pop e Lou Reed podem ter sido dicas dela. Ela sabe das coisas.

C – Uma coisa engraçada é que o disco dos Pixies, essa visão que você tem dos Stooges, a comparação que você fez de Pixies com João Gilberto, o próprio Nevermind do Nirvana, tudo isso eu poria dentro dessa categoria de coisas que têm uma tendência minimalista. Não de semelhança com música minimalista – que isso o Police tem mais e Police é uma coisa totalmente diferente disso. Police aliás é um a que talvez eu volte porque é uma banda de que eu gostei muito quando saiu Synchronicity, acho um disco estupendamente bonito…

P – Eu acho muito bonito também.

C – Foi um dos discos de rock que mais me marcaram, desde os anos 60. Eu gosto muito, por exemplo, do disco dos Sex Pistols. Mais do que do The Clash. Eu até vi um show do The Clash em Paris. Gostei. Mas eles não tinham aquela coisa coesa dos Pistols. O som deles vai para muitos lados, tem muita coisa. Estranhamente os Pistols, que eram uma coisa meio inventada – e que tinham aquele baixista Sid Vicious que meio não tocava – fizeram um disco como aquele. Aquilo é uma verdade só. Já os discos do Clash, sei lá, tem sempre alguma coisa que sobra…

P – Album triplo, né? “Sandinista”.

C – “Sandinista”. Eu conheço gente que gosta de rock, conhece muito rock, mas não tem essa necessidade de coisas ultra-concentradas como essas de que a gente falou. Gente bacana e boa no que faz. Eu não sou como João Gilberto, nem como Jorge Ben nem como Iggy Pop. Eu sou quase um comentarista. Poderia nem estar fazendo música. Nada é necessário em mim. É tudo meio contigente, meio diletante. Tem gente que não gosta de mim e não sabe por que. Eu poderia explicar a essas pessoas que elas têm toda razão em não gostar se elas têm necessidade de algo assim. Eu mesmo não gosto muito. Eu gosto quando eu vejo um artista como Tim Maia: a pessoa tem que ser aquilo.

P – Eu gosto também. Mas eu também gosto das pessoas que têm senso crítico. Eu admiro muito as pessoas que têm senso crítico. Valorizo.

C – Eu não me desvalorizo.

P – Eu sei o que você está falando.

C – Não dá é pra eu curtir muito. Em primeiro lugar porque sou eu e depois porque artistas assim como eu não me impressionam muito. Me impressiona mais gente como Jorge Ben ou João Gilberto. E de todos os discos de rock que saíram depois dos Beatles o que eu mais gosto é o do John Lennon, o primeiro Plastic Ono Band.

P – Eu amo esse disco também. E seu disco que saiu logo depois desse do Lennon – se bobear foi feito na mesma época – é um disco assim, que é o “Transa”. Não é à toa que a gente tocava duas músicas dele no show do “Cê”. Eu adoro a gravação de “Maria Bethânia”, aquele baixo!

C – Vamos tocar mais duas do “Transa” no “Zii e Zie”. Mantendo o tema das coisas nucleares, unitárias – e das personalidades nucleares – como você vê a criação de música na sua geração?

P – Eu sou otimista. O que eu vejo mais são cenas. Não movimentos, mas cenas. Tem umas cenas no Rio, tem em São Paulo, tem em Recife, tem em Salvador. O Pedro Alexandre Sanchez fala que a turma do Instituto tem muitas ramifações. Essa banda que eu produzi agora na Bahia, o Ronei Jorge e os Ladrões de Bicicleta, eu sou suspeito pra falar porque eu sou o produtor, mas eu achei muito bacana. E tem interrelações entre os grupos e as pessoas, não é só que as pessoas se conhecem, mas que elas têm participação efetiva musical no trabalho umas das outras.  Tem um projeto em Salvador chamado Baiana System, de um cara chamado Beto. É um projeto experimental com guitarra baiana. É muito interessante. Tem um de Belém que eu gosto muito, um guitarrista chamado Pio Lobato, que produziu os Mestres da Guitarrada, que tem um lance misturando música eletrônica com carimbó, músicas do norte, que eu gosto muito também. O próprio Do Amor, eu curto muito o Do Amor.

