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O transronco da cuíca, segundo Alberto Mussa
11/08/2008 5:38 pm

Aqui fala o Hermano:

Outro dia, no meio desta Obra em Progresso, recebi email de Alberto Mussa - meu escritor brasileiro contemporâneo favorito (já escrevi sobre os motivos de minha admiração por sua obra neste prefácio), autor de Elegbara, O Trono da Rainha Jinga, O Enigma de Qaf, O Movimento Pendular, além de ser o tradutor/organizador de Os Poemas Suspensos: Al-Muallaqat - anunciando que estava concorrendo com samba enredo para o desfile de 2009 da escola de samba Salgueiro. A letra diz assim:

GRES Acadêmicos do Salgueiro - Carnaval 2009
TAMBOR

Presidente: Regina Duran
Carnavalesco: Renato Lage
Autores: Edgar Filho, Simas, Beto Mussa, Gari Sorriso, Bené do Salgueiro Intérprete: Rhichahs

Canto uma herança
da humanidade primordial
de árvores tombadas um tom grave
deu a cadência original
a idéia de um gênio anônimo
meu ancestral
caçador que na mata uma fera enfrentou
quando sua vitória quis anunciar
pôs o couro esticado, bateu, repicou
ôô ôô, ôô ôô

Festa na aldeia
lua cheia, um clarão
tem batuque a noite inteira
é magia, adoração

De ocidente a oriente
em diferentes formas se multiplicou

Qual é o povo
que não bate o seu tambor

Quem cruzou o mar
encontrou um som guerreiro
e desde então o baticum não quer parar
zambê, zabumba, ilu-abá
angoma, tumba, candongueiro
batá-cotô no meu terreiro
põe na roda o tambozeiro
o Brasil nasceu de mim
inclusão, cidadania
furiosa bateria
coração que bate assim

Menina, quem foi teu mestre?
um batuqueiro
que arrastava
o povo do Salgueiro

Não me lembrava de que Mussa era também compositor de samba. Fiquei alegre com a redescoberta e, como ele é um transescritor (e conhecedor admirável da história da cultura africana no Rio de Janeiro), achei bacana sugerir que lesse o nosso blog e publicasse por aqui suas reflexões sobre samba e transamba. Hoje ele me mandou o seguinte texto:

“Meus amigos, atendendo a um gentil convite do meu querido Hermano, deixo aqui umas reflexões, um tanto incipientes, sobre o conceito de transamba.

Em primeiro lugar, é importante tentar definir samba. Em termos musicais, a coisa parece simples: todo mundo reconhece a batida que define o gênero, criada nos arredores do Estácio, no princípio do século 20.

Historicamente, no entanto, há um pequeno problema: antes de surgir o samba do Estácio – do samba que a gente hoje reconhece como samba –, havia outras batidas, outras formas rítmicas também chamadas de samba, como o samba de caboclo (versão profana do cabula, batida característica dos candomblés de angola); ou o “maxixe” gravado por Donga, o famoso “Pelo telefone” (que os especialistas não classificam como samba propriamente dito).

Pode ter sido uma mera questão de evolução lexical; mas acho que há algo mais profundo nisso: os que chamaram de samba a forma rítmica surgida no Estácio queriam dizer alguma coisa.

Talvez uma história diga mais que reflexões abstratas. Um dos instrumentos de percussão de origem africana que logo foram introduzidos na execução do samba do Estácio foi a cuíca. Na África, a cuíca era um tambor sagrado, representava a misteriosa voz dos mortos. Poucos iniciados no culto dos antepassados podiam assistir à sua execução, os demais ficavam respeitosamente escondidos em suas respectivas casas, apenas ouvindo, aterrorizados.

Os sambistas do Estácio profanaram a cuíca, fizeram dela um tambor carnavalesco. De voz dos antepassados, passou a ser a gargalhada que se intromete de repente, no meio da percussão. Reparem que a maioria dos grandes cuiqueiros (isso pode ser visto, por exemplo, nas baterias das escolas de samba) toca de boca aberta, rindo, gargalhando – postura rara num tocador de surdo ou de repique.

É curioso que se fale normalmente em “choro” da cuíca, como se o riso embutisse ou fosse a mesma coisa que um lamento. Aliás, em “Pintura sem arte”, Candeia define o que é samba pra ele, e fala que o samba é esse lamento, não se reduz à música ou a ritmo. Mas esse já é um outro assunto.

O samba, portanto, é uma “profanação”. Entendo esse termo como uma espécie de radicalização da alegria, da irreverência, da liberdade. No samba de caboclo, profanavam-se as antigas danças de umbigada, a semba, ligadas a ritos de fertilidade e de fecundação; no “Pelo telefone”, o maxixe dos salões foi ainda mais carnavalizado, arrastado pelas ruas e levado aos morros.

Foi esse conceito que os velhos do Estácio quiseram traduzir quando importaram a palavra.

