Estou tão enfronhado no Rio com esse projeto da Obra em Progresso que tenho me sentido longe à beça de São Paulo. Vim aqui fazer o show com o Rei no belo teatrinho do Niemeyer no Ibirapuera e senti o tamanho da saudade que eu estava de Sampa. O teatro é elegante e induz à quietude. Se o show fosse no Ginásio do Ibirapuera, o ruído dos aplausos assustaria a boba da Folha e o burro do Estadão que escreveram sobre o show. Há anos não leio nada tão errado sobre música brasileira - e, mais uma vez, envolvendo Roberto Carlos e este transblogueiro que vos fala. Se eu tivesse direito a convite, teria chamado Augusto de Campos para estar presente ao encontro: foi ele quem escreveu o primeiro texto de apoio crítico à Jovem Guarda, prefigurando o tropicalismo e opondo a energia da turma de Roberto e Erasmo à pretensão da turma de Elis. São Paulo é isso. Quando vi a Ponte Otávio Frias em frente aos prédios pós-modernos da Marginal Pinheiros (prefiro prédios pós-modernos aos chamados modernos que encheram nossas cidades de desarmonia, em nome da racionalidade) me senti esperançoso. Dei entrevista a Jô (onde disse isso) e segui para o lançamento do livro do Mangabeira na Casa das Rosas. Agora (já às duas e meia da manhã) o provincianismo fraco dos articulistas dos dois grandes jornais locais não conseguiu abalar essa sensação. O Brasil de Tom, que é o Brasil que precisa estar à altura da bossa nova, cresce para fora e para longe do Brasil dos débeis de cabeça e de coração.
Escrevo isso só para mostrar aos que comentaram as críticas hilárias da província paulistana que também li e que fiquei com pena dos dois fanfarrões que não sabem nem escrever. O do Estadão então é inacreditável. Como é que qualquer editor deixa sair um texto com tantos erros de português, tantas redundâncias e obscuridades, tamanha incapacidade de articular pensamentos? A da Folha não sabe pensar mas exprime de forma primária esse seu não-saber. O outro, nem isso. O texto dele é tão mal escrito que a gente tem de adivinhar o que ele pensa - e chega à evidência de que pensa errado. Mas de alguma forma o artigo da mulher parece ser mais prejudicial do que o do cara. Não respondo aqui a ela nem a ele. Nada digo aos jornais que os publicaram. Deixo aos leitores paulistanos que viram o show. Eles vão escrever protestando. Os jornais talvez publiquem algumas das cartas.
Chega de verdade. “Lobão tem razão” vai ficando muito bonita dentro de mim. Cada vez que a canto ela parece melhor. Fui cantar um trechinho no Jô e fiquei emocionado. “Lapa” nos pareceu - a mim e aos caras da Banda Cê - boa de cara. “Lobão tem razão” cresce com o tempo (em nós, pelo menos). Agora vamos começar o trabalho de estúdio: três dias de ensaio e, na segunda, começa a gravação do CD. O DVD, feito de números em construção, tirados das apresentações no Vivo Rio e no Oi Casa Grande, vai ser um documento da Obra em Progresso. Mas o CD será a prova dos noves (é dos noves, sim: a gente parece que tem medo de pôr os numerais no plural! - até o Oswald de Andrade, naquela grande frase de um dos seus manifestos, escreveu “a alegria é a prova dos nove”; bem, não está errado, mas a própria prova é sempre feita com o uso da expressão “noves fora…”; e como eu já gosto de nove, essa idéia de noves - muitos, múltiplos noves - me dá enlevo). Muito aprenderemos sobre essas canções e suas concepções sonoras quando as ouvirmos gravadas em estúdio. De minha parte, estou curioso e um tanto impaciente. Suponho que a gente vai lançar o CD ainda este ano. O DVD, como recordação do processo que chegou até ele, fica para um pouco depois. Depois do carnaval?
Acho que todo o mundo devia ler o livro “O Que a Esquerda Deve Propor”, de Roberto Mangabeira Unger. É um livro pequeno, denso mas muito claro, que faz renascer o sentimento de “ser de esquerda” em nós. Há propostas concretas interessantes e sobretudo uma visão do mundo hoje que nos liberta para pensar. De minha parte, vejo ali formuladas muitas das idéias que tentei eu próprio encontrar dentro de mim. O capítulo sobre os Estados Unidos e seu papel no mundo hoje é obrigatório - e independe de você querer ou não apostar nas sugestões de mudanças institucionais que Mangabeira oferece. Leiam e vejam se não está ali tudo o que precisamos saber agora sobre a morte das formas de política de esquerda que conhecíamos - sem que seja necessário passarmos a ser conservadores. Há décadas que venho dizendo que Brasil não pode jogar fora a contribição que nos quer dar esse pensador. Agora vejo que o Brasil não vai fazer isso. Temos um dever de originalidade. Temos algo a dizer ao mundo. Mesmo que nunca o disséssemos - mesmo que nunca o digamos - nós o temos. Mesmo que o calemos ou nos recusemos a articulá-lo, temo-lo (e é com prazer que o digo assim, homenageando o português lusitano, que também é nosso e que não devemos ignorar: um dia desses vou escrever sobre lingüistas que agridem os gramáticos em nome de uma demagógica receptividade ao que às vezes é mera limitação opressora dos falantes - mas não vou voltar aos erros do carinha do Estadão).