C – Quero ainda perguntar sobre guitarra. Guitarra no Brasil e no mundo, antes e agora. Onde você se sente como guitarrista?

P – A guitarra eu acho que ainda é um instrumento mítico. Todo mundo quer ser guitarrista. Ha-ha-ha-ha. Não é isso. Mas a guitarra é um instrumento forte ainda hoje. Mesmo com música eletrônica, a guitarra ainda é um símbolo. Ela tem um negócio. Fora isso, pra mim é muito natural tocar guitarra. Não sei, tem muitos guitarristas interessantes hoje. Acho que tem uma onda, não sei, acho que se abriu muito o significado do que é tocar guitarra. Antigamente tinha sempre “o melhor guitarrista do mundo” do momento. Tipo Jimmi Hendrix, Jeff Beck, Eric Clapton, Jimmy Page. Depois Van Halen, Steve Vai, todos esses guitarrista hipervirtuosos, teve um momento em que um deles era o melhor do mundo. Hoje não tem isso.  Antes era esse virtuosismo absurdo. Depois do grunge, que a guitarra voltou a ser uma coisa mais bruta, tocar guitarra passou a ser uma coisa muito ampla, ser guitarrista hoje em dia pode significar muita coisa. Você não tem de ser necessariamente um guitar hero, você tem milhões de possibilidades. De som, de ondas, de tudo.

C – E você próprio, onde você acha que se situa como guitarrista?

P – Como guitarrista, não sei, eu sou… não sei.

C – Eu sei que é chato perguntar isso à própria pessoa.

P – Não. Eu sou, acho que eu sou virtuoso, mas não sou tão virtuoso quanto um cara muito virtuoso. Acho que eu talvez não seja tão virtuoso quanto o Davi, por exemplo. Não sou um cara que sabe fazer uma coisa só na guitarra, como o cara dos Stooges, por exemplo. Ele faz pouquíssima coisa na guitarra – mas também ninguém faz como ele. Também não sou só um guitarrista solo, como o Catatau: eu adoro fazer base também. Eu acho que sou amplo. Eu toco violão, toco baixo. Acho que talvez eu seja um pouquinho de tudo o que eu gosto.

C – E emocional e esteticamente, como você se identifica? Se você é mais blues, se é mais cool – e quais os guitarristas que mais te inspiram no seu gosto, você pode admirar mais um mas gostar mais de outro…

P – Eu posso começar respondendo isso dizendo quais as minhas duas inflências no instrumento e na música, que foram Jimi Hendrix e João Gilberto. Foram os dois caras que me formaram. Na pré-adolescência eu fiquei tomado pelos discos deles. Abriram minha cabeça. Eu pensei música e aprendi a ouvir música ouvindo essas duas pessoas. Como uma coisa básica pra mim. Na verdade são dois caras muito diferentes, são dois caras extremamente diferentes. O Jimi Hendrix é um cara muito mais explosivo, ele é distorcido, saturado, Jimi Hendrix é saturado, ele é saturação, ele é descontrole, é dionisíaco, ele até se perde na coisa dele mesmo. E ele só faz música dele, ele quase não toca música de outras pessoas. João Gilberto é o contrario. É o cara introvertido, que calcula, que pensa aquilo, as passagens, os acordes, a harmonia, João Gilberto é harmonia. Jimi Hendrix é blue, que quase não é harmonia, né?, é outra coisa.. Agora os dois têm uma coisa, têm um feeling, têm um banzo, têm um negócio, os dois têm um suíngue, um molejo, um mambo, uma magia que nos dois me leva para a música.

C – Magia é a palavra que mais define o que eu estava perguntando.

P – É.

C – Agora uma outra coisa que eu ia falar com você é que no livro do Ben Ratliff sobre John Coltrane, entre os músicos que foram influenciados por John Coltrane ele põe o Iggy Pop, e põe uma declaração muito bonita do Iggy Pop sobre Coltrane.

P – Eu entendo isso pelo caminho do Coltrane ser um cara que não podia ser outra coisa, tinha de ser saxofonista, com aquele som, com aquele jeito. O Miles já é outra onda. O Miles é um comentarista.

C – Eu me identifico muito com Miles Davis. Admiro muito ele mas acho ele assim.

