GRES Acadêmicos do Salgueiro - Carnaval 2009
TAMBOR
Presidente: Regina Duran
Carnavalesco: Renato Lage
Autores: Edgar Filho, Simas, Beto Mussa, Gari Sorriso, Bené do Salgueiro Intérprete: Rhichahs
Canto uma herança
da humanidade primordial
de árvores tombadas um tom grave
deu a cadência original
a idéia de um gênio anônimo
meu ancestral
caçador que na mata uma fera enfrentou
quando sua vitória quis anunciar
pôs o couro esticado, bateu, repicou
ôô ôô, ôô ôô
Festa na aldeia
lua cheia, um clarão
tem batuque a noite inteira
é magia, adoração
De ocidente a oriente
em diferentes formas se multiplicou
Qual é o povo
que não bate o seu tambor
Quem cruzou o mar
encontrou um som guerreiro
e desde então o baticum não quer parar
zambê, zabumba, ilu-abá
angoma, tumba, candongueiro
batá-cotô no meu terreiro
põe na roda o tambozeiro
o Brasil nasceu de mim
inclusão, cidadania
furiosa bateria
coração que bate assim
Menina, quem foi teu mestre?
um batuqueiro
que arrastava
o povo do Salgueiro
Não me lembrava de que Mussa era também compositor de samba. Fiquei alegre com a redescoberta e, como ele é um transescritor (e conhecedor admirável da história da cultura africana no Rio de Janeiro), achei bacana sugerir que lesse o nosso blog e publicasse por aqui suas reflexões sobre samba e transamba. Hoje ele me mandou o seguinte texto:
“Meus amigos, atendendo a um gentil convite do meu querido Hermano, deixo aqui umas reflexões, um tanto incipientes, sobre o conceito de transamba.
Em primeiro lugar, é importante tentar definir samba. Em termos musicais, a coisa parece simples: todo mundo reconhece a batida que define o gênero, criada nos arredores do Estácio, no princípio do século 20.
Historicamente, no entanto, há um pequeno problema: antes de surgir o samba do Estácio – do samba que a gente hoje reconhece como samba –, havia outras batidas, outras formas rítmicas também chamadas de samba, como o samba de caboclo (versão profana do cabula, batida característica dos candomblés de angola); ou o “maxixe” gravado por Donga, o famoso “Pelo telefone” (que os especialistas não classificam como samba propriamente dito).
Pode ter sido uma mera questão de evolução lexical; mas acho que há algo mais profundo nisso: os que chamaram de samba a forma rítmica surgida no Estácio queriam dizer alguma coisa.
Talvez uma história diga mais que reflexões abstratas. Um dos instrumentos de percussão de origem africana que logo foram introduzidos na execução do samba do Estácio foi a cuíca. Na África, a cuíca era um tambor sagrado, representava a misteriosa voz dos mortos. Poucos iniciados no culto dos antepassados podiam assistir à sua execução, os demais ficavam respeitosamente escondidos em suas respectivas casas, apenas ouvindo, aterrorizados.
Os sambistas do Estácio profanaram a cuíca, fizeram dela um tambor carnavalesco. De voz dos antepassados, passou a ser a gargalhada que se intromete de repente, no meio da percussão. Reparem que a maioria dos grandes cuiqueiros (isso pode ser visto, por exemplo, nas baterias das escolas de samba) toca de boca aberta, rindo, gargalhando – postura rara num tocador de surdo ou de repique.
É curioso que se fale normalmente em “choro” da cuíca, como se o riso embutisse ou fosse a mesma coisa que um lamento. Aliás, em “Pintura sem arte”, Candeia define o que é samba pra ele, e fala que o samba é esse lamento, não se reduz à música ou a ritmo. Mas esse já é um outro assunto.
