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DÉJA VU
24/03/2009 5:59 am

O Rio era a capital federal. Era a cidade de todos os brasileiros. Luiz Fernando Veríssimo escreveu que, quando menino, vinha ao Rio de avião e, ao fazer escala em São Paulo, se perguntava: que cidade estranha é essa? A revista O Cruzeiro, os filmes da Atlântida, a Rádio Nacional – tudo confirmava a centralidade do Rio. Carlinhos, filho de Edith do Prato e meu irmão de leite, repetia que conhecer o Rio era seu maior sonho. Tínhamos intimidade com os nomes dos acidentes geográficos e dos endereços do Rio. As marchinhas e sambas de carnaval eram todos cariocas. As celebridades pop e as eminências intelectuais viviam no Rio. As gírias vinham de lá. O samba, que aprendêramos que “nasceu na Bahia”, tinha se tornado nacional ao virar carioca. Nossos sotaques eram caricaturados pelos humoristas do Rio – e nós ouvíamos o modo de falar dos cariocas como um modelo para locutores e cantores, sem que o ressentimento fosse maior do que a admiração. Portanto, chegar ao Rio não era chegar a um lugar estranho, mas ao centro do nosso próprio lugar. Tenho 66 anos. Na minha infância e na minha mocidade era assim. Hoje, não apenas admito que isso mudou: orgulho-me de ter contribuído ativa e conscientemente para apressar e aprofundar essa mudança.

São Paulo era às vezes citada como uma cidade que “não pode parar”. Houve um dobrado marcial do seu quarto centenário. E só. A primeira menção a um logradouro paulistano que ouvi foi a “Rua Augusta” de um samba de Juca Chaves. Chaves era um subproduto da bossa nova que fazia uma caricatura desta para veicular sátiras políticas. Eu gostava. Embora eu fosse – e seja – um joãogilbertiano radical (ou talvez por isso mesmo), essas saídas para versões algo paródicas de estilos pré-bossa e para comentários diretos de atualidades me excitavam. Eu encontrava algo disso em Billy Blanco – e esse gosto teve, mais tarde, papel fundamental na minha captação das virtudes de artistas tão antagônicos como Tom Zé e Chico Buarque. Ouvir de Juca “Toda tardinha quando a Rua Augusta eu desço/ Se não me esqueço/ Para matar minha saudade/ Vou passear lá no Hi-Fi onde se ouve um samba em alta fidelidade”, com o detalhe de que “o dono da loja, um tal baixinho/ Muito chatinho/ Só quer ouvir rock and roll”, me fascinava. Era toda uma vida que se abria diante de mim: uma vida brasileira, urbana e rica, da qual eu não tinha conhecimento. Se me falassem de ruas do Recife ou de Belém eu não teria a mesma reação. Havia canções sobre essas cidades. O Ver-o-Peso era parte da cultura urbana brasileira. E o carnaval do Recife era tão presente nas páginas de O Cruzeiro que, em 1960, ao conhecer o espetacular carnaval da Bahia, eu fiquei surpreso, já que este nunca era mencionado nas revistas do Rio. Se eu ouvisse coisas sobre a vida em Porto Alegre ou em Fortaleza, isso tampouco teria o efeito que a notícia sobre a Rua Augusta me causou: essas outras capitais (todas as outras capitais) eram ao mesmo tempo mais conhecidas e menos importantes do que São Paulo. Sabíamos que São Paulo era uma cidade grande –  talvez maior do que o Rio. Eu tinha a informação fria de que São Paulo produzia riquezas, tinha fábricas, muita gente trabalhando, muitos imigrantes nordestinos e estrangeiros. E procurava não pensar muito nisso.

Meu irmão Roberto e minha amiga Sônia Castro me surpreenderam: tendo ido ao Rio e a São Paulo, ambos gostaram muito mais desta do que daquela. Era raríssimo ouvir-se isso. Quando eu e Bethânia chegamos a São Paulo em 1965, de ônibus, na seqüência de sua carreira na peça “Opinião”, tivemos a impressão de que saíramos do Rio para uma cidade do interior. Não uma bonita e cheia de sobrados antigos como Santo Amaro, mas uma sem charme como Feira de Santana. O próprio ar nos parecia provinciano. A gente acreditava que ela era grande, mas não sentia que ela o fosse. As ruas não exibiam perspectivas parisienses, como o Rio, ou topografias pitorescas, como Salvador. As pessoas na rua pareciam ocupadas e desglamurizadas. O sotaque italianado entreouvido nos transportes coletivos nos fez crer que se tratava de estrangeiros. Os anúncios gigantes feitos de compensado na porta dos cinemas da Ipiranga, reproduzindo as caras dos atores em pinturas canhestras, nos pareciam a expressão mais gritante do mau gosto. A platéia do show se compunha em grande número de mulheres vestidas para a noite, com jóias, maquiagem e saltos altos: nada da turma cool do Rio, de jeans e cabelos longos lavados. E, finalmente, as pessoas com quem conversávamos mostravam inveja benigna do Rio, da Bahia, do Brasil brasileiro. Muitas vezes pareciam pedir desculpas por serem paulistas.