P – É. Eu me identifico com as duas coisas. Sou geminiano, não sei…

C – Miles Davis também era geminiano. João Gilberto também.

P – João Gilberto também.

C – Você falou em Hendrix e João, que são duas pessoas que apareceram em épocas diferentes: João no final dos anos 50 e Hendrix no final dos 60. Além de João Gilberto, o que é que foi mais forte pra você na música brasileira e o que é que permaneceu mais?

P – Em primeiro lugar meu pai tocando violão em casa. Eu ficava muito ligado no som do violão e da voz dele. Gostava de ouvir aquilo. Ele não era virtuoso mas ele compunha e tocava muito e isso ficou num lugar muito íntimo meu. Agora, de música brasileira, logo depois do João Gilberto veio o disco “Cantar” da Gal. O disco “Cantar” também abriu muito. Pra vários lados: pro Donato, pro Gil, pro Jorge Ben (que o Gil tá tocando como Jorge Ben naquela música “Barato total”). Eu tinha 10 anos, mais ou menos, e eu achava que o “Cantar” tinha a ver com João Gilberto. Eu não sabia por que, mas achava.

C – Hoje você já sabe.

P – Mas também aquilo pra mim era música brasileira. E música brasileira tem uma outra coisa. Além de eu entender a letra, tinha uma coisa que eu não encontrava no Jimi Hendrix nem no Police. Eu estava ouvindo Jimi Hendrix, voltava pra o “Cantar” ou pra o João Gilberto, aquilo me dava um relaxamento. Tem uma coisa que eu senti e que até hoje eu sinto: a música brasileira parece que está mais perto da música, num ponto. Um ponto menos virtuosístico, parece que ela não tem muito filtro, que ela está ali. É uma coisa zen, eu não sei explicar bem, mas é uma coisa que eu sempre sinto em relação à música brasileira.

C – Eu também sinto. Mas a gente é um pouquinho suspeito porque a gente é brasileiro.

P – Não, não. Eu estou falando isso mas eu não me basto nisso.

C – O que você está dizendo implica outra coisa, que quem falou não foi um brasileiro, foi um americano.

P – Melvin Gibbs. Um contrabaixista que trabalha com Arto Lindsay e que é um gênio.

C – Eu lembro que ele disse a você que os músicos americanos estão preocupados com a proficiência, enquanto os brasileiros estão preocupados diretamente com a música.

P – Ele não falava do músico. Era mais do ouvinte. O ouvinte americano dá valor à proficiência, o brasileiro dá valor à música. O americano exige de quem toca que toque bem, que apresente seu trabalho; o brasileiro vai pela música.

C – Essa observação é bonita. Mas ela me faz pensar porque tem uma coisa…

P – Mas ele não estava dizendo isso como se fosse uma coisa necessariamente positiva do Brasil.

C – Quando alguém quer botar seu trabalho para competir com os outros nos Estados Unidos, ele já parte de um nível alto de exigência na fatura que o brasileiro não se impõe. Isso pode ser reflexo das responsabilidades da sociedade americana, que em tudo se esforçou para realizar o melhor  que possa. Há uma coisa bonita nessa responsabilidade americana. Mas isso também pode distanciar daquilo que se quer atingir através do apuro técnico, que é o espírito íntimo da música. O que eu vou dizer pode, no fim, confirmar a observação de Melvin Gibbs, mas os americanos desenvolveram também um desrespeito à exigência da fatura muito mais do que nós. Quando eles já estavam gravando Bob Dylan, os Stooges etc., aqui ainda pedíamos desculpas para gravar Nelson Cavaquinho. E se exigia uma aparência de qualidade no acabamento. Digo porque quando lancei o “Muito” a crítica ficou irada, dizendo que era feito no fundo do quintal – e demonstrando deslumbramento com discos que parecessem produzidos. Ou seja, os americanos têm uma coragem de desrespeitar a fatura muito maior do que a nossa. Bob Dylan gravava com a voz de Pato Donald, errava o tempo, quebrava os compassos. Eu aqui, nem me deixavam tocar violão em meus discos. Só depois que eu voltei de Londres. Os americanos parecem que estão dizendo: nós podemos fazer muito mais bem feito o mal feito do que vocês, do que qualquer um. É uma coisa engraçada porque parece com a questão da arte moderna. Você pede a uma pessoa: “desenha-me um carneiro” e pode ser que a pessoa saiba desenhar um carneirinho. Mas na arte contemporânea é capaz de a maioria dos artistas plásticos não saberem desenhar um carneiro. Mas você vê uma ilustração na New Yorker, com traço aparentemente ingênuo, tosco, mas de propósito, cê vê que aquilo é sofisticação. Enquanto aqui alguém tenta fazer um traço destro.