O samba, portanto, já nasceu trans. Não é apenas um gênero musical, definido por uma batida particular. É uma atitude existencial, nasceu como atitude existencial, uma atitude de radicalização da irreverência num contexto histórico de extrema opressão (talvez o Candeia entre aí: samba é lamento porque guarda a memória de suas origens trágicas, quando era perseguido, quando era crime cantar samba).

Não é o samba, evidentemente, o único gênero de música que expressa alegria e irreverência. A diferença é que no samba essas coisas são estruturais. Sem essa atitude, não existe samba.

Precisamente por ser mais uma atitude que uma forma musical, tão logo surgiu se ramificou em diversos subgêneros: passou a ser também samba-choro, samba de partido-alto, samba de enredo.

Por não estar reduzido a um mero padrão rítmico, o samba sempre teve capacidade de se adaptar e de se inserir em novos contextos e ambientes. Por exemplo, a famosa polêmica entre Noel Rosa e Wilson Batista não foi mais que uma discussão teórica sobre o samba como atitude. Wilson era partidário do samba-quilombo; Noel achava que, para que o samba continuasse a ser samba, tinha que ser samba-cidade.

E o samba se transformou com Noel, se transformou com Paulo da Portela, Cartola e Silas de Oliveira. Virou samba-canção e sincopado; ganhou até uma bossa nova. É um gênero em transcurso.

Me parece que o transamba é um ponto desse transcurso, mais um galho dessa grande árvore. Mas vai continuar a ser samba se mantiver a atitude existencial primitiva, que eu não consigo ainda definir muito objetivamente, mas que a gente sente o que é.

abraço forte,

alberto mussa”

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Caetano canta “Gema” com Teresa Cristina
8/08/2008 4:03 pm

Caetano canta com Teresa Cristina a música “Gema”, composta por ele e já gravada por ela.

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Transamba e Caserta!
25/07/2008 2:55 pm

Caetano, da Itália, continua a refletir sobre a concepção da Obra em Progresso:

transamba - de trans + samba; nome de um novo gênero de música criado artificialmente (mas nem Deus sabe quão orgânica e necessariamente) no Brasil. Trans, prefixo de origem latina, significa: além de, através, em troca de. Samba, possivelmente de origem quimbunda, é um tipo brasileiro de música de dança, lamento e sabedoria. O trans de transamba para mim é como o trans em transcendência, transfiguração, transvaloração, transformista; mas também como em trânsito, transação, transporte, transa; e ainda como em transparência, translúcido, translumbramento; ou em transbordar, transviado, transtorno, transpiração. Ou seja, transamba é palavra que já vem dançando entre os sentidos. Mas entre principalmente esses sentidos. É o samba além do samba. Um samba desencaminhado e excessivo, mas sublime e superior. Isso é o que a palavra me diz. As músicas que eu (ou outrem) fizer sob essa rubrica poderão chegar mais ou menos longe dessa meta. Como, de resto, cada exemplar de samba de qualquer época chega mais ou menos perto de ser o que o samba surgiu para ser.

