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RICARDO, MARCELO, RELEASE E P.S.
10/04/2009 7:40 pm

ENTREVISTA COM MARCELO CALLADO:

C - Que discos e que artistas tiveram mais importância em sua formação musical?

M - The Beatles (Rubber Soul) - Foi a primeira banda pela qual tive real interesse musical.
Me lembro de voltar de uma viagem que tinha feito ao Pantanal em 1987 com minha família, escutando uma coletânea de músicas dos Beatles feita pelo meu primo Juca em K7. Fiquei doido com aquilo que tinha escutado, e chegando ao Rio fui fuçar nos vinis do meu pai pra ver o que rolava de Beatles lá. Como não tinha muita coisa (embora ele gostasse muito da banda) pedi pra que minha mãe comprasse o LP dos Beatles que ela mais gostasse. Ela voltou com o Rubber Soul, disco que ouvi repetidas vezes sem parar durante dias, e que me influenciou e influencia até hoje por tudo que nele há.

Mulheres Q Dizem Sim (Mulheres Q Dizem Sim) - O Mulheres foi seguramente um dos responsáveis por eu estar aqui hoje tocando. Além de ser uma banda que estava muito ao meu alcance (por ser aqui do Rio, todos os componentes serem conhecidos, amigos de amigos e tal…), a musicalidade da coisa, me pegou de jeito. Aquilo que eles faziam, traduzia muito bem o que eu pensava em fazer com música. Ali, em 1994 ouvindo Mulheres Q Dizem Sim, começou minha vontade de ter banda.

Ween (Pure Guava) - Acho que esse disco do Ween, que andava lá pela casa do Jonas, junto com a fita-demo Macacomóvel da banda Zumbi do Mato, apresentada a mim pelo Gabriel, foram muito importantes para abrir as portas de um novo universo. O “Universo das brincadeiras levadas a sério”

C - O que significa o rock para você?

M - Jimi Hendrix.

C - O que significa o samba?

M - Samba é desfilar na Sapucaí no meio de uma bateria com mais de 200 ritmistas.

C - Quais os bateristas que você mais admira (no rock, no samba, no jazz, em qualquer gênero)?

M - Admiro muitos: Tutti Moreno, Wilson das Neves, Alan Myers (DEVO), Jaki Liebezeit (Can), Steve Shelley (Sonic Youth), Domenico Lancelotti (+2) e o grande Joseph “Zigaboo” Modeliste (The Meters).
Também admirava muito o jeito que meu pai tocava caixa-de-guerra nos blocos do Rio.
Mas os meus prediletos e os que mais noto influência em meu jeito de tocar são : Ringo Starr, Mitch Mitchell do Experience e Leo Massacre Completo da banda RAME.

C - Você participa de mais de uma banda (e colabora com outras) atuantes no Rio de Janeiro. Como você vê a cena musical daqui?

M - Vejo com muito bons olhos a parte que diz respeito a produção musical. Há muitas bandas e artistas com talento de sobra e muita vontade de trabalhar e produzir aqui no Rio. Não vejo uma união desses artistas para a formação de um movimento, de um coletivo, ou mesmo um festival ou algo assim. É tudo mais na base do “cada um por si”, mas acho que há uma verdade em ser assim, desse modo.
O que acho mais engraçado na cena musical daqui, e que não vejo com muito bons olhos, é a escassez de lugares de médio porte com condições boas pra se apresentar ao vivo, aliada a um certo desinteresse por parte do público carioca em conhecer novidades, o que acaba criando um círculo vicioso de apatia.
Um exemplo disso é que no ano passado o Do Amor, minha banda, fez três vezes mais shows em SP que no Rio.

C - Como você vê a cena da música no mundo. O que te interessa mais?

M - Essa é uma boa pergunta pois acho que ando meio em falta com o mundo.
Apesar de achar maravilhosas todas essas novas ferramentas que dispomos para baixar músicas, conhecer bandas, trocar arquivos etc., eu acabo as utilizando pouco, e por conta disso acabo não ficando muito ligado nas novidades que tão rolando no cenário musical mundial atual. De vez em quando procuro algo novo que ouvi em algum canto e corro atrás, principalmente quando são bandas daqui do Brasil. Mas na real me interesso mesmo e me divirto mais, indo a sebos e resgatando velharias em vinis.