Estou escrevendo qualquer coisa hoje porque fiquei muito pegado com os shows de Tom/Roberto e nunca mais tinha escrito nada. Mas voltarei.
AQUI FALA O HERMANO: Quito Ribeiro é parceiro de longa data. Acho que nos conhecemos quando ele era adolescente. Era um dos amigos do Moreno, que se tornaram também meus amigos queridos e hoje têm carreiras artísticas/intelectuais tão interessantes e diversificadas, algumas já ilustres: Pedro Sá, Kassin, Lucas Santtana, João Miguel, Pedro Süssekind e muita gente mais. Turma bacana essa… Quito é músico, produz seu próprio transamba baiano/jamaicano. Disco e shows excelentes e poderosos. Mas é também roteirista, editor etc. Fizemos juntos o roteiro de Tempo Rei, documentário sobre Gil. Ele participou da edição do Música do Brasil, do Central da Periferia. Montou O Maior Amor do Mundo, filme de Cacá Diegues. Etc. Etc. Agora está editando as entrevistas de Obra em Progresso, para o DVD. Da ilha de edição da Natasha, no seu segundo dia de trabalho, ele manda este texto, cheio de boas questões de quem está mergulhado nas horas e horas de material filmado por Toni Vanzolini:
“Estou aqui começando a editar o material de entrevistas que vai ser incluído no DVD. Faz parte deste processo inicial a idealização de um roteiro, ou de vários, à medida que vamos tomando conhecimento do material que dispomos. Um ou vários, todos são, em geral, diferentes do roteiro que foi escrito antes do material ser filmado ou gravado.
Neste caso específico nunca houve um roteiro. Estamos fazendo o que em linguagem cinematográfica chama-se cinema direto. Seguindo os passos dos nossos “personagens” sem fazer maiores interferências.
Resolvemos em conjunto tentar falar sobre o transamba.
Fico então aqui na ilha de edição, montando estes roteiros virtuais, tentando tornar o transamba compreensível. E as perguntas não param de aparecer. Seja para tentar fazer conexões entre as partes do material; ou forçá-las; ou tentar cobrir buracos onde eles eventualmente surgem.
A edição de um material sempre carrega consigo certa insatisfação com o material que foi obtido. O que é natural porque uma dose de insatisfação é inerente ao próprio processo; ou seja: ao fazer as perguntas, não quer dizer que eu esteja levantando as questões fundamentais para que o filme tenha uma narrativa fluida e coerente ao final.
Enfim, como este trabalho permite este tipo de situação, resolvi compartilhar essas questões aqui no blog e publicar as perguntas que em outros trabalhos não tenho a oportunidade de fazer.
Não sei se essas respostas, se vierem, estarão melhor no blog ou nesta sequência que estou montando (no momento essas respostas me ajudariam sobremaneira), mas seguindo o mantra da Obra em Progresso…
******
Uma vez ouvi Caetano dizer que pensou, junto com Pedro Sá, antes do Cê, em fazer um disco meio anônimo, mas que seu lado leonino não deixou e eles acabaram fazendo o Cê. Fico pensando em “Todo errado”, em “Lobão tem razão”, em Caetano e Moreno cantando “Be kind to your parents”… E pra mim isso tudo por algum caminho soa meio lado B de um Caetano que faz do seu show um ritual todo marcado, todo solar. Jacques Morelembaun e Arto Lindsay falaram algo disso nas suas entrevistas. Ao mesmo tempo penso no samba como um lado B de um ritual religioso. E aí me dá vontade de saber: porque que Caetano escolheu o samba para ser o mote desta Obra em Progresso?
***********
Agora ouvi Moreno dizer na entrevista, que também é atitude de um leonino, se quisermos continuar nestes termos astrológicos, expor o processo inacabado. Ele conhece o pai dele melhor do que ninguém. Donde concluo que o lado B de um leonino é tão solar quanto o lado A. Eu, da minha parte, tenho consciência que este transamba que estou procurando no material filmado, de alguma maneira é transcaetano. Ele já está presente aqui e ali ao longo da carreira dele. Já esteve iluminado aqui e ali, por assim dizer. Mas agora ele resolveu nomear. Que situação ou situações levaram Caetano a querer fazer isto agora? Ainda não encontrei no material a resposta.