O samba, portanto, é uma “profanação”. Entendo esse termo como uma espécie de radicalização da alegria, da irreverência, da liberdade. No samba de caboclo, profanavam-se as antigas danças de umbigada, a semba, ligadas a ritos de fertilidade e de fecundação; no “Pelo telefone”, o maxixe dos salões foi ainda mais carnavalizado, arrastado pelas ruas e levado aos morros.
Foi esse conceito que os velhos do Estácio quiseram traduzir quando importaram a palavra.
O samba, portanto, já nasceu trans. Não é apenas um gênero musical, definido por uma batida particular. É uma atitude existencial, nasceu como atitude existencial, uma atitude de radicalização da irreverência num contexto histórico de extrema opressão (talvez o Candeia entre aí: samba é lamento porque guarda a memória de suas origens trágicas, quando era perseguido, quando era crime cantar samba).
Não é o samba, evidentemente, o único gênero de música que expressa alegria e irreverência. A diferença é que no samba essas coisas são estruturais. Sem essa atitude, não existe samba.
Precisamente por ser mais uma atitude que uma forma musical, tão logo surgiu se ramificou em diversos subgêneros: passou a ser também samba-choro, samba de partido-alto, samba de enredo.
Por não estar reduzido a um mero padrão rítmico, o samba sempre teve capacidade de se adaptar e de se inserir em novos contextos e ambientes. Por exemplo, a famosa polêmica entre Noel Rosa e Wilson Batista não foi mais que uma discussão teórica sobre o samba como atitude. Wilson era partidário do samba-quilombo; Noel achava que, para que o samba continuasse a ser samba, tinha que ser samba-cidade.
E o samba se transformou com Noel, se transformou com Paulo da Portela, Cartola e Silas de Oliveira. Virou samba-canção e sincopado; ganhou até uma bossa nova. É um gênero em transcurso.
Me parece que o transamba é um ponto desse transcurso, mais um galho dessa grande árvore. Mas vai continuar a ser samba se mantiver a atitude existencial primitiva, que eu não consigo ainda definir muito objetivamente, mas que a gente sente o que é.
Caetano, ainda voltando da Europa, nos manda estas notas:
“TRANSROCK
Vi uma ótima Joana nos dando adeus porque acha que perdemos o gume do “Cê”. Vamos ver o que o repertório posto junto (em CD?) nos dirá. Gozado é que vi a palavra “anamnese” com um “i” no meio. Fui ver no meu texto, já estava lá. Será que estou “píssico”, como dizia o pessoal de Guadalupe quando morei no Rio em 1956?
NÃO É TRANSAMBA: É TRANSROCK, STUPID. Será que é mesmo a economia que vai pôr as coisas no lugar? Antes eram os Marxistas que diziam isso, depois os neo-liberais. AGORA É NÓS.
Transrock: novo passo dado pelo velho Caetano e os jovens Pedro, Ricardo e Marcelo da Banda Cê, depois do ousado e refinado CD “Cê”. Que tal? Uma boa chamada para a Downbeat!
POLÍTICA:
Os eleitores cariocas temos de nos encontrar em torno do nome de FERNANDO GABEIRA. É isso aí: GABEIRA para prefeito do Rio deve tornar-se a decisão das pessoas lúcidas e honradas dessa cidade, vivam elas no Complexo do Alemão ou na Gávea, na Barra ou em Parada de Lucas, em Santa Teresa ou no Vidigal, na Ilha do Governador ou no Leblon. GABEIRA: não podemos perder essa oportunidade de dizer algo nítido. ACORDA, RIO DE JANEIRO, AS ELEIÇÕES MUNICIPAIS ESTÃO AÍ.
Ouvi elogios de luxemburguenses e alemães à Cidade da Música do Rio. Fiz questão de divulgar. O arquiteto é bom de acústica. Cesar Maia ainda está aí. Mas o candidato a prefeito é FERNANDO GABEIRA. Nenhuma dúvida quanto a isso.
Obra em Progresso: fiz duas músicas na Europa (até agora). Uma cita nominalmente Lobão, a outra diz os nomes de Lula e FH. Tudo com amor.