C - Quais as bandas de que você mais gosta das surgidas mais recentemente (no mundo, incluíndo o Brasil)? Quais as que você mais admira desde sempre?

M - Recentemente, cerca de um ano atrás, me liguei em uma banda americana chamada Vampire Weekend. Aqui no Brasil vi vários shows incríveis nos festivais independentes: Macaco Bong, Hurtmold e DJ Maluquinho são alguns que me recordo agora.
As bandas que mais admiro desde sempre são: The Beatles, The Wailers, Devo, Os Mutantes, Novos Baianos e Acabou La Tequila.

C - Como você compararia o trabalho no “Cê” e o trabalho no “zii e zie”?

M - Acho que os dois discos são felizmente parecidos por terem conseguido chegar nas idéias e conceitos iniciais propostos. Cê no tratamento de banda dado às composições, que tendiam mais pro rock, e Zii e Zie no tratamento da mesma banda dado aos sambas.
O que acho que mudou, é que pelo fato de termos ido pra estrada e feito zilhões de shows, houve um amadurecimento no entendimento musical individual e por conseguinte no todo. No processo de feitura do Zii e Zie, cada um de nós, já sabia mais ou menos o que tinha que fazer para se chegar no resultado. No Cê a gente simplesmente ia chegando.
Isso faz com que eu acabe concordando com a turma roqueira da Bahia quando eles dizem que sentem que Zii e Zie possui uma unidade maior. É uma unidade maior - e isso não quer dizer que em Cê era pouca - na forma da banda pensar e tocar .

ENTREVISTA COM RICARDO DIAS GOMES:

C - Que discos e que artistas tiveram mais importância em sua formação musical?

R - No meu interesse por música sempre busquei uma abrangência de estilos e épocas. Mas de fato por alguns discos eu me apaixonei profundamente. Eles me desafiaram, a cada audição (muitas e muitas), me contaram segredos novos e arrebatadores, de maneira que devo ter buscado ser um pouco eles em toda minha trajetória. Aqui vai o nome do disco seguido pelo artista.

Pureguava - Ween
Buy - Contortions
Funkify your Life: The Meters Anthology - The Meters
Axé - Candeia
Portrait in Jazz - Bill Evans
Miles Smiles - Miles Davis
Duty now for the future - Devo
The Stooges - The Stooges
Axis: Bold as Love - The Jimi Hendrix Experience
Sonatas opus 13 e 14 de beethoven
Ahmad Jamal at the Pershing: But Not for Me - Ahmad Jamal
First Issue - Public Image Ltd.

É interessante que enquanto faço a lista reparo que todos os discos eu descobri na minha
adolescência e têm um gostinho de sonho. Há vários outros discos marcantes mas esses
da adolescência (uns 10 a 15 anos atrás) de fato foram cruciais na construção da minha personalidade
musical e aquilo que busquei tocando e pensando música.

C - O que significa o rock para você?

R - Rock deve ser um monte de coisas pra outras pessoas. Mas pra mim rock, puramente falando, se associa a um sentimento de visceralidade. Se faz no trabalho de assumir e expressar um íntimo impulso agressivo comum a civilização. Rock é um pouco histérico. Não tem a ver com racionalização. É um não apego. Um não narcisismo. É um gesto pouco elaborado. Por isso é mais rítmico e timbrístico e menos harmônico e melódico. Simplicidade (menos algorítmico) que implica em profundidade. Além disso tudo, rock é proveniente da língua inglesa, ou seja, proparoxítona.

C - O que significa o samba?

R - Samba é do Brasil. Vem da nossa fala. Possui um certo ostinato de raízes africanas, mântrico e lúdico. Emocionante. Diferente do Rock, possui um pouco mais de formalização. Então, pra fazer samba tem que fazer Poesia. Não basta dizer, tem que dançar

C - Quais os instrumentistas que você mais admira (em jazz, samba, rock)?

R - Não sou muito admirador de instrumentistas puramente.  Mas admiro muito quando um artista desenvolve uma maneira única de utilizar seu instrumento para se expressar artisticamente. Acontece desses sujeitos terem suas maneiras de tocar (técnica) sistematizadas mas isso não garante que ninguém que “copie” aqueles gestos desenvolvera uma maneira singular de tocar.
Bernard Edwards
Lennie Tristano
Les Paul
Mestre Vieira
Richard David James

C - Você participa de mais de uma banda. Como vê a cena carioca?