****************
Estou aqui vendo a entrevista de Ricardo e chego a mais uma conclusão. Transamba é um apelido, a elaboração de algo que surgiu naturalmente. Surgiu a partir da coincidência de gostos estéticos testados pelo tempo, pelos ensaios, pelas passagens de som, pelas turnês. Essa coincidência na concepção dos arranjos gerou o que se costuma chamar “soar como banda”. Essa maneira como a banda soou e os músicos começaram a querer que ela continuasse a soar a partir daí, gerou o transamba. Desde o momento primeiro de preparação, quando Caetano tomou a decisão de compor para esta banda. Será? É a procura deste tipo de material que estou indo atrás: a banda Cê elaborando o transamba. Conversei com Henrique Alqualo, que está trabalhando aqui comigo e ele diz que temos. Será que isto vai dar caldo?
**********************
Na entrevista de Arto Lindsay, ele situa o transamba entre o transa e um R&B contemporâneo feito por gente como Raphael Saadiq. Por este ponto de vista transamba seria “samba atravessado”, ou um samba que traz em si a sobreposição de vários sambas. Ao mesmo tempo, ouvindo as musicas novas nos shows, vejo citações nas letras de Guinga, Pedro Sá, Kassin, Francisco Alves, Seu Jorge, Los Hermanos. Cabe a pergunta: Transamba tem uma linhagem?”
VOLTA O HERMANO: Como dá para perceber vai ser também bacana acompanhar o progresso da edição também por aqui. Toda fez que Quito for encontrando as respostas ou novas perguntas, haverá novos posts no blog Obra em Progresso.
OBRA EM PROGRESSO ANUNCIA: As letras de “Lapa” e “Lobão tem razão” já estão publicadas em LETRAS. O set list do primeiro show do Casa Grande (realizado ontem, 19/08/2008) também já está publicado em SHOWS. Desta vez Marcelo Roselli, marido de Giovana Chanley (musa deste blog), teve papel fundamental. Mas não tirando fotografias, ou se aventurando nas ruas de Moscou ou Istambul. Foi ele quem descobriu a entrevista do JB com Lobão e mandou o texto para o Caetano. O jornal chegou no camarim momentos antes do início do show, mas acabou “costurando” seu roteiro, desencadeando novas situações provocantes (em vários níveis, e referentes a múltiplas discussões) de “stand-up comedy“. Tudo vai aparecer em vídeo e em breve por aqui.
PS: O set list do show de 20/08/2008 também já está publicado em SHOWS. Foram poucas as mudanças com relação ao show do dia anterior: Caetano não cantou La Mer, e no lugar de Todo Errado, ele e Jorge Mautner (com, é claro, a participação de Nelson Jacobina) cantaram O Vampiro, com a levada carimbó elétrico apresentada no primeiro show de Obra em Progresso do Vivo Rio.
AQUI FALA O HERMANO: Quem quiser pode conferir nos comentários de todos os post deste blog: o Tyrone está sempre presente. Foi aqui que eu o conheci virtualmente. Percebi logo que ele sabe tudo sobre todos os discos e shows do Caetano. É uma enciclopédia ambulante de conhecimentos transcaetânicos! Pois bem: encontrei com o Tyrone na porta do show de ontem: ele veio se apresentar e me disse só tinha ingresso para o show de hoje, mas mesmo assim foi para o Casa Grande, para tentar arrumar uma maneira de entrar. Conseguiu, não sei como: no final, lá estava o Tyrone no camarim. Não resisti e pedi para ele um relato da noite. O cara é rápido. Suas impressões já estão aqui. O blog vive seu momento de radical democracia: o povo dos comentários ocupa a sala de visitas da Obra em Progresso (rsrsrsrsrsrs):
“Penúltimo show da série Obra em Progresso: ao contrário do VivoRio, a acústica do OI CASA GRANDE é 100%. Mas como é um teatro, tem-se ali um ‘vibe’ de peça-de-teatro. Ou seja, as pessoas, de modo geral, se comportam ou tentam se comportar como público compenetrado de teatro - o que para a idéia do show foi certeiro.
Caetano abre com a totalmente inédita “Lobão tem razão”, claro que com uma certa ironia diante da canção feita em 2001 por Lobão, e dedicada ao Caetano. A canção de Lobão chama-se “Para o mano Caetano”, que por sua vez, é uma brincadeira com o título “Mano Caetano”, de Ben Jor, gravado pelo próprio junto com Bethânia em 1971, ou talvez com o “e hoje olha os mano” [trecho da letra de Rock'n'Raul] - música que Caetano fez em 2000 citando Raul Seixas, e que citava também o Lobão em “E o lobo bolo” [que já seria o Caetano mostrando que nem só de rock vive Lobão]. Caetano foi ao Programa de Jô Soares para lançar o disco “Noites do Norte” - que tem a tal “Rock’n'Raul”, e o convidado do programa era, além de Caetano, o Lobão! - não fazendo por menos, Caetano em voz e violão, tocou a canção para o Lobão, que a conheceu naquele momento.