As opiniões políticas aqui expressas são minhas, assino Caetano Veloso, não são necessariamente do blog nem da equipe, liderada por Hermano Vianna, que o projetou e toca.”
27/07/2008 5:45 pm | Postado por Obra Em Progresso
Caetano, em comunicado provavelmente final desta turnê européia, sintetiza parte do que aconteceu por lá, por aqui (neste blog) e do primeiro show do Vivo Rio até aqui (nesta Obra, limpando o terreno para sua continuidade):
“Transamba é transcriação do samba em chave nova. Bossa nova, esquema novo, novos baianos. Marcos Moran e o Samba Som 7 já tinham o mais transamba dos sambas do Chico, o mais do Paulinho, Antonio Carlos e Jocafi, “O Lado Direito da Rua Direita” e Novos Baianos. Além de guitarra no samba (Novos Baianos já eram isso). Haroldo de Campos chamou de “transblanco” a tradução (”transcriação“) que fez do “Blanco” de Octavio Paz. Pedro Sá vive lendo Octavio Paz. Está apaixonado. Terá lido esse “Transblanco”? Vamos tocar aí no Rio na segunda quinzena de agosto.
Como tudo o que faço em música, a inspiração prática, técnica, tangível, material do meu “transamba” veio de Gilberto Gil. A batida que fiz tocando “Minha flor, meu bebê” - e que está em “Perdeu” e é a base por trás do tratamento das outras canções, inclusive a de Bosco/Blanc - vem de um jeito que Gil inventou para estilizar o samba no violão, nos anos 70. Não sei se há gravações profissionais dele tocando assim (Gil muito freqüentemente fazia coisas em casa que sumiam nos arranjos de estúdio). Mas seguramente foi imitando (limitadamente) o que ouvia Gil fazer que construí a versão de “Madrugada e amor”, acho que do disco “Qualquer Coisa”, e mesmo minha versão de “Eleanor Rigby”, que eu acho linda, com Perinho Albuquerque fazendo guitarra solo sobre meu violão gilbertogilesco e eu cantando um pouco como Amália Rodrigues (mas em que os ingleses e os americanos não viram graça, que eu saiba, assim como não vêem em nada do “A Foreign Sound”).
A catedral de São Basílio é linda como um sorvete; os lutadores da porta do hotel de Caserta são grande cena homoerótica masculina; Noel não é racista nem misógino (essa racialização e sexualização dos argumentos políticos é algo que desejei desde antes do tropicalismo mas hoje tenho de reconhecer quanto pode - como uma vez me disse João Gilberto - atrapalhar o processo: eu disse aquilo sobre o “Feitiço da Vila” porque quero lutar contra esses engessamentos, como quem diz: então vamos fazer exigências politicamente corretas incômodas pra ver se agüentamos); Os “Três travestis” ressuscitaram graças ao caso Ronaldo (que não merecia ter a vida invadida por ameaças que usam o “jornalismo-fofoca-de-celebridades” como arma): o bom disso é a canção - e a oportunidade de sugerir: Jô, meu querido Jô Soares, faz uma entrevista com a Keila Simpson, a principal informante do trabalho feito sobre o travestismo no Brasil pelo antropólogo americano Don Kulick; ela, Keyla, é uma pessoa incrivelmente articulada e tem muito a contar sobre a realidade da vida dos travestis brasileiros (vive em Salvador mas já viveu em Milão e sabe de tudo: está ligada a organizações de humanização da condição das travestis)! - e o livro “Travesti” acaba de sair traduzido em português; amigos americanos liberais (isso lá quer dizer “de esquerda”, ao contrário do Brasil) me dizem que votaram em Obama e gostam dele mas já sabem que ele vai decepcioná-los: bem, eu não me decepcionei com Lula porque não esperava coisa muito diferente do que há - e não votei em Obama; a fantástica frase “prefiro Obama a Hillary porque gosto muito mais de preto do que de mulher” foi outra provocação com a racialização e sexualização da política, mas também, e principalmente, uma homenagem à memória de Pierre Verger:
Tendo Verger ido a minha casa na Bahia com umas moças que fizeram um documentário sobre ele, e vendo que o VHS não reproduzia as cores, me segredou: “assim é melhor, tudo em preto e branco; pra ficar perfeito só falta parar a imagem”. Perguntei porque ele não gostava da imagem em movimento. Ele disse que nunca gostara de cinema porque “em movimento você não consegue uma composição realmente bonita”. Assistimos ao documentário em preto e branco. Depois que acabou, voltei à conversa com ele: - “você me explicou por que não gosta da imagem em movimeno; mas e as cores, qual o problema com as cores?” Ele respondeu: “ah, cores não, cores são uma vulgaridade”. Achei a resposta insatisfatória, embora compreensível: era um lugar comum que ele repetia com a alegria de quem nem precisa elaborar. Adotei esse tom menos responsável e disse: “você gosta mesmo é de preto-e-branco”. Ele, com maior alegria (e maior originalidade do que na resposta elaborada), contestou: “gosto muito mais de preto do que de preto-e-branco”.
