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OeP (SAUDADES) ZeZ
14/04/2009 2:53 pm

(NOTA DA MODERAÇÃO: Não é possível fazer novos comentários, mas os comentários antigos podem ser lidos após clicar no título de cada post deste blog. Apenas este post não tem comentários. Posts anteriores geralmente têm centenas de comentários que devem ser lidos por quem quiser saber o que aconteceu no progresso desta obra.)

O show vai ser no Canecão. Eu quis muito São Paulo para começar matando as saudades, mas o Rio tá mandando em mim. Fico feliz que seja no Canecão. O Canecão é a casa de show real do Brasil. As outras, com todo o respeito, são imitações. Não se pode imitar um boteco que atrai gente há muito tempo e não é pelo conforto nem pelo luxo nem mesmo pela qualidade do serviço. Pode-se imitar um bar bem feito e “bom”. Mas o Canecão é um boteco afavelado cheio de magia. Não adianta fazer um “melhor”.

Espero todos os internautas que ficaram amigos meus e amigos uns dos outros através de obraemprogresso. com.br. Os que puderem vir ao Rio, venham. Vamos se falar no camarim depois do show. Os que não puderem vir ao Rio falam comigo em BH ou Sampa ou Brasília ou Slavador ou Recife ou PoA ou Floripa ou Cuiabá ou Belém ou Curitiba (será que eu vou a Curitiba e Floripa este ano?: o “Cê” não foi) ou Fortaleza ou Campinas ou Campina Grande ou Goiânia ou Palmas (nunca fui a Palmas) ou em Buenos Aires ou em Montevideo ou em Roma ou em Florença ou em Amsterdam ou em Ann Arbor ou em Santiago ou em Minneapolis ou em New York ou em Paris ou em Londres ou em Tucson ou na Cidade do México ou em Bogotá ou em Madri ou em Piracicaba. Onde será que esse show vai?

Hoje passei o dia dando entrevistas. Me perguntaram várias vezes se eu não sentiria saudade do blog. Claro que vou sentir muitas saudades deste blog. Hoje ele pára – com acento agudo (finalmente li o “Acordo”: achei cheio de inconsistências, com todos aqueles pontos facultativos e com menos acentos diferenciais ainda; sou favorável a uma combinação entre os países lusófonos a respeito das regras ortográficas do português – e acho natural que desta vez o peso brasileiro seja maior do que nunca – mas penso que um acordo tal como o que foi formulado não vai ajudar muito nisso: a história futura poderá inspirar outras soluções – se enriquecermos e passarmos a dar as cartas e as coordenadas de um mundo melhor – e não vi nada sobre “camião” e “caminhão”, assim como nada encontrei sobre “porque”, “por que”, “porquê”, “por quê” – digo: se se decide pelas formas portuguesas ou brasileiras – mas entendo que esses não são casos de regra ortográfica propriamente). Sentirei saudades de todos os que se habituaram a escrever aqui. Sentirei falta de vir olhar os comments. Nunca vou esquecer as discussões sobre sotaques e microgramática com Heloisa, ou de sociolingüística e política com Luedy. A insistência de Gil em cobrar alguma solução brasileira para o dilema dos piratas tem de dar frutos para além do blog. Agradeço a aproximação de Possenti. Ele foi gentil em chegar perto e ajudar a mostrar a dignidade que há na empreitada dos lingüistas lulistas.

Eu adoraria falar de todos e de cada um que escreveu aqui. É das pessoas que sentirei saudades. Posso vir a conhecer de perto muitos deles, mas ainda assim sentirei saudade das personalidades virtuais que conheci aqui. Exequiela, Vero e Lucre, sempre mais sexuais do que as discretas brasileiras. Paloma que me cortou o coração ao sumir como que zangada, depois de ter feito aquela versão adorável de “Incompatibilidade de gênios”. Barbara, a quem eu precisava explicar por que eu ser baiano explica em parte eu gostar assim de São Paulo (remember my telling about Paulo Leminski’s idea of a link between Bahia and São Paulo: how these two, when put together, tend to be the most inventive team). Labi, tão inteligente e tão boa. Salem, Carias, Glauber, Joaldo (vou olhar a Impertinácia e de repente dou uma canja, de improviso), Paulo Osório (depois de São Paulo, minha preferência seria estrear em Lisboa), Teteco dos Anjos, esse anjo lírico do interior de Taubaté e da Sardenha, vianna vana caravana, Miriam Lucia, guto guimarães, bruno gumarães, Lucesar, Rafael, Luiz Castello, Tabatinga, Wesley Correia, Marcio Juqueira, Neyde L., Mara, Siboney, Kauim, Nando, ju, Lícia, Maria, Maria e Erica, Marcos Lacerda, Julio Vellame, Enzio Andrade, Emerson Leal, Guido Spolti, Miki Kawashima, Rea Silvia, Rosana Tiburcio, tanta gente de que não lembrei o nome agora – mas que não deve se sentir preterida por eu ter escrito tantos outros: era vontade de chegar até o seu. Minha idéia era não citar ninguém. Mas não resisti.

Hermano, cadê você? Gente, escrevi para Hermano faz uma hora e esperei que ele estivesse lá (ou chegasse lá) mas ele, que não tem celular (eu também não), não atende telefone em casa. Eu queria que ele escrevesse hoje também. Viesse para esta despedida. Para postar junto comigo este tchau. Para mim, Hermano é um dos maiores heróis do Brasil. Gosto muito do pesamento dele, da inteligência, mas acho que ele é um homem de ação, um herói moral e intelectual, que sente a força e o peso prático dos atos e das idéias. João Gilberto é um gênio, Antonio Cicero é um pensador, José Miguel Wisnik é um santo – Hermano Vianna é um herói. Não é a primeira vez que digo isso. Mas ao repeti-lo agora sei que ele e os outros todos vão saber quão seriamente eu o disse quando o disse pela primeira vez. Penso muito nisso. Penso muito em Hermano nesses termos. Sei que alguns de vocês sabem: Hermano é uma das pessoas mais importantes de nossas vidas.

Vellame: “Slumdog Millionaire” é uma fábula sobre o destino. É assim que o filme gostaria de se apresentar. Mas não é. É uma confusão sentimental e divertida utilizando-se de material humano grave. Não é bom. Mas é quase. Diverte um tanto e parece se redimir na dança final na plataforma do trem: Bollywood quase salva a alma de Hollywood. Por que tantos prêmios?

Jary comentou que escrevi “ascenção” , com “ç” e não com “s”. É o tipo do erro que cometo. Ou será que, como diriam os sociolingüistas de Luedy, é errado dizer-se que algo é um erro?

“zii e zie” é o título condizente com as cenas do Rio de hoje: “tios e tias” somos todos diante dos garotos que fazem malabarismo no sinal. Mas em italiano fica mais perto de São Paulo, que é o que desejo agora.

Já encontrei Glauber, Rafael, Mara, Joaldo, quem mais? Acho que já conheço Gil de longa data. Pretendo encontrar tantos que nunca vi pessoalmente.

Gil: “entro na velhice”, foi o que escrevi. Não “entro para a velhice”. Sua troca de preposição parece revelar que tipo de inquietação a frase lhe causou. Mas é apenas uma constatação. Se Ricardo e Marcelo se aproximam da idade adulta, se Moreno e Pedro estão no seu auge, eu entro na velhice. Ou, dito de outro modo, igualmente objetivo: os primeiros têm 27 anos, os outros dois têm 36 e eu tenho 66 (faço 67 em agosto). Mas, veja bem, é “entro”. Isso dura. E hoje em dia 66 é infância da velhice. Não estou demasiadamente preocupado. Aliás, não estava nada preocupado quando escrevi: se estivesse, acho que não escreveria.

Foi bom à beça este blog. Agora é concentrar para ensaiar e fazer um show todo interessante para quem quiser ver. E para todos nós, muitas boas conseqüências (além de boas lembranças) desse período aqui.

“zii e zie” dia 8 de maio no Canecão. Depois, para outras datas, consultem meu site oficial. E leiam os jornais. Felicidades.

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RICARDO, MARCELO, RELEASE E P.S.
10/04/2009 7:40 pm

ENTREVISTA COM MARCELO CALLADO:

C - Que discos e que artistas tiveram mais importância em sua formação musical?

M - The Beatles (Rubber Soul) - Foi a primeira banda pela qual tive real interesse musical.
Me lembro de voltar de uma viagem que tinha feito ao Pantanal em 1987 com minha família, escutando uma coletânea de músicas dos Beatles feita pelo meu primo Juca em K7. Fiquei doido com aquilo que tinha escutado, e chegando ao Rio fui fuçar nos vinis do meu pai pra ver o que rolava de Beatles lá. Como não tinha muita coisa (embora ele gostasse muito da banda) pedi pra que minha mãe comprasse o LP dos Beatles que ela mais gostasse. Ela voltou com o Rubber Soul, disco que ouvi repetidas vezes sem parar durante dias, e que me influenciou e influencia até hoje por tudo que nele há.

Mulheres Q Dizem Sim (Mulheres Q Dizem Sim) - O Mulheres foi seguramente um dos responsáveis por eu estar aqui hoje tocando. Além de ser uma banda que estava muito ao meu alcance (por ser aqui do Rio, todos os componentes serem conhecidos, amigos de amigos e tal…), a musicalidade da coisa, me pegou de jeito. Aquilo que eles faziam, traduzia muito bem o que eu pensava em fazer com música. Ali, em 1994 ouvindo Mulheres Q Dizem Sim, começou minha vontade de ter banda.

Ween (Pure Guava) - Acho que esse disco do Ween, que andava lá pela casa do Jonas, junto com a fita-demo Macacomóvel da banda Zumbi do Mato, apresentada a mim pelo Gabriel, foram muito importantes para abrir as portas de um novo universo. O “Universo das brincadeiras levadas a sério”

C - O que significa o rock para você?

M - Jimi Hendrix.

C - O que significa o samba?

M - Samba é desfilar na Sapucaí no meio de uma bateria com mais de 200 ritmistas.

C - Quais os bateristas que você mais admira (no rock, no samba, no jazz, em qualquer gênero)?

M - Admiro muitos: Tutti Moreno, Wilson das Neves, Alan Myers (DEVO), Jaki Liebezeit (Can), Steve Shelley (Sonic Youth), Domenico Lancelotti (+2) e o grande Joseph “Zigaboo” Modeliste (The Meters).
Também admirava muito o jeito que meu pai tocava caixa-de-guerra nos blocos do Rio.
Mas os meus prediletos e os que mais noto influência em meu jeito de tocar são : Ringo Starr, Mitch Mitchell do Experience e Leo Massacre Completo da banda RAME.

C - Você participa de mais de uma banda (e colabora com outras) atuantes no Rio de Janeiro. Como você vê a cena musical daqui?

M - Vejo com muito bons olhos a parte que diz respeito a produção musical. Há muitas bandas e artistas com talento de sobra e muita vontade de trabalhar e produzir aqui no Rio. Não vejo uma união desses artistas para a formação de um movimento, de um coletivo, ou mesmo um festival ou algo assim. É tudo mais na base do “cada um por si”, mas acho que há uma verdade em ser assim, desse modo.
O que acho mais engraçado na cena musical daqui, e que não vejo com muito bons olhos, é a escassez de lugares de médio porte com condições boas pra se apresentar ao vivo, aliada a um certo desinteresse por parte do público carioca em conhecer novidades, o que acaba criando um círculo vicioso de apatia.
Um exemplo disso é que no ano passado o Do Amor, minha banda, fez três vezes mais shows em SP que no Rio.

C - Como você vê a cena da música no mundo. O que te interessa mais?

M - Essa é uma boa pergunta pois acho que ando meio em falta com o mundo.
Apesar de achar maravilhosas todas essas novas ferramentas que dispomos para baixar músicas, conhecer bandas, trocar arquivos etc., eu acabo as utilizando pouco, e por conta disso acabo não ficando muito ligado nas novidades que tão rolando no cenário musical mundial atual. De vez em quando procuro algo novo que ouvi em algum canto e corro atrás, principalmente quando são bandas daqui do Brasil. Mas na real me interesso mesmo e me divirto mais, indo a sebos e resgatando velharias em vinis.

C - Quais as bandas de que você mais gosta das surgidas mais recentemente (no mundo, incluíndo o Brasil)? Quais as que você mais admira desde sempre?

M - Recentemente, cerca de um ano atrás, me liguei em uma banda americana chamada Vampire Weekend. Aqui no Brasil vi vários shows incríveis nos festivais independentes: Macaco Bong, Hurtmold e DJ Maluquinho são alguns que me recordo agora.
As bandas que mais admiro desde sempre são: The Beatles, The Wailers, Devo, Os Mutantes, Novos Baianos e Acabou La Tequila.

C - Como você compararia o trabalho no “Cê” e o trabalho no “zii e zie”?

M - Acho que os dois discos são felizmente parecidos por terem conseguido chegar nas idéias e conceitos iniciais propostos. Cê no tratamento de banda dado às composições, que tendiam mais pro rock, e Zii e Zie no tratamento da mesma banda dado aos sambas.
O que acho que mudou, é que pelo fato de termos ido pra estrada e feito zilhões de shows, houve um amadurecimento no entendimento musical individual e por conseguinte no todo. No processo de feitura do Zii e Zie, cada um de nós, já sabia mais ou menos o que tinha que fazer para se chegar no resultado. No Cê a gente simplesmente ia chegando.
Isso faz com que eu acabe concordando com a turma roqueira da Bahia quando eles dizem que sentem que Zii e Zie possui uma unidade maior. É uma unidade maior - e isso não quer dizer que em Cê era pouca - na forma da banda pensar e tocar .