Voltando ao show: do falado disco “Transa”, Caetano fez “You Don’t Know me”. Inevitavelmente rolou “Desde que o samba é samba” - com o arranjo do show Cê, que é já o embrião daquilo que a gente chama de “Transamba”. Uma das músicas que prendem a atenção do público é “Sem Cais”, feita em parceria com o guitarrista Pedro Sá. Já no VivoRio era uma canção que entrava rápido na cabeça-coração das pessoas, e bem aplaudida - essa música vai render muito!
Depois vieram as inéditas “Tarado ni você” (pode-se dizer que há ali uma conotação bissexual, em “todo mundo nu”, e o ato de observar esse todo mundo, estando também nu?!) e “Por quem”, canção que creio que em estúdio fará milagres, com sons que muita gente gosta de chamar de “lounge”. Caetano canta em falsete, e o Ricardo aparece bem aqui [mostre-se mais no show, Ricardo!]
Na década de 70 João Bosco e Aldir fizeram “Incompatibilidade de gênios” - Caetano desde o VivoRio canta essa canção, e a Banda Cê o acompanha num arranjo indie, mais apartamento, mas cara de casal menos careta, mais urbano.
Eu gosto mesmo é quando Caetano canta seu próprio repertório. Eu não tinha ido ao show do VivoRio no dia que ele fez a canção “Uns”, e sem eu esperar, teve “Uns” na primeira noite de Casa Grande. Adorei! Primeiro porque o disco de 1983 que tem o mesmo nome da canção é um dos melhores da carreira do Caetano. Segundo porque “Uns” tomou uma nova dimensão nesta “Obra em Progresso”, uma revigorada que eu não imaginava que a canção dava para tanto. Essa é pra ficar na turnê do disco - momento ‘beeshasejoga’.
Citei o LP de 83, e nele também há “Coisa mais linda”, do Carlos Lyra… Do momento do show ainda com a banda Cê rolou “Saudade fez um samba” - que só conheço pelo João Gilberto, de início de carreira - que é do Lyra e do Bôscoli. Caetano no show “Uns” no Canecão, segundo eu soube, já fazia elogios rasgados ao Carlos, e fez o ‘mesmo’ discurso no Leblon durante a “Obra”.
Depois vieram “Perdeu” e “Base de Guantánamo”. Duas inéditas super aplaudidas durante o show, e que já eram sucesso no VivoRio, e ainda serão mais comentadas quando o disco sair. “Base” tem a presença que o “Haiti” já tinha no show “Noites do Norte”, ou mesmo no show “Fina Estampa” - a pessoa adora e memoriza no momento em que é apresentada. Já em “Perdeu” Caetano faz uso de muitas palavras, e na cabeça do ouvinte que não conhece a letra passam-se figuras, cenas, meio clipe fotojornalistico.
Surpresa do show foi a desconhecida “Água”, do disco “Futurismo”, que saiu há pouco tempo, do Kassin+2. Caetano interpretou muito bem, e tem tudo a ver com a estética do show. Há uma passagem de “Água” que é simbólica: “eu juro que vou, e sei que vai passar o seu rancor, o sangue não se torna água”.
Outra inédita que teve presença impactante já no VivoRio é “Falso Leblon” - embora a letra enumere “ecstasy, bala, balada…” (na escrita seria “ecstasy [bala], balada” no sentido que bala é o apelido da substância), tudo parece se referir a uma mesma coisa. ‘Ecstasy’ já significa euforia… enfim.
No primeiro dia de VivoRio rolou “Três Travestis”, que a Zezé Motta gravou num compacto em 82. Ela disse a mim, no próprio Casa Grande, que fez um clipe com essa canção, creio que para o programa “Fantástico”, da TV Globo. Bom, Caetano repetiu o número mas sem a euforia [ecstasy, rs] da platéia do VivoRio - que ainda estava sob efeito de Ronaldinho na mídia pelo lance que aconteceu na Barra da Tijuca. Depois veio (no mesmo momento banquinho e violão) Vingança, do Lupicínio - que a Bethânia gravou bacana no disco “Memória da Pele”, em 89. Ah, o Caetano chega a falar sobre Lupicínio no VHS “Circuladô Vivo”, onde também faz um trechinho de “Vingança”. Por fim, uma homenagem ao Caymmi em “Você já foi à Bahia?”.
Volta a banda Cê. A inédita “Lapa” rolou depois, o arranjo é um dos melhores do show, e a letra tem citações de alguns lugares do bairro que é híbrido e boêmio.