Os shows solo aqui foram muito bons. Eu não esperava. Os melhores foram o de Luxemburgo (a acústica do teatro!), o de Viena, o de Roma e o de Oeiras (nos jardins do palácio do Marquês de Pombal). Houve duetos memoráveis com Stefano Bollani em Perugia e Cagliari. Mas nessas outras cidades foi tudo ainda mais bonito. Bollani é um jovem gênio do piano de jazz que gravou um disco chamado “Carioca” com músicos brasileiros (inclusive meus amados Marçalzinho e Jorge Élder), onde ele mostra uma clareza incrível na compreensão do espírito do choro. Mas nesses dias não cantei “Minha voz, minha vida” como em Viena ou Oeiras. Sobretudo não cantei “Odeio” e “Homem” em versões eficientes para violão solo que me surgiram aqui (nada mudou, mas é diferente). O pior show foi em Moscou: não tinha público propriamente, era um show fechado para empreendedores imobiliários russos. Muito charuto. Tenho horror a charuto. Eram jovens com terninhos new wave fumando charuto. O lugar tinha decoração yuppie também. Mas encontrei Tânia Maria e tocamos juntos, o que foi uma grande alegria. Fizemos “Manhã de carnaval” para nós mesmos e ficamos felizes com isso. “Manhã de carnaval” é a canção de Bonfá para o “Orfeu” que Tom Jobim chamava “aquela música russa” (e cuja coda ouço sempre por trás de “Stairway to Heaven“). Fiquei surpreso com vienenses me esperando à porta do hotel para pedir autógrafo e fazer fotografia. Uma gente de todas as idades, com jeito de solitária, sem falar português, falando inglês com sotaque forte e exibindo CDs antigos e novos meus, além de capas de discos de vinil. Jorge Mautner não saía da minha cabeça. Queria que ele visse os austríacos em plena brasilificação. Talvez eles saibam quão perto estão da outra opção. Istambul: o show lá foi lindo mas a cidade merece texto à parte.”
25/07/2008 2:55 pm | Postado por Obra Em Progresso
Caetano, da Itália, continua a refletir sobre a concepção da Obra em Progresso:
“transamba - de trans + samba; nome de um novo gênero de música criado artificialmente (mas nem Deus sabe quão orgânica e necessariamente) no Brasil. Trans, prefixo de origem latina, significa: além de, através, em troca de. Samba, possivelmente de origem quimbunda, é um tipo brasileiro de música de dança, lamento e sabedoria. O trans de transamba para mim é como o trans em transcendência, transfiguração, transvaloração, transformista; mas também como em trânsito, transação, transporte, transa; e ainda como em transparência, translúcido, translumbramento; ou em transbordar, transviado, transtorno, transpiração. Ou seja, transamba é palavra que já vem dançando entre os sentidos. Mas entre principalmente esses sentidos. É o samba além do samba. Um samba desencaminhado e excessivo, mas sublime e superior. Isso é o que a palavra me diz. As músicas que eu (ou outrem) fizer sob essa rubrica poderão chegar mais ou menos longe dessa meta. Como, de resto, cada exemplar de samba de qualquer época chega mais ou menos perto de ser o que o samba surgiu para ser.