P -  Pô, você foi num ponto que aí é um esculacho total. Nesse ponto aí… Se for comparar isso com a música…

C – Tem isso com a música também. Não estou dizendo que isso é A realidade. Mas é um aspecto do qual a gente tem de ter consciência, senão a gente não tem lucidez sobre o que está fazendo ou sobre o que está ouvindo. Isso são as entranhas do poder imperial americano. Que nós vivemos.

P – Vivemos.

C – É uma realidade econômica, social, política, histórica, cultural. E estética. Se a gente não vir isso a gente não sabe como é que se passa o que está se passando conosco.

P – É. Lógico.

C – Às vezes pode ser doloroso mas é melhor assim do que você ficar enganado e ressentido.

P – Isso também é um diálogo interno do Brasil consigo mesmo. O Brasil tem um tanto de dificuldade de ter um diálogo consigo mesmo. Os Estados Unidos têm diálogo consigo mesmos: eles têm dificuldade de ter diálogo com os outros. Porque o negócio deles é com Deus, né? O negócio do povo puritano é direto com Deus.

C – Eles vivenciam um mito de eleição, de destino. Nós também temos algo assim: não pode haver nação sem um mito de si própria.

P – Você tem muitas intuições verdadeiras. Você é um visionário realista.

C – Você gosta mais de Caymmi ou de Noel Rosa?

P – Gosto mais de Caymmi.

C – Se vê que você é aquele que foi formado por João Gilberto, mesmo.

P – Embora eu ame a Vila Isabel, ache um bairro incrível. E Noel é aquilo. Mesmo. É tudo bem feitinho, bem acabadinho. Eu gosto de Noel. Mas é que eu tive muito mais contato com a obra do Caymmi do que com a obra do Noel. Eu não tive um contato visceral com a obra de Noel Rosa. Eu acho muito bonito mas foi um contato de museu. Já Dorival eu escuto os discos dele, escuto as versões todas que são feitas. Pra mim é uma coisa muito mais internalizada.

C – Você gosta de samba-jazz, daquilo que aconteceu no Beco das Garrafas…

P – Eu gosto. Gosto do Edison Machado, Luís Carlos Vinhas. Donato daquele período eu acho psicodélico, eu acho muito louco aquilo. Eu amo o Donato dessa época. Amo de paixão.

C – E Tamba Trio?

P – Eu gosto também. Eu acho maluco. Eu acho todo esse lance bem maluco.

C – E Zimbo?

P – É legal.

C – Elis com Zimbo?…

P – É legal, é bem legal. Eu não gosto do excesso de convenção.

C – Eu na época detestava. Hoje eu gosto. Mas também é como um negócio que é muito bem feito dentro de um gosto um tanto ingênuo.

P – Mas eu gosto do Edison Machado. Entendo quem não gosta, mas eu gosto muito. Prefiro Tutti Moreno. Mas gosto. Tutti se diz influenciado pelo Edison Machado mas eu me interesso muito mais pelo jeito dele tocar do que pelo do Edison. Luciano Perrone eu gosto muito também – que é diferente deles dois, é só tambor, bateria de tambores, que eu acho lindo.

C – Eu gostava muito de Edison mas confesso que eu gosto mais de Tutti também. Agora: Mutantes, rock dos 80, rock no Brasil, Rita Lee…

P – Rita é minha musa total. Amo Mutantes e amo o disco dela Tutti Frutti. É um desses discos que…

C – Mutantes anos 60 ou Mutantes progressivo?

P – 60 total. O progressivo é legal mas não me faz a cabeça. Tem muita masturbação. É uma vaidade musical que não me interessa na música de jeito nenhum. É um TIPO de vaidade musical que não me interessa.

C – Os grupos que os influenciaram, tipo Yes, você gosta deles?

P – Eu admiro. Acho que eles tocam pra caralho. De verdade.