Do disco “Cê” as empolgantes “Homem” e “Odeio” - sempre que a banda Cê faz essa canção é injetado um novo barulhinho, soando mais ‘pau dentro’ que no “Cê Multishow Ao Vivo”. Caetano gravou duas vezes em sua carreira “Nosso estranho amor”, as duas com voz e violão. Já na “Obra” a música surge num arranjo com banda, que é o momento mais participativo do público, depois de “O Leãozinho” (sempre cantada no bis com novo arranjo que lembra a gravação que o Dadi fez em 1992, do disco “Circuladô Vivo”. Teve um rapaz da poltrona do meu lado que manifestou sobre “Leãozinho”: “nossa, essa música é tão circo”.)
“A Cor Amarela” é uma homenagem à Axé Music, bem cara de festa e fim de show, e é a canção que pode tocar no rádio a nível de “Luz de Tieta”.
Com “Todo errado” e a dançante e debochada “Manjar de Reis”, Jorge Mautner e seu eterno companheiro Nelson Jacobina, subiram ao palco para finalizar com Caetano uma noite inesquecível, de menos participação do público e muito mais observação.”
Deixo para discutir restauração do Pelourinho e Imbassay mais tarde. Hoje e amanhã tem show da Obra em Progresso no Teatro Casa Grande. E depois junto-me a Roberto Carlos (”nós precisamos saber quem é que chamamos de rei”, eu disse dele, no show Circuladô, ao contar que ele escreveu “Debaixo dos caracóis dos seus cabelos” para mim, como uma reza para eu voltar do exílio, aonde fui mandado pela ditadura militar) - e junto-me a ele para cantar canções de Tom Jobim. Tenho de despender muita energia para me concentrar nas duas tarefas.
O Casa Grande era A Casa Grande, no meio dos anos 60, quando era ainda um lugar de MPB (com mesas, comida e bebida, mas pequeno e com ar de lugar de encontros, não uma cervejaria que virou Las Vegas, como o nosso também amado Canecão). Depois virou teatrinho. Vi muito teatro lá. E muitas vezes vi Bethânia, acho que fazendo “A Cena Muda”, no seu palco. Hoje, com grana da Oi mas com o mesmo grupo tocando o lance, é um teatrão, muito bem equipado e com uma acústica excelente. Fico emocionado de me apresentar lá.
Vou cantar duas músicas novas (”Lapa” e “Lobão tem razão”); vou cantar todas as outras que fiz para o novo CD e que já cantava no Vivo Rio do MAM; vou cantar Kassin; vou cantar Dé e Cazuza; vou cantar Lupicínio; vou cantar Carlos Lyra; vou cantar “Cê”; vou cantar Caymmi… Não estou preparado para mostrar um trabalho muito limpo e acabado como seria de se exigir para a gravação de um DVD: é ainda obra em progresso. O limpo e acabado fica para o CD de estúdio. Mas acho que estamos mais ajustados do que na fase pré-Europa. A Banda Cê me apaixona. Muitos sons celestiais pintaram no ensaio geral que acabou faz poucas horas. Estou cansado mas estou animado. Não dá para discutir ACM, Pelourinho e Imbassay hoje. No momento, a única afirmação político-partidária que devemos fazer é: VOTEMOS EM GABEIRA PARA PREFEITO.
Lembro da ameaça de derrubarem a balaustrada do Porto e fazerem o passeio avançar sobre a areia. Era no tempo de Imbassay. Nessa altura, falei diretamente com ele (não sem antes me associar aos protestos públicos) e ele me assegurou tratar-se um plano que ele próprio não aprovava e que não iria sair. E não saiu. Imbassay é civilizado e bom de diálogo. No caso atual, da remoção da calçada portuguesa, quando fui informado o estrago já estava feito. Mas, como eu disse, não creio em regressão agora. Soube que Ordep Serra (que escreveu um texto perfeito sobre o assunto) está organizando o que talvez venha a ser um seminário anual sobre preservação da beleza urbana de Salvador (luta contra sua destruição). Teremos uma comissão para acompanhar essas coisas. Tô dentro.
Caymmi escreveu o texto definitivo sobre sua própria morte (e que revela como era vivido por dentro o processo de fazer o que “não parece coisa feita por gente”): “Sargaço mar”. Trata-se de uma obra-prima tardia, em que aparecem as liberdades fulgurantes que ele tomava, sem fazer força, ao transitar entre harmonias impressionistas e crueza rude. Ouçam. De todo modo, aqui vai a letra:
Quando se for esse fim de som
Doida canção
Que não fui eu que fiz
Verde luz, verde cor de arrebentação
Sargaço mar, sargaço ar
Deusa do amor, deusa do mar
Vou me atirar, beber o mar
Alucinar, desesperar
Querer morrer para vier com Iemanjá.