O título do disco que resultará da obra em progresso não será “Transamba”. Diferentemente de alguns, adoro a palavra. Ela me veio de repente, e logo ligada à lembrança da palavra “transvanguarda“, que ouvi e li tanto nos anos 80 e que designava um movimento italiano na área das artes plásticas. Por causa disso - e por causa de minhas passagens pela Itália nos últimos anos - tenho vontade de pôr no disco um título em italiano. Embora não pretenda cantar nada em italiano. Também estou lendo a tradução italiana do “Istambul” de Orhan Pamuk, o que faz o livro ficar duplamente curioso, e lá encontro palavras ou conjuntos de palavras que (sobretudo essas expressões italianas feitas de fonemas repetidos, como “ben bene” ou “pian piano”, “a poco a poco”, “man mano” - embora já saiba que não será nenhuma dessas a escolhida) parecem não ter nada a ver com as canções do disco. Nesse meu embrião de inspiração há algo dos títulos enigmáticos do rock dos anos 60 aos 80: “In-A-Gadda-Da-Vida“, “Regatta De Blanc“, o insuperável “Blonde on Blonde“… Enfim, alguma coisa que tire de esquadro toda a referência ao samba, ou aos transambas ou parasambas ou metasambas que a Banda Cê e eu vamos apresentar. Mas a palavra “transamba” aparecerá em algum lugar. Houve que não gostasse. Não só dentre os comentaristas do blog. Algumas pessoas amigas, inteligentes e, ademais, fãs do som e do repertório da Obra em Progresso, estranharam “transamba” com desagrado. Pelo menos num primeiro momento houve em alguns uma rejeição com cuja razão não atinei: eu gostei muito de “transamba” logo que a palavra me ocorreu. Mas aos poucos fui ouvindo a anaminese de cada um: tinham um vago medo de que eu estivesse sendo artificioso e esquematicamente marqueteiro. Mas era mesmo um medo vago. Ninguém dizia explicitamente. E ele era bem menor do que a mera desaprovação estética da palavra. Eu, como recebi essa inspiração como um acontecimento poético, desconfiava - e desconfio - de que o problema é mais o samba do que o trans. Na própria música há isso. Quando propus o projeto a Pedro Sá formulei a pergunta: será que samba dá samba? Porque é assim: ou bem nos voltamos para o samba e o cultivamos (e aí somos vistos com carinho pelos que cuidam da nossa cultura) ou nos afastamos dele e de toda a carga de fracassos do Brasil que ele carrega (como nos afastamos do catolicismo ou da umbanda por descrença histórica e nos aproximamos dos cultos neo-pentecostais) e buscamos nos sentir integrados na mescla de estilo caipira norte-americano com estilo crioulo norte-americano que ganhou o nome de rock’n'roll nos anos 50. Isso e todos os desdobramentos disso (do reggae ao disco, do rap ao grunge, do house ao punk…) são magnetos, pólos de atração reais e vitais: servem no mínimo de referência obrigatória, mas na verdade de critério de julgamento. O samba não teria salvação. O mero reconhecimento do seu balanço amarra a imaginação e a sensibilidade, desanima a alma que quer ser livre e nova. Então foi e é um desafio enfrentar essa empreitada. Um aprofundamento da pesquisa com o rock independente (ambiente “nobre” da criação de música popular hoje) esboçada em “Cê”, sem contaminação de samba, seria mais estratégico, talvez mais saudável, no esforço de afirmação de uma produção brasileira de ponta que se imponha no mundo. Mas as coisas não acontecem assim. Mesmo porque eu tradicionalmente sou mais de sugerir do que de realizar: minhas limitações muiscais não permitiriam mesmo que fosse eu próprio a perfazer o que sonho para o criador de música brasileira. Então é transamba. Isso vai servir para engrossar o caldo.