R - O Rio tem uma diversidade de bandas muito grande. Mas tem sofrido de um problema sistemático:
Preguiça. Em outras cidade do Brasil, principalmente em São Paulo, quando vou tocar com “Do Amor” ou
“Brasov” vejo que o público se forma sempre com pessoas curiosas afim de descobrir algo novo. No Rio
tenho a impressão da galera estar sempre a procura do Programa, da night, da bombação. Claro que em
Sampa ou em Brasília também tem isso. Mas tem também o público interessado. O Rio tem poucas casas de pequeno e médio porte pra tocar porque os programas que “dão certo” já são sabidos e ninguém quer arriscar algo novo. Salvo o fenômeno de música brasileira na Lapa que de fato é muito positivo mas não é suficiente para abranger toda complexidade de bandas que acabam tocando muito mais fora do Rio. Em várias capitais não há muitos lugares pra tocar também mas têm os maravilhosos festivais (não só em capitais) que é o sonho de qualquer banda. Esse é um fenômeno em desenvolvimento. Os festivais ainda têm o que melhorar em estrutura e organização mas é feito por gente séria e por público interessado. O que acaba criando uma demanda de shows fora do festival. Sem falar nos ricos encontros entre bandas de cantos diferentes do país. No Rio se depende muito da mídia para tornar um projeto viável pois a mobilização das pessoas interessadas em fomentar
a cena musical não é auto-sustentável, ainda. Sem falar num problema mais geral do país que é a situação vergonhosa do transporte público. Fica difícil perambular pelos interiores em ônibus fedorentos ou pelas estradas entupidas de cratera.

C - E a cena musical no mundo, como você vê?

R - Vejo com interesse que Estados Unidos e Europa estão super recheados de festivais o ano inteiro com bandas de todos os cantos do mundo. Há também casas de shows muito organizadas que as pessoas vão regularmente. Na tour do Cê em 2007 tive a oportunidade de sair muito para conhecer os lugares. Por exemplo uma festa reggae em Brixton em Londres ou o maravilhoso show do Pylon numa lugarzinho charmoso underground em Chapel Hill. Também vi shows ruins em outros lugares mas é impressionante a dignidade da “cena”. O público paga pra ver o show e as casas e as bandas são pagos pelo trabalho suficientemente para viverem fazendo isso.

C - Quais as bandas de que você mais gosta das surgidas mais recentemente (no mundo, incluíndo o Brasil)? Quais as que você mais admira desde sempre?

R - Vou citar alguns nomes de bandas que admiro recentemente surgidas no mundo misturadas com
outras mais antigas que ainda produzem discos.

Number, Macaco Bong, Natalie Portman’s Shaved Head, Cérebro Eletrônico, Sonic Youth, La Pupunha, Imbécile, Zumbi do Mato, Fanfare Ciocarlia, Rubinho Jacobina, Lou Reed, Siba e a Fuloresta, Kevin Ayers, Jupiter Maçã

C - Como você compararia o trabalho no “Cê” com o trabalho no “zii e zie”?

R - Em Zii e Zie nós fomos musicalmente um pouco mais ambiciosos que no Cê. O transamba
foi levado ao extremo.  Cê é o retrato de quando inventamos um jeito de fazer os arranjos baseados
nas idéias individuais frente a composição minimalista da banda. Zii e Zie se utiliza desse método,
que continuou se desenvolvendo nos shows e aplica mais claramente ao samba. Em Cê não havia
um objetivo estilístico tão definido. Zii e Zie é um disco de samba na medida em que o reinterpreta.
Está vivo. É disco de rock pois pega emprestado das bandas de rock um pouco da maneira com que
seus integrantes interagem. Assim como o Cê, é um pouco erudito quando se vê que há um forte
contraponto entre frases rítmicas e melódicas bem definidas.