Caymmi completou sua vida luminosa. Saí do ensaio das músicas de Jobim com Roberto Carlos e fui à Câmara Municipal ver a cara dele pela última vez. Beijei Nana. Rimos. Não pode haver um jingle turístico mais perfeito do que “Você já foi à Bahia?”. E nenhum seria assim puro de toda ansiedade comercial. É que não é para “turistas”. Não tem desprezo nem raiva dos turistas, mas é para quem quer que seja uma “nêga” que mereça ser chamada assim (claro que isso pode ser mulher ou homem: estou falando de algo essencial numa alma humana). Caymmi trouxe a coloquialidade mais natural para os versos e as notas das canções. A melodia inicial de “Você já foi à Bahia?” tem as interrogações no lugar certo, a vírgula no lugar certo, o ponto final no lugar certo. “Você já foi à Bahia, nêga, não? - então vá.” vem em frase melódica que canta a nossa fala natural. E segue assim, na entonação de “Quem vai ao Bonfim, minha nêga”, onde a vírgula entre “Bonfim” e “minha nêga” cai certinho, e esse “minha nêga” vem em notas mais baixas (e ainda descendentes), exatamente como quando alguém (sobretudo um baiano) fala. E a gradação virgulada de “muita sorte teve, muita sorte tem, muita sorte terá”, seguida da volta da pergunta inicial, agora com o ponto final mais definitivo, incidindo sobre a fundamental! E - depois do refrão “então vá” repetir-se ritmicamente seguindo a série “lá tem caruru”, “vatapá”, “mungunzá” - abre-se aquele largo das “sacadas dos sobrados da velha São Salvador…” que eu repeti quase todo (menos o último verso) em “Terra”. Há aí bandeira de que se trata de obra de extração popular, quase iletrada, nas inadeqüações prosódicas de “velha” (que, por força da melodia torna-se - ou tornar-se-ia - “velhá”) e de “tempo” (que vira “tempu” - ou, se você for gaúcho ou paranaense, “tempô”)? Há. É feio? Não. Fica pior quando se tenta “corrigir”? Nem assim. Não fica menos rica essa canção por alguém mudar um pouco a melodia para forçar uma adeqüação prosódica. Nem por alguém entregar-se à deformação popular dos paroxítonos em oxítonos. “Você já foi à Bahia?” é uma jóia perfeita. E, além de ser uma banalidade, é um retrato passadista da cidade. Mas será? Na verdade é um retrato atemporal, um retrato essencial, o retrato de algo que dura mais do que as mudanças que surgem e morrem em pouco tempo. Esse mundo (de aparência passadista mas referido a durações mais profundas - e de extrema naturalidade de dicção) reencontra-se nos sambas todos que Caymmi fez e cantou: “Lá vem a baiana”, “Requebre que eu dou um doce”, “A vizinha do lado”, “Vatapá”, “Vestido de bolero”, “Rosa morena”, tantos. Em todos - e muito claramente na parte repetitiva de “Você já foi à Bahia?” - a exposião consciente do parentesco entre o Brasil e Cuba, a Bahia e Cuba. Jorge Luis Borges, num texto em que lista a contribuição dos negros às culturas americanas - fato que ele credita ao padre Bartolomé de las Casas, por este ter sugerido, por pena dos índios, a importação de escravos africanos - , deplora a existência da “insuportável rumba ‘El Manicero‘”. Nesse texto, típica mas chocantemente, Borges nem sequer alude ao Brasil (imagine alguém escrever um texto sobre a contribuição dos negros na construção das nações americanas e nem citar o Brasil, o maior e mais miscigenado de todos os países da América, o que abriga a maior população negra fora do continente africano!). E justamente o samba que fez Caymmi famoso no Brasil - e o Brasil famoso no mundo, através de Carmen Miranda - é, em larga medida, uma variação sobre “El Manicero”: “O que é que a baiana tem?”. Eu credito à força da língua espanhola a visão desproporcionada de Borges. E Carmen adaptou-se a muitas submissões da música brasileira aos estilos cubanos, mais conhecidos dos norte-americanos (aliás, Exequiela, são poucos no Brasil que, poucas vezes, usam o termo “estadunidense”, e eu entendo: é feia essa palavra: o sumiço do plural de “estados” me causa desconforto, para só dizer o mínimo; e na verdade “americano” quer, no mais das vezes, dizer “relativo aos Estados Unidos da América”, que, indo mais longe do que no caso da África do Sul, é o único país cujos colonizadores não sentiram necessidade de nomear, tomando o nome do continente para si, como se dissessem: “América é onde chegamos, o resto é nada” - e é a partir disso que se comporta a língua ao redor desse conceito; acho natural e saudável que tentemos reagir a isso, mas “estadunidense” não é uma boa solução - nem “estados unidos” é propriamente um nome: o nome é América, “estados unidos” equivale a “república federativa” ou a qualquer outra designação genérica - e, de fato, o México é