CASERTA!
Eis a escultura que orna a fonte em frente à entrada do hotel de Caserta, em fotos tiradas por mim e por Giovana Chanley:
Mas Caserta não é só essa reprodução em alvenaria grosseira de alguma escultura clássica (será mesmo isso?). Caserta tem a Reggia (no pátio da qual foi o meu show), que é uma Transversailles (ou Trasversalhes): o palácio, os jardins, tudo é como uma Versalhes gigante - ou mais gigante. Os salões, os pátios, os quilométricos jardins, tudo é feito para extasiar. Transversal do tempo (para homenagear nosso tema central, que é a música popular do Brasil - e insistir na educação dos leitores para a absorção adequada do termo “transamba”), esse palácio é uma mega jóia barroca construída no século 18. Se houver pedidos, há fotos de tudo isso para mostrar: Giovana, minha assistente, é como os japoneses nos (tão citados hoje) anos 80: fotografa tudo.
P.S. já de Portugal: Muito importante a existência do disco “Transamba” de Marcos Moran e Samba Sete. Entrei no site brasilemvinil e fiquei maravilhado de ver a palavra já escrita ali. Pena que não deu para eu ouvir as músicas. Por que será? Será que é porque estou no Algarve? Vou perguntar aqui e vou postar um comentário depois. Por agora é só relembrar que minha “inspiração poética” já tinha chegado a outro. E em 1973! Para mim a palavra “transamba” fica reafirmada com a existência do disco de Marcos Moran. Não ouvi mas deu pra gostar do repertório, com muito Antônio Carlos e Jocafi mais o Partido Alto do Chico e o Pagode do Paulinho da Viola. Transamba ou transsamba: o prefixo trans, me informa Hermano, nunca pode ser seguido de hífen.”
Caetano Veloso comenta o samba “Incompatibilidade de Gênios” de João Bosco e Aldir Blanc e o que esse samba tem a ver com a proposta da Obra em Progresso.
29/06/2008 12:05 pm | Postado por Obra Em Progresso
Caetano manda outros comentarios e uma foto do meio de sua turnê solo na Europa:
“Postei conversa fiada sobre Moscou e, como não mandei foto da catedral de São Basílio, o comentário sobre esta apareceu perto da foto de uma das catedrais de dentro do Kremlin, com elegantes cúpulas douradas. Esta aqui é que é a foto da São Basílio, com suas cúpulas transbrega:
Há uma blasfêmia aí: “brega” originalmente quer dizer “puteiro” e, se a palavra ainda tivesse essa conotação, seria escândalo usá-la para caracterizar uma catedral ortodoxa. Aliás, que choque a palavra “ortodoxa” ser usada para descrever uma peça de arquitetura como essa. Mas transbrega pode ser bom mote para um transamba.
Para Sandroni:
Só quero te lembrar que minha fala no show é entretenimento, comédia (um jovem espectador disse a um jornalista que Obra em Progresso era legal porque, além de cantar, eu fazia “stand up comedy”). Como um comediante, além de divertir posso querer provocar discussão em outros níveis, mas ali é um número, espetáculo. Não se pode perder isso de vista. Foi preciso fazer isso para chegar a dizer que eu estava sendo “miolo duro”, quer dizer, expressão séria intelectual apresentada como tal. Mas valeu a pena. A parte final do seu argumento vai fundo no assunto. Me fez também pensar mais sobre a canção de Noel.”