RELEASE:

Um passo a dar com a banda do “Cê” (hoje bandaCê) e a lembrança permanente daquele disco de Clementina com Carlos Cachaça. “Incompatibilidade de gênios” e “Ingenuidade” estão em “zii e zie” porque são as faixas núcleo daquele disco, as que ficaram sempre acesas na memória. Não tenho um exemplar do disco de Celementina comigo. Talvez um vinil tenha ficado na casa de Dedé e hoje Moreno o achasse. Mas nem perguntei a ele. Num dos primeiros ensaios do Obra em Progresso, aquele em que Jaquinho foi o convidado, quis ensaiar “Incompatibilidade” e comentei com Pedro, Ricardo e Marcelo que na minha lembrança Clementina cantava em, digamos, dó maior, em vez do lá menor do João Bosco. Tinha na memória uma harmonia mais convencional quando ouvi a gravação desse samba com o autor pela primeira vez: a que tinha ouvido antes com Clementina. Achei que João Bosco tinha feito uma rearmonização e desejei voltar ao jeito que está no disco dela. Mas não estava certo de que minha lembrança não fosse uma ilusão. Jaquinho então disse: “por que você não faz em dó maior, se é isso que você está sentindo?”. Tentei achar a gravação de Clementina ali na hora (Moreno não ia aos ensaios), na internet, mas não achei. Achei uma exuberante e espetacular de João Bosco ao vivo no YouTube. Em lá menor, claro. Me pergunto se há muita coisa melhor do que aquilo no mundo. Mas minha idéia era totalmente oposta à daquele tratamento jazzístico moderno e com um suíngue de samba tão profundamente sentido por todos os músicos que chega a doer. Voltei para a sala de ensaio com vontade de talvez nem cantar a música. E com a certeza de que, se o fizesse, seria em lá menor: o dó maior seria bonito numa versão ingênua que quisesse ser o que Clementina soava pra mim. Na versão simplificada mas nada ingênua que eu imaginava, o centro tonal em lá menor - e os acordes tensos ao seu redor - era o que se exigia. A batida monótona tinha de o ser tanto quanto a de “Perdeu”, embora um tanto diferente: partindo da idéia básica da batida de Bosco. Experimentamos. E a canção entrou não só no show seguinte como está no disco. Me demoro contando sobre a entrada de “Incompatibilidade de gênios” (e algo sobre a de “Ingenuidade”) em “zii e zie” porque acho que isso joga luz sobre todo o sentido do novo disco. Conhecendo o que eu sugeri para “Perdeu” (e o que, juntos, conseguimos com esse transamba), os 3 caras da banda intuíam o que deveria estar em minha cabeça como tratamento para “Incompatibilidade”. Mas as mudanças por que o projeto de arranjo passou em minha mente eles não acompanharam. Voltei do computador decidido a incluir a música no disco e dizendo que a versão de João era humilhante mas que a gente faria um “transamba”, enquanto ele fazia “samberklee”. A piada era boa e fez rir. Não dá para competir: nossa versão apenas mostra uma abordagem diferente, que talvez suscite outras interpretações desse samba obra-prima. Isso diz muito do que fazemos, neste disco, com o samba em geral.

De “Diferentemete” (a mais velha das canções do CD) a “Lapa” (a mais nova), todas as composições nasceram comigo usando batidas de samba no meu violão - e buscando frases melódicas que evocassem a tradição do gênero. As únicas exceções talvez sejam “Por quem?” e “Sem cais”. Digo “talvez” porque para “Por quem?” sempre imaginei uma bateria dobrando uma transbossanova sobre o ternário às avessas do meu violão - e a balada de “Sem cais” já veio à mente de Pedro com muito samba dentro. Pode ser que alguém ache difícil reencontrar isso em “Menina da Ria” ou mesmo em “Lobão tem razão”. Mas eu digo que, embora em “A cor amarela” haja explícitas palmas de samba-de-roda, há mais samba na base daquelas duas canções (e em “Tarado ni Você”) do que no axé light da menina preta. Mantive as minhas batidas de violão do momento da composição em todas as gravações. Sugeri relações de contraste ou de distorção entre elas e a atividade dos outros instrumentistas. Chegamos a coisas muito bonitas e, mesmo para nós, intrigantes.