Foi Guilherme Araújo, um carioca, quem começou, em 1966, a dizer que São Paulo continha as potencialidades brasileiras. Tendo já vivido na Europa e usando a palavra “internacional” como elogio máximo a qualquer artista, Guilherme percebia que São Paulo nos abriria as portas da percepção do mundo, livrando-nos do provincianismo metropolitano do Rio. É difícil exagerar o quanto eu admirava Guilherme.

A partir de 1966, ele alugou apartamento na Paulista, ao lado da Gazeta. Simonal morava no bloco de trás, que dava para a rua São Carlos do Pinhal. Eu o achava talentosíssimo e muitas vezes estivemos juntos, em seu ap ou nos jardins de cimento do prédio, Simoninha bem pequeno iluminando os encontros. Comecei a tentar mudar minha disposição em relação à cidade. Em breve eu estava saindo com Toquinho e Chico, com grande felicidade. Mas Guilherme pedia uma adesão radical, que superasse o estágio Rio do Brasil. Toquinho era a paulistanidade em pessoa. Mas Chico representava à perfeição o amor dos paulistas doces pelo Brasil brasileiro – e este não parecia incluir Sampa.

Só mais tarde tomei contato com pessoas que olhavam para o Brasil com um jeito arrogante, como se fossem de uma grande cidade do mundo e tivessem que arrastar essa África às costas. Entendi que alguns queriam salvar o Brasil, outros, livrar-se dele. Passei a chamar isso (irresponsavelmente) de USP. Ainda chamo, com a mesma irresponsabilidade mas reconhecendo que é só para uso operacionalmente ainda eficaz. A história da USP está clara até no “Preto no Branco” de Skidmore. E tocante em “Tristes Trópicos”. Lembro de ler as páginas de Lévi-strauss sobre essa universidade para Zé Miguel ouvir e ficar na frente dele com os olhos cheios de lágrimas.

Já faz anos que acho Feira de Sanatana charmosa. Sua natureza de entroncamento no nó do Recôncavo com o Sertão; sua  prosperidade que resultou em elevação do nível intelectual de gerações novas (quando eu era menino, cidades como Santo Amaro e Cachoeira olhavam para Feira como se fossem professores e poetas olhando para um brutamontes); seu contingente de pessoas avisadas e civis. O paralelo com São Paulo sempre me voltou à mente. Hoje, com Feira liderando a vida acadêmica da região, acho que Santo Amaro, como o Rio, está com um ar de quem perdeu o bonde.

A Folha, a Veja, o Fasano, a Daslu, a Sala São Paulo, o Museu da Língua Portuguesa – tudo isso faz pensar em quanto Sampa é influente e interessante. O Oficina, Os Titãs, Os Racionais, a poesia concreta, o Hurtmold, o Nouvelle Cuisine, Céu, Tiê, Mariana Aidar, mil coisas fazem pensar que Sampa hoje é, como dizia John Lennon sobre Nova Iorque, “where it’s at”.

Mas o Rio é o Rio. Mesmo a Bahia, que pareceu a Stefan Zweig um viúva enlutada (mas altiva), nunca perdeu a majestade – e hoje, depois da fase de talento político de ACM (em que pese o intragável arcaísmo de sua truculência e o fato de até hoje eu não engolir que o aeroporto 2 de Julho tenha ganho o nome do filhe dele num piscar de olhos – enquanto o Tom Jobim demorou e teve de manter o nome antigo: o aeroporto de Salvador chamar-se Deputado Luís Eduardo Magalhães é uma homenagem ao livro “Polígono das Secas”, de Diogo Mainardi) – e do crescimento concomitante e congenial da indústria do carnaval, com sua música vulgar e energética, tão cheia de poesia bárbara e doçura profunda que mereceu o apelido de “axé music” – a Bahia  desenvolveu-se, modernizou-se, mostrou potência. Para o bem e para o mal (“Os Deuses da Aprovação”: o que é aquilo? Os adolescentes baianos perderam o senso de humor? Como é que aqueles professores de cursinho podem entrar outra vez em sala de aula e não ser saudados por estrondosas gargalhadas?), Salvador cresceu e enricou: há gente demais, engarrafamento, violência urbana. Mas há o Museu de Arte Moderna, o acervo arquitetônico do Pelourinho e adjacências, há o Parque de Pituaçu, há muita gente preta de carro novo bom. Há teatro. Há talento no teatro. Há Edgard Navarro e seu monumental “Superoutro” no cinema. Há provas de sobra não só de que a Bahia é a Bahia como de que as chances de lugares tão importantes recuperarem-se de fases depressivas são altas.

O índice de homicídios decresce em São Paulo e no Rio. Cresce em Salvador, em Santo Amaro, no Recife, nas cidades do interior do Mato Grosso. É preciso levar em conta o fato de que DECRESCE em Sampa e Rio. Talvez seja uma onda em relação à qual Bahia, Recife e cidades menores estejam apenas atrasadas.