Estados Unidos do México e o Brasil foi, até pouco tempo, Estados Unidos do Brasil; quando aceitamos o equívoco termo “americano” como significando “dos Estados Unidos”, ou mesmo “norte-americano” (já que este se aplicaria igualmente ao México e ao Canadá), estamos apenas usando uma palavra pelo que ela mais freqüentemente significa: resistirmos a isso não mostra mais nossas forças do que nossas fraquezas). Mas “O que é que a baiana tem?” não ecoa submissão nem humilhação diante da América hispânica: transpira sabedoria no generoso reconhecimento de parentesco. Caymmi surge aqui muito mais alto do que Borges. Mas essa minha volta rebuscada e petulante não deve nos afastar de considerações menos discutíveis. Por exemplo: a combinação reveladora de sutilezas impressionistas com rudeza, tal como se ouve nas “canções praieiras”. A previsão da bossa nova no casamento do coloquialismo natural com a sofisticação composicional, como perceptível nos sambas-canções dos anos 40 e 50. A mescla de canto operístico com intimidade. A contribuição para a criação do autor-cantor (que em língua espanhola e italiana se chama de “cantautor”): Caymmi é o único que conheço que foi, ao mesmo tempo, o Gershwin e o Bing Crosby (ou Al Johlson), uma prefiguração do que seríamos os autores-cantores dos anos 60 em diante, Gilberto Gil, Bob Dylan, João Bosco… Há o caso dos bluesmen, como Robert Johnson, ou dos trovadores franceses, como George Brassens. Mas, sem entrar no mérito da qualidade artística intrínseca de nenhum deles, Caymmi foi algo que eles não foram: um autor como Cole Porter ou Ary Barroso, abrangente, variegado. E foi o que nem Barroso nem Porter puderam ser: o melhor intérprete de suas próprias canções, sobretudo quando sozinho com seu violão. E aquela voz de Caymmi, aquela voz de caverna (que seus três filhos herdaram), voz de caverna marítima, como aquela que, ecoando o ronco das ondas, soa como um rugido de leão, na costa da ilha de Fernando de Noronha, Gruta Azul. A voz de Caymmi é uma Gruta Azul com cantos napolitanos de barqueiros dentro, barqueiros que pensam que enganam os turistas. Caymmi era uma rocha e um anjo. Demasiado material, demasiado espiritual. Caymmi é um núcleo do Brasil. Caymmi será o Mundo. Quem disse melhor sobre suas canções foi Arnaldo Antunes: Não parece coisa feita por gente.
O prefeito de Salvador cometeu um crime ao substituir a calçada portuguesa do Porto da Barra por cimento e granito polido. Aliás, está cometendo. Obra em preogresso. Estamos em posição de apanhá-lo em flagrante e impedir o assassinato. O estilo cafona deve ser semelhante ao do que foi feito na Praça da Sé pelo governo municipal anterior. E o prefeito então era Imabssahy, que é, até segunda ordem, meu candidato para as eleições que vêm aí. Mas a Praça da Sé era, havia muito, um lugar destruído. Talvez tivesse sido desmoralizada quando se derrubou a Sé para facilitar o trânsito dos bondes, bem antes de eu nascer. O que ficou tinha se transformado num terminal de linhas de ônibus muito feio. A arrumação luzidia que Imbassahy admitiu que lhe dessem é vulgar e perua, mas sobressai a impressão de que alguém limpou a sala. Foi uma madame tola e inculta, mas cuidou. No Porto da Barra, pode ser que qualquer trato dê a impressão de ser melhor do que nada a algum comerciante austríaco que tenha um barzinho lá. Mas o Porto da Barra é um ponto nobre do urbanismo de Salvador. Precisa ser cuidado. Jamais desfigurado. A calçada portuguesa é tesouro nosso, de povos que falam português: são parte de nossa estrutura anímica. Em São Luís se mostrou que a recuperação de calçamentos com pedras portuguesas (que não precisam ser portuguesas, como o desvisado prefeito chegou a julgar) pode ser feito com firmeza e precisão. No Rossio, em Lisboa, também. Sei que em Copacabana (não na praia, claro, porque aí até a Dysney ia protestar) mas na Nossa Senhora) fez-se algo parecido. Resolveram atribuir ao tipo de calçamento os desconfortos que advêm de descuido e maus tratos. Rua com chão que parece shopping center também esburaca se não há cuidado. O Porto da Barra é uma enseada pequena e parece um anfiteatro perfeito para se ver o pôr do sol, ladeada pelos fortes de Santa Maria e de São Diogo. A balaustrada e as pedras portuguesas (ensombradas por árvores) complementam o equlíbrio estético de um lugar que é a praia do povo da Bahia. Um luxo cool e popular. Pois o prefeito está retirando as pedras portuguesas e já derrubou oito árvores! No dia em que morreu Dorival Caymmi, protesto (e conclamo baianos natos e opcionais a protestarem) contra essa ação estúpida. Vamos repor as pedras portuguesas.