ENTREVISTA COM RICARDO DIAS GOMES:

C - Que discos e que artistas tiveram mais importância em sua formação musical?

R - No meu interesse por música sempre busquei uma abrangência de estilos e épocas. Mas de fato por alguns discos eu me apaixonei profundamente. Eles me desafiaram, a cada audição (muitas e muitas), me contaram segredos novos e arrebatadores, de maneira que devo ter buscado ser um pouco eles em toda minha trajetória. Aqui vai o nome do disco seguido pelo artista.

Pureguava - Ween
Buy - Contortions
Funkify your Life: The Meters Anthology - The Meters
Axé - Candeia
Portrait in Jazz - Bill Evans
Miles Smiles - Miles Davis
Duty now for the future - Devo
The Stooges - The Stooges
Axis: Bold as Love - The Jimi Hendrix Experience
Sonatas opus 13 e 14 de beethoven
Ahmad Jamal at the Pershing: But Not for Me - Ahmad Jamal
First Issue - Public Image Ltd.

É interessante que enquanto faço a lista reparo que todos os discos eu descobri na minha
adolescência e têm um gostinho de sonho. Há vários outros discos marcantes mas esses
da adolescência (uns 10 a 15 anos atrás) de fato foram cruciais na construção da minha personalidade
musical e aquilo que busquei tocando e pensando música.

C - O que significa o rock para você?

R - Rock deve ser um monte de coisas pra outras pessoas. Mas pra mim rock, puramente falando, se associa a um sentimento de visceralidade. Se faz no trabalho de assumir e expressar um íntimo impulso agressivo comum a civilização. Rock é um pouco histérico. Não tem a ver com racionalização. É um não apego. Um não narcisismo. É um gesto pouco elaborado. Por isso é mais rítmico e timbrístico e menos harmônico e melódico. Simplicidade (menos algorítmico) que implica em profundidade. Além disso tudo, rock é proveniente da língua inglesa, ou seja, proparoxítona.

C - O que significa o samba?

R - Samba é do Brasil. Vem da nossa fala. Possui um certo ostinato de raízes africanas, mântrico e lúdico. Emocionante. Diferente do Rock, possui um pouco mais de formalização. Então, pra fazer samba tem que fazer Poesia. Não basta dizer, tem que dançar

C - Quais os instrumentistas que você mais admira (em jazz, samba, rock)?

R - Não sou muito admirador de instrumentistas puramente.  Mas admiro muito quando um artista desenvolve uma maneira única de utilizar seu instrumento para se expressar artisticamente. Acontece desses sujeitos terem suas maneiras de tocar (técnica) sistematizadas mas isso não garante que ninguém que “copie” aqueles gestos desenvolvera uma maneira singular de tocar.
Bernard Edwards
Lennie Tristano
Les Paul
Mestre Vieira
Richard David James

C - Você participa de mais de uma banda. Como vê a cena carioca?

R - O Rio tem uma diversidade de bandas muito grande. Mas tem sofrido de um problema sistemático:
Preguiça. Em outras cidade do Brasil, principalmente em São Paulo, quando vou tocar com “Do Amor” ou
“Brasov” vejo que o público se forma sempre com pessoas curiosas afim de descobrir algo novo. No Rio
tenho a impressão da galera estar sempre a procura do Programa, da night, da bombação. Claro que em
Sampa ou em Brasília também tem isso. Mas tem também o público interessado. O Rio tem poucas casas de pequeno e médio porte pra tocar porque os programas que “dão certo” já são sabidos e ninguém quer arriscar algo novo. Salvo o fenômeno de música brasileira na Lapa que de fato é muito positivo mas não é suficiente para abranger toda complexidade de bandas que acabam tocando muito mais fora do Rio. Em várias capitais não há muitos lugares pra tocar também mas têm os maravilhosos festivais (não só em capitais) que é o sonho de qualquer banda. Esse é um fenômeno em desenvolvimento. Os festivais ainda têm o que melhorar em estrutura e organização mas é feito por gente séria e por público interessado. O que acaba criando uma demanda de shows fora do festival. Sem falar nos ricos encontros entre bandas de cantos diferentes do país. No Rio se depende muito da mídia para tornar um projeto viável pois a mobilização das pessoas interessadas em fomentar
a cena musical não é auto-sustentável, ainda. Sem falar num problema mais geral do país que é a situação vergonhosa do transporte público. Fica difícil perambular pelos interiores em ônibus fedorentos ou pelas estradas entupidas de cratera.

C - E a cena musical no mundo, como você vê?

R - Vejo com interesse que Estados Unidos e Europa estão super recheados de festivais o ano inteiro com bandas de todos os cantos do mundo. Há também casas de shows muito organizadas que as pessoas vão regularmente. Na tour do Cê em 2007 tive a oportunidade de sair muito para conhecer os lugares. Por exemplo uma festa reggae em Brixton em Londres ou o maravilhoso show do Pylon numa lugarzinho charmoso underground em Chapel Hill. Também vi shows ruins em outros lugares mas é impressionante a dignidade da “cena”. O público paga pra ver o show e as casas e as bandas são pagos pelo trabalho suficientemente para viverem fazendo isso.

C - Quais as bandas de que você mais gosta das surgidas mais recentemente (no mundo, incluíndo o Brasil)? Quais as que você mais admira desde sempre?

R - Vou citar alguns nomes de bandas que admiro recentemente surgidas no mundo misturadas com
outras mais antigas que ainda produzem discos.

Number, Macaco Bong, Natalie Portman’s Shaved Head, Cérebro Eletrônico, Sonic Youth, La Pupunha, Imbécile, Zumbi do Mato, Fanfare Ciocarlia, Rubinho Jacobina, Lou Reed, Siba e a Fuloresta, Kevin Ayers, Jupiter Maçã

C - Como você compararia o trabalho no “Cê” com o trabalho no “zii e zie”?

R - Em Zii e Zie nós fomos musicalmente um pouco mais ambiciosos que no Cê. O transamba
foi levado ao extremo.  Cê é o retrato de quando inventamos um jeito de fazer os arranjos baseados
nas idéias individuais frente a composição minimalista da banda. Zii e Zie se utiliza desse método,
que continuou se desenvolvendo nos shows e aplica mais claramente ao samba. Em Cê não havia
um objetivo estilístico tão definido. Zii e Zie é um disco de samba na medida em que o reinterpreta.
Está vivo. É disco de rock pois pega emprestado das bandas de rock um pouco da maneira com que
seus integrantes interagem. Assim como o Cê, é um pouco erudito quando se vê que há um forte
contraponto entre frases rítmicas e melódicas bem definidas.

RELEASE:

Um passo a dar com a banda do “Cê” (hoje bandaCê) e a lembrança permanente daquele disco de Clementina com Carlos Cachaça. “Incompatibilidade de gênios” e “Ingenuidade” estão em “zii e zie” porque são as faixas núcleo daquele disco, as que ficaram sempre acesas na memória. Não tenho um exemplar do disco de Celementina comigo. Talvez um vinil tenha ficado na casa de Dedé e hoje Moreno o achasse. Mas nem perguntei a ele. Num dos primeiros ensaios do Obra em Progresso, aquele em que Jaquinho foi o convidado, quis ensaiar “Incompatibilidade” e comentei com Pedro, Ricardo e Marcelo que na minha lembrança Clementina cantava em, digamos, dó maior, em vez do lá menor do João Bosco. Tinha na memória uma harmonia mais convencional quando ouvi a gravação desse samba com o autor pela primeira vez: a que tinha ouvido antes com Clementina. Achei que João Bosco tinha feito uma rearmonização e desejei voltar ao jeito que está no disco dela. Mas não estava certo de que minha lembrança não fosse uma ilusão. Jaquinho então disse: “por que você não faz em dó maior, se é isso que você está sentindo?”. Tentei achar a gravação de Clementina ali na hora (Moreno não ia aos ensaios), na internet, mas não achei. Achei uma exuberante e espetacular de João Bosco ao vivo no YouTube. Em lá menor, claro. Me pergunto se há muita coisa melhor do que aquilo no mundo. Mas minha idéia era totalmente oposta à daquele tratamento jazzístico moderno e com um suíngue de samba tão profundamente sentido por todos os músicos que chega a doer. Voltei para a sala de ensaio com vontade de talvez nem cantar a música. E com a certeza de que, se o fizesse, seria em lá menor: o dó maior seria bonito numa versão ingênua que quisesse ser o que Clementina soava pra mim. Na versão simplificada mas nada ingênua que eu imaginava, o centro tonal em lá menor - e os acordes tensos ao seu redor - era o que se exigia. A batida monótona tinha de o ser tanto quanto a de “Perdeu”, embora um tanto diferente: partindo da idéia básica da batida de Bosco. Experimentamos. E a canção entrou não só no show seguinte como está no disco. Me demoro contando sobre a entrada de “Incompatibilidade de gênios” (e algo sobre a de “Ingenuidade”) em “zii e zie” porque acho que isso joga luz sobre todo o sentido do novo disco. Conhecendo o que eu sugeri para “Perdeu” (e o que, juntos, conseguimos com esse transamba), os 3 caras da banda intuíam o que deveria estar em minha cabeça como tratamento para “Incompatibilidade”. Mas as mudanças por que o projeto de arranjo passou em minha mente eles não acompanharam. Voltei do computador decidido a incluir a música no disco e dizendo que a versão de João era humilhante mas que a gente faria um “transamba”, enquanto ele fazia “samberklee”. A piada era boa e fez rir. Não dá para competir: nossa versão apenas mostra uma abordagem diferente, que talvez suscite outras interpretações desse samba obra-prima. Isso diz muito do que fazemos, neste disco, com o samba em geral.

De “Diferentemete” (a mais velha das canções do CD) a “Lapa” (a mais nova), todas as composições nasceram comigo usando batidas de samba no meu violão - e buscando frases melódicas que evocassem a tradição do gênero. As únicas exceções talvez sejam “Por quem?” e “Sem cais”. Digo “talvez” porque para “Por quem?” sempre imaginei uma bateria dobrando uma transbossanova sobre o ternário às avessas do meu violão - e a balada de “Sem cais” já veio à mente de Pedro com muito samba dentro. Pode ser que alguém ache difícil reencontrar isso em “Menina da Ria” ou mesmo em “Lobão tem razão”. Mas eu digo que, embora em “A cor amarela” haja explícitas palmas de samba-de-roda, há mais samba na base daquelas duas canções (e em “Tarado ni Você”) do que no axé light da menina preta. Mantive as minhas batidas de violão do momento da composição em todas as gravações. Sugeri relações de contraste ou de distorção entre elas e a atividade dos outros instrumentistas. Chegamos a coisas muito bonitas e, mesmo para nós, intrigantes.

“zii e zie” é um disco feito com a bandaCê, concebido para ela. Ela tinha sido concebida para fazer o “Cê”. Por isso há mais unidade na partida do “Cê” do que na chegada, ao passo que há mais unidade na chegada do que na partida do “zii e zie”. Para nós quatro foi custoso reconhecer essa verdade (que pareceu óbvia a ouvintes não envolvidos na feitura). “Cê” foi concebido para criar uma banda. Mas foi um disco de letras muito pessoais minhas. Eu olhava para meu entorno próximo. Em “zii e zie”, as letras olham para mais longe. Atém-se majoritariamente ao Rio, mas aí vai a lugares variados: da favela ao Leblon, da Lapa à praia; de Chico Alves a Los Hermanos; de anônimos típicos a celebridades atípicas, como Kassin, a combinações inusitadas de personalidades cariocas, como Guinga e Pedro Sá. Mas as letras olham para mais longe de mim também: Guantánamo, grutas do Afeganistão, Washington. Voltam os nomes próprios e o tom de comentário dos signos dos tempos que sempre fizeram presença em meu repertório.

Tudo contribuiu para que este viesse a ser um disco mais de banda do que o anterior. Moreno e Daniel Carvalho ficaram mais felizes com o material sonoro que produzíamos. E nós nos sentíamos ainda mais relaxados no diálogo com eles dentro do estúdio. Pedro foi mais um produtor que dirige a feitura da música. Moreno, mais um produtor que dirige a feitura do som. Daniel era responsável pela técnica de captação. Moreno tem um ouvido muito fino para gravação, mixagem e masterização. Ele ilumina os técnicos. E o tratamento sonoro que ele e Daniel trazem ilumina a música.

“zii e zie” é um disco muito claro e denso, nascido num ano de chuvas no Rio, um ano de nuvens pesadas e escuras, sem metáfora. É um disco que saúda a era Fernando Henrique/Lula e fala de ambições de ascensão do Brasil no cenário mundial num tom de tristeza íntima mitigada. Entro na velhice. Pedro e Moreno estão no auge da idade adulta. Marcelo e Ricardo chegam a ela. Somos pessoas de gerações diferentes partilhando interesses muiscais e humanos semelhantes. E com assustadas expectativas de futuro soando em nossas cordas metálicas, plásticas, mucosas.

Caetano Veloso.

P.S.: Soube por Francisco Bosco que João, pai dele, acaba de gravar “Ingenuidade” também. Eu gravei sem nem reouvir o disco de Clementina: apenas a lembrança do que julguei ter ouvido. Gravei com erros (um deles um tanto sério) na letra. Ouçam a gravação de João quando sair, para correção. Ou voltem, se acharem, à de Clementina (simplesmente celestial). É um modo de mostrarmos respeito a esse extrapordinário sambista de nome extraordinário: Serafim Adriano (o anjo imperador, como Francisco e eu dissemos em uníssono ontem na Cinemathèque, depois do show de Jonas Sá).