Sou louco por hip-hop desde “Beat Street”, filme do início dos anos 80. Por causa dele compus “Língua”. Mas desde que vi garotos de moto com cara de zangados na Praça da Purificação, fazendo-a parecer-se muito com o Complexo do Alemão, tenho reação negativa imediata à política do rap. Em 1983 eu pensava que rap era a verdadeira música de protesto revolucionário: não era feita por intelectuais da classe média que se apiedavam dos favelados, mas por favelados. Hoje vejo que a moda da marra, o clima de bandidagem (mesmo que às vezes criticado na superfície) faz estrago e pode causar degenerescência em vez de libertação. Os Racionais permanecem como o grupo que fez “Sobrevivendo no inferno”, um dos mais importantes discos já feitos no Brasil. Mas o cômputo geral mostrando que há uma linha de influência que vem do gangsta rap até à Ilha do Dendê, com bravatas machistas-criminais e ostentação de champanhe e cadillacs, me causa profundo desconforto. Fica a glamurização de guerras entre facções de traficantes da  coisa que mais odeio: a cocaína. O aspecto formal do rap é o que mais me interessa hoje: as levadas enganosas, o dedo no botão do sinc, a distorção prosódica. Claro que a política dessa cultura é mais complicada do que minha reação atual a ela. E os jogos formais são política bastante. Mas não posso pensar São Paulo na perspectiva do Brasil de hoje sem mencionar o câmbio por que passou minha apreciação dos Racionais e relacioná-lo com a reiterada notícia da queda da violência urbana nos dois grandes centros do país, mormente na capital paulista.

Faz uns anos, alguns amigos cariocas iam freqüentemente passar o fim de semana em São Paulo: eram clubbers. A noite paulistana! E a sensação de que tudo acontece. São Paulo me pareceu, por muitos anos, muito mais sexy do que o Rio. Por causa da concentração e da intimidade dos encontros interpessoais lá. No Rio, era como se estivésemos numa festa, onde se vê tanta gente atraente mas não se chega perto de quase ninguém tempo suficiente para aprofundar uma relação. Hoje nem sinto mais isso direito. Felizmente. Mas  entendo que sentisse.

Na canção “Lapa” há muito do que penso sobre o Rio hoje. Como vejo sua força, sua potência. O renascimento dos blocos no carnaval é outro sintoma. Los Hermanos, Roberta Sá, +2, Marisa Monte, Teresa Cristina. O hábito de virem os artistas viver no Rio: Lenine, Alceu Valença, Djavan, Adriana Calcanhotto. A quase eleição de Gabeira. Mas enfatizo Sampa e seus atributos porque sei que ainda é preciso repetir.

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MAU GOSTO
5/03/2009 1:24 am

Cordão é sinônimo de bloco. Só quem saía sem corda eram os trios elétricos. Das grandes sociedades às escolas de samba (como lembro dos Diplomatas de Amaralina!), dos Filhos de Gandhi aos Internacionais, do Crocodilo ao Ilê Aiyê - todos sempre saíram com cordão de isolamento. Isso nunca impediu os foliões de brincarem carnavais inteiros de graça. Ainda hoje é assim. Moreno, meu sábio filho, nunca entrou num camarote ou num cordão - nunca deixou de brincar mais do que eu, nunca reclamou. Quando nossa maior paixão era o Olodum, eu subia no caminhão com Paulinha Lavigne (Aloísio Mercadante era companheiro querido e animado), usava fantasia e dançava dentro da corda, Moreno brincava a noite toda na pipoca.

A primeira vez que vi as escolas de samba do Rio foi na Avenida Presidente Vargas, com Dedé. Choramos de emoção: era 1965, o ano em que a Império Serrano saiu com os “Cinco bailes na história do Rio”. Estávamos na arquibancada. Naquele tempo havia uma arquibancada longa de um lado só da avenida: do outro lado era uma corda guardada pela polícia. Quem não tinha dinheiro para comprar lugar na arquibancada ficava de pé na rua, sambandinho, colado na corda. Os foliões que tentaram seguir as escolas foram repelidos a cacetetaas pela polícia montada. Dedé e eu ficamos chocados, mas ninguém sequer reclamava. Nem uma palavra nos jornais. Nós  próprios terminávamos sempre sendo retomados pela beleza do espetáculo e desistíamos de implicar com a dureza da polícia..

Depois o Darcy Ribeiro construiu o Sambódromo. Paulinho da Viola era contra - acho que ainda hoje não se conforma com a ideia de “praça da apoteose”, muito menos com a exclusão do folião pobre, que olha por frestas, do alto de viadutos, pouco pode ver.