Sim. “Outros viram“, essa peça rara de Gil com Mautner (Gil com Mautner parece o nome de um coquetel), Gil liqüefazendo a pedra de crença de Mautner na grandeza do Brasil. Veja só. Eu, que vivo por isso e para isso, estranho. Acho que eu sou estranho.
O Mundo Desde o Fim não foi enfrentado. Justamente não vale dizer que é uma regressão para antes da filosofia modernista (uso modernista aqui no sentido do modernismo artístico e literário) do século 20: Heidegger e Wittgenstein (sem falar nos marxismos com a adesão confusa apesar de obstinada de Sartre). É um golpe luminosamente lógico nesse suposto avanço. Mas sou de temperamento rebelde e revolucionário (embora descreia de quase todas as revoluções) e procuro no mundo os sinais das profecias de Gil/Mautner, das propostas (também proféticas) de Mangabeira e das possibilidades sombrias que as notícias trazem. Agora mesmo defenderia o fundamento ultracartesiano de Cicero contra os desconfiados da razão, do indivíduo, do sujeito, dos direitos universais e do absoluto. Mas estaria sempre em guarda com o risco de acharmos que já chegamos e que não vale buscar alternativas. Em suma, sou muito de esquerda. Estão me achando ultrapresunçoso, dizendo esses nomes assustadores e fingindo intimidade com a complicação do que pensam os portadores desses nomes? Ótimo. Desobedeço Hermano que me pediu para ser menos difícil.
Isso tem graça porque sinto certa tristeza por ter abandonado o tom e as palavras poucas e fortes, claras e diretas do Cê (o que me deu um trabalho imenso para atingir) e ter voltado em parte às idéias gerais, “grandes”, barrocas e às referências ao Brasil de composições pré-Cê. Diferentemente de um que escreveu aí, sou louco por Cê. E tenho a pretensão de ser capaz de seguir no mesmo caminho, se decidir fazê-lo. Mas acontece que não decido. Entrei nesse transe de samba e nessa nova transa de rock com samba que me apaixonou. O incrível é que a Banda Cê se mostra igualmente rápida na percepção desse lance quanto no das músicas de poucas palavras. O Ben Ratliff, crítico do New York Times, numa crítica do Cê, escreveu que ali estavam minhas melhores letras em décadas. Conversando com ele num boteco no Lower East Side, perguntei que onda era essa, desde quando ele entendia português para afirmar algo assim. Mas a verdade é que concordo com ele. Não sei julgar as letras novas (fiz tudo a partir da música, sobretudo das levadas de bateria), mas sei que são mais palavrosas, mais caetânicas num certo menos bom sentido, do que as do Cê. Mas há coisas que só apareceriam depois do Cê. Na verdade, tudo só apareceria como aparece por causa de termos feito o Cê antes. O modo como vêm os nomes de Lula e FH, sem comentários mas com grande riqueza de significado, na música Lapa (que vou apresentar no Casa Grande, junto com Lobão tem Razão e as outras nova todas - que com Diferentemente já são dez) só me surgiria com essa liberdade porque há Odeio e Homem e Rocks. Não me arrependo.
Hermano me chamou a atenção para o fato de que ninguém fez até agora o que estamos fazendo: exibindo um repertório novo em shows e na internet, antes de gravá-lo no estúdio, em riqueza de detalhes do seu desenvolvimento. Uma das forças do Cê foi o segredo sobre o que viria. Agora é o compartilhar com ouvintes obscenamente as intimidades da feitura. Quando o disco estiver pronto (espero que até outubro) os interessados já terão versões ao vivo, em etapas diferentes, das canções. E ainda essa minha falação indiscreta. Sou leonino falador.
Por que não falo da poesia de Cicero? Talvez porque ela seja mais forte do que a sua filosofia e eu não me sinta nunca à vontade para falar de poesia. Acabo de ler um romance da escritora portuguesa Inês Pedrosa em que o poema Guardar e citado na íntegra. E é mesmo fantástico. Cicero tem a luz dos clássicos mas jamais a dicção dos neo-clássicos: um poema “menor” de Drummond (sobre surfistas na praia, algo assim), relido por ele, mostra-se nada “menor” - e é exemplo magnífico de sensibilidade clássica (quer dizer grega, romana, pagã). Mas Cicero é um anti-Ricardo Reis. O poema O Não, de Eucanaã Ferraz, me fez chorar quando li pela primeira vez - e me fez chorar quando li pelas vezes seguintes (foram várias primeiras vezes). Eucanaã - com tudo que guarda de atenção ao rigor de Cabral - tem uma dimensão romântica, uma descendência romântica, que Cicero não tem. Não entendo nada de poesia: só falo desses dois porque são meus amigos e seus poemas chegam a minhas mãos com facilidade.