“zii e zie” é um disco feito com a bandaCê, concebido para ela. Ela tinha sido concebida para fazer o “Cê”. Por isso há mais unidade na partida do “Cê” do que na chegada, ao passo que há mais unidade na chegada do que na partida do “zii e zie”. Para nós quatro foi custoso reconhecer essa verdade (que pareceu óbvia a ouvintes não envolvidos na feitura). “Cê” foi concebido para criar uma banda. Mas foi um disco de letras muito pessoais minhas. Eu olhava para meu entorno próximo. Em “zii e zie”, as letras olham para mais longe. Atém-se majoritariamente ao Rio, mas aí vai a lugares variados: da favela ao Leblon, da Lapa à praia; de Chico Alves a Los Hermanos; de anônimos típicos a celebridades atípicas, como Kassin, a combinações inusitadas de personalidades cariocas, como Guinga e Pedro Sá. Mas as letras olham para mais longe de mim também: Guantánamo, grutas do Afeganistão, Washington. Voltam os nomes próprios e o tom de comentário dos signos dos tempos que sempre fizeram presença em meu repertório.

Tudo contribuiu para que este viesse a ser um disco mais de banda do que o anterior. Moreno e Daniel Carvalho ficaram mais felizes com o material sonoro que produzíamos. E nós nos sentíamos ainda mais relaxados no diálogo com eles dentro do estúdio. Pedro foi mais um produtor que dirige a feitura da música. Moreno, mais um produtor que dirige a feitura do som. Daniel era responsável pela técnica de captação. Moreno tem um ouvido muito fino para gravação, mixagem e masterização. Ele ilumina os técnicos. E o tratamento sonoro que ele e Daniel trazem ilumina a música.

“zii e zie” é um disco muito claro e denso, nascido num ano de chuvas no Rio, um ano de nuvens pesadas e escuras, sem metáfora. É um disco que saúda a era Fernando Henrique/Lula e fala de ambições de ascensão do Brasil no cenário mundial num tom de tristeza íntima mitigada. Entro na velhice. Pedro e Moreno estão no auge da idade adulta. Marcelo e Ricardo chegam a ela. Somos pessoas de gerações diferentes partilhando interesses muiscais e humanos semelhantes. E com assustadas expectativas de futuro soando em nossas cordas metálicas, plásticas, mucosas.

Caetano Veloso.

P.S.: Soube por Francisco Bosco que João, pai dele, acaba de gravar “Ingenuidade” também. Eu gravei sem nem reouvir o disco de Clementina: apenas a lembrança do que julguei ter ouvido. Gravei com erros (um deles um tanto sério) na letra. Ouçam a gravação de João quando sair, para correção. Ou voltem, se acharem, à de Clementina (simplesmente celestial). É um modo de mostrarmos respeito a esse extrapordinário sambista de nome extraordinário: Serafim Adriano (o anjo imperador, como Francisco e eu dissemos em uníssono ontem na Cinemathèque, depois do show de Jonas Sá).

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SIFU?
6/12/2008 10:35 pm

Não me incomoda muito que o presidente da república tenha usado a expressão “sifo” num discurso no Rio. Conheço pessoas que estavam lá e ficaram revoltadas. Dou-lhes razão. Mas não me abalei muito. Me aborrece mais que todos os jornais do país, ao contar a história, tenham grafado “sifu”. Não entendo a razão. Me parece que assim os jornais mostraram no mínimo tanta vulgaridade quanto Lula. “Sifu”, assim escrita, é uma palavra oxítona. O “u” final cria o problema. Ele entrou aí porque palavras relativas a sexo são vistas como sujas: não têm história. O verbo que está abreviado na segunda sílaba da palavra composta não contém a vogal “u”: é “foder”. Mas leio até em livros eruditos “culhão” no lugar de “colhão”, “buceta” no lugar de “boceta” e “fuder” no lugar de “foder”. “Sifo” é, assim escrita, a palavra paroxítona que o presidente pronunciou - e sua segunda sílaba é a primeira do verbo abreviado. Escrevê-la com um “u” é transformar a primeira página dos jornais brasileiros em parede de banheiro suja de parada de ônibus. Este sou eu: apesar das incertezas a respeito da origem do uso da palavra “veado” para designar “homossexual do sexo masculino”, me sinto mal quando vejo escrito “viado”. Millôr Fernandes escreveu que quem escreve “veado” está dando provas de que é um. Acho que adoro dar esse tipo de prova, pois só grafo “veado”. Primeiro porque sou adepto da tese de que se está dizendo o nome do animal e não algo derivado de “desviado”. Depois porque, na dúvida, preferiria manter a mesma atitude que exijo em relação a “boceta”, “colhão” e “foder”. Cariocas e baianos não escrevem “chuveu” nem pernambucanos, “cibola”. Não. “Sifu” é uma indecência oxítona que a imprensa consagrou.