O título do disco que resultará da obra em progresso não será “Transamba”. Diferentemente de alguns, adoro a palavra. Ela me veio de repente, e logo ligada à lembrança da palavra “transvanguarda“, que ouvi e li tanto nos anos 80 e que designava um movimento italiano na área das artes plásticas. Por causa disso - e por causa de minhas passagens pela Itália nos últimos anos - tenho vontade de pôr no disco um título em italiano. Embora não pretenda cantar nada em italiano. Também estou lendo a tradução italiana do “Istambul” de Orhan Pamuk, o que faz o livro ficar duplamente curioso, e lá encontro palavras ou conjuntos de palavras que (sobretudo essas expressões italianas feitas de fonemas repetidos, como “ben bene” ou “pian piano”, “a poco a poco”, “man mano” - embora já saiba que não será nenhuma dessas a escolhida) parecem não ter nada a ver com as canções do disco. Nesse meu embrião de inspiração há algo dos títulos enigmáticos do rock dos anos 60 aos 80: “In-A-Gadda-Da-Vida“, “Regatta De Blanc“, o insuperável “Blonde on Blonde“… Enfim, alguma coisa que tire de esquadro toda a referência ao samba, ou aos transambas ou parasambas ou metasambas que a Banda Cê e eu vamos apresentar. Mas a palavra “transamba” aparecerá em algum lugar. Houve que não gostasse. Não só dentre os comentaristas do blog. Algumas pessoas amigas, inteligentes e, ademais, fãs do som e do repertório da Obra em Progresso, estranharam “transamba” com desagrado. Pelo menos num primeiro momento houve em alguns uma rejeição com cuja razão não atinei: eu gostei muito de “transamba” logo que a palavra me ocorreu. Mas aos poucos fui ouvindo a anaminese de cada um: tinham um vago medo de que eu estivesse sendo artificioso e esquematicamente marqueteiro. Mas era mesmo um medo vago. Ninguém dizia explicitamente. E ele era bem menor do que a mera desaprovação estética da palavra. Eu, como recebi essa inspiração como um acontecimento poético, desconfiava - e desconfio - de que o problema é mais o samba do que o trans. Na própria música há isso. Quando propus o projeto a Pedro Sá formulei a pergunta: será que samba dá samba? Porque é assim: ou bem nos voltamos para o samba e o cultivamos (e aí somos vistos com carinho pelos que cuidam da nossa cultura) ou nos afastamos dele e de toda a carga de fracassos do Brasil que ele carrega (como nos afastamos do catolicismo ou da umbanda por descrença histórica e nos aproximamos dos cultos neo-pentecostais) e buscamos nos sentir integrados na mescla de estilo caipira norte-americano com estilo crioulo norte-americano que ganhou o nome de rock’n'roll nos anos 50. Isso e todos os desdobramentos disso (do reggae ao disco, do rap ao grunge, do house ao punk…) são magnetos, pólos de atração reais e vitais: servem no mínimo de referência obrigatória, mas na verdade de critério de julgamento. O samba não teria salvação. O mero reconhecimento do seu balanço amarra a imaginação e a sensibilidade, desanima a alma que quer ser livre e nova. Então foi e é um desafio enfrentar essa empreitada. Um aprofundamento da pesquisa com o rock independente (ambiente “nobre” da criação de música popular hoje) esboçada em “Cê”, sem contaminação de samba, seria mais estratégico, talvez mais saudável, no esforço de afirmação de uma produção brasileira de ponta que se imponha no mundo. Mas as coisas não acontecem assim. Mesmo porque eu tradicionalmente sou mais de sugerir do que de realizar: minhas limitações muiscais não permitiriam mesmo que fosse eu próprio a perfazer o que sonho para o criador de música brasileira. Então é transamba. Isso vai servir para engrossar o caldo.

CASERTA!

Eis a escultura que orna a fonte em frente à entrada do hotel de Caserta, em fotos tiradas por mim e por Giovana Chanley:

Mas Caserta não é só essa reprodução em alvenaria grosseira de alguma escultura clássica (será mesmo isso?). Caserta tem a Reggia (no pátio da qual foi o meu show), que é uma Transversailles (ou Trasversalhes): o palácio, os jardins, tudo é como uma Versalhes gigante - ou mais gigante. Os salões, os pátios, os quilométricos jardins, tudo é feito para extasiar. Transversal do tempo (para homenagear nosso tema central, que é a música popular do Brasil - e insistir na educação dos leitores para a absorção adequada do termo “transamba”), esse palácio é uma mega jóia barroca construída no século 18. Se houver pedidos, há fotos de tudo isso para mostrar: Giovana, minha assistente, é como os japoneses nos (tão citados hoje) anos 80: fotografa tudo.

P.S. já de Portugal: Muito importante a existência do disco “Transamba” de Marcos Moran e Samba Sete. Entrei no site brasilemvinil e fiquei maravilhado de ver a palavra já escrita ali. Pena que não deu para eu ouvir as músicas. Por que será? Será que é porque estou no Algarve? Vou perguntar aqui e vou postar um comentário depois. Por agora é só relembrar que minha “inspiração poética” já tinha chegado a outro. E em 1973! Para mim a palavra “transamba” fica reafirmada com a existência do disco de Marcos Moran. Não ouvi mas deu pra gostar do repertório, com muito Antônio Carlos e Jocafi mais o Partido Alto do Chico e o Pagode do Paulinho da Viola. Transamba ou transsamba: o prefixo trans, me informa Hermano, nunca pode ser seguido de hífen.”

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Caetano fala sobre “Incompatibilidade de Gênios”
3/07/2008 1:11 pm

Caetano Veloso comenta o samba “Incompatibilidade de Gênios” de João Bosco e Aldir Blanc e o que esse samba tem a ver com a proposta da Obra em Progresso.

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Caetano e Teresa Cristina cantam Paulinho da Viola
11/06/2008 7:07 pm

Na apresentação de 4 de junho, terceiro show da temporada “Obra Em Progresso”, Caetano cantou com Teresa Cristina a música “Coração Vulgar”, de Paulinho da Viola

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Caetano canta Feitiço da Vila, de Noel Rosa
9/06/2008 11:10 pm

Na apresentação de 04/06/2008, Caetano - logo após receber Teresa Cristina - cantou o samba Feitiço da Vila, composição de Noel Rosa, ainda como comentário sobre a candidatura de Barack Obama.

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Feitiço da Vila é uma canção racista?
9/06/2008 11:07 pm

Caetano dá aula sobre Feitiço da Vila, composição de Noel Rosa: o que sua letra pode nos ensinar sobre as relações raciais/culturais no Brasil?

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