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PAPO COM PEDRO
4/04/2009 9:14 pm

C – Mostrando “Zii e Zie” a andré t, em Salvador,…

P – Cê mostrou a ele?

C – Mostrei.

P – Que legal.

C - …ele estava conversando conosco muito relaxado, rindo etc. Quando botei o disco ele ficou sério e calado ouvindo. Permaneceu sério quando acabou de ouvir. Perguntei se não tinha gostado. Ele disse logo que esse disco era melhor do que o “Cê”. Eu ri e perguntei se isso era bom ou ruim. Ele disse: “o ‘Cê’ eu só ouvi até a metade”…

P – Caramba!

C – Como é que você sente “Zii e Zie” em relação a “Cê”?

P – São muito diferentes. Quando eu estava fazendo o “Zii e zie”, eu achava que ele é melhor. Mas outro dia alguém pôs alguma coisa do “Cê” e eu achei o “Cê” do caralho. Então ficou mais difícil. Agora, tem uma coisa assim: o trabalho de Marcelo e Ricardo amadureceu muito e isso dá uma maturidade à banda, à gente tocando, que aparece no “Zii e Zie”.

C – Eu vejo tudo o que houve de desenvolvimento, mas acho o “Cê” mais conciso. Você sabe que não estava só o andré t: tinha uma turma do rock de Salvador. Tava o Glauber Guimarães, o Fábio Cascadura, estava também o baterista do Cascadura, era uma turma assim. Numa coisa eles concordavam: achavam que esse disco tem muito mais unidade do que o “Cê”…

P – Ah, e’? Engraçado.

C – …o que pra mim é muito surpreendente…

P – Mas ao mesmo tempo isso quer dizer alguma coisa.

C – É. Todos não podiam se enganar da mesma maneira.

P – E é o pessoal do rock. Mas é engraçado. Porque eu ouço o “Cê” como muito mais conciso no conceito.

C – É. Ele se ateve ao que ele é. Quase não tem nuances pra fora. Mesmo “Musa híbrida” não vai muito longe. E eu lembro que muito dessa concisão se deveu a você ter me chamado a atenção para o disco dos Pixies na BBC de Londres.

P – “The BBC Sessions”.

C – Que é uma coisa incrível. Lembro de você falar que é João Gilberto – e é. E o “Cê” sempre me pareceu ser fiel a isso. A primeira faixa ser “Outro”, tão concentrada e original, com uma linha melódica radical, em três mas com a melodia em relação estranha com esse três, e a bateria dobrada em cima, tocando reto e rápido. E essa peteca não cai ao longo do disco. Eu não vejo isso no “zii e zie”. Eu vejo que o “zii e zie” tem mais densidade no som da banda mas não tem a mesma unidade do “Cê”. Eu disse isso a eles e eles até ficaram um tanto surpresos. E essa redução ao mínimo do “Cê” eu atribuo muito àquele disco do Pixies. Lembro que fiquei tão maravilhado que fui ouvir os discos de carreira do Pixies, que são bonitos mas nenhum é como aquele.

P – Não. Nenhum.

C – Nenhum é realmente tão bom. Pensando em tudo isso, eu queria te perguntar sobre uma conversa que nós tivemos sobre Iggy Pop, que eu tinha visto aqui no Canecão e que tinha achado bacana, que ele velho no palco fazendo aquelas coisas resultava melhor do que Mick Jagger nesse filme novo sobre os Rolling Stones. Você concordou e, quando eu disse que na época em que eram jovens, Iggy Pop não chegava aos pés de Mick Jagger, você fez uma cara de quem diz “sei não…” e falou do quanto Iggy Pop e Stooges são importantes pra você. Queria que você falasse disso.

P – Eu acho que o Stooges é uma banda pedra-bruta. É meio tipo um Jorge Ben do rock’n’roll. Eu acho que é seminal aquilo, é muito verdadeiro e muito justo. E o Iggy Pop, ele é aquilo ali. Ele não poderia ser outra coisa. Ele não é falso. Ele não é hipócrita, artisticamente falando. Eu acho que isso é uma coisa do rock’n’roll. É o que se diz do rock’n’roll. É também o que a gente curte no rock’n’roll. É dionisíaco. É bruto. E aquilo ali foi dar no punk rock. Foi a senha pro punk rock. Foi uma linha muito importante que eles deram. Por exemplo, Velvet Underground, acho que está nessa linha também.

C – Mas você acha Velvet Underground tão coesamente autêntico no sentimento quanto o Stooges?

P – Não, eu acho que não.

C – Eu também não acho. Velvet é divino, mas às vezes uma coisa é divina sem ser… Entendo quando você diz que Stooges é como Jorge Ben, mas Velvet Underground não é como Jorge Ben.

P -  Não. Mas o Velvet, logo depois do comecinho já é influenciado pelo Stooges. O Stooges foi uma banda muito influente.

C – Engraçado, você diz que Stooges foi a senha pro punk, mas eles também foram para David Bowie, que não era punk.

P – Ele ficou encantado com Iggy Pop. Ele passou ao largo do punk – e os punks até se opunham a ele em certa medida, mas ele ficou encantado com Iggy Pop e produziu um disco do Iggy Pop.

C – É. Ele produziu Lou Reed também.

P – Produziu o “Transformer” que é um grande disco.

C – É um espetáculo. Eu acho que o melhor trabalho de David Bowie foi produzir o Lou Reed.

P – Ha-ha-ha-ha-ha!

C – Ha-ha-ha-ha-ha! Mas eu gosto mais de David Bowie hoje do que gostava antes.

P – Eu acho que David Bowie se junta sempre com as pessoas certas. Ele sabe com quem se juntar.

C – É, você falou isso naquela nossa conversa. Uma coisa que apareceu ali foi que eu contei que Ralph Mace queria que eu trabalhasse com David Bowie, ele me levou para assistir ao show dele na Round House, dizendo que eu ia me identificar muito com Bowie e ele ressaltava que eu adoraria Angela e que ela me adoraria também. Eu nem cheguei a conhecê-la pois eu não gostei do show de David Bowie e, embora fosse apresentado a ele por Mace no camarim, disse a Mace que não tinha vontade de trabalhar com aquele cara. Mace queria que eu fosse passar um tempo na casa que Angela e David tinham nos arredores de Londres. Eu não quis. Eu estava te contando que quando li na imprensa brasileira que Angela tinha dado entrevista à TV Americana dizendo que tinha pego Bowie e Mick Jagger na cama – eu pensei que se tratasse de uma ex-mulher ressentida querendo detonar o ex-marido – e  quando eu te disse que eu tinha escapado de boa, você me cortou dizendo que tinha lido em “Mate-me por favor” uma entrevista de Angela em que ela parece não só ser mais inteligente do que Bowie como não ter nenhum ranço em relação à riqueza da vida sexual que eles levavam.

P – É. Angela aparece muito bem no livro. Bowie diz coisas muito legais também, mas ela me pareceu superior a ele. Acho até que coisas como Iggy Pop e Lou Reed podem ter sido dicas dela. Ela sabe das coisas.

C – Uma coisa engraçada é que o disco dos Pixies, essa visão que você tem dos Stooges, a comparação que você fez de Pixies com João Gilberto, o próprio Nevermind do Nirvana, tudo isso eu poria dentro dessa categoria de coisas que têm uma tendência minimalista. Não de semelhança com música minimalista – que isso o Police tem mais e Police é uma coisa totalmente diferente disso. Police aliás é um a que talvez eu volte porque é uma banda de que eu gostei muito quando saiu Synchronicity, acho um disco estupendamente bonito…

P – Eu acho muito bonito também.

C – Foi um dos discos de rock que mais me marcaram, desde os anos 60. Eu gosto muito, por exemplo, do disco dos Sex Pistols. Mais do que do The Clash. Eu até vi um show do The Clash em Paris. Gostei. Mas eles não tinham aquela coisa coesa dos Pistols. O som deles vai para muitos lados, tem muita coisa. Estranhamente os Pistols, que eram uma coisa meio inventada – e que tinham aquele baixista Sid Vicious que meio não tocava – fizeram um disco como aquele. Aquilo é uma verdade só. Já os discos do Clash, sei lá, tem sempre alguma coisa que sobra…

P – Album triplo, né? “Sandinista”.

C – “Sandinista”. Eu conheço gente que gosta de rock, conhece muito rock, mas não tem essa necessidade de coisas ultra-concentradas como essas de que a gente falou. Gente bacana e boa no que faz. Eu não sou como João Gilberto, nem como Jorge Ben nem como Iggy Pop. Eu sou quase um comentarista. Poderia nem estar fazendo música. Nada é necessário em mim. É tudo meio contigente, meio diletante. Tem gente que não gosta de mim e não sabe por que. Eu poderia explicar a essas pessoas que elas têm toda razão em não gostar se elas têm necessidade de algo assim. Eu mesmo não gosto muito. Eu gosto quando eu vejo um artista como Tim Maia: a pessoa tem que ser aquilo.

P – Eu gosto também. Mas eu também gosto das pessoas que têm senso crítico. Eu admiro muito as pessoas que têm senso crítico. Valorizo.

C – Eu não me desvalorizo.

P – Eu sei o que você está falando.

C – Não dá é pra eu curtir muito. Em primeiro lugar porque sou eu e depois porque artistas assim como eu não me impressionam muito. Me impressiona mais gente como Jorge Ben ou João Gilberto. E de todos os discos de rock que saíram depois dos Beatles o que eu mais gosto é o do John Lennon, o primeiro Plastic Ono Band.

P – Eu amo esse disco também. E seu disco que saiu logo depois desse do Lennon – se bobear foi feito na mesma época – é um disco assim, que é o “Transa”. Não é à toa que a gente tocava duas músicas dele no show do “Cê”. Eu adoro a gravação de “Maria Bethânia”, aquele baixo!

C – Vamos tocar mais duas do “Transa” no “Zii e Zie”. Mantendo o tema das coisas nucleares, unitárias – e das personalidades nucleares – como você vê a criação de música na sua geração?

P – Eu sou otimista. O que eu vejo mais são cenas. Não movimentos, mas cenas. Tem umas cenas no Rio, tem em São Paulo, tem em Recife, tem em Salvador. O Pedro Alexandre Sanchez fala que a turma do Instituto tem muitas ramifações. Essa banda que eu produzi agora na Bahia, o Ronei Jorge e os Ladrões de Bicicleta, eu sou suspeito pra falar porque eu sou o produtor, mas eu achei muito bacana. E tem interrelações entre os grupos e as pessoas, não é só que as pessoas se conhecem, mas que elas têm participação efetiva musical no trabalho umas das outras.  Tem um projeto em Salvador chamado Baiana System, de um cara chamado Beto. É um projeto experimental com guitarra baiana. É muito interessante. Tem um de Belém que eu gosto muito, um guitarrista chamado Pio Lobato, que produziu os Mestres da Guitarrada, que tem um lance misturando música eletrônica com carimbó, músicas do norte, que eu gosto muito também. O próprio Do Amor, eu curto muito o Do Amor.

C – Quero ainda perguntar sobre guitarra. Guitarra no Brasil e no mundo, antes e agora. Onde você se sente como guitarrista?

P – A guitarra eu acho que ainda é um instrumento mítico. Todo mundo quer ser guitarrista. Ha-ha-ha-ha. Não é isso. Mas a guitarra é um instrumento forte ainda hoje. Mesmo com música eletrônica, a guitarra ainda é um símbolo. Ela tem um negócio. Fora isso, pra mim é muito natural tocar guitarra. Não sei, tem muitos guitarristas interessantes hoje. Acho que tem uma onda, não sei, acho que se abriu muito o significado do que é tocar guitarra. Antigamente tinha sempre “o melhor guitarrista do mundo” do momento. Tipo Jimmi Hendrix, Jeff Beck, Eric Clapton, Jimmy Page. Depois Van Halen, Steve Vai, todos esses guitarrista hipervirtuosos, teve um momento em que um deles era o melhor do mundo. Hoje não tem isso.  Antes era esse virtuosismo absurdo. Depois do grunge, que a guitarra voltou a ser uma coisa mais bruta, tocar guitarra passou a ser uma coisa muito ampla, ser guitarrista hoje em dia pode significar muita coisa. Você não tem de ser necessariamente um guitar hero, você tem milhões de possibilidades. De som, de ondas, de tudo.

C – E você próprio, onde você acha que se situa como guitarrista?

P – Como guitarrista, não sei, eu sou… não sei.

C – Eu sei que é chato perguntar isso à própria pessoa.

P – Não. Eu sou, acho que eu sou virtuoso, mas não sou tão virtuoso quanto um cara muito virtuoso. Acho que eu talvez não seja tão virtuoso quanto o Davi, por exemplo. Não sou um cara que sabe fazer uma coisa só na guitarra, como o cara dos Stooges, por exemplo. Ele faz pouquíssima coisa na guitarra – mas também ninguém faz como ele. Também não sou só um guitarrista solo, como o Catatau: eu adoro fazer base também. Eu acho que sou amplo. Eu toco violão, toco baixo. Acho que talvez eu seja um pouquinho de tudo o que eu gosto.