Implico com a mania - que começou nos anos 70 com a poesia marginal - de se ecrever “homi” (como em “os homi”) em lugar de “home”. Supostamente estão transcrevendo a fala de gente do povo, que não pronuncia o eme final. Leio isso em romances e poemas - até em ensaios. Alguns põem o circunflexo: “os hômi”. Esses ao menos evitam o oxítono fatal. Mas criam uma complicação desnecessária. Suponho que evitam “home” porque os (ainda poucos) brasileiros que lêem iriam pensar tratar-se da palavra inglesa que significa “lar”.

Este blog e os shows em que fui mostrando as canções são a exposição do trabalho que sairá em disco no ano que vem. Só “Menina da Ria” (uma canção singela e gozada) não é conhecida de quem quer que freqüente estes chats aqui. Quando eu disse que o projeto pretende um aprofundamento da experiência de “Cê” não estava anunciando uma radicalização no sentido das aparências de indie-rock, mas um aprofundamento do trabalho que iniciei com Pedro, Ricardo e Marcelo. Com essa mesma formação, enfrentar desenhos rítmicos do samba tem sido, para nós quatro, uma aventura maior do que seria confirmar expectativas de definição roqueira mais “pura” no meu trabalho. Marcelo, Ricardo e Pedro não escreveram aqui até hoje porque não quiseram. Mas eu posso dizer que eles estiveram sempre entusiasmados com o que vimos fazendo. A verdadeira Bahia é o Rio Grande do Sul. O sul é um mercado mais voltado para a cultura pop de língua inglesa do que o resto do Brasil. O centro-sudoeste compra sertaneja (mas também axé). Do Rio para cima, pelo litoral, axé (mas também sertaneja), pagode, rock brasileiro moderno, pop brasileiro moderno (odeio a denominação MPB). O cinema brasileiro também tem muito menor penetração no sul do que no resto. Então, para a moça que assina Joana: “zii e zie” não será ir mais fundo no que há no “Cê”, mas ir a lugares aonde o “Cê” não foi. Já comentei aqui que o crítico Ben Ratliff disse no NYT que as letras do “Cê” eram as minhas melhores em 20 anos, sei lá. Que mexi com ele, em Nova Iorque, dizendo que ele nem sabia português. Mas que agora penso que ele tinha razão, de certa forma. A concisão quase saxã do “Cê” não se encontra em meus textos de antes nem de depois desse disco. Mas é porque eu não quero.

Fui ao Mistura Fina ver o show de Luie, Liminha e Dádi. O artista era o Luie. Mas o trio (que depois ainda trouxe, de quebra, Cesinha na bateria) também parecia constuir um gênio musical. Luie é um cara da geração do Dádi. Eu o conheço desde os anos 70. É um desses caras que se apaixonaram, talvez desde a infância, pelo repertório de estilos que ganhou o mundo sob a rubrica “rock”. Fiel a suas eleições, ele só cantou em inglês - e só clássicos do rock’n'roll, dos blues, do country e de todas as misturas desses três elementos. Eu, que desenvolvi meu gosto de modo totalmente diferente, fico maravilhado quando vejo alguém assim. Luie tem musicalidade e feeling genuínos, ele canta de dentro da verdade daquela cultura. Não se trata nem de perfeição na imitação (o sotaque, por exemplo, não é limpo de brasilidades) mas de identificação profunda com a sensibilidade e a poesia daquele mundo. Além disso, ouvir “Dead Flowers” ou “Wild Horses”, “Like a Rolling Stone” ou “Hey Joe” é reviver os anos iniciais de minha tardia descoberta da energia histórica do rock (sou joãogilbertiano antes de tudo). Liminha (que tocou comigo em 1968, quando ele tinha 17 anos!) é o que sempre me pareceu: um músico grandioso. Dádi (que tocou comigo nos anos 90 e é uma das pessoas que mais adoro neste Rio de Janeiro) é um contrabaixista deslumbrantemente culto de tudo aquilo que Luie representa: ele toca baixo como se fosse uma extensão das guitarras de Luie e Liminha, com toda a manha, todo o sentimento daquele tipo de música. O trio soava tão bem que parecia que o equipamento de som era o melhor já montado em Tóquio. Fiquei emocionado.