Quero citar a obra-prima que é “Invocação”, do Quanta Ladeira, esse bloco recifense que canta espetaculares paródias obscenas de canções conhecidas. Nesse caso, a graça vem da ironia com o Recifolia, um carnaval pop abaianado (”resto de janta abaianada”) que se serviu ao povo daquela cidade por alguns anos. A última frase diz: “ai que saudade do cordão de isolamento”. Uma reação a essa intervenção no carnaval pernambucano fez muito bem à cidade: o carnaval de lá tem tanta força na tradição que pode viver quase só dela. O carnaval baiano que me apaixonou em 1960, quando fui de Santo Amaro pra Salvador, se pautou, desde 1950 pelo menos, pela invenção novidadeira. O trio elétrico serviu, antes, de inspiração e, depois, de argumento para os tropicalistas. Não tinha corda. Num frevo que escrevi sobre o assunto (”Um frevo novo”) digo “Todo mundo na praça e manda gente sem graça pro salão”. Só parte da juventude de alta classe média ia às ruas: ou eram comunistas, ou eram boêmios, ou eram veados, ou eram dos Internacionais. Minto: os velhos ainda saíam nas “grandes sociedades”.

Na Avenida Sete, as famílias punham cadeiras na beira da calçada para assistir ao que passasse. Logo estavam cobrando para alugá-las. As cadeiras ficavam amarradas em cordas que iam de árvore a árvore e roubavam toda a calçada aos foliões. Bem, faz uns bons anos que os camarotes que avançavam sobre o espaço do folião em Ondina foram proibidos (no período Imbassahy?). No ano passado, acompanhei Brown e o Camarote Andante, a pé, da Barra a Ondina. Neste ano, fiz o mesmo percurso em cima do trio do Psirico. A generosidade dos espaços - e o aproveitamento que as multidões fazem deles - é empolgante.

Daniela Mercury há anos não aluga seu trio a blocos: sai sem corda. Não é a única. Brown também. E há vários trios financiados pela prefeitura que saem sem corda. Feitas as contas, não houve piora, talvez tenha havido melhora na configuração topográfica do carnaval da Bahia.

Antes de ver o de Salvador, já tinha, aos 13 anos, passado o carnaval no Rio. Ver a Avenida Rio Branco vazia e sem animação me cortou o coração nos anos 90. Estava tudo reduzido aos desfiles das escolas. Há 4 anos, passei os dias de carnaval no Rio, sem ir ao carnaval. Estava sofrendo, de luto por dentro, não queria ir ao Sambódromo. Fui com Antonio Cicero e Marcelo Pies ver uma exposição no CCBB. Isso fica no centro, perto da Candelária, que é onde a Rio Branco desagua na Presidente Vargas. Para minha surpresa, vi muita gente fantasiada por ali. Pedi licença a Cicero e Marcelo e fui olhar a avenida. Chorei de emoção: estava como quando eu tinha 13 anos: cheia de “clóvis”, blocos, famílias fantasiadas, tudo. No dia seguinte Hermano Vianna me chamou para ver um mini-bloco que Kassin tocava na Avenida Atlântica (eu estava num apart-hotel entre Copa e Ipanema). A Atlântica estava vazia. Mas, voltando de lá, vi burburinho no Arpoador. Fomos olhar e Ipanema estava apinhada de gente. Nos disseram que o Monobloco tinha passado horas antes. A turba remanecente estava pronta para um carnaval pernambucano, baiano, pronta para tudo. Não havia mais blocos. Sobretudo me impressionou a ausência total dos poderes públicos: os vendedores improvisados paravam no meio do safalto, em qualquer lugar. Lembrei-me de quanta coisa se fez na Bahia e no Recife nestes anos. Há regras para a distribuição dos vendedores. Há proibições, planejamento. O Rio oficial porta-se como se nada houvesse além do Sambódromo. Ouço que o número de blocos cresceu enormemente. Que o folião pipoca é multitudinário outra vez no meu Rio. Fico tão feliz que nem dá para explicar. E espero que surja o que surgiu na Bahia: repertório novo e forte - e presença da prefeitura.

Todas essas coisas - e tantas mais - tomaram minha cabeça (além do que é mais forte: o samba do Psirico, a “viola” do Fantasmão, Daniela com o trio caprichadaço puxando milhares e milhares de pessoas, Ivete deixando o pano branco voar, Preta cantando bem um repertório massa na varanda do Camarote 2222, Xande cantando super bem, o Ilê em sua majestade, Armandinho agora com multidão atrás outra vez, Retrofoguetes homenageando Armandinho, Lucas Santana, Trio eletrônico arrebentando…) que não sobra muito espaço para reclamar do que nem tem modelo melhor no passado para comparação.

Bem, eu teria muito do que reclamar - mas não seria de nada do que o pessoal reclama. Talvez começasse, como Zizek, a reclamar contra a existência do carnaval. Mas não penso como Zizek mesmo! Paro em constatar que, nos blocos convencionais (mas nunca no Chiclete), quem brinca mais é quem fica fora da corda: quem está dentro leva aquele “sem graça” do salão de que falava minha música. As roupas uniformes ficam muito feias quando essas pessoas estão cansadas e sem nenhuma outra emoção positiva além da certeza de que está dentro do bloco. Mas já falei demais sobre o mau gosto carnavalesco da classe média provinciana em Verdade Tropical.