C – E emocional e esteticamente, como você se identifica? Se você é mais blues, se é mais cool – e quais os guitarristas que mais te inspiram no seu gosto, você pode admirar mais um mas gostar mais de outro…

P – Eu posso começar respondendo isso dizendo quais as minhas duas inflências no instrumento e na música, que foram Jimi Hendrix e João Gilberto. Foram os dois caras que me formaram. Na pré-adolescência eu fiquei tomado pelos discos deles. Abriram minha cabeça. Eu pensei música e aprendi a ouvir música ouvindo essas duas pessoas. Como uma coisa básica pra mim. Na verdade são dois caras muito diferentes, são dois caras extremamente diferentes. O Jimi Hendrix é um cara muito mais explosivo, ele é distorcido, saturado, Jimi Hendrix é saturado, ele é saturação, ele é descontrole, é dionisíaco, ele até se perde na coisa dele mesmo. E ele só faz música dele, ele quase não toca música de outras pessoas. João Gilberto é o contrario. É o cara introvertido, que calcula, que pensa aquilo, as passagens, os acordes, a harmonia, João Gilberto é harmonia. Jimi Hendrix é blue, que quase não é harmonia, né?, é outra coisa.. Agora os dois têm uma coisa, têm um feeling, têm um banzo, têm um negócio, os dois têm um suíngue, um molejo, um mambo, uma magia que nos dois me leva para a música.

C – Magia é a palavra que mais define o que eu estava perguntando.

P – É.

C – Agora uma outra coisa que eu ia falar com você é que no livro do Ben Ratliff sobre John Coltrane, entre os músicos que foram influenciados por John Coltrane ele põe o Iggy Pop, e põe uma declaração muito bonita do Iggy Pop sobre Coltrane.

P – Eu entendo isso pelo caminho do Coltrane ser um cara que não podia ser outra coisa, tinha de ser saxofonista, com aquele som, com aquele jeito. O Miles já é outra onda. O Miles é um comentarista.

C – Eu me identifico muito com Miles Davis. Admiro muito ele mas acho ele assim.

P – É. Eu me identifico com as duas coisas. Sou geminiano, não sei…

C – Miles Davis também era geminiano. João Gilberto também.

P – João Gilberto também.

C – Você falou em Hendrix e João, que são duas pessoas que apareceram em épocas diferentes: João no final dos anos 50 e Hendrix no final dos 60. Além de João Gilberto, o que é que foi mais forte pra você na música brasileira e o que é que permaneceu mais?

P – Em primeiro lugar meu pai tocando violão em casa. Eu ficava muito ligado no som do violão e da voz dele. Gostava de ouvir aquilo. Ele não era virtuoso mas ele compunha e tocava muito e isso ficou num lugar muito íntimo meu. Agora, de música brasileira, logo depois do João Gilberto veio o disco “Cantar” da Gal. O disco “Cantar” também abriu muito. Pra vários lados: pro Donato, pro Gil, pro Jorge Ben (que o Gil tá tocando como Jorge Ben naquela música “Barato total”). Eu tinha 10 anos, mais ou menos, e eu achava que o “Cantar” tinha a ver com João Gilberto. Eu não sabia por que, mas achava.

C – Hoje você já sabe.

P – Mas também aquilo pra mim era música brasileira. E música brasileira tem uma outra coisa. Além de eu entender a letra, tinha uma coisa que eu não encontrava no Jimi Hendrix nem no Police. Eu estava ouvindo Jimi Hendrix, voltava pra o “Cantar” ou pra o João Gilberto, aquilo me dava um relaxamento. Tem uma coisa que eu senti e que até hoje eu sinto: a música brasileira parece que está mais perto da música, num ponto. Um ponto menos virtuosístico, parece que ela não tem muito filtro, que ela está ali. É uma coisa zen, eu não sei explicar bem, mas é uma coisa que eu sempre sinto em relação à música brasileira.

C – Eu também sinto. Mas a gente é um pouquinho suspeito porque a gente é brasileiro.

P – Não, não. Eu estou falando isso mas eu não me basto nisso.

C – O que você está dizendo implica outra coisa, que quem falou não foi um brasileiro, foi um americano.

P – Melvin Gibbs. Um contrabaixista que trabalha com Arto Lindsay e que é um gênio.

C – Eu lembro que ele disse a você que os músicos americanos estão preocupados com a proficiência, enquanto os brasileiros estão preocupados diretamente com a música.

P – Ele não falava do músico. Era mais do ouvinte. O ouvinte americano dá valor à proficiência, o brasileiro dá valor à música. O americano exige de quem toca que toque bem, que apresente seu trabalho; o brasileiro vai pela música.

C – Essa observação é bonita. Mas ela me faz pensar porque tem uma coisa…

P – Mas ele não estava dizendo isso como se fosse uma coisa necessariamente positiva do Brasil.

C – Quando alguém quer botar seu trabalho para competir com os outros nos Estados Unidos, ele já parte de um nível alto de exigência na fatura que o brasileiro não se impõe. Isso pode ser reflexo das responsabilidades da sociedade americana, que em tudo se esforçou para realizar o melhor  que possa. Há uma coisa bonita nessa responsabilidade americana. Mas isso também pode distanciar daquilo que se quer atingir através do apuro técnico, que é o espírito íntimo da música. O que eu vou dizer pode, no fim, confirmar a observação de Melvin Gibbs, mas os americanos desenvolveram também um desrespeito à exigência da fatura muito mais do que nós. Quando eles já estavam gravando Bob Dylan, os Stooges etc., aqui ainda pedíamos desculpas para gravar Nelson Cavaquinho. E se exigia uma aparência de qualidade no acabamento. Digo porque quando lancei o “Muito” a crítica ficou irada, dizendo que era feito no fundo do quintal – e demonstrando deslumbramento com discos que parecessem produzidos. Ou seja, os americanos têm uma coragem de desrespeitar a fatura muito maior do que a nossa. Bob Dylan gravava com a voz de Pato Donald, errava o tempo, quebrava os compassos. Eu aqui, nem me deixavam tocar violão em meus discos. Só depois que eu voltei de Londres. Os americanos parecem que estão dizendo: nós podemos fazer muito mais bem feito o mal feito do que vocês, do que qualquer um. É uma coisa engraçada porque parece com a questão da arte moderna. Você pede a uma pessoa: “desenha-me um carneiro” e pode ser que a pessoa saiba desenhar um carneirinho. Mas na arte contemporânea é capaz de a maioria dos artistas plásticos não saberem desenhar um carneiro. Mas você vê uma ilustração na New Yorker, com traço aparentemente ingênuo, tosco, mas de propósito, cê vê que aquilo é sofisticação. Enquanto aqui alguém tenta fazer um traço destro.

P -  Pô, você foi num ponto que aí é um esculacho total. Nesse ponto aí… Se for comparar isso com a música…

C – Tem isso com a música também. Não estou dizendo que isso é A realidade. Mas é um aspecto do qual a gente tem de ter consciência, senão a gente não tem lucidez sobre o que está fazendo ou sobre o que está ouvindo. Isso são as entranhas do poder imperial americano. Que nós vivemos.

P – Vivemos.

C – É uma realidade econômica, social, política, histórica, cultural. E estética. Se a gente não vir isso a gente não sabe como é que se passa o que está se passando conosco.

P – É. Lógico.

C – Às vezes pode ser doloroso mas é melhor assim do que você ficar enganado e ressentido.

P – Isso também é um diálogo interno do Brasil consigo mesmo. O Brasil tem um tanto de dificuldade de ter um diálogo consigo mesmo. Os Estados Unidos têm diálogo consigo mesmos: eles têm dificuldade de ter diálogo com os outros. Porque o negócio deles é com Deus, né? O negócio do povo puritano é direto com Deus.

C – Eles vivenciam um mito de eleição, de destino. Nós também temos algo assim: não pode haver nação sem um mito de si própria.

P – Você tem muitas intuições verdadeiras. Você é um visionário realista.

C – Você gosta mais de Caymmi ou de Noel Rosa?

P – Gosto mais de Caymmi.

C – Se vê que você é aquele que foi formado por João Gilberto, mesmo.

P – Embora eu ame a Vila Isabel, ache um bairro incrível. E Noel é aquilo. Mesmo. É tudo bem feitinho, bem acabadinho. Eu gosto de Noel. Mas é que eu tive muito mais contato com a obra do Caymmi do que com a obra do Noel. Eu não tive um contato visceral com a obra de Noel Rosa. Eu acho muito bonito mas foi um contato de museu. Já Dorival eu escuto os discos dele, escuto as versões todas que são feitas. Pra mim é uma coisa muito mais internalizada.

C – Você gosta de samba-jazz, daquilo que aconteceu no Beco das Garrafas…

P – Eu gosto. Gosto do Edison Machado, Luís Carlos Vinhas. Donato daquele período eu acho psicodélico, eu acho muito louco aquilo. Eu amo o Donato dessa época. Amo de paixão.

C – E Tamba Trio?

P – Eu gosto também. Eu acho maluco. Eu acho todo esse lance bem maluco.

C – E Zimbo?

P – É legal.

C – Elis com Zimbo?…

P – É legal, é bem legal. Eu não gosto do excesso de convenção.

C – Eu na época detestava. Hoje eu gosto. Mas também é como um negócio que é muito bem feito dentro de um gosto um tanto ingênuo.

P – Mas eu gosto do Edison Machado. Entendo quem não gosta, mas eu gosto muito. Prefiro Tutti Moreno. Mas gosto. Tutti se diz influenciado pelo Edison Machado mas eu me interesso muito mais pelo jeito dele tocar do que pelo do Edison. Luciano Perrone eu gosto muito também – que é diferente deles dois, é só tambor, bateria de tambores, que eu acho lindo.

C – Eu gostava muito de Edison mas confesso que eu gosto mais de Tutti também. Agora: Mutantes, rock dos 80, rock no Brasil, Rita Lee…

P – Rita é minha musa total. Amo Mutantes e amo o disco dela Tutti Frutti. É um desses discos que…

C – Mutantes anos 60 ou Mutantes progressivo?

P – 60 total. O progressivo é legal mas não me faz a cabeça. Tem muita masturbação. É uma vaidade musical que não me interessa na música de jeito nenhum. É um TIPO de vaidade musical que não me interessa.

C – Os grupos que os influenciaram, tipo Yes, você gosta deles?

P – Eu admiro. Acho que eles tocam pra caralho. De verdade.

C – Genesis, Yes ou Emerson Lake and Palmer? Digo isso porque eu achava esses 3 os mais difíceis de engolir. Hoje estou aprendendo a gostar.

P – É, são difíceis de engolir. Mas acho que desses 3 prefiro o Yes. Mas tem um grupo considerado progressivo que eu gosto mais que todos que é o Can, um grupo alemão.

C – Isso que eu ia te pergutar: esse grupos alemães… e os italianos, como Forneria… eu me lembro de ouvir.

P – É. Todos esses grupos…

C – Mas você não acha que Pink Floyd era diferente? Que foi antes e tinha um espírito diferente?

P – Acho. Eles eram psicodélicos.

C – E rock Brasil anos 80?

P – Rock anos 80, quando eu comecei a tocar, quando comecei a estudar violão é que essas bandas apareceram. Foi entre meus 10 e meus 13 anos. Eu gostava de ouvir Gangue 90 no radio. “Nosso louco amor” , eu achava essa música engraçada. Gostava da Blitz. Gostava muito do primeiro disco da Blitz. Até hoje eu gosto, eu acho. Se eu ouvir vou gostar. Mas, por exemplo, Paralamas eu demorei pra gostar.

C – Eu gostei quando saiu o “Passo do Lui”. Levei pra a Bahia, ficamos ouvindo o verão inteiro.

P – Muita gente gostou do “Passo do Lui”. Eu só comecei a gostar no “Selvagem”. Mas foi do caralho o show no Rock in Rio. Titãs eu sempre gostei. Quer dizer, eu não gostei de “Sonífera ilha”. Mas “Cabeça Dinossauro”  é genial. Agora, tem um disco que eu tava até falando com Kassin outro dia, que eu adoro, que é o ultimo disco com Arnaldo: “tudoaomesmotempoagora”. Eu adoro esse disco. Acho que eles chegaram numa maturidade musical que não tinha nos outros discos.

C – É, tem uma unidade!

P – E não soa como uma banda gringa. Tem uma originalidade. O que também me fez a cabeça, antes, foi Ultraje a Rigor, o primeiro disco. Eu adorava.

C – “Vamos invadir sua praia” é uma obra-prima. E o samba no Rio de Janeiro? Vamos sair da reserva indígena do rock e vamos para a reserva  indígena do samba.

P – É muito importante para mim, véio. Bem, sempre me fascinou a escola de samba, as baterias.

C – E Paulinho da Viola?

P – Paulinho da Viola foi uma coisa depois. Tinha dois sambas-enredo que eu adorava. O “Bumbupraticumbum” e “Mangueira é um canto de fé”. Meu pai me levava no Morro dos Prazeres, tinha um amigo que tocava e eu perguntava a ele “como é o samba, como é a batida?”,  e ele batucava com a mão, tocava pandeiro. Eu ficava fascinado. Já aos vinte anos, descobri o Fundo de Quintal, o Zeca Pagodinho. Eu adoro esses discos dos anos 80 de samba. ADORO esses discos. Têm um som! Acho bem gravado. Acho que foi a primeira vez que no Brasil foi gravada a percussão como a coisa principal. Você ouve os discos antigos, a percussão fica enterrada na base, um sonzinho. “Fala Mangueira”, é lindo esse disco, mas a percussão fica ali assim, escondidinha. E nesses discos dos anos 80 é percussão quase na frente da voz e é bem tirado o som do surdo, você escuta tudo.

C – Isso era um cara que era dos Cariocas até que fazia essas gravações. Eu acho. Luís Roberto. Depois passou a ser Rildo Hora. Mas antes de Rildo era ele.