PS DE CAETANO, 18/07/2008:
“Voar da Russia ao Luxemburgo é sair de um dos maiores para um dos menores países do mundo. É também sair das ruínas monumentais do comunismo - com avenidas de oito pistas engarrafadas, prédios que se parecem com o antigo Ministério da Guerra no Rio, onde Gil e eu ficamos inicialmente presos durante o período militar, e onde hoje fica o Comando Militar do Leste, tão próximo ao Morro da Providência, de onde onze soldados levaram três rapazes e os entregaram à tortura e ao assassinato no Morro da Mineira, sendo que os prédios de Moscou não me contam nenhuma história clara, metrô superlotado, olhos de um azul estranhamente intenso - para a urbanidade equilibrada e minuciosamente higienizada, quase esterilizada, das bolhas de perfeição do ocidente moderno - com moças de cabelo curto louro e olhos azul-cinza claro, quase sem cor, andando de bicicleta pelo asfalto impecável, prédios em proporção com o tamanho das elevações, carros caros e sóbrios, estátuas pequenas e com certa estilização modernista (a da grã-duquesa Charlotte fica entre personagem de conto-de-fada, mendiga e modelo; o monumento aos comediantes na Praça do Teatro parece cena européia vista por desenhista de Walt Disney), enfim, para um mundo que é como que o núcleo do que é real hoje mas que transpira irrealidade. Moscou, em comparação, é, ao menos aos olhos de um brasileiro, muito mais real. Luxemburgo, um grão-ducado parlamentarista, tem muitos bancos. Mais sigilosos, me diz o motorista português, do que os suíços. Paraíso? Bem, o vale que corta a cidade é deslumbrantemente profundo e é misterioso sem ser ameaçador. Luxemburgo é tudo o que desejamos em matéria de civilidade, é o que amamos no legado de Jaime Lerner em Curitiba, é o céu dos pedestres. Muitos portugueses e um bom número de brasileiros (os portugueses são 16% da população do país). O show foi num teatro esplêndido - feito pelo mesmo arquiteto que está fazendo a Cidade da Música no Rio (coisa de que os luxemburguenses me falaram com muito orgulho) - com uma acústica perfeita. Os protugueses e brasileiros na platéia cantaram “Terra”, “Desde que o samba é samba” e “O Leãozinho”, o que ajudou os luxemburguenses (sempre quero escrever “luxemburgueses”, mesclando uma ponta de crítica ao relativo tédio local e de elogio da classe vitoriosa na Revolução Francesa), mas o silêncio profundo e o som bonito é que fizeram do show em Luxemburgo um dos mais bonitos que já fiz. A sala me induzia à concentração. Até o violão saiu bem tocado. Quer dizer, dentro das minhas imensas limitações consegui só fazer interveções adequadas, sentidas, sinceras - e todo ornamentozinho que me ocorria era equilibrado e mesmo bonito. Fiquei emocionado. Escrevi para um amigo dizendo que tinha sentido alívio por sair de Moscou e alegria ao chegar ao Luxemburgo, à sociedade ocidental moderna, liberal, mas que no segundo dia já sentia saudades de Moscou, já que o ar de fim-de-linha de Luxemburgo me exasperava. Mas o teatro (meu show!) e o vale ficaram fora de toda crítica, de todo esboço de crítica.
Um garoto que vi todas as noites na platéia do Obra em Progresso me contou que Arenas, o escritor cubano, disse serem o comunismo e o capitalismo equivalentes, uma vez que ambos nos dão com o pé na bunda, mas que no comunismo você leva o pé na bunda e é obrigado a aplaudir, no capitalismo você pode gritar - e Arenas, que tinha “fugido” de Cuba para os Estados Unidos, concluiu: “eu vim aqui para gritar”. Não lembro de ter ouvido isso no filme de Julian Schnabel adaptado do livro dele. Mas a história é boa. O Brasil não tem um capitalismo plenamente desenvolvido. Isso é insatisfatório. Mas, já que também não se pode mais dizer que não temos uma economia capitalista consistente, vemos uma oportunidade de experimentar algo novo com a combinação capitalismo/democracia/liberalismo. Algo novo incluiria algum socialismo? Talvez algo além disso.”