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ELEIÇÕES
10/10/2008 5:47 am

A votação para escolha da versão de “Incompatibilidade de gênios” que vai para o CD só se dará quando tivermos disponibilizado as duas gravações em MP3 (Hermano, Daniel, Moreno, é mesmo em MP3?) aqui. E isso só acontecerá quando eu tiver posto a voz definitiva. “Voz definitiva” lembra estúdios de gravação de antigamente. Hoje soa gozado. Seja como for, achei bacana que muitos já tenham votado, mesmo sem ouvir. Primeiro pensei que a versão com efeitos e um violão regular ganharia por unanimidade. Agora vejo que há quem vote na versão com solo de guitarra e violão-base correpondendo aos arroubos do solo. Veremos.

GABEIRA GABEIRA GABEIRA GABEIRA GABEIRA GABEIRA. Vamos redobrar o entusiasmo e deixar a onda crescer. Gabeira é uma onda boa. O Rio está tendo coragem de olhar para si mesmo. Acho que estamos bem com Paes e Gabeira para escolher. Não tenho nada contra Paes. Mas Gabeira é muito mais coerente. Desprezemos a mão pesada da grande imprensa em sua tentativa de sufocar a força espontânea que a candidatura de Gabeira desencadeou. Tudo o que ele fez de admirável - respeito aos concorrentes, limpeza na campanha de rua, desprezo pelos “santinhos” - vai ganhar cada vez mais significado. Gabeira se eleger prefeito do Rio é algo bom em si mesmo. Comecemos a pensar em ajudá-lo a governar. E que esse nosso pensamento chegue ao governo do estado e ao planalto. Essa raiva de Dirceu é patética. E a de Vladimir (de quem sempre gosto mais) é apenas para uso de campanha. Depois todos terão de conviver com a retidão e a sensatez que Gabeira nunca abandonou e que há de manter quando for prefeito.

Rei do Rio é uma expressão boa por ser livre do medo de tendências absolutistas ou totalitárias. É uma piada boa e benigna.

Falando em rei, hoje ouvi no rádio do carro a gravação de Bethânia de “Fera ferida”. Como é que Roberto fez essa canção tão extraordinária numa fase em que já não era de se esperar dele algo assim contundente? “Fera ferida” é tão boa quanto “Curvas da Estrada de Santos” e chega a bater lá em cima, em “Se você pensa”. Começa dizendo “acabei com tudo” - e nunca mais a peteca cai, em duas longas estrofes com rimas fortes para idéias fortes, indo desaguar no refrão desafiador “não vou mudar”. Esse refrão soou (e soa) como um paradoxo violento: Roberto dizendo que não muda (e explicando em tom de queixa que “esse caso não tem solução”) justamente quando estava mudando pela primeira vez em muitos anos. Ouvir isso hoje - e na voz de Bethânia - me fez chorar. (Eu também gravei essa canção - do que muito me orgulho - mas é só uma homenagem ao grande acontecimento poético: a gravação não está à altura da música).

Hoje minha irmã mais velha, Nicinha, completa 80 anos. Sinto não poder estar em Santo Amaro: estou preso ao estúdio. Mas transcrevo aqui a letra da música que fiz (e gravei) há alguns anos sobre ela:

NICINHA

Se algum dia eu conseguir cantar bonito
Muito terá sido
Por causa de você
Nicinha
A vida tem uma dívida
Com a música perdida
No silêncio dos seus dedos
E no canto dos meus medos
E no entanto
Você é a alegria da vida.

Não vi o debate dos presidenciáveis americanos: preso ao estúdio. Gosto de Obama por ele mesmo, não tanto pelo que penso que ele pode fazer uma vez que assuma o poder. Mesmo porque agora ninguém sabe que país ele irá governar dentro de alguns meses. Que mundo! Muitos esquerdistas dizem que isso é a prova de que o capitalismo é mau e vai acabar. Hm. Gosto do capítulo de Mangabeira (não no livrinho que recomendei mas num grande, chamado “Política”) sobre como é discutível (e frágil) o conceito de “capitalismo” em Marx. Acho que as dificuldades do mundo são grandes desde sempre. Creio em melhoras e progressos. Os grandes empreendimentos civilizatórios, os impérios, as nações, passaram temas e soluções para a frente. Tem algumas coisas que deveriam ser inegociáveis. Muito do que se chama de “direitos humanos” está entre essas coisas. Por que será que Zizek não inclui a Revolução Americana em sua lista de revoluções exaltadas? O programa da Revolução Americana é ótimo - e não teve terror. Ingleses? Cromwell?

Estou lendo o livro de André Midani, “Música, ídolos e poder“, e estou impressionado. É um livro bom, escrito por um homem incrível, sobre uma vida improvável. Muito bonito o destino desse homem que eu amo tanto e que foi tão importante para mim. Independentemente disso, é um livro para ser lido por quem quer que se interesse por música no Brasil e tenha prazer em ver o assunto olhado de uma perspectiva não provinciana, de uma larga visão histórica. Da chegada dos aliados na Normadia aos downloads e aos piratas, uma personalidade singular, sofrida e curtida (nos dois ou mais sentidos) faz a gente aqui se sentir real, possuidora de um tamanho real.