C – Genesis, Yes ou Emerson Lake and Palmer? Digo isso porque eu achava esses 3 os mais difíceis de engolir. Hoje estou aprendendo a gostar.

P – É, são difíceis de engolir. Mas acho que desses 3 prefiro o Yes. Mas tem um grupo considerado progressivo que eu gosto mais que todos que é o Can, um grupo alemão.

C – Isso que eu ia te pergutar: esse grupos alemães… e os italianos, como Forneria… eu me lembro de ouvir.

P – É. Todos esses grupos…

C – Mas você não acha que Pink Floyd era diferente? Que foi antes e tinha um espírito diferente?

P – Acho. Eles eram psicodélicos.

C – E rock Brasil anos 80?

P – Rock anos 80, quando eu comecei a tocar, quando comecei a estudar violão é que essas bandas apareceram. Foi entre meus 10 e meus 13 anos. Eu gostava de ouvir Gangue 90 no radio. “Nosso louco amor” , eu achava essa música engraçada. Gostava da Blitz. Gostava muito do primeiro disco da Blitz. Até hoje eu gosto, eu acho. Se eu ouvir vou gostar. Mas, por exemplo, Paralamas eu demorei pra gostar.

C – Eu gostei quando saiu o “Passo do Lui”. Levei pra a Bahia, ficamos ouvindo o verão inteiro.

P – Muita gente gostou do “Passo do Lui”. Eu só comecei a gostar no “Selvagem”. Mas foi do caralho o show no Rock in Rio. Titãs eu sempre gostei. Quer dizer, eu não gostei de “Sonífera ilha”. Mas “Cabeça Dinossauro”  é genial. Agora, tem um disco que eu tava até falando com Kassin outro dia, que eu adoro, que é o ultimo disco com Arnaldo: “tudoaomesmotempoagora”. Eu adoro esse disco. Acho que eles chegaram numa maturidade musical que não tinha nos outros discos.

C – É, tem uma unidade!

P – E não soa como uma banda gringa. Tem uma originalidade. O que também me fez a cabeça, antes, foi Ultraje a Rigor, o primeiro disco. Eu adorava.

C – “Vamos invadir sua praia” é uma obra-prima. E o samba no Rio de Janeiro? Vamos sair da reserva indígena do rock e vamos para a reserva  indígena do samba.

P – É muito importante para mim, véio. Bem, sempre me fascinou a escola de samba, as baterias.

C – E Paulinho da Viola?

P – Paulinho da Viola foi uma coisa depois. Tinha dois sambas-enredo que eu adorava. O “Bumbupraticumbum” e “Mangueira é um canto de fé”. Meu pai me levava no Morro dos Prazeres, tinha um amigo que tocava e eu perguntava a ele “como é o samba, como é a batida?”,  e ele batucava com a mão, tocava pandeiro. Eu ficava fascinado. Já aos vinte anos, descobri o Fundo de Quintal, o Zeca Pagodinho. Eu adoro esses discos dos anos 80 de samba. ADORO esses discos. Têm um som! Acho bem gravado. Acho que foi a primeira vez que no Brasil foi gravada a percussão como a coisa principal. Você ouve os discos antigos, a percussão fica enterrada na base, um sonzinho. “Fala Mangueira”, é lindo esse disco, mas a percussão fica ali assim, escondidinha. E nesses discos dos anos 80 é percussão quase na frente da voz e é bem tirado o som do surdo, você escuta tudo.

C – Isso era um cara que era dos Cariocas até que fazia essas gravações. Eu acho. Luís Roberto. Depois passou a ser Rildo Hora. Mas antes de Rildo era ele.

P – Eu acho essas gravações dos anos 80 de samba mais bonitas do que as de agora. Tem uma gravação sua que eu amo: “Samba da cabeça”. É anterior a essas dos 80. Mas tem isso. A percussão na frente e o som da percussão não é um bolo. Acho que saiu numa coletânea japonesas que o Gavin lançou. Depois ele botou na caixa.

C – E Beth e Clara? Elas puxaram um pouco o cordão.

P – Puxaram sim. O disco da Beth, “Pé no chão” já tem o Fundo de Quintal, toda  a galera. É o máximo. Eu adoro esse disco da Beth Carvalho.