Escrevi que postaria quando os comments chegassem a duzentos há dois posts atrás. E cumpri. Agora é esperar a liberação de “Incompatibilidade de gênios” por parte da editora de Bosco&Blanc.

QUERO “PÓ PARÁ COM O PÓ” CANTADO POR IVETE, DANIELA, CHICLETE, ASA, JAMIL E QUEM MAIS

Salem, você também lê meus pensamentos. A música de Nelson Cavaquinho que eu mais canto em casa é “Rugas”. E gosto mais de Nelson do que de Cartola, se é que se pode falar assim. Eu o conheci bastante e ele, com aquela cor de cerâmica e cabelos prateados, era o caboclo mais lindo. Penso o mesmo que Egberto. No mínimo. Nando lembrou certo: falei sobre o violão de Nelson para ilustrar aquele argumento. Já ouvi João Gilberto cantar “Rugas”. De lascar. Três beijos na sua testa.

Adoro Radiohead. Thom Yorke canta muito e a banda é boníssima. Não creio que Milton se entusiasmasse com eles, mas há algo de Minas ali sim. Como sou baiano, muitas vezes prefiro até Arctic Monkeys, pela linhagem mais seca, que vem de Sex Pistols, Nirvana, Strokes - e o eterno disco dos Pixies na BBC. Radiohead é muito líquido. O som é muita água e o texto é muito obscuro, muito “não quero que você me entenda”. Mas é um grupo refinado e caprichado. Lindo de se ouvir. Acho que não vou ao show da Madonna, mas ao do Radiohead eu quero ir.

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Transamba e Caserta!
25/07/2008 2:55 pm

Caetano, da Itália, continua a refletir sobre a concepção da Obra em Progresso:

transamba - de trans + samba; nome de um novo gênero de música criado artificialmente (mas nem Deus sabe quão orgânica e necessariamente) no Brasil. Trans, prefixo de origem latina, significa: além de, através, em troca de. Samba, possivelmente de origem quimbunda, é um tipo brasileiro de música de dança, lamento e sabedoria. O trans de transamba para mim é como o trans em transcendência, transfiguração, transvaloração, transformista; mas também como em trânsito, transação, transporte, transa; e ainda como em transparência, translúcido, translumbramento; ou em transbordar, transviado, transtorno, transpiração. Ou seja, transamba é palavra que já vem dançando entre os sentidos. Mas entre principalmente esses sentidos. É o samba além do samba. Um samba desencaminhado e excessivo, mas sublime e superior. Isso é o que a palavra me diz. As músicas que eu (ou outrem) fizer sob essa rubrica poderão chegar mais ou menos longe dessa meta. Como, de resto, cada exemplar de samba de qualquer época chega mais ou menos perto de ser o que o samba surgiu para ser.