Não gosto de reeleição. Se algo pode ser chamado, como Zé Dirceu grosseiramente chamou, de “herança maldita” do governo FH, é a instituição da reeleição. Há sempre a força da máquina do estado do lado de quem quer se reeleger. Até que dois mandatos de FH e dois de Lula não foi coisa tão ruim quanto me parecia que fosse ser. Mas os prefeitos todos se reelegerem é demais. E na Bahia a situação é odiosa. O cara que levantou uma favela nas areias da orla e tirou a calçada portuguesa do Porto da Barra não pode ser reeleito. Acorda baianada! Vamos votar no petista e dizer a ele que a condição é repor as pedras portuguesas no Porto. Estive lá e vi que, além da mera burrice de destruir o que é bonito e tem valor histórico, a laje que foi posta como calçada não agüenta um aguaceiro e 15 joggers. Não dá para reeleger esse cara. A não ser que ele se comprometa em refazer a calçada do Porto e, principalmente, tirar as construções de barracas permanentes das praias. Tem que ser como no Rio: monta sua tenda de-manhã e desmonta no por-do-sol. E nada de sombrinhas presas à areia - o que faz com que, de-noite, parte da orla soteropolitana pareça um cemitério. Sei que esta última mosntruosidade já estava lá quando João Henrique chegou. Mas não é a quem faz o que ele faz que se pode pedir pra consertar coisas assim.

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CASA GRANDE
19/08/2008 4:50 am

Deixo para discutir restauração do Pelourinho e Imbassay mais tarde. Hoje e amanhã tem show da Obra em Progresso no Teatro Casa Grande. E depois junto-me a Roberto Carlos (”nós precisamos saber quem é que chamamos de rei”, eu disse dele, no show Circuladô, ao contar que ele escreveu “Debaixo dos caracóis dos seus cabelos” para mim, como uma reza para eu voltar do exílio, aonde fui mandado pela ditadura militar) - e junto-me a ele para cantar canções de Tom Jobim. Tenho de despender muita energia para me concentrar nas duas tarefas.

O Casa Grande era A Casa Grande, no meio dos anos 60, quando era ainda um lugar de MPB (com mesas, comida e bebida, mas pequeno e com ar de lugar de encontros, não uma cervejaria que virou Las Vegas, como o nosso também amado Canecão). Depois virou teatrinho. Vi muito teatro lá. E muitas vezes vi Bethânia, acho que fazendo “A Cena Muda”, no seu palco. Hoje, com grana da Oi mas com o mesmo grupo tocando o lance, é um teatrão, muito bem equipado e com uma acústica excelente. Fico emocionado de me apresentar lá.

Vou cantar duas músicas novas (”Lapa” e “Lobão tem razão”); vou cantar todas as outras que fiz para o novo CD e que já cantava no Vivo Rio do MAM; vou cantar Kassin; vou cantar e Cazuza; vou cantar Lupicínio; vou cantar Carlos Lyra; vou cantar “Cê”; vou cantar Caymmi… Não estou preparado para mostrar um trabalho muito limpo e acabado como seria de se exigir para a gravação de um DVD: é ainda obra em progresso. O limpo e acabado fica para o CD de estúdio. Mas acho que estamos mais ajustados do que na fase pré-Europa. A Banda Cê me apaixona. Muitos sons celestiais pintaram no ensaio geral que acabou faz poucas horas. Estou cansado mas estou animado. Não dá para discutir ACM, Pelourinho e Imbassay hoje. No momento, a única afirmação político-partidária que devemos fazer é: VOTEMOS EM GABEIRA PARA PREFEITO.

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P.S.:
18/08/2008 12:34 am

Lembro da ameaça de derrubarem a balaustrada do Porto e fazerem o passeio avançar sobre a areia. Era no tempo de Imbassay. Nessa altura, falei diretamente com ele (não sem antes me associar aos protestos públicos) e ele me assegurou tratar-se um plano que ele próprio não aprovava e que não iria sair. E não saiu. Imbassay é civilizado e bom de diálogo. No caso atual, da remoção da calçada portuguesa, quando fui informado o estrago já estava feito. Mas, como eu disse, não creio em regressão agora. Soube que Ordep Serra (que escreveu um texto perfeito sobre o assunto) está organizando o que talvez venha a ser um seminário anual sobre preservação da beleza urbana de Salvador (luta contra sua destruição). Teremos uma comissão para acompanhar essas coisas. Tô dentro.

Caymmi escreveu o texto definitivo sobre sua própria morte (e que revela como era vivido por dentro o processo de fazer o que “não parece coisa feita por gente”): “Sargaço mar”. Trata-se de uma obra-prima tardia, em que aparecem as liberdades fulgurantes que ele tomava, sem fazer força, ao transitar entre harmonias impressionistas e crueza rude. Ouçam. De todo modo, aqui vai a letra:

Quando se for esse fim de som
Doida canção
Que não fui eu que fiz
Verde luz, verde cor de arrebentação
Sargaço mar, sargaço ar
Deusa do amor, deusa do mar
Vou me atirar, beber o mar
Alucinar, desesperar
Querer morrer para vier com Iemanjá.