P – Eu acho essas gravações dos anos 80 de samba mais bonitas do que as de agora. Tem uma gravação sua que eu amo: “Samba da cabeça”. É anterior a essas dos 80. Mas tem isso. A percussão na frente e o som da percussão não é um bolo. Acho que saiu numa coletânea japonesas que o Gavin lançou. Depois ele botou na caixa.

C – E Beth e Clara? Elas puxaram um pouco o cordão.

P – Puxaram sim. O disco da Beth, “Pé no chão” já tem o Fundo de Quintal, toda  a galera. É o máximo. Eu adoro esse disco da Beth Carvalho.

C – E agora tem umas moças que cantam samba.

P – É. Roberta Sá, Mariana Aydar e…

C – A própria Maria Rita.

P – Sim. Maria Rita. Eu acho ótimo essa leva de meninas. Mas eu gosto messsmo é da Mart’nália.

C – Porra. Ha-ha-ha-ha. Isso é uma humilhação, isso não é uma opinião. Ha-ha.

P – Foi mal, foi mal. Mas é que a Mart’nália é maravilhosa, sou fã incondicional. Ha-ha-ha. Acho que ela é tudo aquilo e mais um pouco.

C – Eu estava falando de umas meninas, não estava falando de “o samba em pessoa”.

P – Eu tava falando com a Inti sobre chegar tarde em show, acho que a gente estava atrasado pra ver o show do Lenine, aí ela disse: “depois que um dos melhores shows que eu vi na minha vida foi o bis da Mart’nalia, eu agora chego qualquer hora em qualquer show porque tudo pode acontecer”. Foram 40 minutos de bis da Martnália e foi o melhor show que nós vimos em não sei quanto tempo.

C – Então vamos ouvir o Rodrigo Campos. “São Mateus” é um belo título.

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CAPA
28/03/2009 9:02 pm

     PS: a lista/ordem das faixas/canções ainda não é definitiva/correta

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DÉJA VU
24/03/2009 5:59 am

O Rio era a capital federal. Era a cidade de todos os brasileiros. Luiz Fernando Veríssimo escreveu que, quando menino, vinha ao Rio de avião e, ao fazer escala em São Paulo, se perguntava: que cidade estranha é essa? A revista O Cruzeiro, os filmes da Atlântida, a Rádio Nacional – tudo confirmava a centralidade do Rio. Carlinhos, filho de Edith do Prato e meu irmão de leite, repetia que conhecer o Rio era seu maior sonho. Tínhamos intimidade com os nomes dos acidentes geográficos e dos endereços do Rio. As marchinhas e sambas de carnaval eram todos cariocas. As celebridades pop e as eminências intelectuais viviam no Rio. As gírias vinham de lá. O samba, que aprendêramos que “nasceu na Bahia”, tinha se tornado nacional ao virar carioca. Nossos sotaques eram caricaturados pelos humoristas do Rio – e nós ouvíamos o modo de falar dos cariocas como um modelo para locutores e cantores, sem que o ressentimento fosse maior do que a admiração. Portanto, chegar ao Rio não era chegar a um lugar estranho, mas ao centro do nosso próprio lugar. Tenho 66 anos. Na minha infância e na minha mocidade era assim. Hoje, não apenas admito que isso mudou: orgulho-me de ter contribuído ativa e conscientemente para apressar e aprofundar essa mudança.

São Paulo era às vezes citada como uma cidade que “não pode parar”. Houve um dobrado marcial do seu quarto centenário. E só. A primeira menção a um logradouro paulistano que ouvi foi a “Rua Augusta” de um samba de Juca Chaves. Chaves era um subproduto da bossa nova que fazia uma caricatura desta para veicular sátiras políticas. Eu gostava. Embora eu fosse – e seja – um joãogilbertiano radical (ou talvez por isso mesmo), essas saídas para versões algo paródicas de estilos pré-bossa e para comentários diretos de atualidades me excitavam. Eu encontrava algo disso em Billy Blanco – e esse gosto teve, mais tarde, papel fundamental na minha captação das virtudes de artistas tão antagônicos como Tom Zé e Chico Buarque. Ouvir de Juca “Toda tardinha quando a Rua Augusta eu desço/ Se não me esqueço/ Para matar minha saudade/ Vou passear lá no Hi-Fi onde se ouve um samba em alta fidelidade”, com o detalhe de que “o dono da loja, um tal baixinho/ Muito chatinho/ Só quer ouvir rock and roll”, me fascinava. Era toda uma vida que se abria diante de mim: uma vida brasileira, urbana e rica, da qual eu não tinha conhecimento. Se me falassem de ruas do Recife ou de Belém eu não teria a mesma reação. Havia canções sobre essas cidades. O Ver-o-Peso era parte da cultura urbana brasileira. E o carnaval do Recife era tão presente nas páginas de O Cruzeiro que, em 1960, ao conhecer o espetacular carnaval da Bahia, eu fiquei surpreso, já que este nunca era mencionado nas revistas do Rio. Se eu ouvisse coisas sobre a vida em Porto Alegre ou em Fortaleza, isso tampouco teria o efeito que a notícia sobre a Rua Augusta me causou: essas outras capitais (todas as outras capitais) eram ao mesmo tempo mais conhecidas e menos importantes do que São Paulo. Sabíamos que São Paulo era uma cidade grande –  talvez maior do que o Rio. Eu tinha a informação fria de que São Paulo produzia riquezas, tinha fábricas, muita gente trabalhando, muitos imigrantes nordestinos e estrangeiros. E procurava não pensar muito nisso.

Meu irmão Roberto e minha amiga Sônia Castro me surpreenderam: tendo ido ao Rio e a São Paulo, ambos gostaram muito mais desta do que daquela. Era raríssimo ouvir-se isso. Quando eu e Bethânia chegamos a São Paulo em 1965, de ônibus, na seqüência de sua carreira na peça “Opinião”, tivemos a impressão de que saíramos do Rio para uma cidade do interior. Não uma bonita e cheia de sobrados antigos como Santo Amaro, mas uma sem charme como Feira de Santana. O próprio ar nos parecia provinciano. A gente acreditava que ela era grande, mas não sentia que ela o fosse. As ruas não exibiam perspectivas parisienses, como o Rio, ou topografias pitorescas, como Salvador. As pessoas na rua pareciam ocupadas e desglamurizadas. O sotaque italianado entreouvido nos transportes coletivos nos fez crer que se tratava de estrangeiros. Os anúncios gigantes feitos de compensado na porta dos cinemas da Ipiranga, reproduzindo as caras dos atores em pinturas canhestras, nos pareciam a expressão mais gritante do mau gosto. A platéia do show se compunha em grande número de mulheres vestidas para a noite, com jóias, maquiagem e saltos altos: nada da turma cool do Rio, de jeans e cabelos longos lavados. E, finalmente, as pessoas com quem conversávamos mostravam inveja benigna do Rio, da Bahia, do Brasil brasileiro. Muitas vezes pareciam pedir desculpas por serem paulistas.

Foi Guilherme Araújo, um carioca, quem começou, em 1966, a dizer que São Paulo continha as potencialidades brasileiras. Tendo já vivido na Europa e usando a palavra “internacional” como elogio máximo a qualquer artista, Guilherme percebia que São Paulo nos abriria as portas da percepção do mundo, livrando-nos do provincianismo metropolitano do Rio. É difícil exagerar o quanto eu admirava Guilherme.

A partir de 1966, ele alugou apartamento na Paulista, ao lado da Gazeta. Simonal morava no bloco de trás, que dava para a rua São Carlos do Pinhal. Eu o achava talentosíssimo e muitas vezes estivemos juntos, em seu ap ou nos jardins de cimento do prédio, Simoninha bem pequeno iluminando os encontros. Comecei a tentar mudar minha disposição em relação à cidade. Em breve eu estava saindo com Toquinho e Chico, com grande felicidade. Mas Guilherme pedia uma adesão radical, que superasse o estágio Rio do Brasil. Toquinho era a paulistanidade em pessoa. Mas Chico representava à perfeição o amor dos paulistas doces pelo Brasil brasileiro – e este não parecia incluir Sampa.

Só mais tarde tomei contato com pessoas que olhavam para o Brasil com um jeito arrogante, como se fossem de uma grande cidade do mundo e tivessem que arrastar essa África às costas. Entendi que alguns queriam salvar o Brasil, outros, livrar-se dele. Passei a chamar isso (irresponsavelmente) de USP. Ainda chamo, com a mesma irresponsabilidade mas reconhecendo que é só para uso operacionalmente ainda eficaz. A história da USP está clara até no “Preto no Branco” de Skidmore. E tocante em “Tristes Trópicos”. Lembro de ler as páginas de Lévi-strauss sobre essa universidade para Zé Miguel ouvir e ficar na frente dele com os olhos cheios de lágrimas.

Já faz anos que acho Feira de Sanatana charmosa. Sua natureza de entroncamento no nó do Recôncavo com o Sertão; sua  prosperidade que resultou em elevação do nível intelectual de gerações novas (quando eu era menino, cidades como Santo Amaro e Cachoeira olhavam para Feira como se fossem professores e poetas olhando para um brutamontes); seu contingente de pessoas avisadas e civis. O paralelo com São Paulo sempre me voltou à mente. Hoje, com Feira liderando a vida acadêmica da região, acho que Santo Amaro, como o Rio, está com um ar de quem perdeu o bonde.

A Folha, a Veja, o Fasano, a Daslu, a Sala São Paulo, o Museu da Língua Portuguesa – tudo isso faz pensar em quanto Sampa é influente e interessante. O Oficina, Os Titãs, Os Racionais, a poesia concreta, o Hurtmold, o Nouvelle Cuisine, Céu, Tiê, Mariana Aidar, mil coisas fazem pensar que Sampa hoje é, como dizia John Lennon sobre Nova Iorque, “where it’s at”.

Mas o Rio é o Rio. Mesmo a Bahia, que pareceu a Stefan Zweig um viúva enlutada (mas altiva), nunca perdeu a majestade – e hoje, depois da fase de talento político de ACM (em que pese o intragável arcaísmo de sua truculência e o fato de até hoje eu não engolir que o aeroporto 2 de Julho tenha ganho o nome do filhe dele num piscar de olhos – enquanto o Tom Jobim demorou e teve de manter o nome antigo: o aeroporto de Salvador chamar-se Deputado Luís Eduardo Magalhães é uma homenagem ao livro “Polígono das Secas”, de Diogo Mainardi) – e do crescimento concomitante e congenial da indústria do carnaval, com sua música vulgar e energética, tão cheia de poesia bárbara e doçura profunda que mereceu o apelido de “axé music” – a Bahia  desenvolveu-se, modernizou-se, mostrou potência. Para o bem e para o mal (“Os Deuses da Aprovação”: o que é aquilo? Os adolescentes baianos perderam o senso de humor? Como é que aqueles professores de cursinho podem entrar outra vez em sala de aula e não ser saudados por estrondosas gargalhadas?), Salvador cresceu e enricou: há gente demais, engarrafamento, violência urbana. Mas há o Museu de Arte Moderna, o acervo arquitetônico do Pelourinho e adjacências, há o Parque de Pituaçu, há muita gente preta de carro novo bom. Há teatro. Há talento no teatro. Há Edgard Navarro e seu monumental “Superoutro” no cinema. Há provas de sobra não só de que a Bahia é a Bahia como de que as chances de lugares tão importantes recuperarem-se de fases depressivas são altas.

O índice de homicídios decresce em São Paulo e no Rio. Cresce em Salvador, em Santo Amaro, no Recife, nas cidades do interior do Mato Grosso. É preciso levar em conta o fato de que DECRESCE em Sampa e Rio. Talvez seja uma onda em relação à qual Bahia, Recife e cidades menores estejam apenas atrasadas.

Sou louco por hip-hop desde “Beat Street”, filme do início dos anos 80. Por causa dele compus “Língua”. Mas desde que vi garotos de moto com cara de zangados na Praça da Purificação, fazendo-a parecer-se muito com o Complexo do Alemão, tenho reação negativa imediata à política do rap. Em 1983 eu pensava que rap era a verdadeira música de protesto revolucionário: não era feita por intelectuais da classe média que se apiedavam dos favelados, mas por favelados. Hoje vejo que a moda da marra, o clima de bandidagem (mesmo que às vezes criticado na superfície) faz estrago e pode causar degenerescência em vez de libertação. Os Racionais permanecem como o grupo que fez “Sobrevivendo no inferno”, um dos mais importantes discos já feitos no Brasil. Mas o cômputo geral mostrando que há uma linha de influência que vem do gangsta rap até à Ilha do Dendê, com bravatas machistas-criminais e ostentação de champanhe e cadillacs, me causa profundo desconforto. Fica a glamurização de guerras entre facções de traficantes da  coisa que mais odeio: a cocaína. O aspecto formal do rap é o que mais me interessa hoje: as levadas enganosas, o dedo no botão do sinc, a distorção prosódica. Claro que a política dessa cultura é mais complicada do que minha reação atual a ela. E os jogos formais são política bastante. Mas não posso pensar São Paulo na perspectiva do Brasil de hoje sem mencionar o câmbio por que passou minha apreciação dos Racionais e relacioná-lo com a reiterada notícia da queda da violência urbana nos dois grandes centros do país, mormente na capital paulista.

Faz uns anos, alguns amigos cariocas iam freqüentemente passar o fim de semana em São Paulo: eram clubbers. A noite paulistana! E a sensação de que tudo acontece. São Paulo me pareceu, por muitos anos, muito mais sexy do que o Rio. Por causa da concentração e da intimidade dos encontros interpessoais lá. No Rio, era como se estivésemos numa festa, onde se vê tanta gente atraente mas não se chega perto de quase ninguém tempo suficiente para aprofundar uma relação. Hoje nem sinto mais isso direito. Felizmente. Mas  entendo que sentisse.