C – E agora tem umas moças que cantam samba.

P – É. Roberta Sá, Mariana Aydar e…

C – A própria Maria Rita.

P – Sim. Maria Rita. Eu acho ótimo essa leva de meninas. Mas eu gosto messsmo é da Mart’nália.

C – Porra. Ha-ha-ha-ha. Isso é uma humilhação, isso não é uma opinião. Ha-ha.

P – Foi mal, foi mal. Mas é que a Mart’nália é maravilhosa, sou fã incondicional. Ha-ha-ha. Acho que ela é tudo aquilo e mais um pouco.

C – Eu estava falando de umas meninas, não estava falando de “o samba em pessoa”.

P – Eu tava falando com a Inti sobre chegar tarde em show, acho que a gente estava atrasado pra ver o show do Lenine, aí ela disse: “depois que um dos melhores shows que eu vi na minha vida foi o bis da Mart’nalia, eu agora chego qualquer hora em qualquer show porque tudo pode acontecer”. Foram 40 minutos de bis da Martnália e foi o melhor show que nós vimos em não sei quanto tempo.

C – Então vamos ouvir o Rodrigo Campos. “São Mateus” é um belo título.

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Pedro Sá comenta “Sem Cais”
31/07/2008 11:12 am

Pedro Sá, guitarrista da Banda Cê, comenta a música “Sem Cais”, sua parceria com Caetano Veloso. 
 

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Preparando o retorno ao Brasil e ao canteiro da Obra
27/07/2008 5:45 pm

Caetano, em comunicado provavelmente final desta turnê européia, sintetiza parte do que aconteceu por lá, por aqui (neste blog) e do primeiro show do Vivo Rio até aqui (nesta Obra, limpando o terreno para sua continuidade):

“Transamba é transcriação do samba em chave nova. Bossa nova, esquema novo, novos baianos. Marcos Moran e o Samba Som 7 já tinham o mais transamba dos sambas do Chico, o mais do Paulinho, Antonio Carlos e Jocafi, “O Lado Direito da Rua Direita” e Novos Baianos. Além de guitarra no samba (Novos Baianos já eram isso). Haroldo de Campos chamou de “transblanco” a tradução (”transcriação“) que fez do “Blanco” de Octavio Paz. Pedro Sá vive lendo Octavio Paz. Está apaixonado. Terá lido esse “Transblanco”? Vamos tocar aí no Rio na segunda quinzena de agosto.

Como tudo o que faço em música, a inspiração prática, técnica, tangível, material do meu “transamba” veio de Gilberto Gil. A batida que fiz tocando “Minha flor, meu bebê” - e que está em “Perdeu” e é a base por trás do tratamento das outras canções, inclusive a de Bosco/Blanc - vem de um jeito que Gil inventou para estilizar o samba no violão, nos anos 70. Não sei se há gravações profissionais dele tocando assim (Gil muito freqüentemente fazia coisas em casa que sumiam nos arranjos de estúdio). Mas seguramente foi imitando (limitadamente) o que ouvia Gil fazer que construí a versão de “Madrugada e amor”, acho que do disco “Qualquer Coisa”, e mesmo minha versão de “Eleanor Rigby”, que eu acho linda, com Perinho Albuquerque fazendo guitarra solo sobre meu violão gilbertogilesco e eu cantando um pouco como Amália Rodrigues (mas em que os ingleses e os americanos não viram graça, que eu saiba, assim como não vêem em nada do “A Foreign Sound”).