Iemanjá, odoiá…

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BAHIA
17/08/2008 1:43 am

Caymmi completou sua vida luminosa. Saí do ensaio das músicas de Jobim com Roberto Carlos e fui à Câmara Municipal ver a cara dele pela última vez. Beijei Nana. Rimos. Não pode haver um jingle turístico mais perfeito do que “Você já foi à Bahia?”. E nenhum seria assim puro de toda ansiedade comercial. É que não é para “turistas”. Não tem desprezo nem raiva dos turistas, mas é para quem quer que seja uma “nêga” que mereça ser chamada assim (claro que isso pode ser mulher ou homem: estou falando de algo essencial numa alma humana). Caymmi trouxe a coloquialidade mais natural para os versos e as notas das canções. A melodia inicial de “Você já foi à Bahia?” tem as interrogações no lugar certo, a vírgula no lugar certo, o ponto final no lugar certo. “Você já foi à Bahia, nêga, não? - então vá.” vem em frase melódica que canta a nossa fala natural. E segue assim, na entonação de “Quem vai ao Bonfim, minha nêga”, onde a vírgula entre “Bonfim” e “minha nêga” cai certinho, e esse “minha nêga” vem em notas mais baixas (e ainda descendentes), exatamente como quando alguém (sobretudo um baiano) fala. E a gradação virgulada de “muita sorte teve, muita sorte tem, muita sorte terá”, seguida da volta da pergunta inicial, agora com o ponto final mais definitivo, incidindo sobre a fundamental! E - depois do refrão “então vá” repetir-se ritmicamente seguindo a série “lá tem caruru”, “vatapá”, “mungunzá” - abre-se aquele largo das “sacadas dos sobrados da velha São Salvador…” que eu repeti quase todo (menos o último verso) em “Terra”. Há aí bandeira de que se trata de obra de extração popular, quase iletrada, nas inadeqüações prosódicas de “velha” (que, por força da melodia torna-se - ou tornar-se-ia - “velhá”) e de “tempo” (que vira “tempu” - ou, se você for gaúcho ou paranaense, “tempô”)? Há. É feio? Não. Fica pior quando se tenta “corrigir”? Nem assim. Não fica menos rica essa canção por alguém mudar um pouco a melodia para forçar uma adeqüação prosódica. Nem por alguém entregar-se à deformação popular dos paroxítonos em oxítonos. “Você já foi à Bahia?” é uma jóia perfeita. E, além de ser uma banalidade, é um retrato passadista da cidade. Mas será? Na verdade é um retrato atemporal, um retrato essencial, o retrato de algo que dura mais do que as mudanças que surgem e morrem em pouco tempo. Esse mundo (de aparência passadista mas referido a durações mais profundas - e de extrema naturalidade de dicção) reencontra-se nos sambas todos que Caymmi fez e cantou: “Lá vem a baiana”, “Requebre que eu dou um doce”, “A vizinha do lado”, “Vatapá”, “Vestido de bolero”, “Rosa morena”, tantos. Em todos - e muito claramente na parte repetitiva de “Você já foi à Bahia?” - a exposião consciente do parentesco entre o Brasil e Cuba, a Bahia e Cuba. Jorge Luis Borges, num texto em que lista a contribuição dos negros às culturas americanas - fato que ele credita ao padre Bartolomé de las Casas, por este ter sugerido, por pena dos índios, a importação de escravos africanos - , deplora a existência da “insuportável rumba ‘El Manicero‘”. Nesse texto, típica mas chocantemente, Borges nem sequer alude ao Brasil (imagine alguém escrever um texto sobre a contribuição dos negros na construção das nações americanas e nem citar o Brasil, o maior e mais miscigenado de todos os países da América, o que abriga a maior população negra fora do continente africano!). E justamente o samba que fez Caymmi famoso no Brasil - e o Brasil famoso no mundo, através de Carmen Miranda - é, em larga medida, uma variação sobre “El Manicero”: “O que é que a baiana tem?”. Eu credito à força da língua espanhola a visão desproporcionada de Borges. E Carmen adaptou-se a muitas submissões da música brasileira aos estilos cubanos, mais conhecidos dos norte-americanos (aliás, Exequiela, são poucos no Brasil que, poucas vezes, usam o termo “estadunidense”, e eu entendo: é feia essa palavra: o sumiço do plural de “estados” me causa desconforto, para só dizer o mínimo; e na verdade “americano” quer, no mais das vezes, dizer “relativo aos Estados Unidos da América”, que, indo mais longe do que no caso da África do Sul, é o único país cujos colonizadores não sentiram necessidade de nomear, tomando o nome do continente para si, como se dissessem: “América é onde chegamos, o resto é nada” - e é a partir disso que se comporta a língua ao redor desse conceito; acho natural e saudável que tentemos reagir a isso, mas “estadunidense” não é uma boa solução - nem “estados unidos” é propriamente um nome: o nome é América, “estados unidos” equivale a “república federativa” ou a qualquer outra designação genérica - e, de fato, o México é Estados Unidos do México e o Brasil foi, até pouco tempo, Estados Unidos do Brasil; quando aceitamos o equívoco termo “americano” como significando “dos Estados Unidos”, ou mesmo “norte-americano” (já que este se aplicaria igualmente ao México e ao Canadá), estamos apenas usando uma palavra pelo que ela mais freqüentemente significa: resistirmos a isso não mostra mais nossas forças do que nossas fraquezas). Mas “O que é que a baiana tem?” não ecoa submissão nem humilhação diante da América hispânica: transpira sabedoria no generoso reconhecimento de parentesco. Caymmi surge aqui muito mais alto do que Borges. Mas essa minha volta rebuscada e petulante não deve nos afastar de considerações menos discutíveis. Por exemplo: a combinação reveladora de sutilezas impressionistas com rudeza, tal como se ouve nas “canções praieiras”. A previsão da bossa nova no casamento do coloquialismo natural com a sofisticação composicional, como perceptível nos sambas-canções dos anos 40 e 50. A mescla de canto operístico com intimidade. A contribuição para a criação do autor-cantor (que em língua espanhola e italiana se chama de “cantautor”): Caymmi é o único que conheço que foi, ao mesmo tempo, o Gershwin e o Bing Crosby (ou Al Johlson), uma prefiguração do que seríamos os autores-cantores dos anos 60 em diante, Gilberto Gil, Bob Dylan, João Bosco… Há o caso dos bluesmen, como Robert Johnson, ou dos trovadores franceses, como George Brassens. Mas, sem entrar no mérito da qualidade artística intrínseca de nenhum deles, Caymmi foi algo que eles não foram: um autor como Cole Porter ou Ary Barroso, abrangente, variegado. E foi o que nem Barroso nem Porter puderam ser: o melhor intérprete de suas próprias canções, sobretudo quando sozinho com seu violão. E aquela voz de Caymmi, aquela voz de caverna (que seus três filhos herdaram), voz de caverna marítima, como aquela que, ecoando o ronco das ondas, soa como um rugido de leão, na costa da ilha de Fernando de Noronha, Gruta Azul. A voz de Caymmi é uma Gruta Azul com cantos napolitanos de barqueiros dentro, barqueiros que pensam que enganam os turistas. Caymmi era uma rocha e um anjo. Demasiado material, demasiado espiritual. Caymmi é um núcleo do Brasil. Caymmi será o Mundo. Quem disse melhor sobre suas canções foi Arnaldo Antunes: Não parece coisa feita por gente.