Na canção “Lapa” há muito do que penso sobre o Rio hoje. Como vejo sua força, sua potência. O renascimento dos blocos no carnaval é outro sintoma. Los Hermanos, Roberta Sá, +2, Marisa Monte, Teresa Cristina. O hábito de virem os artistas viver no Rio: Lenine, Alceu Valença, Djavan, Adriana Calcanhotto. A quase eleição de Gabeira. Mas enfatizo Sampa e seus atributos porque sei que ainda é preciso repetir.

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UM DOS TEXTOS RIO/SAMPA
22/03/2009 5:14 am

(O outro é tão longo quanto: não tive tempo de reescrever e já já o posto também. E tem comment longo no post anterior: não estou fugindo da nossa discussão de boteco virtual: só quis dar um passo.)

Vejo o Rio da perspectiva da Zona Norte: passei todo  o ano em que completei 14 (um ano crucial na vida de qualquer um) em Guadalupe. Na época, o bairro não tinha nome. Não era um bairro. Era a “Fundação da Casa Popular”, criada pelo governo e colada a Deodoro. Eu ia de trem para a cidade, passando por Marechal, Oswaldo Cruz, Bento Ribeiro, Cascadura, Madureira, Riachuelo, Méier, Engenho de Dentro, Quintino (com aquele coretinho na praça em frente à estação), Encantado, Mangueira… Não mencionei todos, nem na ordem certa, como fazia de cor quando era jovem. Ou então de ônibus, passando por Irajá, por Parada de Lucas, Penha, Ramos… E a cidade era a Cinelândia, para ver filmes em sessão-passatempo ou grandes produções; era o Tabuleiro da Baiana, no Largo da Carioca; era principalmente a Praça Mauá, onde ficava a Rádio Nacional (lá eu vi Emilinha, Trio Irakitan, Ângela Maria, Cauby, João Dias, Dolores Duran, Marlene, Zezé Gonzaga, Neusa Maria, as orquestras de Radamés Gnatalli e Lirio Panicalli – nos programas de Paulo Gracindo, César de Alencar e Manoel Barcelos. Às vezes no “Marlene, meu bem”, que era uma espécie de “I Love Lucy” feito pra rádio mas com cenário e tudo para quem estava no auditório).

A Zona Sul a gente alcançava via Jacarepaguá, onde ficava a casa de Dalva de Oliveira. Passávamos primeiro por Realengo e Bangu, tomávamos banho de mar no Recreio dos Bandeirantes e voltávamos por São Conrado, Leblon e Ipanema – parando no Arpoador – depois Copacabana, Botafogo, Flamengo, Glória e da cidade direto para a Avenida Brasil. Esse era o périplo que Carlos, meu primo policial na casa de quem morei nesse ano (1956: Vinícius e Tom lançavam “Orfeu da Conceição”), fazia. Quando eu saía com Minha Inha (a prima que me trouxe para morar aqui, longe de meus pais e meus irmãos por um ano), ia a Niterói, tomar banho no Saco de São Francisco (era minha praia favorita e amo Niterói até hoje de todo o meu coração, inclusive com raiva das piadas que cariocas fazem a respeito da cidade).

Quando Bethânia veio fazer o Opinião, eu vim de irmão mais velho. Ela ficou em Botafogo, na casa de Rosinha Pena (que foi mulher de Glauber Rocha) mas eu fiquei no Méier: Minha Inha estava morando lá, casada com um português. Era um bairro que eu já amava desde os 13 anos: seu jardim à margem da estrada de ferro, o cine Imperator (enorme, luxuoso, confortável e popular), tudo. Enfim, quando voltei da Bahia em 66 para ficar, fiquei na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, quase esquina com Santa Clara. Depois fui para o Solar da Fossa, que era onde hoje é o Rio Sul, na boca do Túnel Novo.

Depois Sampa, Londres, Salavador de novo. Na volta para o Rio, morei no Leblon, Jardim Botânico, Ipanema e, agora, Leblon outra vez. Por causa do AfroReggae me liguei a Vigário Geral e lá voltei muitas vezes. Já fui em bailes funk na Mineira, no Alemão e em Cidade de Deus. Sendo que, até morrerem meus primos mais velhos (e, para minha maior tristeza, uma das mais jovens também, Tânia Maria, que foi promotora pública atuante contra grupos de extermínio, correndo corajosamente risco de vida), eu ia regularmente a Guadalupe, à mesma casa onde morei. Moreno me acompanhava e Zeca chegou a pegar a fase final. Tom é o único que não freqüentou. Em compensação, dos meus três filhos, é ele, por causa do futebol, quem mais vai à Zona Norte hoje: joga sempre lá, treina lá e seus maiores amigos são de lá.

Cheguei a Sampa com Bethânia em 65. Achamos que parecia uma cidade do interior. E supusemos que os passageiros dos ônibus fossem estrangeiros, por causa do sotaque italianado. O clima era muito provinciano. Não se viam namorados se beijando na boca na rua, como era comum em Paris, no Rio ou em Santo Amaro. Os cinemas da Ipiranga ostentavam cartazes gigantes pintados a mão e não permitiam que os homens entrassem sem paletó. As moças na rua pareciam tímidas e desarrumadas, com os cabelos oleosos. E as pessoas bacanas que fomos conhecendo tinham nostalgia do Rio, da Bahia, do Brasil. As mulheres ricas elegantes que pintavam no teatro para ver Bethânia eram arrumadas demais, ninguém vinha de cara lavada, cabelo nos ombros e calças jeans. Eram peruas pintadas e cheias de jóias. Não foi fácil gostar de São Paulo. Mas me apaixonei pelo teatro de Augusto Boal (o “Zumbi” era uma maravilha) e pelo Oficina (“Os Pequenos Burgueses” era uma montagem que parecia européia, com uma atuação de Fauzi Arap de fazer tremer).

Bethânia, Gal, Tom Zé, Pitti, Gil e este transblogueiro que vos fala atuamos numa peça musical de Boal chamada “Arena Canta Bahia”, sem sucesso de público ou de crítica, mas de grande valor formal e técnico: Boal treinava nosso corpo, compunha imagens perfeitas com nossas figuras. Mas, logo que pude, me mandei para a Bahia.  Quando voltei a Sampa, depois de Copacabana e do Solar da Fossa, me apaixonei pela cidade. E, seguindo um comentário de Guilherme Araújo – carioca original - , passei a achar que o Rio não estava com nada. Meu irmão Bob, que veio a Rio e São Paulo antes disso, desde sempre desprezou o Rio e elegeu Sampa. Mora lá desde os anos 60 e conhece tudo da cidade: não erra caminhos, sabe onde ficam os bairros, tudo. Nunca se sentiu bem no Rio: acha os cariocas agressivos em sua desinibição.

No período do tropicalismo, o Rio me parecia provinciano em seu metropolitanismo de país subdesenvolvido – e São Paulo com  peso internacional real, em seu provincianismo cosmopolita. Não era a metrópole do Brasil: era uma cidade do mundo. Eu via como certo que no futuro São Paulo passaria a contar mais. Nunca mudei essa visão. E hoje as coisas são assim, não mais apenas parecem que serão assim. Todos os aspectos disso se impunham à minha sensibilidade: o fato de as platéias paulistas serem a um tempo mais ingênuas e mais informadas; o jeito a um tempo receptivo e exigente das pessoas com quem conversávamos; a distrubuição pouco brasileira das comunidades de imigrantes em “colônias” um tanto isoladas – tudo contrastava com as platéias-estrela do Rio, com as pessoas blasê e pouco rigorosas do Rio, com o amálgama brasileiríssimo das etnias e classes no Rio.

Quando Verdade Tropical saiu, Marcos Augusto Gonçalves, carioca com quem fiz amizade no Rio e que hoje é paulistano de adoção e tem alta função na Folha, queixou-se de uma quase ausência de São Paulo no livro. Ele sabia que a cidade fôra tão importante na formação do tropicalismo que, mesmo com todas as menções a ela, ele achava que o livro ficava-lhe em débito. Eu detestei o número da Ilustrada (ou já existia o Mais?) dedicado ao meu livro. Mas nunca neguei que a observação de Marcos fosse fundada. Eu próprio acho que nem todas as palavras afetivas ditas sobre minha primeira casa (foi em São Paulo que primeiro tive apartamento para morar), sobre Boal e o Oficina, sobre os poetas concretos, sobre minhas farras com Chico e Toquinho (e o sex-appeal paulistaníssimo de Toquinho) põem em proporção o peso que São Paulo deveria ter naquele livro.

“Zii e zie”  é um disco todo do Rio. Seu som, seus temas, seu clima, tudo tem a ver com o fato de meus filhos terem crescido aqui – e com minha adolescência em Guadalupe. Mas sonho em lançá-lo em Sampa. O italiano do título tem vem muito da saudade de São Paulo, do prazer em ouvir e ler paulistas dizendo “tios” e “tias” (ou mesmo “tiozinhos”) para se referirem aos adultos. A presença de São Paulo em nossa mente é, hoje, a realização do que Guilherme intuíra em 66 e que me pareceu óbvio já em 67. Gil, sempre Gil, sabendo das coisas essenciais antes, tinha uma decisão pró- São Paulo mais bem desenvolvida do que a minha. Mas Gil não fala dessas coisas assim. Quem afinal compôs “Sampa” fui eu. Sinto mais do que orgulho.

Hoje São Paulo nem feia mais parece. São tantas coisas grandes e belas que a força da grana garante, é tão nítido o gume São Paulo na entrada moderna do Brasil na História – Museu da Língua Portuguesa, Racionais MCs, Cidade Limpa, Augusta sendo um Largo da Ordem-Pelourinho-Lapa mais antenado com o mundo, Sala São Paulo, OSESP – que hoje sentimos sua liderança e sua centralidade sem precisar pensar.

Demorei a conhecer paulistas que se sentissem superiores ao Brasil. Primeiro achei só os arrogantes e alienados. Só depois vi os realistas. Zé Miguel Wisnik nota que paulistas se ressentem de um deficit de brasilidade e também de uma sensação de superioridade em relação ao país. Muitos oscilam entre esses dois polos. Os queridos e úteis intelectuais da USP sempre parecem que querem salvar o Brasil de si mesmo – ou simplesmente, num universalismo marxista regional, descrêem de tudo o que for nacional. Fernando Henrique falando dos soldados brasileiros que “não sabem marchar – eles sambam” é uma caricatura disso. O livro de Marilena contra a celebração do Descobrimento é uma versão sisuda e errada do mesmo sentimento. Mas ponhamos essas desmunhecadas na conta da geração: esses ecoam ainda modos de sentir do paulista culto que leu muito nos anos 50 e escreveu muito dos 60 em diante. Porque Oswald, Haroldo de Campos e Mário de Andrade não eram assim. E o jovens pós- Zé Celso e pós Rita Lee muito menos.

Chico Buarque para mim é São Paulo. Um grande paulista da linhagem dos que sentiam o deficit de brasilidade de forma dolorosa. E se tornou o mais perfeito brasileiro-carioca simbólico de todos os tempos. Saber que o talvez maior compositor popular de minha geração é um paulista diz tudo sobre a intensidade da energia de São Paulo. E diz mais ainda sobre os caminhos misteriosos da nossa tomada de consciência desse fato e de suas projeções. É só para isso que importa o quanto Chico desaprovará esta interpretação. Quanto ao “talvez” que escrevi antes de “o maior”, ele se deve a eu ter pensado em Jorge Ben e em Paulinho da Viola: Gil e eu não me parece que estejamos no páreo. Somos relevantes pelo conjunto da obra crítica, política, teórica, comportamental que acompanha o trabalho de composição. Mas Chico é o cara da canção. E ele é paulista.

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MAU GOSTO
5/03/2009 1:24 am

Cordão é sinônimo de bloco. Só quem saía sem corda eram os trios elétricos. Das grandes sociedades às escolas de samba (como lembro dos Diplomatas de Amaralina!), dos Filhos de Gandhi aos Internacionais, do Crocodilo ao Ilê Aiyê - todos sempre saíram com cordão de isolamento. Isso nunca impediu os foliões de brincarem carnavais inteiros de graça. Ainda hoje é assim. Moreno, meu sábio filho, nunca entrou num camarote ou num cordão - nunca deixou de brincar mais do que eu, nunca reclamou. Quando nossa maior paixão era o Olodum, eu subia no caminhão com Paulinha Lavigne (Aloísio Mercadante era companheiro querido e animado), usava fantasia e dançava dentro da corda, Moreno brincava a noite toda na pipoca.

A primeira vez que vi as escolas de samba do Rio foi na Avenida Presidente Vargas, com Dedé. Choramos de emoção: era 1965, o ano em que a Império Serrano saiu com os “Cinco bailes na história do Rio”. Estávamos na arquibancada. Naquele tempo havia uma arquibancada longa de um lado só da avenida: do outro lado era uma corda guardada pela polícia. Quem não tinha dinheiro para comprar lugar na arquibancada ficava de pé na rua, sambandinho, colado na corda. Os foliões que tentaram seguir as escolas foram repelidos a cacetetaas pela polícia montada. Dedé e eu ficamos chocados, mas ninguém sequer reclamava. Nem uma palavra nos jornais. Nós  próprios terminávamos sempre sendo retomados pela beleza do espetáculo e desistíamos de implicar com a dureza da polícia..