A catedral de São Basílio é linda como um sorvete; os lutadores da porta do hotel de Caserta são grande cena homoerótica masculina; Noel não é racista nem misógino (essa racialização e sexualização dos argumentos políticos é algo que desejei desde antes do tropicalismo mas hoje tenho de reconhecer quanto pode - como uma vez me disse João Gilberto - atrapalhar o processo: eu disse aquilo sobre o “Feitiço da Vila” porque quero lutar contra esses engessamentos, como quem diz: então vamos fazer exigências politicamente corretas incômodas pra ver se agüentamos); Os “Três travestis” ressuscitaram graças ao caso Ronaldo (que não merecia ter a vida invadida por ameaças que usam o “jornalismo-fofoca-de-celebridades” como arma): o bom disso é a canção - e a oportunidade de sugerir: Jô, meu querido Jô Soares, faz uma entrevista com a Keila Simpson, a principal informante do trabalho feito sobre o travestismo no Brasil pelo antropólogo americano Don Kulick; ela, Keyla, é uma pessoa incrivelmente articulada e tem muito a contar sobre a realidade da vida dos travestis brasileiros (vive em Salvador mas já viveu em Milão e sabe de tudo: está ligada a organizações de humanização da condição das travestis)! - e o livro “Travesti” acaba de sair traduzido em português; amigos americanos liberais (isso lá quer dizer “de esquerda”, ao contrário do Brasil) me dizem que votaram em Obama e gostam dele mas já sabem que ele vai decepcioná-los: bem, eu não me decepcionei com Lula porque não esperava coisa muito diferente do que há - e não votei em Obama; a fantástica frase “prefiro Obama a Hillary porque gosto muito mais de preto do que de mulher” foi outra provocação com a racialização e sexualização da política, mas também, e principalmente, uma homenagem à memória de Pierre Verger:

Tendo Verger ido a minha casa na Bahia com umas moças que fizeram um documentário sobre ele, e vendo que o VHS não reproduzia as cores, me segredou: “assim é melhor, tudo em preto e branco; pra ficar perfeito só falta parar a imagem”. Perguntei porque ele não gostava da imagem em movimento. Ele disse que nunca gostara de cinema porque “em movimento você não consegue uma composição realmente bonita”. Assistimos ao documentário em preto e branco. Depois que acabou, voltei à conversa com ele: - “você me explicou por que não gosta da imagem em movimeno; mas e as cores, qual o problema com as cores?” Ele respondeu: “ah, cores não, cores são uma vulgaridade”. Achei a resposta insatisfatória, embora compreensível: era um lugar comum que ele repetia com a alegria de quem nem precisa elaborar. Adotei esse tom menos responsável e disse: “você gosta mesmo é de preto-e-branco”. Ele, com maior alegria (e maior originalidade do que na resposta elaborada), contestou: “gosto muito mais de preto do que de preto-e-branco”.

Os shows solo aqui foram muito bons. Eu não esperava. Os melhores foram o de Luxemburgo (a acústica do teatro!), o de Viena, o de Roma e o de Oeiras (nos jardins do palácio do Marquês de Pombal). Houve duetos memoráveis com Stefano Bollani em Perugia e Cagliari. Mas nessas outras cidades foi tudo ainda mais bonito. Bollani é um jovem gênio do piano de jazz que gravou um disco chamado “Carioca” com músicos brasileiros (inclusive meus amados Marçalzinho e Jorge Élder), onde ele mostra uma clareza incrível na compreensão do espírito do choro. Mas nesses dias não cantei “Minha voz, minha vida” como em Viena ou Oeiras. Sobretudo não cantei “Odeio” e “Homem” em versões eficientes para violão solo que me surgiram aqui (nada mudou, mas é diferente). O pior show foi em Moscou: não tinha público propriamente, era um show fechado para empreendedores imobiliários russos. Muito charuto. Tenho horror a charuto. Eram jovens com terninhos new wave fumando charuto. O lugar tinha decoração yuppie também. Mas encontrei Tânia Maria e tocamos juntos, o que foi uma grande alegria. Fizemos “Manhã de carnaval” para nós mesmos e ficamos felizes com isso. “Manhã de carnaval” é a canção de Bonfá para o “Orfeu” que Tom Jobim chamava “aquela música russa” (e cuja coda ouço sempre por trás de “Stairway to Heaven“). Fiquei surpreso com vienenses me esperando à porta do hotel para pedir autógrafo e fazer fotografia. Uma gente de todas as idades, com jeito de solitária, sem falar português, falando inglês com sotaque forte e exibindo CDs antigos e novos meus, além de capas de discos de vinil. Jorge Mautner não saía da minha cabeça. Queria que ele visse os austríacos em plena brasilificação. Talvez eles saibam quão perto estão da outra opção. Istambul: o show lá foi lindo mas a cidade merece texto à parte.”

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Música nova “Sem Cais”
18/07/2008 2:20 pm

Caetano toca “Sem Cais”, música que fez em parceria com Pedro Sá, guitarrista da Banda Cê.

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