O título do disco que resultará da obra em progresso não será “Transamba”. Diferentemente de alguns, adoro a palavra. Ela me veio de repente, e logo ligada à lembrança da palavra “transvanguarda“, que ouvi e li tanto nos anos 80 e que designava um movimento italiano na área das artes plásticas. Por causa disso - e por causa de minhas passagens pela Itália nos últimos anos - tenho vontade de pôr no disco um título em italiano. Embora não pretenda cantar nada em italiano. Também estou lendo a tradução italiana do “Istambul” de Orhan Pamuk, o que faz o livro ficar duplamente curioso, e lá encontro palavras ou conjuntos de palavras que (sobretudo essas expressões italianas feitas de fonemas repetidos, como “ben bene” ou “pian piano”, “a poco a poco”, “man mano” - embora já saiba que não será nenhuma dessas a escolhida) parecem não ter nada a ver com as canções do disco. Nesse meu embrião de inspiração há algo dos títulos enigmáticos do rock dos anos 60 aos 80: “In-A-Gadda-Da-Vida“, “Regatta De Blanc“, o insuperável “Blonde on Blonde“… Enfim, alguma coisa que tire de esquadro toda a referência ao samba, ou aos transambas ou parasambas ou metasambas que a Banda Cê e eu vamos apresentar. Mas a palavra “transamba” aparecerá em algum lugar. Houve que não gostasse. Não só dentre os comentaristas do blog. Algumas pessoas amigas, inteligentes e, ademais, fãs do som e do repertório da Obra em Progresso, estranharam “transamba” com desagrado. Pelo menos num primeiro momento houve em alguns uma rejeição com cuja razão não atinei: eu gostei muito de “transamba” logo que a palavra me ocorreu. Mas aos poucos fui ouvindo a anaminese de cada um: tinham um vago medo de que eu estivesse sendo artificioso e esquematicamente marqueteiro. Mas era mesmo um medo vago. Ninguém dizia explicitamente. E ele era bem menor do que a mera desaprovação estética da palavra. Eu, como recebi essa inspiração como um acontecimento poético, desconfiava - e desconfio - de que o problema é mais o samba do que o trans. Na própria música há isso. Quando propus o projeto a Pedro Sá formulei a pergunta: será que samba dá samba? Porque é assim: ou bem nos voltamos para o samba e o cultivamos (e aí somos vistos com carinho pelos que cuidam da nossa cultura) ou nos afastamos dele e de toda a carga de fracassos do Brasil que ele carrega (como nos afastamos do catolicismo ou da umbanda por descrença histórica e nos aproximamos dos cultos neo-pentecostais) e buscamos nos sentir integrados na mescla de estilo caipira norte-americano com estilo crioulo norte-americano que ganhou o nome de rock’n'roll nos anos 50. Isso e todos os desdobramentos disso (do reggae ao disco, do rap ao grunge, do house ao punk…) são magnetos, pólos de atração reais e vitais: servem no mínimo de referência obrigatória, mas na verdade de critério de julgamento. O samba não teria salvação. O mero reconhecimento do seu balanço amarra a imaginação e a sensibilidade, desanima a alma que quer ser livre e nova. Então foi e é um desafio enfrentar essa empreitada. Um aprofundamento da pesquisa com o rock independente (ambiente “nobre” da criação de música popular hoje) esboçada em “Cê”, sem contaminação de samba, seria mais estratégico, talvez mais saudável, no esforço de afirmação de uma produção brasileira de ponta que se imponha no mundo. Mas as coisas não acontecem assim. Mesmo porque eu tradicionalmente sou mais de sugerir do que de realizar: minhas limitações muiscais não permitiriam mesmo que fosse eu próprio a perfazer o que sonho para o criador de música brasileira. Então é transamba. Isso vai servir para engrossar o caldo.

CASERTA!

Eis a escultura que orna a fonte em frente à entrada do hotel de Caserta, em fotos tiradas por mim e por Giovana Chanley:

Mas Caserta não é só essa reprodução em alvenaria grosseira de alguma escultura clássica (será mesmo isso?). Caserta tem a Reggia (no pátio da qual foi o meu show), que é uma Transversailles (ou Trasversalhes): o palácio, os jardins, tudo é como uma Versalhes gigante - ou mais gigante. Os salões, os pátios, os quilométricos jardins, tudo é feito para extasiar. Transversal do tempo (para homenagear nosso tema central, que é a música popular do Brasil - e insistir na educação dos leitores para a absorção adequada do termo “transamba”), esse palácio é uma mega jóia barroca construída no século 18. Se houver pedidos, há fotos de tudo isso para mostrar: Giovana, minha assistente, é como os japoneses nos (tão citados hoje) anos 80: fotografa tudo.

P.S. já de Portugal: Muito importante a existência do disco “Transamba” de Marcos Moran e Samba Sete. Entrei no site brasilemvinil e fiquei maravilhado de ver a palavra já escrita ali. Pena que não deu para eu ouvir as músicas. Por que será? Será que é porque estou no Algarve? Vou perguntar aqui e vou postar um comentário depois. Por agora é só relembrar que minha “inspiração poética” já tinha chegado a outro. E em 1973! Para mim a palavra “transamba” fica reafirmada com a existência do disco de Marcos Moran. Não ouvi mas deu pra gostar do repertório, com muito Antônio Carlos e Jocafi mais o Partido Alto do Chico e o Pagode do Paulinho da Viola. Transamba ou transsamba: o prefixo trans, me informa Hermano, nunca pode ser seguido de hífen.”

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Caetano e Arnaldo Brandão cantam “Totalmente Demais”
12/06/2008 11:18 pm

No quarto show da série Obra em Progresso, realizado no dia 11/06/2008, Caetano convida Arnaldo Brandão para cantar Totalmente Demais, um dos mais populares sucessos de sua carreira. Arnaldo Brandão tocou por vários anos 70 com Caetano na Outra Banda da Terra.

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