Depois o Darcy Ribeiro construiu o Sambódromo. Paulinho da Viola era contra - acho que ainda hoje não se conforma com a ideia de “praça da apoteose”, muito menos com a exclusão do folião pobre, que olha por frestas, do alto de viadutos, pouco pode ver.

Quero citar a obra-prima que é “Invocação”, do Quanta Ladeira, esse bloco recifense que canta espetaculares paródias obscenas de canções conhecidas. Nesse caso, a graça vem da ironia com o Recifolia, um carnaval pop abaianado (”resto de janta abaianada”) que se serviu ao povo daquela cidade por alguns anos. A última frase diz: “ai que saudade do cordão de isolamento”. Uma reação a essa intervenção no carnaval pernambucano fez muito bem à cidade: o carnaval de lá tem tanta força na tradição que pode viver quase só dela. O carnaval baiano que me apaixonou em 1960, quando fui de Santo Amaro pra Salvador, se pautou, desde 1950 pelo menos, pela invenção novidadeira. O trio elétrico serviu, antes, de inspiração e, depois, de argumento para os tropicalistas. Não tinha corda. Num frevo que escrevi sobre o assunto (”Um frevo novo”) digo “Todo mundo na praça e manda gente sem graça pro salão”. Só parte da juventude de alta classe média ia às ruas: ou eram comunistas, ou eram boêmios, ou eram veados, ou eram dos Internacionais. Minto: os velhos ainda saíam nas “grandes sociedades”.

Na Avenida Sete, as famílias punham cadeiras na beira da calçada para assistir ao que passasse. Logo estavam cobrando para alugá-las. As cadeiras ficavam amarradas em cordas que iam de árvore a árvore e roubavam toda a calçada aos foliões. Bem, faz uns bons anos que os camarotes que avançavam sobre o espaço do folião em Ondina foram proibidos (no período Imbassahy?). No ano passado, acompanhei Brown e o Camarote Andante, a pé, da Barra a Ondina. Neste ano, fiz o mesmo percurso em cima do trio do Psirico. A generosidade dos espaços - e o aproveitamento que as multidões fazem deles - é empolgante.

Daniela Mercury há anos não aluga seu trio a blocos: sai sem corda. Não é a única. Brown também. E há vários trios financiados pela prefeitura que saem sem corda. Feitas as contas, não houve piora, talvez tenha havido melhora na configuração topográfica do carnaval da Bahia.

Antes de ver o de Salvador, já tinha, aos 13 anos, passado o carnaval no Rio. Ver a Avenida Rio Branco vazia e sem animação me cortou o coração nos anos 90. Estava tudo reduzido aos desfiles das escolas. Há 4 anos, passei os dias de carnaval no Rio, sem ir ao carnaval. Estava sofrendo, de luto por dentro, não queria ir ao Sambódromo. Fui com Antonio Cicero e Marcelo Pies ver uma exposição no CCBB. Isso fica no centro, perto da Candelária, que é onde a Rio Branco desagua na Presidente Vargas. Para minha surpresa, vi muita gente fantasiada por ali. Pedi licença a Cicero e Marcelo e fui olhar a avenida. Chorei de emoção: estava como quando eu tinha 13 anos: cheia de “clóvis”, blocos, famílias fantasiadas, tudo. No dia seguinte Hermano Vianna me chamou para ver um mini-bloco que Kassin tocava na Avenida Atlântica (eu estava num apart-hotel entre Copa e Ipanema). A Atlântica estava vazia. Mas, voltando de lá, vi burburinho no Arpoador. Fomos olhar e Ipanema estava apinhada de gente. Nos disseram que o Monobloco tinha passado horas antes. A turba remanecente estava pronta para um carnaval pernambucano, baiano, pronta para tudo. Não havia mais blocos. Sobretudo me impressionou a ausência total dos poderes públicos: os vendedores improvisados paravam no meio do safalto, em qualquer lugar. Lembrei-me de quanta coisa se fez na Bahia e no Recife nestes anos. Há regras para a distribuição dos vendedores. Há proibições, planejamento. O Rio oficial porta-se como se nada houvesse além do Sambódromo. Ouço que o número de blocos cresceu enormemente. Que o folião pipoca é multitudinário outra vez no meu Rio. Fico tão feliz que nem dá para explicar. E espero que surja o que surgiu na Bahia: repertório novo e forte - e presença da prefeitura.

Todas essas coisas - e tantas mais - tomaram minha cabeça (além do que é mais forte: o samba do Psirico, a “viola” do Fantasmão, Daniela com o trio caprichadaço puxando milhares e milhares de pessoas, Ivete deixando o pano branco voar, Preta cantando bem um repertório massa na varanda do Camarote 2222, Xande cantando super bem, o Ilê em sua majestade, Armandinho agora com multidão atrás outra vez, Retrofoguetes homenageando Armandinho, Lucas Santana, Trio eletrônico arrebentando…) que não sobra muito espaço para reclamar do que nem tem modelo melhor no passado para comparação.

Bem, eu teria muito do que reclamar - mas não seria de nada do que o pessoal reclama. Talvez começasse, como Zizek, a reclamar contra a existência do carnaval. Mas não penso como Zizek mesmo! Paro em constatar que, nos blocos convencionais (mas nunca no Chiclete), quem brinca mais é quem fica fora da corda: quem está dentro leva aquele “sem graça” do salão de que falava minha música. As roupas uniformes ficam muito feias quando essas pessoas estão cansadas e sem nenhuma outra emoção positiva além da certeza de que está dentro do bloco. Mas já falei demais sobre o mau gosto carnavalesco da classe média provinciana em Verdade Tropical.

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CARNAVAL
21/02/2009 5:00 am

Um dia escrevi aqui: “Os linguistas contribuem com sugestões utilizáveis quando se fizer um bom projeto de educação básica no Brasil. Mas no momento esses militantes fazem também um pouco de demagogia nociva, provavelmente sem o saber.” Heloisa comentou desta maneira: “Caetano, gostei da forma cuidadosa e moderada desse comentário. Isso me basta, por enquanto”. Lembro que em outro lugar ela pediu paciência a Luedy, que ele esperasse eu ler Bagno diretamente. Algo assim. Pois bem. Li “A norma oculta” e não mudei um milímetro. Ali ainda pesavam mais os vícios da esquerda autocongratulatória.

Encontrei Luedy pessoalmente. Ele veio com uma professora de linguística irresistível. Ela falava bem e era paciente quando eu a interrompia. Luedy quase não falava. Paquito, o amigo músico que nos apresentou, às vezes puxava o assunto para longe do tema central. Quase nunca concordávamos mas todos gostávamos de ouvir uns aos outros. Eu tinha apenas olhado as primeiras páginas de “Preconceito linguístico“. Depois que Luedy, Paquito e Tânia (esse é o nome da moça) foram embora, fui lê-lo. Heloísa tinha sido profética. A leitura realmente mudou minha disposição em relação ao combativo professor da UnB.

Não sei se o texto que Bagno publicou na Caros Amigos em resposta a minhas opiniões é mais ou menos agressivo do que o que ele mandou aqui para o blog (e depois pediu a Hermano para não publicar: Hermano, que, sendo antropólogo, está mais pros Bagnos do que pros Cipros, tinha me mandado o irado comment, perguntando se não seria o caso de evitarmos publicação de texto tão aguerrido e vulnerável - e eu tinha respondido optando pela publicação: não queria me proteger nem facilitar a vida de Bagno). Seja como for, o texto que li era violento o suficiente para aumentar minha má vontade. Não foi sem má vontade que li “A norma oculta”; não foi sem má vontade que comecei a leitura de “Preconceito linguístico”. Não foi sem alegria que vi minha disposição mudar. Viva Heloisa.

“A norma oculta” me deixou com as mesmas más impressões da entrevista à Caros Amigos: demagogia, ar de quem descobriu a pólvora, malevolência em relação aos consultores de gramática dos meios de comunicação, sobretudo um argumento central que não me balança: a tese do nascimento da gramática normativa há cerca de 2.000 anos como um mal do qual só o heróicos sociolingüistas do século 20 nos salvariam. Mas em “Preconceito linguístico” encontrei o que já nem buscava: razão, alguns argumentos sólidos, apreciações justas. Será que nada disso havia no outro livro – nem na entrevista? Será que nada havia no eco da campanha dos lingüistas? Claro que há coerência entre essas fontes e “Preconceito lingüístico.” Mas ao ler este fui posto em condição de ver o que há de bom mesmo onde eu não tinha visto antes.

Seria preciso contar a história da minha vida. Não posso fazê-lo aqui. Mas o fato é que sempre me excitaram observações como a do Padre Antenor, diretor do Colégio Estadual Teodoro Sampaio, de Santo Amaro, que dizia não podermos considerar errado o “entonce” do matuto do recôncavo, que é português correto mas antigo e não atual e errado. Comentários como esse me prometiam mais do que as nomenclaturas das análises lexicais e sintáticas. É verdade que tive mais sorte do que Luedy: me ensinaram as “categorias gramaticais” no curso primário; a análise sintática só começou no ginásio – e começou devagar: primeiro as orações simples, só mais tarde estudamos períodos compostos. Primeiro os “por coordenação” e depois os “por subordinação”. Se havia quem achasse chato, esses não eram em maior número do que os que não agüentavam história ou geografia – sem falar em matemática. Mas a mera insinuação da etimologia feita pelo padre me acenava com um mundo maravilhoso. Eu queria entender mais o que era a língua que falávamos, como se formara, como continuaria em sua trajetória. Em suma, eu tenderia mais para um linguista do que para um gramático. Embora as sutilezas das regras de concordância me apaixonassem. E até hoje eu ame o entendimento da crase e sofra com o mito de que ela é difícil, um fenômeno inescrutável, um capricho desarrazoado dos professores e da própria língua portuguesa.

Entre a faculdade de filosofia e a música popular, minha admiração por Godard, pelos Beatles, pelos pintores pop e pelos poetas concretos me aproximou de Saussure e Jakobson, dos estruturalistas e pós, não dos gramáticos e filólogos. Entre 67 e 68 eu, além de já estar careca de saber que a língua muda, li “Tristes Trópicos”, Saussure, Jakobson, “As palavras e as coisas”, McLuhan, Oswald de Andrade (“a contribuição milionária de todos os erros”) – e nada de Napoelão Mendes de Almeida. De Antonio Houaiss, só a tradução do Ulisses de Joyce.

O artigo de Antonio Cicero na Ilustrada de 8/2/2009 expõe claramente a natureza de minha atitude contra a euforia dos lingüistas ao “desmascararem” o desejo de manter privilégios escondido por trás de toda paixão pela gramática. Leiam-no em http://antoniocicero.blogspot.com/. Chama-se Os Estudos Literários e o Cânone. Cicero diz, basicamente, que o cânone não é, como quer Eagleton, uma suspeita seleção feita a partir de interesses particulares, mas, ao contrario, algo que foi construído na luta das idéias e cuja força reside em não parar de ser qüestionado. A reação de certa esquerda ao cânone é semelhante à reação dos sociolingüistas à norma culta. Não que eles sejam a mesma coisa. Apenas, naquilo que têm em comum, suscitam reações parecidas nos meios que sonham com a revolução. Em ambos os casos essas reações me parecem tolas. A criação de um “paideuma”, de um recorte do cânone que nos obriga a revê-lo, é, explícita ou implicitamente, necessária à criação de algo relevante na história de uma arte e mesmo na construção de um estilo individual. Agusto de Campos pode dizer que John Donne e Sá de Miranda estão acima de Shakespeare e Camões. Ezra Pound detestava Gertrud Stein. John Cage queria livrar-se de Beethoven. Bergman detestava Orson Welles e Godard. Marcelo Nova pode desprezar João Gilberto. João ostentou gostar tão pouco de Noel que isso era uma espécie de escândalo silencioso. Mas tudo isso é diferente de querer-se desautorizar todo cânone. Muitas vezes em nome de reinvidicações de raça, gênero, classe e “orientação sexual”. Os panfletos de Bagno sempre me pareceram mais aparentados a essa tendência do que à decisão de contribuir para a vitalização da educação no Brasil. Além disso, me causa repugnância a facilidade com que se quer descartar mesmo a mais remota possibilidade de haver algo aproveitável na particularidade da história brasileira. Bagno vocifera contra a baixa estima que resulta de dizer-se que os brasileiros não falam certo ou que não sabem português. Mas faz coro com Marilena Chaui contra a celebração do descobrimento e não vê senão vergonha no fato de a nossa independência ter sido proclamada pelo príncipe da metrópole.

Claro, ninguém “não sabe” a língua que ouve desde que começou a viver. E nenhuma língua é incapaz de resolver os problemas de comunicação que seus falantes enfrentam. Mas, se esse aspecto da questão é evidente, o mesmo não se pode dizer da confusão que causa afirmar ao mesmo tempo esse grau de independência do fenômeno lingüístico e denunciar como mitológica a língua “ideal” dos gramáticos. De novo, sei que não se trata da mesma instância, mas se temos de definir como projetaremos o ensino da língua no Brasil precisamos ser claros justamente quanto ao que transcende (gostou, Heloisa?) a matéria bruta da fala diária e o corpo dos textos escritos existentes. Se seguimos a Marilena do panfletinho contra a celebração do descobrimento, como podemos clamar pela elevação da autoestima de uma nação tão monstruosamente formada – e apenas através da ligüística? Vê-se que há uma lacuna no pensamento. E vê-se que ela é aterrada com o entulho das variedades mais ingênuas das crenças em vanguardas revolucionárias.