O prefeito de Salvador cometeu um crime ao substituir a calçada portuguesa do Porto da Barra por cimento e granito polido. Aliás, está cometendo. Obra em preogresso. Estamos em posição de apanhá-lo em flagrante e impedir o assassinato. O estilo cafona deve ser semelhante ao do que foi feito na Praça da Sé pelo governo municipal anterior. E o prefeito então era Imabssahy, que é, até segunda ordem, meu candidato para as eleições que vêm aí. Mas a Praça da Sé era, havia muito, um lugar destruído. Talvez tivesse sido desmoralizada quando se derrubou a Sé para facilitar o trânsito dos bondes, bem antes de eu nascer. O que ficou tinha se transformado num terminal de linhas de ônibus muito feio. A arrumação luzidia que Imbassahy admitiu que lhe dessem é vulgar e perua, mas sobressai a impressão de que alguém limpou a sala. Foi uma madame tola e inculta, mas cuidou. No Porto da Barra, pode ser que qualquer trato dê a impressão de ser melhor do que nada a algum comerciante austríaco que tenha um barzinho lá. Mas o Porto da Barra é um ponto nobre do urbanismo de Salvador. Precisa ser cuidado. Jamais desfigurado. A calçada portuguesa é tesouro nosso, de povos que falam português: são parte de nossa estrutura anímica. Em São Luís se mostrou que a recuperação de calçamentos com pedras portuguesas (que não precisam ser portuguesas, como o desvisado prefeito chegou a julgar) pode ser feito com firmeza e precisão. No Rossio, em Lisboa, também. Sei que em Copacabana (não na praia, claro, porque aí até a Dysney ia protestar) mas na Nossa Senhora) fez-se algo parecido. Resolveram atribuir ao tipo de calçamento os desconfortos que advêm de descuido e maus tratos. Rua com chão que parece shopping center também esburaca se não há cuidado. O Porto da Barra é uma enseada pequena e parece um anfiteatro perfeito para se ver o pôr do sol, ladeada pelos fortes de Santa Maria e de São Diogo. A balaustrada e as pedras portuguesas (ensombradas por árvores) complementam o equlíbrio estético de um lugar que é a praia do povo da Bahia. Um luxo cool e popular. Pois o prefeito está retirando as pedras portuguesas e já derrubou oito árvores! No dia em que morreu Dorival Caymmi, protesto (e conclamo baianos natos e opcionais a protestarem) contra essa ação estúpida. Vamos repor as pedras portuguesas.

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