O que, então, é bom em “Preconceito lingüístico”? Em primeiro lugar, aqui Bagno freqüentemente mira os alvos certos. O livro de Josué Machado não precisa ser lido por inteiro: as citações escolhidas por Bagno justificam a crítica que este lhe faz. O verbete do “Dicionário Sacconi da língua portuguesa” é tão grosseiro quanto as explicações dadas por Bagno sobre rotacismo e vocalização do “lh” são claras e bem articuladas. Os erros que este aponta nos livros daqueles merecem ser destacados. E a vulgaridade agressiva do estilo deles deve ser combatida. O projeto de lei de Aldo Rebelo é ridículo. Sou amigo de Pasquale Cipro Neto (e admirador confesso do trabalho que ele faz), mas das palavras depreciativas que ele usou contra os lingüistas apenas “deslumbrados” é de fato adequada.

Além disso, Bagno aqui dá um esboço de programa que já é contribuição efetiva para um plano inteligente de educação de massa no Brasil. Ele não está sendo simplesmente o militante de um comando antigramatical. Na verdade, as propostas concretas que ele apresenta soam muito menos demagógicas do que os “Parâmetros curriculares nacionais”. Esse documento oficial (surgido, não se sabe como, no supostamente horrendo governo Fernando Henrique) parece mais um brado de protesto contra humilhações sofridas por falantes pobres, enquanto o próprio Bagno propõe “acionar nosso senso crítico toda vez que nos depararmos com um comando paragramatical e saber filtrar as informações realmente úteis, deixando de lado (e denunciando, de preferência) as afirmações preconceituosas, autoritárias e intolerantes”. Aí ele está elevando o nível de exigência em relação aos que desejam ensinar a norma a tanta gente que tem sede de ter acesso a uma. E o mesmo texto em que ele diz essas coisas é o exemplo da língua culta padrão, da norma – que não está no texto dos grandes ficcionistas nem dos poetas, muito menos na fala coloquial: é o português que Bagno usa (e as regras de que se vale para criticar o conhecimento de gramática de jornalistas e professores, com maior ou menor razão), o português das argumentações teóricas, do texto oficial, da produção acadêmica, e não o dos poetas e ficcionistas, que está mais perto dessa entidade que não pode ser reduzida à materialidade da língua móvel dos usuários: a língua ideal. O fato de Bagno usar pronomes no caso reto em função de objeto direto é mais do uma exceção que confirma a regra: é a exemplificação de uma proposta de regra nova que ele já põe, a sério, em prática (ele não usaria “menas”, “nós vai”, “três pastel” etc.: haveria o risco do texto ficar menos inteligível – e (o que é crucial) menos respeitável. Nenhum padrão é idêntico à pluralidade de entes reais que ele representa. Por que a língua teria de se resumir às falas concretas dos falantes? Mas é o Bagno que sabe disso que diz que ensinar português é ensinar a ler e escrever - numa norma padrão.

A distinção entre ensinar a língua e ensinar sobre a língua procede. Mas isso não pode ir além de meramente enfatizar o treino do uso em vez da análise do funcionamento. As comparações com a diferença entre dirigir automóvel e entender a mecânica do motor é simplista demais. Ainda bem que ele reconhece que numa certa altura tem-se que aprender algo sobre a mecânica da língua: afinal, de onde sairiam os gramáticos, os lingüistas, os técnicos? Há um continuum entre o aluno e o professor, não há uma linha igual à que separa o motorista amador do mecânico de oficina. Claro que Possenti está certo, no trecho citado por Bagno, quando diz que “saber usar as regras é uma coisa e saber explicitamente quais são as regras é outra”. Mas há grande alegria em ver revelado o processo que se dá dentro da gente quando efetivamos o uso da regra. Essa alegria não é igual à alegria do motorista que descobre o que é que faz o carro andar. Justamente por no caso da língua revelar-se algo que está dentro de nós. Não é tudo (acredito que há pensamento sem palavras) mas é muito, é mesmo quase tudo o que somos.

É essa alegria genuína que levou Pasquale a reverenciar Napoleão quando este morreu, não o pedantismo que fazia dele uma figura cômica. Porque uma coisa é certa: se há uma esfumaçada miragem de norma culta, português correto, reverência à maneira lusitana de falar e escrever – essa miragem é pisoteada alegremente pelos brasileiros de todas as classes – e bem possivelmente pelas classes mais remediadas e urbanas. Os jornalistas riem dos gramáticos e da Academia, toda a gente ri de Portugal. A defesa quixotesca da língua culta é um cachorro morto nas ruas do Brasil. Temo que os sociolingüistas o chutem com demasiado prazer. O ódio aos Pasquales se deve a eles representarem um surpreendente sinal de vida no cadáver desse cão. Suspeito que Luedy adivinha que Bagno e Possenti não gostariam do Psirico porque o que correspondente ao Márcio Victor não é o “menas” mas o Pasquale: os “comandos paragramaticais” é que são brega. Se há um país onde regras de gramática são tradicionalmente (e mesmo saudavelmente) desprezadas é o Brasil. Comparemos o que se passa entre nós e o que se passa na França, na Espanha. Os argentinos têm o “vos” e resquícios de uma conjugação referente a esse pronome. Mas quem for filho de alguém que saiba ao menos ler, saberá todas as regras de uso de pronomes que há no castelhano. A rigidez normativa da língua francesa não tem igual. Já disse que sou contra o projeto de lei de Aldo Rebelo. Mas na França, onde a Academia realmente dita a moda (com a contribuição de ninguém menos que Lévy-Strauss, que foi de quem primeiro ouvi que não há línguas mais capazes que outras, que não há línguas primitivas, que não há hierarquia possível entre línguas), as ações de defesa da língua têm muito mais peso do que aqui. Vivi na Inglaterra: na cidade de Londres, as diferenças de pronúncia, vocabulário, sintaxe e tom entre as classes sociais (e a importância que é institivamente dada a elas por todos os ingleses) é maior do que entre as regiões do Brasil, por mais distantes que sejam umas das outras, por maior que seja a disparidade de poder aquisitivo. Dizia-se em Londres que o inglês da BBC era a melhor tentativa de padrão. O mito da homogeneidade do português brasileiro não é meramente um mito: é também a realidade de uma língua transplantada, língua de colônia, em que grupos diferentes de pessoas tiveram de passar a falar uma língua só.

Os lingüistas deveriam ficar felizes pela oportunidade. Na verdade acho que estão felizes. Não apenas o livro do Bagno está na 50a edição: a própria ciência lingüística encontra terreno tão fértil aqui quanto a psicanálise na Argentina. Bagno prefere repetir Marilena na cantilena da formação que não pode ser festejada, mas a colônia em que o príncipe da metrópole declarou a independência é tão original que, mesmo tendo ficado séculos atrasada em relação às outras colônias ibéricas quanto à instituição de universidades – e que exibe ainda a cicatriz desses descompassos e esquisitices nos resultados dos exames de aprendizado dos seus estudantes – produziu o maior romancista latinoamericano do século 19 (Machado) e o maior romancista latinoamericano no século 20 (Rosa) – pelo menos no dizer de Rodrigues Monegal, o grande teórico hispanoamericano de literatura.

Uma empreitada de familiarização da maioria dos brasileiros com as letras já agradece a contribuição que lingüistas como Bagno e Possenti vêm dando. Eu teria preferido me manter como o espírito de porco que, mesmo sem ser estudioso formal da matéria, toma a defesa dos comandos paragramaticais e escarnece dos esquerdismos triunfantes. Mas a leitura de “Preconceito lingüístico” mudou meu mood. Agora prefiro festejar o sucesso desse grupo tão intolerante quanto generoso. Acompanhar o aproveitamento das contribuições que ele traz. Claro que eles podem, como Tom Zé, recusar minha aprovação. Não faz mal. Seguem podendo ser bons para o que interessa.

Minha adesão aos lingüistas tem preço. É preciso que eles ouçam este leigo com a mesma isenção que ele os ouviu e pensem ao menos nas questões seguintes. 1) O cientificismo é, em muitos meios, considerado um preconceito. 2) As regras são sim filhas do uso real da língua pelos falantes e, tal como os próprios lingüistas detectam agora, sempre vieram de “baixo” para “cima”. 3) O fato de a gramática normativa poder datar de cerca de 2.000 anos atrás não diz nem que gramáticos tenham imposto os caminhos seguidos pelas línguas nem que eles não entrem na história da formação destas. 4) Os resultados de uma bem sucedida ação de letramento da massa brasileira poderão supreender esses seus proponentes: “tendências” poderão mudar porque 5) A escrita influencia a fala.

Continuo gostando do sucesso de Bagno, Pasquale, Maria de Lourdes, Possenti e Psirico.

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LULA PENA BAMOR LABI
12/02/2009 9:25 am

Labi ilumina tudo com sua graça. Mas não gostei de Baraka não. E será que eu escrevi que música na praia devia ser proibido? Meu Deus! Perdão, Labi. Seu amigo diplomata assintomático tem sintomas de diplomata. Houve quem escrevesse aí que Assis Valente não era diplomata, mas eu li numa biografia dele, escrita por um casal de espíritas, que tudo podia ser explicado pelo fato de, em outra encarnação, alguém ter sido do sexo oposto. Assis Valente se suicidou. O texto dele num livro em tributo a Carmen Miranda, editado pouco depois da morte dela, é de rachar o coração. Muitos outros escrevem longos elogios: ele apenas diz que quando ela foi para os Estados Unidos a vida dele acabou. Ontem Ronney Argollo e Eduardo Melo, ambos de 22 anos, foram expulsos do Shopping Iguatemi por terem se beijado na boca. Eles estavam com a amiga Ísis Santos, também de 22 anos, conversando, na Alameda das Griffes, no terceiro piso. Fizeram denúncia na 16a delegacia, na Pituba, contra o segurança Itamar, que os expulsou, e contra o Shopping. A Tarde diz que Ronney chamou a atenção do guarda para a lei municipal que proíbe homofobia - número 5275/97, sancionada pelo então prefeito Antônio Imbassahy. Itamar declarou que famílias que passavam poderiam ficar constrangidas. A direção do Shopping apresenta a mesma justificativa. Graciliano Ramos conta que, preso pela ditadura Vargas num navio, se recusava a comer comida feita por um pederasta. Olavo de Carvalho escreveu que ele tinha todo o direito de sentir-se assim. Ninguém pode discordar disso. Mas daí Graciliano nenhum pode passar, digo eu. O que não digo, Labi, é que os ancestrais dos nossos ancestrais merecem mais respeito do que o povo de hoje. Só perguntei se eles não merecem respeito nenhum. De minha parte, acompanho com paixão as mudanças sintáticas, semânticas e melódicas das sucessivas gerações de gente iletrada com que tenho contato. E de gente letrada também. Melódicas? O aspecto que mais me fascina na fala dos jovens cariocas hoje - fala vinda das favelas - é a música meio cigana, meio cearense, ascendente, das frases ditas pelos traficantes, pelos meninos que fazem malabarismos nos sinais - e pelos meus filhos.

A cantora que mais me interessou nas últimas semanas foi Lula Pena. Uma portuguesa de voz grave e violão eletrificado que canta como um poeta.

O Pituaço, que é como a torcida do Bahia chama o estádio de Pituaçu, é bonito pra caramba. E ver a Bamor é experiência única. A Bahia é o único lugar onde se vê futebol com samba-reggae. E as palmas sincopadas que a galera bate? Só a elegância sutil de Bobô - que rima perfeitamente com a risada de Andy Warhol: gente do passado, lembra de “O rock errou”?, e das rimas de Rita em “Esse tal de Roque Enrou”?, também: conhecem rima toante, poesia espanhola, J.C. de Mello Neto? - a elegância de Bobô, eu dizia, por si só, já valeria uma ida ao novo estádio (que o governo de Jaques Wagner entrega à cidade com naturalidade suficiente). Mas o povo de Salvador naquele lugar, sob aquela luz e reagindo com aquele suingue, é luxo só. Tive enormes saudades de Tom. Ele teria adorado. O jogo, o Bahia contra o Poções (time da cidade de mesmo nome, próxima a Conquista, me dizem), foi bom. Começou morno e parecia que ia continuar assim. Mas eu acho que os jogadores do Bahia perceberam que os poçõenses não estavam a fim de levar uma goleada igual à que tinham levado do Vitória (acho que 6 a 0) e reuniram forças e animação para fazer um gol em cada tempo. Os interioranos marcavam homem a homem - e não desistiram de lutar mesmo depois de alvejados. Mas o Bahia conseguiu fazer jogadas bonitas. Mas estas (como é tão freqüente no futebol) não foram as que produziram os gols. Os gols foram surpresas excitantes e algo desconectadas da lógica do jogo. Pensei muito no livro Veneno Remédio, de Zé Miguel Wisnik. E saí feliz.

Faz mais de semana que li a resposta de Tarso Genro a Merval Pereira, do Globo. Aprendi que os atletas cubanos não quiseram asilo brasileiro e, com planos de ir para a Europa, pediram para serem reenviados a Cuba. Assim, a simetria que busquei entre o caso deles e o de Battisti não funciona. E como na verdade me faz mais mal pensar que dois atletas tivessem sido entregues a possíveis perseguidores políticos do que que um condenado por crimes talvez políticos achasse asilo, em suma, que alguém fosse castigado do que alguém deixasse de sê-lo, retiro o que disse aqui há uns dois posts atrás.

Heloísa, comecei tentando ser inventivamente confuso (o que sempre nos protege de exibir nossas reais confusões) mas voltei a querer raciocinar e caí no meu velho estilo enrolado.

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